2014/10/07

Aquele jogo de cartas

- E como vai a…? - questionou, querendo saber o que ocorrera no último mês, período sabe se lá porque em que se distanciaram.
Suspirou um “haha” engasgado:
- É… Ela… Também queria saber como ela está, mas… A gente, ha… Uma bagunça! Tudo… - respondeu, gesticulando confusão. Sabia que era a vez de seu monólogo, portanto não se apressou em tentar traduzir para uma linguagem que a amiga compreendesse sobre o que acontecia com…: Eu não sei mais. Pra mim, tava tudo bem, mas aí ela… Quer dizer, eu também sou assim, de criar furacões a partir do nada, mas aparentemente não havia indícios de ventania… Depois que a gente  um mês sem se falar e então se entendeu, pelo menos achei que tínhamos nos acertado enfim, ela tinha pedido uma coi… Duas coisas. Que não queria acordos, ok, de acordo, e que eu precisaria ter paciência.
- Como se você não tivesse muita! Essa guria…
- Ô, nem venha com esses teus ataques de ciúme.
- Que ciúme, o que, tá loco? Quero mais é que ela se foda... com você, claro, se se entenderem de vez.
- Eu sei que você não é muito chegada na… Mas…
- Mas nada, meu, essa guria só te estraga, só te faz mal.
- Como se eu - apontando os dedos indicadores para si mesmo como se fossem flechas de neon - eu! fosse a melhor pessoa, a mais boazinha entre todas as boas pessoas no Fórum Internacional da Bondade.
- Tá, mas o que você fez de mal pra ela então?
- Tirando o fato de ter surgido no caminho dela e insistido que deveria continuar existindo em sua vida? Acho que, além disso, o que eu fiz de merda foi exigir pela presença dela. Eu não exigi muito, poxa, ela sabe, everybody knows, "no one knows" "everybody hurts", que gosto de desaparecer por um tempo, então não posso exigir presença contínua dela nem de ninguém. Eu quero sumir. Também quero que ela suma. Mas não em definitivo, sabe? Não de um jeito que machuque. Não que eu esteja em pedaços agora, mas, se continuar assim, não demora muito pra…
- Esse é o problema, essas pequenas magoazinhas acumuladas. Cê sabe que você explode uma hora e ninguém te quer por perto desse jeito, acho que nem ela ia querer.
- Pelo que sei, ela é tão perturbada quanto eu, mas do jeito dela.
- O que cê pretende fazer?
- Sei que se ela quiser continuar emprestando livros na faculdade, vai precisar de mim. Mas não quero obrigar, fazer com que ela precise de mim, sabe? Apelar, não. Apenas queria que... Eu também, não tenho jeito… Desde… Sabia que seria problema, uma desgraça única, mas antes insistia em não enxergar e tentar mudar. Agora eu sei, agora vejo bem aqui na minha cara: eu + ela = nós = problema.
- Esse joguinho de vocês, não consigo entender.
- Nem tente, sentei na mesa pra jogar sem ler o manual, ninguém me passou as regras. Acho que não tem vencedor no final.

