2013/07/30

O cético

Não importava seu nome, origem ou objetivo. O que importa é que mesmo após o ocorrido ele continuava não acreditando em destino. Obra do acaso era apenas um grupo de coisas que aconteciam e geravam a ilusão de que havia alguma relação direta entre os fatos. Coincidências do destino, pra ser exato.
As coisas simplesmente aconteciam. Ele acreditava na inexistência de uma razão espiritual para que as coisas ocorressem. “Nossos destinos foram traçados para permanecermos juntos”, o escambau. As pessoas se encontravam, separavam-se e/ou se reencontravam porque sim, não existia “alguém” que fez com que aquilo acontecesse. Não, não “estava escrito”.
Porém, fato era que o fato o marcou e quase o instigou a acreditar que as "armações do destino" eram reais.

Acabara de entrar na Estação Central e logo se encostou para continuar a leitura do livro que ganhara de sua amiga na semana passada. Basicamente, a história era sobre um jovem que cruzou com uma moça num bonde e a lembrança desse encontro o acompanhou por muito tempo até reencontra-la em um restaurante qualquer. O próprio protagonista do livro assumia que era bastante racional. O leitor seguia o princípio de que magia não existia. Apesar de ter uma mente muito imaginativa, eram coisas diferentes.

Saindo do livro, voltando uns dois meses na realidade, naquela mesma estação-tubo, não exatamente no mesmo horário. O rapaz percebera uma guria  baixinha de cabelos ruivos (um laranja cobre artificial) acompanhada de um rapaz aparentando ser seu namorado. Aí eles se beijaram e o nosso rapaz logo abandonou o possível flerte. O ônibus veio, ele ficou entre as portas três e quatro, percebendo que o casal se alocara próximo a porta dois. Horário de pico, tudo lotado. Ele mal conseguia enxergar a moça, que possuía um olho meio verde meio mel bastante chamativo. Ele sabia que a pequena não era possível, mas isso não o proibira de se encantar. O ônibus balançava, as pessoas se agitavam e ele se contorcia todo pra tentar enxergar a moça. Tanto que numa dessas, seus olhares se cruzaram e ela soltou um sorriso que quebrou as pernas do rapaz. Os olhares se conectaram e permaneceram assim. O sorriso da guria mirava todo cheio de beleza o moço. E ele incrédulo desviou o olhar, disfarçou, retornou e a moça continuava sorrindo para ele.

De volta a hoje, o personagem do livro estava a procura da moça, tanto que a reencontrou. O leitor se contentou e sorriu para a cena que acabara de ler. Com o canto de olho, percebeu pessoas passando ao seu lado. Olhou para ver quem era. Ele sempre olhava. Eis que a moça ruiva do sorriso distante estava ali sozinha a cerca de três metros dele olhando para a rua. Ele voltou o olhar ao livro e explodiu internamente. Assustara-se com a grande coincidência. Enquanto o protagonista do livro reencontrava uma mulher encantadora, ele reencontrara outra. Fascinado, continuou a leitura atento aos movimentos da moça. Começou a engolir as palavras rapidamente a fim de que acontecessem as mesmas coisas tanto na ficção quanto em sua vida. E aconteceu: ambas partiram.

Não ficou encantado pela grande coincidência do reencontro ou pelo “a vida imita a arte ou a arte imita a vida?”. A ilusão das "obras do acaso" ainda inexistia. A razão de seu fascínio era que ocorrera consigo um fato semelhante num livro que lhe agradava.

As duas histórias ainda não estavam encerradas.

2013/07/20

Praça das ilusões

Descia a rua de rua casa com a mente focada em tirar seus sapatos, fazer seu macarrão e assistir qualquer filme. Parecia um cavalo selado seguindo as instruções do condutor. Porém, não conseguia desviar da tradição de cortar pela Praça pra ver se encontrava algum dos cachorros que costumavam perambular por lá. Possuía uma ansiedade de olhar para todos que passeavam ou repousavam por lá, vai que encontrava alguém conhecido ou alguma alma interessante. Quase ao fim do atalho, olhou para trás da grande casa que havia lá e percebeu um casal deitado. Olhou para os dois, percebeu que a moça o observava, ignorou, olhou para frente, surgiu-lhe um calafrio, retornou seu olhar para eles e viu quem ela era. Acordou assustado, suado e indignado. Sonhara novamente com aquela garota. Segundo sonho em duas noites seguidas.

Ele chegou a desejá-la por um tempo devido a grande compatibilidade de interesses, mas um romance era inviável. Cada um possuía seus motivos para não se afundarem um no outro ou nunca tiveram coragem para debater tal possibilidade. O negócio foi que ele conseguia esquecer essa novela. Mas ela era um fantasma, aparecia constantemente em sua rotina sem ser convidada. Uma intrusa que lhe roubava a atenção e invadia seus pensamentos. Ele insistia em lutar contra isso, contra ela, contra os pensamentos. Felizmente, quando ela sumia, era por bastante tempo.

