2017/01/07

Rápido

Quando há visceralidade emocional no afeto físico, tudo piora, pois se somente os laços intangíveis do platonismo, nada aperta, nada rasga, nada corta. A negatividade de determinada situação se fortalece por inviabilidade de toque, tato, pleonasmos físicos, seja por bad timing-and-placing ou divergências astrais, não há critérios suficientes nesta narrativa para apurar a absoluta razão para o inconclusivo fim de duas pessoas. Inconclusivamente sem desfecho devido a ausência de um diálogo final devido a continuidade de contato devido a gama de interesses em comum devido ao desentendimento devido a tudo.
Se pensasse em dizer que se sentia um homem melhor a seu lado, mentalizava a cena e se via chorando, porque assumir tal mudança seria um ato tão difícil para quem tão problemático para se expressar clara e sinceramente que romperia as barragens lacrimais depois de alguns segundos, ou minutos, contendo-se para abrir o peito com a escandalosa verdade. Vazaria, explodiria, e pensava que ela era digna da causa de tudo isso: a vontade. De fato, o pessimismo se esvai diante de tudo que a compõe, o sorriso largo ora fechado ora irradiante, os traços tanto naturais quanto os tatuados, a bem-aventurada liberdade, a desavergonhada sinceridade, a admirável curiosidade, a disfarçada reciprocidade… Tudo (agora lembranças impraticáveis) é capaz de encher o peito com lâminas enferrujadas pelo remorso do que não devia ter sido dito ou feito ou sentido ou nada faz sentido quando a mente escapa e flui e não quer encontrar justificativa concreta para o distanciamento e só encontra a dor cínica causada pela possibilidade inicialmente abraçada com receios, sem tanta dedicação, mas então envolvida com todas as forças que agora precisou ser abandonada no meio da correnteza, talvez pelo intenso aperto com cara de obsessão. "Eu não sei nadar”, disse ele, “deixa de ser pessimista”, disse ela, “nada mais profundo que um mergulho no seu corpo”, diria ele (mesmo que desconexo ao diálogo, lembrando-se daquele domingo) se naquele momento se lembrasse perfeitamente da frase pixada em um poste a poucas quadras de onde se conheceram. Quando recordou do que deveria ter dito, não era a única coisa obviamente, envolveu-se novamente pela saudade, que era inversamente proporcional ao tempo de início dessa história, julgava-se incapaz de se apegar tanto a alguém em pouco mais de um mês, mas então seu pensamento jogava uma carta escondida, há mais tempo do que a previsível colisão ocorrera havia o condicionamento emocional para poder sentir calorosa e intensamente mais uma vez depois de outrora destroçado por outros amores, reconstruiu-se quando o determinado encontro aconteceu e, de tanto entender ao longo dos dias a possibilidade de algo maior, aceitou que ela contribuísse de toda e qualquer maneira em sua reconstrução, abriu a porta das obras, mas ela não entrou.
Não havia nada mais convincente do que se permitir sentir tanto a ponto de se tornar visível para quem o sentimento era devido, mas, neste caso, ainda era insuficiente.
Escancarou a porta e não se importou em arrumar a bagunça antes que o alguém esperado entrasse, contudo a desordem, quando excessiva, não merecia ordem.
Os fios da história e dos sentimentos, ambos entrelaçados, perdem-se e arrebentam, restando o que se conseguiu reunir do emaranhado arruinado de tudo que se conseguiu recuperar dessa confusão.
Até que se aceite que não há mais qualquer afeto cultivável, resta o constante e inevitável apodrecimento das emoções que em algum momento do passado foram consideradas em um diálogo franco o futuro adequado.