2014/10/06

Porcelana: Pressa/Fadado ao sonho

Começou a correr, fugindo, e logo o rapaz foi atrás, tentando alcançá-la, mas as pernas da moça queimava um combustível potentíssimo - traumas. Antes do primeiro cruzamento, ela parou, esperou que ele a alcançasse. Ofegante e com algumas lágrimas deslizando em seu rosto, enquanto o moço repousava as costas num poste, ela disse, encarando o chão, "I've never loved", agarrou as duas mãos dele com ansiedade, deu-lhe um beijo, repleto de vontade, movimentos e intensidade, desvincilhou-se daquele corpo quente e correu novamente. Virou à esquerda. Assim que ele repetiu o movimento, que mal conseguira normalizar a respiração durante a recente parada, trombou com uma senhora cheia de sacolas e um garoto andando com muletas. Uma bela tragédia, envolver-se em um acidente com vulneráveis e ver a melhor pessoa que conheceu nos últimos 24 anos se distanciando. Correndo, fugindo, ao mesmo tempo em que chorava, não olhou pra trás.
Ajudou o menino a se levantar, recolheu as sacolas e pediu quinhentas dúzias de desculpas. A mulher já tinha sumido, ele acelerou o passo, mas desistiu de encontrá-la ao chegar no primeiro cruzamento, por não enxergar rastro algum dela. Sentou-se no meio fio e ficou ali, pensando no que fazer, em como encontrar a moça. Não sabia. Por mais que tivessem ficado juntos tão pouco tempo, comparado aos seus outros relacionamentos amorosos, afetivos, como preferir rotular; foi o mais magnético, puro, suave e incisivo. Um negócio que espremeu seu coração e extraiu coisas boas, o melhor de si, que ele não sabia afirmar se já se sentira assim. Parece que a anestesia para todas as suas dores estavam nele mesmo, mas só ela, a fugitiva, tinha a seringa compatível para suas veias tão machucadas por traumas e remorsos ao invés de sangue. Por mais que tivessem ficado juntos tão pouco tempo, comparado aos seus outros relacionamentos-whatever, era suficiente pra saber que desejava passar mais, muito mais, dias ao seu lado. Aparentemente, por conta da fuga, parecia não ser o que ela pretendia, mas ele não sabia...
Restava a ele deixá-la viva em seus sonhos. “Quem deixa ir tem pra sempre”, pensou, tentando se acostumar a recente perda. O que ele teria, enquanto vivesse, por mais quinze segundos ou meio século, seria a lembrança daquele olhar, daquela pele, daquele toque, daquela cicatriz, daqueles beijos, daquela tristeza por não poder mais repetir tudo. Passou mais de quinze minutos encarando o asfalto e brincando com cinco Marias, enquanto sua mente mastigava um bolo de chocolate com cobertura de amendoim, sua definição para algo perfeito. O doce, neste caso, era a lembrança de suas últimas horas. Dizia “perfeito”, mesmo acreditando que isso não existia, era mais uma palavra para descrever que algo o fazia bem. E a moça o fazia. Fez. Correu.
Levantou-se. Começou a andar. Entrou na rua de casa e seguiu, sumiu em seu próprio limbo mental para tentar não se afundar novamente naquela que desapareceu sem deixar nome, endereço ou coração. Acostumado a afundar-se em coisas ruins, anestesiou-se por enfim entrar num mar tranquilo, mas logo veio o sol, trazendo a seca, e o deixando rastejando na terra árida. Tudo seria um talvez dali em diante, ele não saberia se poderia se entregar a outro alguém, pois a moça poderia simplesmente ressurgir, não sabendo ele como, trazendo tudo de bom que viveram naquelas quatro horas juntos - vaga esperança. Porém, ele não queria se prender a esta possibilidade, era uma das inúmeras que poderiam atingir sua existência pelo resto de sua vida.
Seguiu sem olhar para trás. Antes fossem memórias ruins, antigas companheiras, que o fariam logo esquecer a moça, no entanto, eram as melhores que o invadiam a cada novo passo. O que poderia acalmá-lo, pelo contrário, fez surgir-lhe um incomodo, um vazio. Olhos abertos ou fechados, a imagem do rosto da moça estava em qualquer lugar aonde seus olhos mirassem. Aquela mulher, corrigindo, a memória do que viveu com ela serviriam de porto para repousar durante tormentas. Mas o desespero do sumiço o atordoava. Não sabia se queria deixar a lembrança ocupar um quarto de sua hospedagem mental. Queria. Talvez fosse demorar algum tempo para se acostumar a isso, à ausência da presença daquela com gostaria de compartilhar outras experiências pelo resto de seus dias, mas foram necessários apenas alguns minutos para suprir esse vazio. Instantes após entrar em casa...

2014/10/02

Barulho, bordô, botinhas e boom

E

A primeira poltrona da fileira, partindo do corredor em direção à parede, ficou com a mochila daquele que queria fumar um cigarro antes do show. A segunda, vazia, porém, estava reservada ao amigo do primeiro. A terceira, já era ocupada pelo outro amigo, que, com as costas quase na horizontal, encarava o teto do teatro. Os demais quatro espaços permaneceram vazios até que, logo após os dois primeiros que voltaram se sentarem, um grupo de mulheres chegou pedindo licença pra passar.

