2015/04/18

Lonely People 10/11/12

***



Ele, que se perdeu em outros colos sem vontade de ficar neles por muito tempo, precisava do ataque de palavras da turista. Ela também se perdeu em outros cantos, sem permanecer neles, de uma maneira mais superficial, sem deixar de ser imersiva a sua própria maneira. Ambos se perdiam, iam e vinham, mas, nos últimos tempos, estavam presos um ao outro, (in)felizmente [como você preferir julgar], por uma corda invisível, intangível, que não machucava. [Atente-se ao tempo verbal].
Depois da visita dela, ele não quis mais saber de nenhuma moça de sua nova capital, nem mesmo da morena. Aprendeu sozinho a canalizar seus impulsos hedonistas em textos que mais pareciam uma continuação não-autorizada de Opus Pistorum, como se o protagonista tivesse embarcado da França para o Brasil. Quando teve uns dias de folga depois de cobrir as férias de uma colega, realizou uma visita surpresa antes do casamento a sua terra natal e mostrou os rascunhos para a mais nova psicóloga do pedaço, que analisou os contos como balzaquianos demais para pornografia.
- Quê? - Indignou-se o rapaz.
- Cara, quem é que descreve o corpo de uma mulher desse jeito tão apurado hoje em dia? - Fazia uma crítica completamente ironizada. - Cuidado que o Miller e o véio Buk vão puxar teu pé a noite. Faltaram uns palavrões aí no meio também.
- Nem todo homem fica soltando sacanagens verbais pra toda mulher. - Exaltando a voz, disse ao desviar o olhar.
- Esqueci de levantar a placa luminosa de “ironia”, foi mal… - Tirou a cara de riso e o encarou seriamente. - Cê sabe que gosto desse teu jeitinho inocente, sem putaria.
- Olha a boca, menina.
- Não dá, fica muito embaixo dos olhos, só se for no espelho, tem algum aí? - Extravasava nela euforia pelo reencontro quatro meses depois daquela noite em que seus corpos se despiram e se despediram do quarto 35, sabendo que estava tudo bem entre eles.
Era a primeira vez que ele pisava na casa dela, nem mesmo quando ainda moravam na mesma cidade entrara lá. Da rodoviária diretamente para o alto da C. Não fez questão de ir à casa dos pais, onde viveu por vinte e três anos. Um ano sem vê-los e nem um pingo sequer de saudade.
Foram três dias acompanhados de uma maratona incansável de desventuras em Litchfield e um afeto entre Eva e Jean cada vez mais crescente. Talvez ainda houvesse um resquício da timidez que os prendia ao passado, mas tal fraqueza se desfazia a cada novo minuto, a cada novo afago no cabelo, a cada novo gemido, a cada nova madrugada em claro, convertendo-se no que ambos queriam negar: Amor. Não que não quisessem mergulhar, mas o pessimismo os impedia de mergulhos profundos no mar que talvez tivesse potencial enérgico para abastecer seus corações por muito mais tempo do que acreditavam. Fechavam-se para falar sobre o que viviam juntos e não havia gigante capaz de destruir a muralha de medo. Só o tempo.
Na manhã de quinta-feira, o último dia do jornalista na cidade, a psicóloga recebeu o convite para acompanhá-lo em seu retorno à Curitiba naquela tarde. Para ele, ela ainda estava desempregada, desocupada, em busca de novas oportunidades.
- Mas você não tem mais uns dias de folga? - Disse ela, atingida por uma vontade de ficar com ele por mais tempo, enquanto a verdade lhe coçava a garganta.
- Tenho, mas vou resolver umas paradas do apartamento, o contrato termina mês que vem e não sei se a proprietária vai querer renovar.
- Que merda… Desculpa, mas eu não posso ir. Estava guardando a surpresa pra depois.
- Sem problemas, mês que vem tem o casamento de qualquer jeito... Espera… Surpresa? Meu Deus, cê tá gravida…
- Calma, não, credo… É que eu consegui um trabalho.
No banheiro, ele escovava seus dentes e cuspiu pasta no espelho ao ouvir a notícia.
- Sério? - Disse, com a boca ainda cheia de pasta de dente.
- Numa clínica bem interessante, só assistem crianças carentes.
Eva ainda estava deitada em sua cama, não queria sair dali, ainda mais ao saber que seriam suas últimas horas com Jean. Depois, só no casamento.
- Tudo a ver com tua monografia… - Secou o rosto e retornou para cama, lugar onde agora Eva conseguia repousar sem receio de ser apenas mais uma mulher a se deitar ali. Jean lhe deu um abraço de parabéns e ficaram deitados por mais uma hora, trocando afagos.
Ela preferiu não ir até a R. T. e ele nem fazia questão. Não reduziria a saudade, muito menos a ansiedade pelo próximo encontro. Estavam cada vez mais apaixonados, mas ainda incapazes de assumir.

