2014/07/22

Parede

Nem ele mesmo sabia o que fazia naquele bar. Era uma época em que não mais seus impulsos e sua ansiedade tinham poder influente grandioso em suas decisões. Cortara a café há mais de um mês, porém a cafeína era coadjuvante em sua rotina devido aos chocolates que comia diariamente.
Na verdade, ele não queria assumir o motivo: estava quebrado. Cinco e somente cinco palavras alheias foram lhe suficientes para arruinar. Sua nova ideologia sobre relacionamentos tinha um calcanhar de Aquiles: acontecer exatamente o que ele dizia não querer.
Ela sabia que fazia naquele bar. Era uma época boa de sua vida, que acabava de ser arruinada pelo sumiço daquele que parecia ser o homem de sua vida. Não que ela quisesse casar com ele viver eternamente a seu lado, mas, poxa, não queria que terminasse tão cedo.
Sua amiga S. não quis saber de tristeza e foram ao bar para afogarem-na em álcool. Porém, sem perceber, as amigas se distraíram e deixaram sumir. K. entrou no banheiro e não quis mais sair. Queria descer descarga abaixo e sumir. Indignava-se pelo fato de tal estado ser motivado por uma pessoa.

Enfim, lamúrias a parte, vamos aos fatos daquela noite de terça-feira, após um dia iniciado com um estranho sonho envolvendo sua cidade natal, ruas de chão, ônibus sem luz, bancos empoeirados e distanciamento; e uma sms pedindo para que as coisas do rapaz fossem postas em uma caixa e deixadas na portaria do prédio dela.
Talvez por saudade daquele tempo de porres diários entre expediente e sala de aula, resolveu tomar tal atitude: Foi tomar todas. Começou por uma cachaça que desceu como um abraço e permaneceu quase a noite toda com um copo de plástico, sempre preenchido quando esvaziado, com cerveja. Talvez por falta de novas opções, K. foi ao bar de sempre.
Apesar de frustrado, Inácio preferiu não ferrar com a sua noite fumando cigarros. Exagero. Mas ficou quase a noite toda na calçada em frente ao bar com seus conhecidos fumantes, mas para observar as moças. Aquela que parecia uma personagem do Godard, ok. Aquela que parecia não pertencer àquele bairro alternativo, ok. Aquela que era de ninguém, ok. Aquela que, sem querer, frustrou o rapaz, não. Afinal, estava ali para encarar outras, distrair-se, esquecer por três horas que fosse daquela que... Enfim. Ele conhecera tantas garotas na noite. Nenhuma delas o conhecia. Parecia seu amigo Adalberto, que era apaixonado por romances platônicos. Mas, Deus o livre, ele não queria ser assim.
Numa ida ao banheiro, passou pelas mulheres que esperavam que alguém saísse do banheiro. Impacientes. "Faz quinze minutos que tem uma guria aí dentro", reclamou uma delas. Inácio ofereceu o banheiro masculino às damas, mas nenhuma aceitou. Já dentro, assim que o barulho de sua bexiga sendo esvaziada reagindo com o encontro da água na privada cessou, percebeu uns suspiros vindos do outro lado da parede, no toalete das mulheres. Era choro. Do lado de fora, ouviu alguém bater na porta feminina com raiva. "Sai logo dessa merda", gritou uma voz furiosa. Ainda com as mãos não-limpas, baixou a tampa e subiu na privada. Pouco acima de sua cabeça, havia um intervalo entre parede e teto de uns vinte centímetros. Sem olhar por ali, com medo de ver algo estranho, perguntou:
- Moça, cê tá bem?
Nada. Repetiu a pergunta.
...
- Não. Me deixa!
- Ô, moça, tem gente querendo usar aí. Te ajudo a achar um lugar melhor pra chorar.
- Não, vai embora. Nem me conhece.
De voz, não conhecia mesmo, mas resolveu se esticar mais um pouco para ver quem estava ali, na fossa.
A baixa estatura de Inácio o atrapalhava em descobrir quem estava ali, a uma parede de distância. Pendurou-se na parede e subiu.
Ele conhecia de stalks passados a mulher sentada encolhida no canto do banheiro. Disse em ironia:
- Oi, com licença, desculpa invadir teu espaço, mas, se você demorar mais, galera vai derrubar essa porta e te tirar daí na bicuda.
A moça, com a maquiagem no olho esquerdo descendo borrada até a bochecha, continuou encarando o chão.
- Você não me conhece, mas eu sei quem você é, K.
Ela levantou o rosto rapidamente, estranhada, e perguntou:
- Quem é você?
- Um maluco que tá pendurado numa parede escorregadia te pedindo pra sair do banheiro - e soltou um de seus sorrisos que, segundo uma ex-namorada, eram ingenuamente encantadores e sinceros.
Encarou a porta, levantou-se, arrumou seu vestido, pegou um papel higiênico para limpar seu rosto e disse:
- Tá bom, vamos.
Teve que saltar da parede para alcançar a privada e... A força foi tanta que a patente não aguentou e levou os pés de Inácio diretamente para a água. De fora, K. e o resto da fila puderam somente ouvir uma barulheira desastrosa. Ele se desequilibrou e deu com a cabeça na porta. Momentos de silêncio interrompidos por um "Ih, morreu" da plateia.