2016/12/29

Zero


Grita comigo para que meus defeitos se assustem, deixem-nos em paz e saiam pela janela, que está aberta, e que o vento entre, deslize pela cama amaciando a tua pele que meus dedos magnetizados não conseguem deixar de acariciar. O afeto se desmancha quando me permito ser a minha pior parte na tua frente e sei que tem vontade de ir para nunca mais voltar, melhor dizendo, você deve ter vontade de me expulsar da tua casa, gritar da janela um discurso que acorde toda a vizinhança que não mais me permitiria entrar na tua casa, sequer pisar na tua rua novamente, jogar minhas roupas na rua e me deixar queimar no calor de dezembro. Tua raiva contida causa a miragem de que está tudo bem por enquanto, mas sei que não está, despropositalmente deixo vestígios do que não quero mais ser, sem que eu perceba a maquiagem escorre e você consegue enxergar meu antigo personagem, aquele que tentei assassinar repetidas vezes, mas insiste em se expor quando estou vulnerável. Seja minha cúmplice ou mate o antigo eu por conta própria, assumo a responsabilidade de levar a culpa e de encontrar um novo eu - ao teu lado.
Que seja um caso de um mês ou dois (ou vários, assim desejaria), mas não mereces ter o meu pior nem ouvir de mim as palavras mais cinicamente corrosivas, nem você nem ninguém. Que o pior que você possa ver de mim sejam minhas crises alérgicas abraçando seu família felina ou minhas mordidas ansiosas em minhas próprias mãos ou minhas bebedeiras colossalmente vexaminosas que resultam em machucados de origem imemorável e diálogos em outros idiomas sem nexo algum. Que ainda haja em você um tanto de insistência nisso que temos e vivemos, seja lá o que for, ah, eu gostaria, apesar de meus tropeços. Que você grite comigo tudo o que quiser, grite também para o mundo tuas vontades. Que os teus escândalos sejam a fonte da mudança.

2016/12/06

Ressaca de novo

Anestesiado pela presença dela ali, no apartamento há tanto tempo assombrado pelos fantasmas da ausência e da solidão, contente com o novo episódio que escreviam ali, em uma madrugada alguns anos depois da primeira colisão de rotas ("há quanto tempo a gente se conhece, dois anos, três?", ela perguntara, "quatro, teoricamente", ele retrucou - porém devia ter dito que a cronologia considerada partia apenas de sua perspectiva, excluindo a dela, que era um tanto mais recente, ele deveria ter dito, não apenas isso -, completando com um trecho da música de abertura, digamos, do que pretendia ser o filme mais extenso que conseguiriam imaginar serem capazes de protagonizar, "I remember it well", mesmo que, de fato, a canção era apenas uma regalia dos primeiros dias, não traduzia sinceramente para uma linguagem musical, somente instrumental que fosse, o que viveram), ela estava em sua casa, e alucinado pelo cansaço e o sono que deixavam a gravidade ainda mais influente, focava o que restava de sua força para com seus dedos percorrer o curto e magnético caminho dos dedos dela. Cada centímetro, desde a base das unhas, passando pelas pontas curtas, às impressões digitais. Entorpecido, tentava decifrar os relevos de seus dedos na tentativa de conhecer o que ainda desconhecia dela, o que era muito. Buscava decifrar sua biometria para entender o código criptografado de suas vontades. O peso do cansaço realmente deixava sua mente e seu corpo deslizarem em fluxos de delírios desconexos. 
Naquele momento, o tempo parecia não fluir, a noite que lentamente se camuflava de dia, o frio era teimosamente ignorado, não pelos corações flamejantes tão próximos, apesar de separados pelos braços das duas poltronas, cada um envolvia-se num cobertor diferente, de que deixavam escapar somente as mãos quentes e um tanto trêmulas, fosse por frio, nervosismo ou alguma sensação que representasse o que alguém ansioso e incrédulo sobre a realização de um capítulo igual aquele em que duas pessoas, depois de tantas corridas, repousavam enfim juntas, mesmo que houvesse a possibilidade real de isso não se repetir; e os rostos, iluminados pelos olhares alheios, radiantes, o que os impediu de fechar os olhos por bastante tempo.
Quando suas mãos se cansaram contra sua vontade, aproximou-se ainda mais dela, afundou-se em seus cabelos, cada fio era uma enxurrada, queria se afogar ali, tão delirante estava que se esquecia de respirar. Cada inspiração pretendia absorver uma parte do que criavam juntos para que as memórias invadissem seus pulmões e dali se alastrassem pelo resto do corpo, da sala, da cidade, da vida.