2015/03/30

9

Enfim voltei, um tanto atrasado, mas cheguei, anos depois da partida. Não desejo parabéns pela atitude, quero somente me sentar e conversar - mesmo que sozinho. Estou aqui, fuma um cigarro comigo pelo menos. Calma, sei que é contra isso, mas esse desgosto de nada adianta agora. Vim de longe sem esperança de que você quisesse me ver, receber-me aqui, permitir minha entrada, ainda mais pra me ver fumando. Eu sei, te decepcionei, não só com esse vício, não me odeie porém, tenho novas histórias pra te contar que te farão soltar sorrisos orgulhosos. Depois da partida, aliás, comecei a escrever histórias, mas poucas delas sobre você, porque ainda me faltam palavras... Também preciso confessar contos e pensamentos que só me trazem remorso. Muito melhor do que eu, tão humana quanto eu, você sabe que é impossível nunca falhar, nunca errar em escolhas e impulsos. Não te culpo pelos teus atos aparentemente errados e já é tarde para saber das tuas vivências que desconheço, não me interessam. Tarde demais. Não mudará o que sinto por você. Um sentimento puro que sobrevive apenas de sombras, borrões do teu rosto e resquícios quase inaudíveis da tua voz. Não consigo mais ficar aqui, desculpa. Desculpa por tudo. Pensei que todo esse tempo faria cicatrizar a dor da ausência. Enganei-me. Fica com esse resto de cigarro, faz de conta que é uma vela para simbolizar o luto que me marca até hoje. Finge que está tudo bem e que não saí de casa na manhã daquela quinta-feira. Finge que me abraça forte e seca todas minhas lágrimas. Finge comigo, por favor, porque essa realidade sem você dói. Ainda machuca. Tua ausência me levou a tantos lugares distantes daqui, mas continuas presente em memória - e não são poucas nem leves. Onde estou, você está. Não sangro mais para evitar derramar teu sangue, tua única memória ainda tangível.