Sentou-se na ponta da privada e levou as mãos ao rosto. Soltou um "Ah" e viu que suas mãos estavam pintadas de vermelho.
- Moço, cê tá bem? - perguntou K. apressada assim que ouviu um sinal de vida dentro do banheiro.
A vida seguiu normalmente no banheiro feminino, depois que a tristeza de K. liberou espaço. Porém, do outro lado da parede, Inácio precisou de um tempo para conseguir levantar.
Saiu e deu de cara com K. que estava escorada na parede encarando a porta preocupadamente.
- Inácio, prazer. - Soltou mais um de seus sorrisos e se encaminhou à pia para limpar seu rosto. Lavou as mãos antes de enfiar a cara debaixo da torneira e soltou um gemido de dor. K. pediu para ver como estava o machucado e assustou Inácio ao passar a mão nas costas do rapaz. Ele levantou o rosto e o mostrou.
- Foi um corte bem pequeno, Harry Potter.
- E você tá parecendo o cachorro d'Os Batutinhas - disse ele cedendo espaço para a moça também lavar o rosto.
Saíram do bar juntos com suas cicatrizes, as dela mais escondidas apesar de também recentes, e se sentaram num meio fio qualquer para conversar.
- Daonde você me conhece?
- Da vida. Já te vi por aí...
- Onde?
- Internet, temos amigos em comum - Inácio então, lembrando dos stalks, recordou que ela namorava. Ou não. Talvez o término fosse o motivo das lágrimas no banheiro - Por que você tava chorando, moça?
- A vida.
- Conta aí, meu, que eu conto minhas tretas também. Sigilo de bar.
- Você também terminou um relacionamento sério hoje?
- Não... Quer dizer... Era cedo demais pra dizer ser era sério, mas eu  queria que fosse. Quem terminou, você ou ele?
- Como você sabe que é "ele"?
- Stalker.
- Medo...
- Então?
- Ele simplesmente sumiu.
- Como ele conseguiu deixar alguém assim. - Ele não pretendia flertar com K., queria respeitar sua dor, mas acabou entregando de bandeja o desejo ao dizer - Uma guria linda! Sério, que vacilo.
Imediatamente, ela percebeu, mas disfarçou:
- É complicado explicar, era complicado demais.
- Por quê?
- Ele e sua instabilidade. Tinha dia que me acordava com beijos e café da manhã na cama. Tinha dia que era um canhão de grosserias e mal olhava na minha cara.
- Eita, isso aí é problema psicológico - antes de terminar a última palavra foi interrompido por um tapa em sua cabeça. Era Adalberto perguntando onde ele esteve nos últimos vinte minutos. Inácio respondeu:
- Não te interessa, palhaço.
K., depois de perceber que os dois eram amigos, riu e sorriu para o estranho como se dizendo "oi".
- A gente vai dar uma volta, vai ficar por aqui?
- Sim, - disse Inácio encarando a moça - vou ficar. Até depois.
- E você? Qual sua história de hoje? - prosseguiu ela.
- Vishe... Você bebe?
- Sim.
- Então vou pegar uma cerveja pra gente, aí te conto.
Enquanto ele ia ao bar, K. mandou uma mensagem a suas amigas avisando onde estava. "Se cuida", "É gato o bofe?" e "Não aceite doce de estranhos" foram as respostas de S., que estava dentro do bar com as outras amigas.
Compartilharam experiências românticas e corações quebrados por mais de uma hora, quando a carona de K. anunciou que estava partindo:
- Preciso ir, minha amiga vai me levar em casa e já tá indo.
- Mas você quer ir? Onde mora? - apelou Inácio pegando na mão dela.
- Não... - então K., antes de se levantar, deu-lhe, no rosto, um beijo suficientemente quente para o derrubar.
Ergueu-se rapidamente e perguntou:
- Onde você mora?
- Na Iguaçu, quase esquina com a República Argentina.
A resposta imediatamente alegrou o rapaz, que sorriu e disse:
- Então a gente divide um táxi. Eu moro na esquina com a Saint' Hilaire.
- Mentira!
- É sério.
- Então tá, a gente vai. Agora?
- Você que manda.
- Por mim, a gente fica mais um pouco aqui, mas só vou ali me despedir delas.
Ficaram ali por mais um tempo e foram embora. Dormiram juntos. K. engravidou. Na verdade, já estava do ex-namorado, mas nunca descobriu. Não importava. Inácio cuidou da criança como se fosse sua filha. Aliás, o que importa, apesar da herança genética, é quem cria. Durante a gestação, entre crises profissionais dela, "minha carreira está arruinada", e ataques de ansiedade dele regadas a álcool, "eu não serei um bom pai", o casal até que enfrentou e superou as dificuldades. Batizaram a criança com o nome da rua onde se conheceram. Assim que Paula teve idade suficiente para ouvir e entender histórias, contaram o cômico episódio sobre como se encontraram, entre as paredes de dois banheiros apertados, cheios de cicatrizes.