Iguais

O terceiro achou que as moças estavam junto com seus amigos, tanto que cumprimentou com um singelo “Olá” a primeira que entrou na fileira. A moça retribuiu a saudação, mas as outras, mais tímidas, não replicaram o ato. Conforme passando por ele, o rapaz da terceira poltrona encarou uma a uma disfarçadamente. Morenas, franja, coque, bota, skinny jeans, batom. A visão do rapaz começou a doer por observá-las com o canto de olho, mas continuava. Como se combinando, cada uma carregava a cor bordô em algum canto. A simpática tinha um cachecol. A da quarta vaga, calça. Sexta, batom. Sétima, camisa. Encantou-se o terceiro pela ocupante da poltrona vizinha, sentada com seu pé direito, e a bota “última tendência” - usada também pelas outras da fileira, porém de modelos e marcas diferentes -, sobre o assento, ficando o joelho apontado para o céu.

Faroeste oriental

Terceiro sinal. As luzes se apagaram. A banda apareceu no palco. Começou o show. O setor da fileira E, onde estavam as quatro mulheres e os três homens, ficava, da visão dos músicos, a leste do palco. A primeira música, que também era a número um do álbum, foi para anestesiar a plateia, com exceção do terceiro rapaz, que dividia sua visão entre o palco, as luzes, os sons, e a moça ao seu lado, que estava incomodada pela lotação da fileira, mas ela era sempre assim, independentemente de quem estivesse ao seu lado, agorafóbica.

You look pretty beauty in red lights

Ele estava, ao menos desejava estar, flutuando naquelas luzes, queria ser aqueles raios verdes, vermelhos e azuis. Afundou-se na poltrona, enquanto ela, inclinada para frente, apoiava os cotovelos nas próprias coxas, como se para se aproximar do palco e absorver com maior eficiência as notas que saiam de lá. Surgindo do palco, atrás do baterista, um raio de luz vermelho se jogou sobre a plateia, atingindo principalmente a terceira poltrona da fileira E. A moça, que começou a acompanhar as luzes depois de sair do próprio corpo devido à osmose sonora, permitiu-se ser guiada pela iluminação e deixou sua visão ir de encontro ao rosto do rapaz, completamente vermelho, de olhos bem abertos e molhados. A moça achou que ele estivesse, mas de fato não estava chorando. Mas as luzes, tanto a que atingiu quanto a que saia dos olhos do rapaz, fizeram a moça se fixar ali por um tempo, pouco aliás, porém suficiente para ele perceber que era observado.

Desfiladeiro

Surgiu um implícito desconforto entre os dois. Individualmente, sabiam que estavam encantados pelo colega de fileira, mas não encontravam a uma resposta para expor isso. Cansado de estar sentado na mesma posição há tempo demais, cruzou a perna de maneira que sexistas afirmam ser de “mulherzinha”. He just don't give a shit. Por este movimento, fez com que algumas coisas que estavam em seu bolso caíssem no chão, embaixo do banco, mas nem percebeu, porque, ao cruzar a perna desatenciosamente, fez com seu pé direito batesse no pé esquerdo da moça, que cruzara as pernas da mesma maneira, contudo invertendo a perna que repousava sobre a outra. Pé com pé. Perceberam instantaneamente o encontro, mas deixaram assim, colados. Como se assim demonstrassem interesse.

Como ignorar uma pessoa simpática e efusiva

Saideira. Aplausos. Biz. Mais aplausos. Acendem-se as luzes. Fila pra sair. Já fora do teatro, na calçada, os três amigos comentavam sobre as novas músicas e o efeito semelhante ao de “Ára bátur” que algumas das canções recém-apresentadas possuíam, quando o terceiro ouviu seu nome pronunciado através de um grito estridente. Há cerca de dez metros, estava a amiga de uma fantasma dele que estava com um dos braços estendidos como se fosse um farol indicando que o rapaz deveria aportar ali e trocar saudações, palavras e saudades. Ele, transformado em uma pessoa mais coerente com seu interior, diferente daquela que existia na última vez que se cruzaram sob a escuridão da cidade, não sendo mais o tipo de pessoa que se obrigava a encarnar uma persona falsamente simpática perante as demais, apenas sorriu sem mostrar os dentes, levantando rapidamente as sobrancelhas. Queria ele evitar o constrangimento de uma possível reação da estranha que envolvesse aproximação, procurando qualquer coisa em outro lugar para se focar. A estranha desviou o olhar.