- Você precisa dormir, o cobertor ainda tá quente, vai - disse ela, com seu fechado sorriso tranquilizante, aparentava temer deixar escapar a intensidade de seu sorriso aberto e explodir, desaparecer na luz, mas ele aceitaria, impulsivamente, fragmentar-se a partir de uma explosão solar dela. “Que ridículo eu sou”, pensava sozinho após considerar o que faria ou não por ela, em que metáforas se transformaria para continuar em sua órbita. 
Pegou o cobertor abandonado na poltrona onde ela deitara, percebeu que seu cheiro permanecia ali, e deitou-se, agora em sua cama, mas não pode dormir o quanto queria ou precisava, sua rotina fluía apressada e a luz matinal inundava todo o apartamento. À noite, quando voltou para seu apartamento, depois do trabalho, agora acompanhado apenas das sombras da memória, o aroma se dissipara. Afirmou para si mesmo que o cobertor voltaria a abriga-la, apesar de não ter certeza disso, que seu cheiro voltaria a se prender às peças de cama daquele lugar - ou qualquer peça de qualquer lugar que os abrigasse - futuramente - suplicava às curvas do tempo para que aquela madrugada se repetisse, que se tornasse rotina, mas não do tipo que corrói os relacionamentos. Esta palavra o amedrontava,  gancho para o que queria esquecer fisgava sua pele, doía. Conseguia rapidamente se desvencilhar do passado e retornava ao recanto das memórias doces que cultivava por ela. Entristeceu-se consideravelmente por se lembrar do que lembrava, mas sua mente recordara da canção que repetira tantas vezes nos agora tantos anos que estavam em desencontro constante: "Not now, maybe later". Talvez. Permitia-se massacrar pela crença em um bad timing como método para dormir melhor, sem ser atormentado pelo pressentimento de que nunca teriam uma chance, a chance de viverem juntos de uma vez por todas.
Não demorou para que seu pessimismo arrombasse a porta da casa, de sua cabeça, como em outras vezes naqueles anos, trazendo boatos de que ela teria passado aquela madrugada com ele enquanto esperava algo ou alguém - quem ou o que quer que fosse -, que ela não gostasse tanto dele quanto ele imaginava, que ele não passava de uma distração, que ele era uma ilusão, que ele daria motivos para uma fuga no próximo - incerto - encontro ou em algum momento no futuro - também incerto - juntos. Fato era que a onda de otimismo sempre vinha trazendo tudo o que queria e se arrastava para longe depois de algum tempo, deixando o solo seco e propício aos piores pensamentos. 
Os dias se alongavam e as lembranças emergiam. Em um momento aleatório, insignificante, passou a mão em seu próprio cabelo e recordou do momento em que ela fez o mesmo, o melhor afago que seus curtos e crespos fios já receberam em muitos anos. Não exagerava ao afirmar que qualquer ato dela, apesar de exagerar na importância deles, mais objetivos do que qualquer palavra, eram de significância enorme para ele. 
Ignorou durante um ou dois dias depois do encontro que tiveram, o mais marcante até ali definitivamente, a questão de que não dependia apenas dele ou da relevância da madrugada que passaram juntos encarando o escuro e deixando-se levar pelas mãos alheias, podia ter sido nada demais, nada de menos, ou tudo. O conforto do silêncio à dois emudecia o que queriam dizer um ao outro. Tinha consciência que qualquer gesto seu posterior àquela ocasião poderia ser praticado ou entendido como cinismo, a união de algumas palavras quiçá soassem como apelativas. Não queria gritar suplícios desesperados, não queria gritar de maneira alguma, e passou dias tentando encontrar um meio de não ser o homem que ela não queria (cínico, chantagista, carente etc), porém não sabia o que ela queria, nem mesmo se queria.

2016/11/16

Motivo nenhum é motivo suficiente

"And when it had all gone down slowly the hole in the basin had made a sound like that: suck. Only louder.”
A Portrait of the Artist as a Young Man, James Joyce

Terminou de ler mais um parágrafo, direcionou seus olhos para o chão, e sentiu não a náusea, afinal não era Antoine Roquentin, mas um ruído ligeiro, um tremor, um zumbido se aproximando, uma onda, um enxame, como se vindo do subsolo do shopping, como se estivesse subindo, aproximando-se cada vez mais, como se correndo nas escadas rolantes, pronto para destruir a construção e a vida das pessoas que ali trabalhavam, compravam, comiam, passeavam, seria o fim - se o desastre fosse real. Real. Não era. Na verdade, era, mas apenas na mente daquele que abandonou o livro sobre a mesa, desistiu de ler para se concentrar no que emergia dentro de si, talvez controlar isso tudo, mas sabia não ser capaz.
O tremor em sua mente nenhuma relação tinha com o que lia, a leitura não pressionou o gatilho, nem mesmo Roquentin ou qualquer um de seus camaradas literários. O que fez emergir (mais um)a onda foi algo que lhe aconteceu cedo naquele dia, quando abriu os olhos naquela quinta-feira e disse silenciosamente: "merda", e percebeu ter acordado mais uma vez.
Há tempos não passava por isso, em público então nem se lembrava da última ocasião. Desacostumou-se a ponto de considerar a dor nova. "Isso não é doença, é frescura!", como diriam aquelas pessoas normais, sem problemas, maduras o suficiente para não serem acometidas por transtornos como aquele. Era como se uma superfície gélida fosse invadida por um calor inquietante, rachando o gelo, que então corta a pele e deixa entrar todos os ruídos do mundo, ainda que não se consiga ouvir nada, pois a mente entra em um estado sinestésico onde não consegue identificar dissonância alguma. As palavras se enrolavam, não se entendiam, nada compreendia.
Não registrou quanto tempo durou, pode ter durado dez segundos ou longos dez minutos, mas cada segundo lhe roubou o ar que teoricamente devia correr até seus pulmões. A velha sensação de que seu toráx diminuía a cada respiração. Hiperventilava, sua mente se arrastava em um chão áspero para tentar retomar o controle.
Ninguém - tanto ali quanto em qualquer lugar - oferecia ajuda, afinal ninguém enxergava o que estava acontecendo, também porque, naquele momento, sua voz correra para longe.