2014/07/21

Platonismo P. ou a Consumação do intangível (A Noiva)

Eu te avisei que era platônico, mas precisei provar a mim mesmo que eu estava errado. Errado no sentido de que não teríamos futuro. De que todas as ilusões criadas antes de dormir permaneceriam dentro minha cabeça enquanto eu lembrar dela.

Tanto tempo, mais de um ano, cruzando com ela em tantos desconexos lugares, fazia-o crer que havia ao menos dezenas de interesses semelhantes que a tornavam uma pessoa… Bem, ele não sabia explicar com precisa exatidão o que havia nela para tanto magnetismo, tantos pensamentos antes antes de dormir - nada maliciosos, algo indescritível que a tornava…. Musa. Maior musa da materialização de seu platonismo ou outro termo, outra descrição, que defina todo esse sentimento insistente. Esse platonismo permanente que preenchia suas memórias enquanto ninguém real aparecia para cumprir essa função e tudo mais que ele ansiava.

O amigo dela, que o rapaz acabara de conhecer e sabia do desejo, disse, na tentativa de desmotivar o platônico a abandonar sua vontade, que o maior relacionamento no qual ela esteve envolvida durou não mais que duas semanas. “Não quero casar com ela. Particularmente, eu a chamo de A Noiva, mas não quero jurar eternidades com ela a um padre seguindo dogmas religiosos. Jesus don’t love me and God doesn’t like my type. Quero apenas… Consumar o desejo, concretizar a até então intangibilidade platônica que me perturba faz tempo. Se vai durar vinte minutos, vinte meses, ou até morrermos lado a lado, não posso prever. Posso apenas me permitir que nos deixemos apenas sentir, enquanto o sentir for sincero, espontâneo etc. Se a ressaca moral pós-overdose durar tempo suficiente pra me corroer, no entanto poderei dormir com a realização contente de enfim ter realizado desejo há tanto estimado”, disse num monólogo alcoolizado ao amigo da moça.