Au revoir, bordeux

Dialogando, ainda em frente ao teatro, sobre música local com os dois amigos, o rapaz da terceira poltrona encarava o chão, quando percebeu uma calça bordô se aproximar. A moça da quarta poltrona, reconhecendo os três rapazes que dividiram o mesmo setor da fileira E durante o show, apareceu com uma caneta preta e um celular em mãos, perguntando se era de alguém. O terceiro, surpreso por não ter percebido que deixara cair tais pertences, soltou um suspiro e um “muito obrigado” acompanhado um sorriso. A moça então respondeu com um “Imagina, ainda bem que te encontrei” e se foi. Ele acompanhou, com o olhar, a moça se distanciar com suas três amigas. Antes de atravessar a rua, ela disparou um último olhar, uma despedida, "foi bom te conhecer" ou coisa do tipo. Atingido pelos castanhos da moça, não teve reação além de um sorriso aberto. Logo os olhares se perderam na noite e se foram.

Isso destruirá o céu de Gizmo, o imperador negro


Hora depois, num bar de uma região noturna popular da cidade, estavam os três moços bebendo na rua e conversando sobre o quão assustador era o monstro com quem o rapaz na cena da lanchonete sonhara na cena da lanchonete em “Cidade dos Sonhos”. Foi quando o celular daquele que quase perdera seu telefone alertou o recebimento de uma mensagem. “Antes de devolver teu celular, peguei teu número. You look pretty beauty in red lights”. Tentando disfarçar a alegria que lhe invadira, sorriu sozinho, enquanto os outros dois falavam sobre os litros de vinho que tragaram na noite anterior, viu que no registro de chamadas realizadas havia o mesmo número que enviara a mensagem, e respondeu: “Desculpa por ter te chutado durante o show”. A conversa prosseguiu com “Não aceito desculpas via sms”. Ansioso, respondeu diretamente “Onde você está?” Com as três amigas do show e os namorados de duas delas, estava num bar novo, antes desconhecido por ela. “Não sei o nome, é do lado do antigo Chinaski”, respondeu a moça, que agora queria mais do que antes reencontrar o rapaz da terceira poltrona e chutar seu pé, pintá-lo de vermelho, assistir a outros shows, roubar sua caneta preta... Preferiu não responder, despediu-se rapidamente dos amigos e correu uma quadra inteira quase sem respirar. Virou a esquina, atravessou a rua e a viu, nas mesas externas do novo bar, a dona da calça roxa e do canhão de castanhos que havia no lugar de olhos, sentada, com as pernas cruzadas como quando se bateram os dois no teatro. Ainda encarando o celular, forçando que ele alertasse uma resposta do rapaz, foi interrompida pela amiga simpática, que perguntava se não era o rapaz do teatro se aproximando. Levantou-se. Apressou o passo. Ele também. Colidiram. Explodiram. Em sons. Em cores. Levitaram.

2014/10/01

Chuva e sorrisos


He films the clouds.
She changes the weather.
They become rain.