Estava num restaurante, sentado com três amigas numa das mesas externas do recinto. Antes de as encontrar, matou tempo na livraria que ficava do outro lado do calçadão onde ficava o restaurante. Conseguiu controlar seu vício e saiu da loja sem livros ou dvds. Nenhuma delas havia chegado ao encontro, todas atrasadas. Então se sentou no banco em frente a livraria e esperou. Chegaram e foram ao restaurante.
Enquanto uma das amigas fora ao banheiro, ele divagava sobre o efeito que determinado filme exercia sobre ele:
- Não sei, ao mesmo tempo que esse filme me fascina, ele me assusta muito... - Expressava-se com olhares aleatórios para a rua - E nem é um filme de terror. Assisti várias vezes já e sempre fico atordoado... - Até que mirou seu olhar ao banco onde se sentara anteriormente.
Exatamente no mesmo lugar onde ficou, estava a tal moça dos sonhos. Interrompeu sua fala, ficou mudo, mas logo a amiga retornou e os puxou a outro assunto.
O olhar do rapaz se prendia à moça, que, obviamente, estava acompanhada de seu namorado.
Ele já nem ouvia mais o que suas amigas diziam. Ficava figurando coisas. Imaginando. Pensou em chegar no banco onde os dois estavam, falar "ô, rapaz, dá licença, vai embora" e ficar ali sentado com a moça.

Era maior que ele, obrigava-o a se afundar num desejo indesejado, mas ele sorria.

2013/07/15

The sick mind

As coisas só eram ruins na sua cabeça. As coisas só aconteciam em sua mente.
Fora dela, ele era um bom moço na sociedade. Dentro da lei, caridoso, benevolente.
Dentro dela, psicopata, serial killer, repugnante.

Havia um cara sentado em seu banco de sempre, onde se sentava todos os dias. Aquele lugar lhe posicionava num espírito de superioridade aos outros passageiros. Porém, tinha um babaca sentado lá roubando seu trono.
Parou em frente ao senhor, esperou que ele percebesse sua presença. Agarrou o intruso pelo pescoço e bateu repetidas vezes a cabeça dele num ferro ao lado do banco. Até que o cara não conseguisse mais urrar de dor, até que o cara não conseguisse mais respirar, ele continuou. Jogou o corpo no corredor do ônibus, que logo tombou à escada. Andou ao peso morto, rasgou um pedaço da camiseta e o usou para retirar os respingos de sangue que repousaram sobre o seu prezado banco.
Encarnou uma pose de poder como se fosse o Tony Montana em seu escritório. Então ficou ali emburrado encarando a vida passar pelas ruas da cidade amanhecida.

Na verdade, ele apenas se sentou num outro banco.

2013/07/08

Kill the poet

Seus horários de fim de expediente não coincidiam. Ficou matando tempo por uma hora num sebo próximo ao trabalho dela. Quinze minutos antes, sentou-se na esquina a fim de esperá-la. Ela não imaginava encontrá-lo após o serviço. Ele já tinha alinhado toda uma estratégia para acompanhar a moça. Moravam no mesmo bairro.

Sentaram-se no sofá. Ela já sabia o que aconteceria, mas quis esperar pela ação dele. Havia a coincidência de que eram dois tímidos ansiosos. Por mais que desejassem algo ou alguém, temiam arriscar-se.

Não era uma agressividade doentia ou imoral. Era apenas uma ansiedade que o dominava. Como se fosse outro ser, como se alguém o manipulasse. Ela se entretinha com isso e não desejava ter-se por satisfeita. Queriam mais.

Suados, sobre a cama, incrédulos e exaustos. "Se dupla personalidade existe, esse rapaz é um anjo e um demônio", ela repetia para si mesma. 
- Mas você não era assim, você parecia ser tímido... "Cavalheiro", sei lá... O que mudou?
- Você me conheceu quando eu já tinha fama besta de ser um dos últimos românticos vivos, só que eu abandonei há muito tempo. Apenas vivia nesse estereótipo porque gostava de ser reconhecido assim. Além do mais, não conseguia fugir disso. Não conseguia fugir de mim mesmo.
Enquanto ela lhe resgatava toda sua bondade, ele mordia seus próprios lábios e mastigava o remoroso de ter assassinado sua essência. Até que enfim disse:
I'm killing that poet before he kills me first.
- Oi? De quem é isso?
- Ah, ninguém... - tentou dizer algo que na sua mente fez sentido, mas ao repensar, desistiu. - É que tem coisa que fica mais bonita em outro idioma. Pelo menos, na minha cabeça.
A moça apenas sentou-se na cama e afagou as costas dele, que deu uma puxada de ar um tanto ofegante, num misto de choro contido com desespero e raiva. Era como se quisesse reabsorver o que abandonara apenas pela inspiração. Ela não dizia mais nada, apenas passava a mão nas costas dele.

Ele não queria repetir a dose daquela moça. Ele não queria repetir o "erro" de entrar num "relacionamento sério". Ele queria evitar amar para não repetir a dor de um coração partido. Mas essa moça lhe ressuscitara o desejo de pertencer a alguém. Sentiu-se livre para desabar nos braços dela. Ela era forte. Se não forte; ao menos, tinha disposição para aguentar a fragilidade dele.
Porém, ele preferiu manter seu orgulho e negar as alegrias para continuar alimentando seu lado sombrio, que se afundava em qualquer esquina, em qualquer cintura. Cansara-se de amores, era menos doído esconder sua verdadeira personalidade.

Esquecera a moça que o acolheu. Porém, a moça nunca o esqueceu e passeava constantemente com a boa imagem que o moço expressava: Bondade (que se suicidara afogada em mágoas).
No final, essa bondade retida maquiada de maldade não passava de egoísmo e medo.