2015/03/23

Porcelana: Tesoura sem ponta

- Como assim, você vai ter que passar o fim de semana cuidando da tua irmã? - Gritou o outro antes mesmo de a fala do rapaz se encerrar.
- Amor, você sabe que... - Ele não ouviu o resto, porque a porta de madeira recém fechada abafou a voz daquele que amava. Trancou-se no banheiro. Uma pessoa inofensiva fisicamente - até então. Se causava mal a alguém, era com palavras. Até aquele momento de sua vida, não havia sentido vontade de ferir alguém. Feriu, outras vezes, internamente. Machucou-se também. Livrou-se de outras pessoas sem a necessidade de sangramentos reais. Só abalos sísmicos na alma. Mas ali, naquele apartamento onde repousava há tanto tempo, ali, naquele 30 de março, data sem grandes marcos em sua vida até então, ali, o local da morte de seu pacifismo, surgiu a raiva brutal de não saber lidar com a situação de forma simples, como, por exemplo, dizer “adeus”. Começou com “como assim, você vai ter que passar o fim de semana cuidando da tua irmã?” e terminou com “desculpa, meu amor, desculpa”, lágrimas, sangue e sirenes.
Respirou até parar de tremer e voltou ao quarto, onde o rapaz reclinava-se sobre o parapeito da janela enquanto fumava mais um cigarro.
- E tua vó?
- Continua internada.
- Que porra, ela não superou ainda?
- O quê, superou o quê?
- Teu pai!
- Cê sabe que não é por causa disso que ela tá internada.
- Ah, que seja, mas acho que essa menina já tá bem grandinha, aposto que consegue se virar sozinha.
- Claro, três anos e quatro remédios pra tomar todo dia, claro que consegue.
- Não dá pra levar levar ela junto com a gente?
- Primeiro, a reserva é prum quarto pra duas pessoas com cama de casal. Segundo, impossível a gente conseguir um novo em cima da hora. Três, a alergia dela é desgraçada, ataca em qualquer lugar novo.
- Queria só você.
- Não queira só eu, não posso ser sua única ocupação.
- Mas você disse que a gente…
- Sim, eu disse, mas não me venha com esse mimimi, caralho…
- Ui, não precisa surtar…
- Não tô surtando, só tô cansado dessa tua carência excessiva. Nem minha irmã doente escapa, coitada. Se eu tivesse prometido um fim de semana com ela e você tivesse ficado doente, eu daria um jeito pra cuidar de você.
- Então se eu ficar doente agora, cê fica comigo?
- Não brinca. Falando assim, parece que cê tá doente da cabeça.
- Doente por você...
- Para. Preciso buscar minha irmã. E pode deixar que vejo o negócio das passagens e do hotel. Vamos em maio?
- Ah... Ok, depois do dia 15.
- Ok, se cuida. E vem visitar a gente amanhã.
- Vou pensar.
- Fica bem, tá?
Abraçaram-se com calma. No peito do outro, um amargor enraizado no coração que ia se expandindo pro resto do corpo, até que alcançou seus olhos, fazendo cair uma solitária lágrima, com algum teor de raiva, e sua boca, dizendo:
- Cara, eu te amo de um jeito que você nunca vai entender.
O rapaz pegou sua mochila aberta e deixou cair um livro, uma carteira de cigarros, um par de chaves e uma tesoura. O outro cismou com o livro, recolhendo-o do chão: - “O amor acaba”, que porra é essa?
- Acaba mesmo, mas isso é a porra é de um livro que tô lendo.
- Como assim, "acaba mesmo"? Cê tá dizendo que a gente vai acabar?
- Uma hora ou outra...
- Tá vendo essa lágrima no meu rosto? Ela vai secar, mas o que eu sinto por você... Quando vai secar? É um oceano que...
- E quando a Era Glacial chegar de novo? Vai congelar.
- Mas ainda assim vai existir, de qualquer jeito.
- E se faltar ar pra gente respirar?
- Não vai...- Você deveria ler esse livro, pelo menos a crônica principal.
- Qual?
- Essa sobre o amor acabar.
- Mas não acaba!
- Amor, acaba.
- É o que você quer acreditar? Que a nossa história vai ter fim?
- Vai, mas não acredito que seja agora. Para de ser estupidamente otimista ao pensar que amor eterno existe.
- Por favor, para!
- De te amar?
- De ser tão infeliz, de querer azedar nosso amor.
- Como, se a vida se encarrega por conta própria de nos destruir? - Pegou os demais objetos caídos, mas não foi rápido o suficiente para segurar a tesoura, que o outro logo segurou com força, mirando o próprio peito:
- Eu faria isso, sabe, se você fosse embora um dia...
- Não seja babaca!
- Por você... - Apertou a tesoura sem ponta contra seu coração.
- Para! - O rapaz tentou intervir, numa tentativa de envolver em seus braços o outro, que desviou velozmente, e agora mirava a tesoura em direção ao pessimista:
- Me diz que a gente vai ficar junto! Fala antes que eu...

Em meio a tanta arte descarregada em papéis, telas e muros, o outro empunhando a tesoura sem ponta jamais encontraria forma mais eficaz de demonstrar e eternizar sua obra de desespero do que aquelas duas cicatrizes no peito do homem que amou. A marca permaneceria perto do coração, ao contrário do afeto entre os dois, que se desfez tão facilmente quanto as linhas usadas para costurar horas depois os pontos no peito do ferido.

- Chama a ambulância e some da minha vida. - Ordenou o rapaz com sua voz lenta e dolorida.
- Desculpa, meu amor, desculpa! - Disse o outro, encharcado em suas próprias lágrimas e sangue daquele de quem estava estendido em seu colo.

2015/03/04

I Miss Trees

Cheguei a cogitar, confesso, que, no alto de minha sandice, ele fosse uma miragem fruto da minha mente suplicante por suor e prazer, mas minha imaginação jamais seria capaz de me matar a cada novo orgasmo.