Ponto de ônibus lotado de pessoas se refugiando da chuva e a moça precisou pedir licença, enfiando-se entre estranhos para encontrar um lugar para si. Estava feliz. Depois de tempestades em sua cabeça, o sol surgiu e a deixou bem pela primeira vez em duas semanas. Costumava ir andando para a aula, mas, com aquela chuva, não havia condição de fazer sua caminhada. Achava futilidade pegar ônibus para não ficar nem cinco minutos e descer na terceira parada, mas, às vezes, futilidades eram necessárias. Tão feliz estava que não ligou que seu vestido azul marinho com linhas brancas quadriculadas, sua meia calça preta e seu sapato preto de salto baixo estavam completamente encharcados. Observava a rua e sorria encarando a água colidindo com o asfalto. À duas pessoas de distância, percebeu, com o canto de olho, que havia um rapaz a encarando, usando calça preta, tênis azul marinho escurecido devido à chuva, da mesma cor que o vestido da moça, camiseta branca, que, depois descobriu ser, na verdade, bege com um corvo estampado e uma mochila da mesma cor do calçado. Ignorou o estranho.
Ele não estava feliz, mas seria apenas deitar e dormir que voltaria a ficar bem. Porém, precisava resolver um assunto acadêmico antes de ir pra casa. Irritado de fome, emputeceu-se ao sair do trabalho e dar de cara com a chuva forte, que impossibilitaria a chance de ele fazer uma jornada para matar a saudade do caminho que tanto repetiu em quatro anos. Chegou ao ponto de ônibus querendo chutar todo mundo, mas logo viu uma moça chegando e o deixando anestesiado. Ignorou a raiva.
Exibindo um sorriso de dentes escondidos, a moça continuava a encarar as gotas de chuva atingindo o chão. Não ere esse o motivo, a tempestade, para ela sorrir, mas ela precisava mirar algo para despejar sua alegria. O rapaz estranhou aquilo tudo, mirou o outro lado da rua para ver se havia lá alguém para quem a estranha pudesse estar olhando. Ninguém. Sorriu e riu sozinho. As curvas daqueles lábios fizeram o rapaz derrapar, colidir contra o muro e cair morro abaixo.
Enfim, a moça desviou o olhar e o rapaz estranhou o ato. Só parou de olhar para o nada, enquanto seus olhos miravam o asfalto, quando o ônibus chegou. As duzentas pessoas no ponto entraram. Ele passou pela cobradora, pagando a passagem em moedas, e viu que a mulher que encarava a chuva sorridentemente havia se sentado em um bando próximo ao motorista, antes da catraca. Apesar da quantidade de gente que entrou no ônibus, não foi número suficiente para lotar o veículo.
O rapaz, ainda hipnotizado pela moça, apreensivo por faltar um ponto para descer, começou a se despedir mentalmente de “mais um amor platônico de ônibus”. Apertou o botão para sinalizar ao motorista que desceria no próximo ponto e sorriu. Rapidamente, a moça se levantara, pagara a passagem e parou ao lado do rapaz.
Desceram não só não mesma parada como seguiram para o mesmo lado.
Quando pensou em iniciar uma conversa com algo como “moça, você está me seguindo?”, demorou tempo demais e foi ela quem disparou:
- Também ficou com preguiça de andar na chuva?
Com sua voz de pessoa tímida, respondeu:
- Pois é, são só três pontos, mas com a chuva que tava caindo lá no Centro Cívico...
- E, olha agora, parou de chover! – disse a morena, levantando as mãos, na altura dos ombros, com as palmas apontadas para o céu.
- Essa cidade é maluca.
- Como dizem, aqui você tem que sair de manhã vestindo casaco pesado, levando sombrinha e biquíni na bolsa.
- Não trouxe meu biquíni hoje, droga, muito menos guarda-chuva. Tenho muito azar...
Foi interrompido por um riso atrasado da moça, que logo falou:
- Você usa asa delta?
- Prefiro maiô.
- Je ne parle pas français, mas nós estamos em “outubrô”, moço...
O rapaz parou de andar, encarando a desconhecida, e virou as costas dizendo:
- Au revoir, Shoshanna... – levantando uma das mãos em um aceno de despedida, mas logo se virou novamente para a moça
- Essa cena é ótima, mas a do “Gorlami’ é minha favorita.
Ela pegou a referência cinematográfica e isso o deixou ainda mais encantado, mas tinha problemas, sempre teve, para demonstrar interesse, coisa e tal.
Seguirem andando por mais três quadras, conversando sobre cinema, encontraram-se no assunto, arranjaram conversa para encontro futuros nisso, até que ela chegou ao seu destino. A faculdade. Era também o dele.
- Você estuda aqui?
- Me formei semestre passado, só vim buscar uma documentação.
- Ah, por isso a gente nunca se viu, eu sou caloura.
Despediram-se com longos sorrisos após a catraca e foram cada um para um lado diferente. Ele até quis procurar pela sala dela depois de cumprir sua tarefa. Ela até pensou em sair da sala e ir até a secretaria atrás dele. Apenas desejaram, pensaram.