- Ele tem carro roxo, tem coisa mais brega?

- Roxo… Ela, a [musa platônica] … Pintou o cabelo de roxo esses tempos atrás.
- Nossa, cara, eu não gostei.
- Porra, eu fiquei chapado com esse cabelo dela. Deixou ela ainda mais... Ah... O de cigarro também.
- Cigarro, o que?
- Quando ela descoloriu e ficou uma bagunça preta, branca e amarela, parecendo um cigarro aceso, achei lindo.

Talvez tudo isso não passe de um conforto ao qual ele recorre quando está cansado. Seu comodismo sentimental persistia nisso na falta de alguém mais próxima? Ele perdera o controle no momento em que começou a se questionar se realmente queria pular o muro do platonismo e invadir a rotina dessa moça uma única vez que fosse. Ele já não sabia se queria algo com ela além de observa-la do outro lado da rua bebendo, com o canto de olho no ônibus ou ao se cruzarem nos corredores da faculdade. Talvez o tempo tivesse enfim o convencido que ele sempre foi lento demais na versão contemporânea de conquistar alguém. Talvez ele devesse parar de encarar o teto durante a noite pensando na outra e dar um beijo na esposa antes de dormir. Sim, deveria começar a pensar mais na mulher com que dividia a cama antes que ela resolvesse partir ao corrosivo campo platônico do término e todas as dores anexadas a isso.