Numa comparação superficial com um dos filmes não-inspirados em minhas sagas românticas e sexuais, eu sou Joe, ele é Jerôme e ela é P., a destruidora de sonhos. Diferentemente da outra história, quem entrou no trem já no meio do trajeto fui eu.
Outra semelhança, inveja da pequena Joe: um pai que sabia tudo sobre árvores e dava aulas a cada novo passeio em bosques da cidade. Eu não tinha uma figura paterna afim de Flora nem de qualquer outra coisa. Já eu só queria meu cobertor de retalhos, TV e chocolate. Meu pai viveu em depressão até que enfim concretizou sua maior vontade. Não senti dor quando ele se foi, apenas tive - e ainda tenho - saudades de vê-lo no canto da sala com seus cigarros e cadernos de palavras cruzadas. No primeiro verão sem esposo, minha mãe decidiu tirar licença do trabalho pra ficar com a filha. Hoje percebo que ficara bastante perdida naquela época. Não que meu pai fosse tão presente em nossas vidas quanto deveria ser para se postar como uma bússola para nós, mas sua ausência enquanto um peso morto no apartamento, apenas sorrindo pra gente quando dizíamos ou fazíamos alguma coisa, era essencial para que minha mãe não se perdesse. Depois, ela superou e se perdeu novamente em novo amor. Eles se amavam de uma forma bem específica e isso me influencia até hoje na buscar pelos amores mais peculiares - e possíveis.

Foi aí que o encontrei acidentalmente enquanto procurava por outra pessoa.

Essa porra de sexismo se infiltrando em tudo disfarçadamente pra tornar as coisas, a arte, mais androcêntrica possível, exaltando o homem como o centro positivo da história. Como se em todos os casos de infidelidade matrimonial a culpa fosse da mulher, seja da esposa que não dá amor e sexo suficiente ou da “outra” que se mostrou “fácil” demais com suas curvas sensuais.
Escrevo sobre ele ou qualquer outro cara que me encantou alguma vez, porque não sei escrever sobre mim sem utilizar ódio, depreciação e desprezo em todas as linhas, ao contrário dos litros de carinho e paixão que destilei ao longo da minha vida literária sobre os amores que vivi. Não escrevi sobre romances entre mulheres porque nunca vivi um e me preocupo em transcrever tudo o que corre em minha mente enraizando-me em sinceridade. Queria sentir algo a mais por elas, mas nunca senti. Talvez agora.

Jerôme da minha história - com as devidas adaptações de um roteirista ainda mais sádico - partiu por um motivo diferente, dizendo que não conseguia mais mentir para P. - personagem também traduzida para a minha realidade trágica.
A quebra de nossa rotina doeu, fez sangrar, mas eu sabia que aconteceria, ainda assim a consciência da tragédia não reduziu o impacto. Bati de frente, sem cinto, contra o muro da solidão. Não que ele fosse a pessoa mais presente, mas as poucas horas que passávamos juntos já preenchia todos os meus vazios.

Entreguei-lhe um bilhete com um trecho de I’m wrong -

“tell me you're lonely
tell me this song is not about you only
and i'm a lie”

- mas ele respondeu que não entendeu. Ele nunca me entendia. Só entendia que eu o queria. Não entende até hoje que eu ignorava conscientemente a existência de um matrimônio fracassado em sua vida e eu era um clichê. A outra. Ele não sabia o principal: nós duas nos conhecíamos. Apesar de uma amizade virtual iniciada por um desleixo meu, num passeio por perfis de pessoas desconhecidas, ao solicitar amizade sem querer. Antes que eu cancelasse o pedido, Mad já tinha aceito e enviado uma mensagem. Começamos a conversar quase diariamente e percebemos vários gostos em comum. Num show de uma das bandas que ambas gostávamos, combinamos de nos vermos lá, mas ela não foi. Ele foi. De tanto conversarmos, ela já tinha falado dele e o reconheci. Não lembro se estava bêbada ou alegre naturalmente, mas puxei assunto com o desconhecido, sem citar a esposa, e fomos nos entendendo, até que tudo explodiu. Começamos como uma relação estritamente sexual e... permanecemos assim até o fim. Tirando a parte em que eu, sempre eu, me perdi em confusão de sentimentos e achei que deveria inserir amor na relação, aquele tipo de amor que sobrevive longe do sexo.

Contradigo-me, eu sei. Ao mesmo tempo que queria tentar imergir em um vida com cats, dogs and kids e o que mais houver no mundo do casamento, não conseguiria fugir do furacão da nossa existência, todas as noites suadas e as partidas repentinas.

Destrinchei minha alma para escrever todas as canções sobre dores e agora alguém lê isto, mais um de meus discursos cheios de frases e referências que ele nunca pegou nem entendeu. Algo de bom restou de nossa história: um coração partido e muita inspiração para músicas que lançarei em breve. Mandarei pra ele um disco de presente - ou um link para download -, mas que ele não venha pedir sua parte dos lucros, porque pretendo gastá-la com cerveja e livros.