Quarta-feira e a chuva tirara folga. Calor e céu limpo até as seis da tarde. Ela continuava feliz. Ele ainda não conseguira seus assuntos na faculdade no dia anterior. Coincidentemente, reencontraram-se no mesmo ponto de ônibus onde, ontem, ela encarava a chuva com um sorriso destruidor.
Distraído, mexendo em seu celular, assustou com a voz repentina que surgiu naquele ponto vazio:
- Olha só quem voltou!
(Ele tinha voltado apenas para tentar reencontrá-la).
- E você continua sem sombrinha, moça?
- Acho que hoje não chove.
- Será?
- Pensei em ir andando pra faculdade, mas deu preguiça.
- Preguiça é coisa de gente... – deu tempo para criar um certo drama, observando no rosto da moça uma feição de “o quê, coisa do quê, seu babaca?” – coisa de gente preguiçosa.
Ela riu e disse:
- Se você for andando comigo...
- Então vamos!
Começaram a caminhar e só neste momento ela percebeu que o rapaz possuía olhos azuis. Anteriormente, já tinha visto que eram grandes e profundos, mas a escuridão do encontro anterior impediu que ela reconhecesse a cor. Ela não era tão atenciosa assim quando o assunto era notar características de estranhos. Mas, ali, naquela quarta-feira, um dia após conhecer o não-mais-desconhecido, queria dizer: “Ô, moço, deixa eu me afogar aí nos teus olhos”, mas só pensou.
Caminhando pela ciclovia ao lado de um córrego, que estava ainda cheio e agressivo por conta da chuva do dia anterior, ela disse:
- Imagina se afogar aí – apontando as sujas águas que corriam a poucos metros deles.
Na única subida que enfrentariam na caminhada, puderam melhor avistar o conluio de nuvens que percorria o céu.
- Aquela ali. – disse ela, apontando uma, entre tantas outras em tons rosa-magenta-roxo com leves pinceladas de laranja, próxima ao horizonte oeste, onde a noite ainda não havia insurgido sobre a cidade que começava a escurecer. -  Parece a cabeça de um dinossauro...
- Aquela outra... Parece minha alma.
- Cinza, opaca e profunda?
- Queria dizer “deformada”, mas também serve.
Três quadras adiante na rota, a noite já havia se tornado maioria naquele céu, com nuvens maiores do que antes, mesclando-se entre cinza e azul, como se fossem imensos zepelins pairando sobre uma cidade britânica devastada pela Primeira Guerra. Começou o bombardeio, quando, em menos de dez minutos, todas nuvens se fundiram, formando uma só mais enegrecida e violenta. A chuva não teve paciência para esperar os dois chegarem a seus respectivos destinos. Talvez o destino deles, para aquela noite, seria mesmo pegar chuva novamente, pelo segundo dia seguido, mas a chuva daquela quarta-feira, ao contrário da de terça, trouxe algo além de água. Chovendo torrencialmente, os dois se encharcaram antes mesmo de encontrarem um abrigo. Pararam sob a marquise de um açougue já fechado e começaram a rir. O rapaz interrompeu o riso logo ao encarar a moça, que disparava o mesmo olhar de ontem, quando, ainda desconhecida, observava a chuva sorridentemente. Ele já não estava mais em seu corpo, sua alma saíra de si, deixara de existir em si, para repousar sobre os olhos e a boca daquela que, ao perceber o êxtase do rapaz, cerrou os lábios, ainda sorrindo, desta vez, sem mostrar os dentes e levantou as sobrancelhas, abrindo ainda mais os olhos castanhos. Então intimidou-se pelo olhar insistente dele e começou a encarar os próprios sapatos azuis, que imergiram em poças d’água durante a correria em busca de abrigo, tornando-se mais azuis, assim como os olhos do rapaz. Percebeu então a possível semelhança entre as cores e levantou o rosto para confirmar se eram de fato iguais. Em silêncio, constatou-se sozinha positivamente e sorriu como se ele, que não conseguia parar de encará-la, também soubesse do que se tratava. Cruzou os braços sobre o vestido preto, mirou o céu e disse:
- Será que chove, moço?
Ele enfim saiu da hipnose, semicerrou seus olhos e riu abertamente, expondo os dentes, indignado pelo assunto que ela puxara.
- Acho que talvez... – respondeu, interrompendo o riso, pois voltara a ficar magnetizado pelo fluxo de energia que saía dos olhos castanhos.
A chuva simplesmente não queria parar e os dois perderam o fio para conversar. Ela não queria conversar. Ele... inspirou prolongadamente e se aproximou da moça, deixando seu braço, coberto pelo moletom molhado, o mesmo do dia anterior, encostado no dela, desprotegido e ouriçado pelo frio que apareceu com a água que caía. Num movimento rápido, ela repousou sua cabeça no ombro do rapaz e ignorou que estive molhado. As bolsas de ambos estavam repousadas no degrau entre a calçada e a loja. Sem dar tempo suficiente para que ela pudesse se acomodar em seu ombro, o rapaz virou-se para ficar em frente a moça, deu mais uma longa inspirada e aproximou seu rosto ao dela a fim de beijá-la. Ela, fechando os olhos, disse:
- Não.
O rapaz recuou um passo, ficando no limite entre a marquise e o céu, sendo atingido por algumas gotas, e, antes de reagir, correr ou xingá-la, foi empurrado pela moça para a chuva.
- Agora sim.
Cena de filme, a diferença foi, depois de serem invadidos pela reconfortante sensação de quebrar a tensão nascida no dia anterior, ao revelarem o desejo, um ônibus passou na rua, gerando uma onda sobre eles. Assustada pela agressividade da água, a moça se separou do rapaz, tentando secar o rosto, mas, como ainda estavam desprotegidos, longe da marquise, não adiantou, no mesmo segundo, estava com a cara novamente molhada. Voltaram ao abrigo. Ele tirou o casaco, dizendo que ela estava com frio, pôs a peça sobre os ombros da moça, e se sentaram. De mãos dadas, encaravam a chuva com sorrisos ainda maiores do que os dados anteriormente naquela noite ou ontem. 
A chuva passou, mas não levou os sorrisos