2014/07/16

No hugs (100 abraços) ou Abraços entre facas e sangramentos

Sim, eu contei. 100 é o número mínimo de vezes que desperdicei a oportunidade de ter feito tanta coisa. Te abraçar, só pra exemplificar. Eu superestimo, nesse meu negócio de romantizar tudo e a vida, coisas simples como abraços. Sei lá, você deve abraçar tua mãe, teu pai, teus sobrinhos, teus animais, mas, claro, porque você gosta deles e, principalmente, tem intimidade. Não que você não goste de mim, não sei, nunca afirmou coisa parecida ou contrária. “Afirmar”, claro, nesse jogo de sinais. Até gente aleatória você abraça, vai, como pessoas da faculdade não tão próximas, apenas por convenção social. Mas eu, ah, não abraço qualquer pessoa. Calma. Quero que a pessoa tenha força suficiente pra... Segurar-me. Abraços não são (não devem ser apenas) convenção social. Abraços são (precisam ser) portos seguros. Não apenas para mim. Pra nós dois.
Há cem dias, a gente saiu pela primeira vez. Há cem dias, ocorreu nosso primeiro encontro. Quer dizer, a gente se desencontrou antes mesmo de nos encontrarmos. Se é que isso pode fazer sentido no fim, mas, enfim, faz. Como você mesma disse, a gente se perde pra se encontrar.
Não que eu seja extremamente tímido, só um pouco, mas é que não quero que nosso relacionamento… Não, espera… Nosso caso… Não… Enfim, isso aí que a gente tá vivendo; não quero que isso se desgaste. Temo até que abraços prematuros possam rasgar nossos laços. “Laços”, você sabe. Não quero apertar demais pra evitar que esse laço se torne um nó cego. Nós, cegos pelo pessimismo. Se bem que eu e minha falta de coordenação motora já me deram problemas, em outras ocasiões, na hora de regular a precisão em minhas mãos. Descoordenado. Não sei usar tesouras, não sei dançar, não sei desenhar linhas retas, não sei me equilibrar em patins, não sei rodar de olhos fechados sem ter enjoos depois, não sei tanta coisa, mas sei...
Eu sei... 
Acredito, nessa minha cabeça entupida de metáforas e perspectivas analógicas, que somos facas afiadíssimas, porém, ao mesmo tempo, cheias de desgaste, suscetíveis a fragilidade de sermos mutuamente cortadas pelo mais singelo toque. Não quero te cortar, mas quero me aproximar ainda mais. Não sei devemos tentar encontrar um ponto em nós isento de destruição iminente. Sei que meu pessimismo em relação ao tal do amor (redundância para utopia) somado ao teu pessimismo em relação ao tal do amor (redundância para utopia) nos distancia de várias possibilidades possivelmente agradáveis. Talvez. Não que eu não acredite que esteja dando certo… “certo”, você entende, não?... afinal, estamos indo… indo… mas acho que, sei lá, acho que a gente deveria arriscar um pouquinho mais, mesmo que sangrasse um pouco, ao menos até encontrarmos um lugar melhor, na distância não-tão-precisa entre nossas individuais idealizações de um relacionamento saudável. Creio que se enfim nos chocássemos para fundirmos nossas existências, eu estaria então suficientemente motivado a enfrentar qualquer sangramento. Teria forças para estancar, mesmo que com as próprias mãos, de duas gotículas em um corte ao lado de sua cicatriz dadaísta a uma hemorragia em sua alma. Tudo para nos salvarmos. Não que eu queira ser "salvo" aliás (maldita sociedade que relaciona salvamento a religião), você já deve ter percebido que não prezo tanto por isso.
Mas eu quero...
Só não quero chegar ao ponto de, em alguns dos tantos dias que tenho para viver, cantar com razão que "lamentamos muito por não realizado algo maior". Doer, lógico que vai. Acabar? Certamente. Mas, ô, de que adianta terminarmos no raso da superfície? Eu quero me afundar. Sei que podemos ser um iceberg talvez capaz de destruir o maior dos navios repleto de inseguranças, receios, obrigações, pessimismo e repetições.
100 vezes, 98 barreiras entre nós. Não que eu não queira sentir. Eu sei... Eu quero... Sentir. Passou-se tempo suficiente pra me decidir, pra deixar crescer em mim o que não posso nem quero mais aprisionar,  mas o que não quero é estragar tudo. Também evito ao máximo dar motivos para que a vida estrague por conta própria. Meu receio consiste no fato de que tudo possa desmoronar caso a repetição ocorra demasiadamente. A gente insiste em ter medo, pronto, assumo por nós dois, por mais que eu ache errado ficar assumindo coisas por você, mas, se estou envolvido, posso dizer algo. Se você for contra isso, se discordar de algo, capriche nos sinais, olhares desviados, palavras repletas de vazio gritante ou o que preferir. Desde que continue aqui. Aqui, ali ou em qualquer lugar. "Aí ou em q u a l q u e r lugar". Aqui, aí, ali ou em qualquer lugar comigo. “Comigo”, desse nosso jeito.

“No meio daquele grande naufrágio, eu avistava uma ilha onde podia abordar.”
Honoré de Balzac, em O Lírio do Vale.

2014/07/11

Em busca de Francisco

A história começa não-cronologicamente por José, que encontrou um sofá na livraria para se sentar e decidir qual dos quinze livros levaria pra casa. Tinha todo tipo de leitura. Tudo prosa, pois ele tinha preguiça de poesia. "É muito pessoal, não consigo entender”, reclamava. Com o canto de olho, observou que um vulto havia estacionado em sua frente, a dois ou três metros dele. Ainda cabisbaixo, encarando os livros, percebeu que a pessoa continuava parada. Levantou o rosto e descobriu uma morena de batom vermelho, que o observava estranhada. A moça fixou seu olhar no dele, sorriu timidamente, e partiu. José voltou a encarar os livros, mas ignorava o que tinha em mãos, apenas tentando entender o que é que tinha acabado de acontecer.