2016/08/24

Auxese, Axioma, Exegese ou Don't love the ...

Pela septuagésima oitava vez, chego a uma conclusão diferente, cada uma por um caminho diferente, e ainda assim me nego a entender a verdade - "isso não pode acontecer comigo, é demais" -, desespero-me, é assustador, absurdo, acreditar. Talvez seja melhor crer na alucinação, que isso tudo é irreal, surreal, que nada existe. De tanto o sol passar sobre nossas cabeças, começamos a acreditar que nos cruzaríamos sempre, o astro e a Terra, e alguém levou ainda mais a sério e descobriu que girávamos a seu redor. Não existe metáfora nisso, já adianto, não é meu Sol, apesar de queimar minha paciência a lentidão da conclusão dessa jornada, mas não é você que a queima, ou, já que se fala de astronomia, a demora para a chegada do novo ano, o novo ciclo.
Não queria que tudo se repetisse, mesmo que parte de nossa rotina - our very own - ser o que me instiga a permanecer. Permanecer, ponto.
É como se estivesse em um elevador que sobe e desce, mas sempre para no mesmo andar, e toca a mesma música, um tanto sinestésica, as ondas sonoras são cores, a cor do seu cabelo, a cor dos seus olhos, a cor das suas cicatrizes, dançam ao meu redor e me envolvem, me abraçam, fundem-se às minhas cores, às minhas dores. Quando escolho subir ou descer escadas, os ambientes se tornam cinzentos e a ausência das suas cores tangíveis deixam fendas herméticas, onde não circula sangue nem ar, há abstinência de sentir-te me invadindo as entranhas, causando espasmos, mãos trêmulas, estas ausências me machucam, não fisicamente, obviamente, mas incomodam.
Queria sair de mim, ao atingir o auge ainda inalcançado deste romance, para jogar sobre nós gasolina, acender um fósforo e ver-nos queimar como a mais bela fogueira que poderíamos ver, mas desisto da intenção ao perceber a pretensão que há em dizer que ainda não alcançamos o ponto mais alto de nossa história, pois, é importante sermos realistas, podemos ter passado pelo pico tão rapidamente e nem percebido por estarmos distraídos demais com os nossos silêncios, ou distantes.
Falo de mim por não ter a chave para o teu cofre de sentimentos, não li seus diários mentais nem sei se pretendo lê-los, sei da existência de trechos perturbadores dos seus pensamentos, sei que os tem, assim como tenho os meus, mas leria todo e qualquer capítulo que quisesse me mostrar, decoraria todas as estrofes dos poemas que contribuíssem para adiar qualquer mal dos teus dias, escreveria em nossos lençóis, por mais piegas que isso seja, e, sim, nossos lençóis, porque ainda acredito na possibilidade de um dia compartilharmos um ninho, cultivarmos um bonsai e segurarmos um mesmo teto, com um de seus batons um lembrete de tudo o que somos, a fim de reduzir o impacto quando atingidos por uma daquelas fases, você sabe, que a única vontade pura é permanecer em posição horizontal, observando o escuro ser tomado pelo sol que atravessa a cortina quase translúcida que tanto prometemos trocar por uma black-out que vimos em alguma loja de algum shopping durante mais uma de nossas perambulações fugindo de uma ou duas crises ansiosas, elas existiriam de vez em sempre.
Se somos o que sentimos, então somos o exagero. Somos a representação do que se entende por hipérbole romântica, afinal não vivemos o que sentimos, apenas sentimos.