2014/09/21

Lonely People 6

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Ainda calados, chegaram ao quarto de hotel e se separaram. Ele entrou no banheiro, carregando uma muda de roupas em mãos, para se trocar - sim, apesar da intimidade, que, além deles, só o escuro daquele lugar presenciou, tinham vergonha de outras intimidades, como trocar de roupa em frente ao outro -, e ela abriu seu computador para ver se a psicóloga amiga de uma professora havia respondido o email sobre uma vaga de emprego nesta cidade - segredo - e se aconteceria uma reunião/entrevista no dia seguinte. Assim que o rapaz saiu do banheiro, enquanto ele arrumava algumas coisas em sua mochila, a moça disfarçou singelamente, mudando de página, fechando a caixa de entrada sem respostas, e logo abandonou o notebook, abriu o frigobar e pegou o whisky que haviam comprado na noite anterior. Ainda imersos em silêncio, tomou um baita gole no seco e ofereceu ao moço, que tomou quase a mesma quantia que ela. A garrafa foi abandonada no criado-mudo.
Separaram-se novamente, ainda pensando no que conversaram há menos de uma hora. Encostada na janela e de costas para a rua, reflexiva e roendo unhas encarando o chão, disparou:
- Eu… - viu então que ele, antes deitado observando o teto, sentou na cama assim que ela abriu a boca - Vou embora...
O rapaz levantou seu comprido corpo assustado, aproximou-se, fitando o fundo daquela que começara a ficar com os olhos vermelhos como se para ver o reflexo de seus próprios olhos e encontrar, em sua mente, algum motivo que a fizesse ficar. Alguma resposta. Qualquer coisa para resolver este caso. Talvez dizer que estava vivendo os quatro melhores dias dos últimos cinco meses. Mas ela não deu tempo:
- Calma… - esperou que ele retrucasse como tanto fez nesses quase quatrocentos dias, mas nada. Não exatamente agora. Só queria falar que… - então despejou-lhe uma enxurrada de palavras que tentariam provar que os dois deveriam, sim, continuar se vendo, mas, também, sim, poderiam encarar a distância como algo que os ajudasse a fortalecer essa relação. Queria construir uma ponte forte e bonita que conectasse Curitiba a São Paulo, Braavos a Porto Real ou a cabeça tão pesada do jornalista ao colo instável daquela que já não sabia mais se queria se formar psicóloga, tanto faz, desejava arquitetar um plano para que o relacionamento funcionasse, mas sabia que planejamento poderia estragá-los. Após um silêncio criado como se para reavaliar o que pretendia dizer, seguiu: - … Eu gosto de você e quero continuar, mas … - O rapaz se sentou na cama, ainda encarando a mulher, impactado pelo peso do que ela lhe dizia, queria se levantar e dar-lhe o maior abraço do mundo, mas achou melhor não interromper o monólogo da moça iluminada pelo poste de luz em frente a janela do quarto - … Eu não quero um acordo. Isso pra mim seria sinônimo de comodismo, que só estraga as coisas. Tem muita coisa aqui dentro... - Deslizando a mão aberta do peito à garganta - Tá tudo muito bagunçado e eu quero me organizar pra poder seguir. Eu não quero te machucar, seria muita ingratidão minha estragar algo entre nós, mas a vida sempre acha um jeito de me derrubar, de fazer eu me perder, de arranjar uma forma para eu machucar as pessoas… Por mais que não queira machucar, acabo machucando. E não quero te machucar… Eu me perco e me afundo, cara, e… Ah...