Inês vestiu sua mais romântica roupa, queria estar como a protagonista de um romance qualquer no primeiro encontro. Pegou carona com sua mãe e chegou mais cedo ao local marcado. Sentou-se num canto e começou a ler a primeira que avistou ao entrar na livraria. Era algo sobre um casal que se reencontrou muito tempo depois de viverem um romance. Inês tinha pouco mais de trinta minutos para saber se os dois ficariam juntos novamente. Vinte minutos. Dez. Cinco. 19 horas, horário de Brasília. Quinze minutos de tolerância. Sete e meia. Sete e cinquenta... Inês já ignorava o livro que tinha em mãos. “Pelo amor de Deus, já passou das oito e ele não chegou ainda!”, desesperou-se. Não tirava os olhos da entrada principal da loja, então se lembrou que havia outra no segundo andar. Subiu as escadas olhando para todos os lados em busca do rapaz. Havia outros homens interessantes, mas nenhum deles era o que tinha marcado o encontro com ela. Percorreu o segundo piso e nada. Terceiro, ninguém. Voltou ao térreo e começou a andar pelos corredores entre prateleiras. Livros de bolso, nada. Filosofia, nada. Quadrinhos, nada. Auto-ajuda, não. Então perto de uma estante repleta de literatura russa, avistou um rapaz ansioso procurando algum título específico. Devia ser ele, mas Inês não lembrava muito bem, naquela noite no show de uma banda que ela nem gostava, do rapaz que se aproximou ao perceber que ela falava do relacionamento entre dois escritores do século passado. Aproximou-se lentamente mente e perguntou:
- Você é o Francisco?

Ele precisava provar para José que havia duas versões com títulos diferentes para uma mesma história de Dostoiévski, então Charles fez “não” com a cabeça para a estranha e continuou sua caça.
- Não consegui achar ainda, mas se te falo que tem, é que tem mesmo!
José nem ligava mais em estar errado, mas continuou o debate apenas para provocar o amigo:
- Cara, não pira, são duas histórias diferentes. Se você não consegue me provar, é porque tá mentindo.
- Tu vai ver.
Charles foi procurar um atendente que o ajudasse a localizar as duas versões do tal livro. José continuou sentado com seus catorze mil candidatos a aquisições literárias do mês. Era muita coisa para tão pouco dinheiro.

Depois de se constranger com o cara na sessão da Rússia, estava indo para o segundo andar novamente, quando, parada no pé da escadaria, viu um rapaz sentado com alguns livros no colo, lendo a contracapa de um conto sobre um capitão que abandonou o comando de seu navio. “Agora é ele!”, afirmou. Foi se aproximando lentamente alimentando a certeza de que enfim Antônio havia chegado. “Tão culto sentando desse jeito com os livros, parece que quer engolir todos eles”, encantando-se com o moço, que aparentemente ignorava qualquer outra vida naquela loja. Inês parou na frente dele e ficou o observando. Até que o rapaz levantou o rosto e fez uma cara estranhando a situação.

- Tá aqui, já te mostro que é a mesma coisa, só que um com uma tradução bem melhor. Mas, ei, você que é o Francisco?
- Não, prazer, sou Adalberto - disse José, oferecendo a mão nessa brincadeira que repetia  frequentemente.
- Cê viu uma morena baixinha passando? Ela chegou em mim perguntando se eu era o Francisco.
- Batom vermelho, cabelo amarrado num rabo de cavalo?
- Isso.
- Cara, que bizarro, eu tava aqui lendo a contracapa de um livro, ela parou na minha frente e ficou me encarando. Aí, quando olhei, me deu um sorriso toda sem jeito e foi embora.
- Coitada, acho que o tal do Antônio deu os canos nela.
- Será que ela tá por aí ainda?, vou dizer que sou o Antônio.
- Francisco.
- Isso, tanto faz.

Mandou uma sms perguntando quanto tempo mais deveria esperar. Tentou ligar, mas foi direto para caixa de mensagens. Inês estava há quase duas horas na livraria esperando por Francisco. Cruzou com os dois rapazes que foram confundidos por ela com o caloteiro e baixou o rosto envergonhada. Cansada, resolveu ir pra casa e esquecer Francisco. Não conseguiu, passou a noite toda lembrando da raiva que sentia de si mesma por ter aceitado o convite de sair com ele. Dormiu, se duvidar, pouco mais de duas horas, e não conseguiu mais. Retomou então a leitura da indecisão de Félix entre Henriqueta e lady Dudley, e como ele encontraria Natália. Fechou o livro na página 313 e foi tomar banho.