Sinto falta do que nunca tive. Sinto falta de uma árvore para deitar sob sua sombra e ouvir histórias do meu pai.
A posse não existe em forma tangível, não consigo convencer algo ou alguém a me pertencer (na forma mais poética e menos obsessiva da palavra “posse”). O que de fato eu tenho é minha confusão e incapacidade para lidar com relacionamentos. Não sei falar, sei sentir e parece que isso é insuficiente para muita gente. O que faltou no caso em que protagonizei como amante foi diálogo, aliás em qualquer relacionamento meu. Acho que não só nos meus, talvez seja um clichê muito maior do que eu imagino. Falando em repetições, arte imita vida, vida imita arte, vida imita vida, não sei se desempenhei o papel de “a outra” com primazia porque em outras histórias, elas, ou eles, por que não?, abstinham-se de afeto, amor ou como você queira chamar essa desgraça que queima o peito e me deixa viva ao mesmo tempo que mata.

Eu sou a amante. Sempre serei. Amar demais é minha sina. Sentir demais é minha vida.

2015/02/28

Faísca

Conscientes de não viverem numa fantasia romântica, em que rotação e translação congelassem, dando tempo suficiente para que aquelas duas pessoas decidissem individualmente como reagir àquela colisão. Desviar o olhar, cumprimentar apenas com os olhos, soltar um “oi” tímido, abraço, beijo, proposta de casamento, pedido de desculpas, pular na frente do ligeirinho, tantas possibilidades e gritando por imediatismo, o agora.
O mesmo gás carbônico expelido pelo mesmo ônibus inspirado por ela e ele, as mesmas ondas sonoras cantadas pela vendedora de uma loja de calçados… O mesmo sentimento: imprecisão sobre o que corria em seus pulmões além de sangue, ar, álcool e saudade. Era algo inflamável. A fonte para o alastramento desta potencialmente grandiosa e destruidora chama repousava no peito da pessoa se encontrava perdida, a sua frente naquele encontro ao acaso, não apenas mais um apesar de ser mais um, na tarde do último sábado de fevereiro.

Refletindo sobre sua incapacidade para cumprir prazos, com dois livros atrasados para devolução, caminhava em direção à Riachuelo e percebeu, pouco depois do cruzamento, um som de guitarra e caixa do jeito que o J. L. H. gosta, então resolveu desviar sua rota para ouvir a dupla fazer bagunça. Dois minutos foram suficientes para estragar a festa. A corda da guitarra se arrebentou com o peso do Blues.
Lembrou-se que tinha menos de vinte minutos para pegar a biblioteca aberta, deixou generosas moedas para os músicos e seguiu sentido Osório para virar na Monsenhor.
Devolveu os livros, pagou a dívida, pegou mais um e fez o mesmo caminho para ver se ainda encontraria a dupla fazendo seu som, mas não conseguiu, encontrou um oceano no meio do caminho.

Almoçou na 13 de Maio, desejando ter todas as refeições de sua vida, mesmo que fossem só x-saladas e pizzas, naquele lugar. Riu escondida do cara que pegou um pedaço de pizza, um croquete e um sanduíche natural. Algumas pessoas conhecem a própria fome, ponderou consigo mesma.
Entre uma mordida e outra, lia sobre uma mulher e seus conflitos existenciais sobre maternidade, casamento, criatividade, arte, ciência e morte, quando uma moça, não a do livro, levantou-se apressada para fora da lanchonete assim que uma abelha pairou sobre seu copo de limonada. A leitura teve certeza que se fosse um sapo no lugar do inseto voador faria o mesmo.
Passou pela Tiradentes acometida por habituais calafrios que lhe invadiam na proximidade de casas de Deus, lugares onde nunca se sentira em paz. Pouco depois do calçadão da Generoso, travou o passo ao ver um violinista mascarado disparando uma composição desconhecida e encantadora. A máscara lhe lembrava carnaval e Cidade dos Sonhos. Não conseguiu se concentrar no som devido à imagem que ressuscitava lembranças desagradáveis.
Ao cruzar a XV, atendeu seu celular e descobriu que seu amigo, com quem deixou seu cartão de memória na noite passada, não estava mais na Pedro Ivo e teve que subir à Tapajós. Deu meia volta e encarou o chão para passar novamente em frente ao violinista mascarado na Monsenhor. Assim que levantou a cabeça, avistou de longe a bomba atômica caindo em sua direção.