A caminho do estacionamento, Charles foi contando sobre seu trabalho atual e como ele estava cansado de ler. “Nem bula de remédio, tô ficando cego de tão cansado”, reclamou.
- Não esquece de pedir minha bermuda no sábado - pediu José.
- Imagina, a guria vai querer me bater.
Deixou o amigo em casa e foi pra casa jogar videogame, já que estava sem internet para ver série e cansado pra qualquer outra. Charles não aguentou muito tempo de jogatina. Trocou algumas mensagens com sua namorada antes de dormir, desmaiou e acordou atrasado para trabalhar.

Graças a um vizinho que resolveu acordar a família na base do grito, às seis e meia da manhã, José se lembrou que tinha trocado de escala do plantão com uma colega que precisava viajar naquela sexta-feira. Ainda frustrado por não ter comprado um livro sequer, primeiro por indecisão, segundo porque seu cartão de crédito não tinha virado ainda, resolveu ir pedalando pro trabalho, já que não teria o que fazer no ônibus além de encarar pessoas.
Numa esquina qualquer, esperando o sinal abrir, ouviu um ruído pesadamente irritante vindo de uma outra bicicleta que se aproximava do cruzamento. Virou-se, sorriu e perguntou:
- E aí, encontrou o Francisco?

- Não, mas reencontrei você.
- Orra, sacanagem… O cara te deu os canos?
- Azar o dele - disse Inês com sorriso muito distante daquele embaraçado que lançou para José na noite passada.

Mesmo sem o batom vermelho, algo que costumava deixar as mulheres mais bonitas na opinião dele, aquela estranha conseguiu quase derrubar José da bicicleta. Disse, sem jeito:
- Babaca esse cara. Eu não te daria os canos, mas nem que me pagassem.

Assim que saiu da festa junina, com a bermuda recuperada para o amigo, Charles ligou para ele, perguntando se estava em casa. José não atendeu, mas respondeu via sms:
- Cara, tô aqui procurando o Francisco.
Charles foi entender a mensagem na semana seguinte, quando foi tomar chimarrão com José na praça e obteve a explicação.

Na semana seguinte, Inês ligou de um telefone diferente para Francisco, que até então não tinha pedido desculpas por não ter aparecido naquele dia nem dito qualquer outra coisa, sumiu. “Oi, Francisco, aqui é a Inês. Então… Sobre nosso encontro: Obrigada. Você não foi, sei lá porquê, mas foda-se”, e desligou. Foi na tentativa de encontrar alguém que julgava ser-lhe ideal, que encontrou uma bagunça imperfeita que não se importava com o fato de Inês sair encarando pessoas na livraria. Não encontrou Antônio, porque o Deus da coincidência, ah, sempre ele, preferiu que Inês se encontrasse com José. Desencontrou-se também dele depois. Encontrou Charles e fim.

José lia de tudo, mas nada poderia explicar como foi que conseguiu se desentender com Inês. Porém, apesar da mágoa enraivecida, nada pode fazer quando percebeu entre Inês e Charles uma intimidade, um magnetismo que... Bem, nada poderia fazer para inibir o potencial de "dar certo" entre os dois.

Charles, que, de tão constantemente cansando, esperava nada da vida e alimentava nenhuma expectativa, acabou por des-cansar ao lado de Inês, que via algo invisível nele para ele mesmo. Alguma coisa que a fazia esquecer Antônio, José, Federico, Simone e todos os problemas.

2014/07/07

bloco preto Poema

veia
       na
            concretismo                                 tiro            spray nozolhos        e     
                    cadeia                              só     porrada                      moral  preguiça
       na
rima