2014/12/14

Patricinha do Maracanã

- Conhece o Wilco?
“Sim, Jesus, etc”, respondi em silêncio a um dos três adolescentes recostados na articulação do Santa Cândida, sentido Capão Raso. Tanto eu quanto Salinger, que não era do tempo dessa banda, permanecemos em silêncio, observando.
- Tô ligado, que que tem?
“Vocês não têm cara de quem gosta de Wilco”.

- Então, piá… Abri um lava-car com ele.

Assim como os dois rapazes que o interlocutor acompanhavam o tal empreendedor, que aparentava ter menos de 20 anos, olhei para ele dizendo, numa entonação adulta, “Quê? Cê tem uma empresa, cara?” Até então, olhava para os garotos acompanhado de uma perspectiva julgadora, antiquada, resolvi apenas ouvir como se fossem meus amigos.
Num momento de silêncio coletivo, resolvi adivinhar onde era o destino deles. Eles desceriam na Bento Viana - mesmo lugar onde desci diariamente há sete anos por dois meses seguidos para um curso para menores aprendizes. Jurei que fariam isso, pois preenchiam o perfil de gente que frequentava aquelas aulas. 15, 16 anos, roupas típicas de adolescentes que necessitam pertencer a um grupo, a uma moda, para não serem losers (mal sabem como é legal ser loser, outsider, deslocado, estranho, etc). Fui desses. Não loser, porque isso sou hoje, mas também já integrei a turma de adolescentes que fazem de quase tudo para serem populares. Até por isso, creio que tenha conseguido identificar os garotos. Já fui um desse tipo. Digo, de biografias, rotinas e bairros diferentes, mas a mesma essência adolescente de provar ao mundo que existe, seja usando roupas e acessórios da moda atual, comprando um carro aos 15 anos, perdendo a virgindade antes puberdade com alguém da mesma rua, entre tantas outras situações, ou, no meu caso, tornando-se o goleiro oficial da turma - numa tentativa de ser incluído no grupo dos populares. Alguém (um holograma de Sartre talvez) deveria surgir para essas pessoas para dizer que para existir, basta existir.
Apesar dos pesares, apesar de eu estar errado em relação ao ponto de parada dos garotos - passaram reto pela Praça do Japão -, apesar de tantas novelas para um garoto de 16 anos, que já teve experiência de negócios e um Monza com módulos de som, turbo e chassi riscado, o que mais me surpreendeu neste adolescente - eu e meu eterno romantismo - foi:
- Já fui casado… Por três meses, piá, com uma patricinha do Maracanã, aí o pai dela descobriu as paradas que eu fazia e separou a gente.
O Balzac em mim começou a escrever um romance inspirado nesse caso. No fim, o velho viúvo confessaria, em seu leito de morte, segurando uma flor de Ipê, árvore sob a qual conheceu sua esposa, que lutou contra o amor adolescente entre a filha e o empresário porque enxergava na própria garota o amor que sentia pela falecida esposa, quando se conheceram, aos quinze anos, e lutaram contra seus pais, desfavoráveis aquele amor. Após o velório, o casal vendeu a casa do recém-falecido, que agora estava com sua eterna amada, e se mudou para o interior de Santa Catarina.
Na verdade, não sei dos porquês nem das consequências do romance com a patricinha do Maracanã, não ouvi o resto do conto. Desci do ônibus antes do fim da relato. Já em casa, comecei a escrever sobre o episódio, mais um daqueles que abandonei leituras para acompanhar disfarçadamente histórias de pessoas desconhecidas.

2014/12/11

Não me mata

Primeira coisa que fiz ao terminar de ler a carta foi pensar no que acontece depois que ele me mata toda vez que assiste (ou assistimos, mesmo que não estejamos juntos) um romance trágico. Poderia perguntar pra ele mesmo, que me entregou a folha sem vontade. Preferi ler em casa e foi melhor: pude desabar no meu colchão. Nem era grande coisa, o texto, mas sei que, se ele se deu ao empenho de escrever a mão e me entregar pessoalmente, era big deal. Esse era um dos encantos nisso que vivemos, apesar da distância atual: a grandeza de coisas simples. De encontros em bancos de praça a despedidas tímidas e ligeiras.
Ele disse que me mata antes do filme de filmes trágicos, mas, se ele faz isso pra evitar minha dor, o que acontece com ele depois? Ele fica sozinho, chorando, sofrendo? Quem é que abraça sua dor? Eu não queria que ele ficasse assim, mesmo que por causa de um filme. Muito menos por minha causa. Eu poderia estar ao lado dele, chorando, sofrendo. Viva.
Pensei em responder a carta, pensei, pensei, demorei. Não tive como retribuir, responder em palavras. Passou-se um tempo, muitos dias, meses, e ainda não havia dado algum sinal de vida pra ele. Talvez eu estivesse mesmo morta. Ou ele, morto. A gente se perdeu. Queria ser reencontrada por ele. Mas eu teimo querer falar sobre sentimentos por ele com olhares, ao lado dele, num lugar qualquer. Dominávamos o "não saber tomar iniciativa", esperávamos pelo conflito de rotas. Durante a espera, passava eu, não sei ele, por outros planetas, camas, bares - porém, ainda na esperança de que ele também estivesse lá me puxasse pra perto dele.
Não sei afirmar se seu sentimento exagerado realmente me incomodava, apesar de não ser algo ruim em doses controladas, mas digo que ele não consegue disfarçar o quanto se joga nas coisas, e parece que gosta disso. De cabeça, sem capacete nem freio, ele vai, não para, até colidir contra o muro da utopia, cair no vulcão do platonismo, se afogar no mar morto da superficialidade... Universos de possibilidades frustradas, destroem-no antes do fim, durante e depois do fim.
Pode até me matar antes do fim, mas me mate também em sua mente, queime todo e qualquer vestígio de boas lembranças do que vivemos. Não quero ser mais uma de suas fantasma, o assombrando com o que não fomos, evocadas em rituais alcoólicos. 
Mentira, não me mata, não! Quero ficar aqui, lá, enfim.

2014/12/05

Sinto falta do teu silêncio

Por viver, já estou morrendo (todos estamos), mas preciso parar de matar mais um pouco de mim toda vez que lembro daquela exposição que vimos juntos (porém separados em nossos silêncios). Ah, não é a única lembrança (não!) que tenho daqueles domingos, daquelas sextas, segundas, terças e daquele sábado. (Sim, meio que guardei desorganizadamente na mente os dias da semana). Nem lembro do que ou quem era a exposição... Na verdade, eram várias, efêmeras em minha cabeça, mas lembro de cruzar contigo pelos corredores e pensar: "Que mulher..." Não sei traduzir teu magnetismo, apenas me aproximo (cada vez mais, sem querer).
Pessoas que saem acompanhadas e prezam pelo silêncio? Sim. Na exposição, a gente trocou frases curtas (diferente de quando conversávamos sobre filmes, séries, pessoas, etc),  mas o efeito da tua presença foi longo. Muito longo. Não sei se persiste. Não sei. Sim, persiste. Insiste.
Sei que queria ter morado contigo naquele lugar por alguns meses até que fossemos eternizados, transformados numa pintura, escultura, poesia, enfim, qualquer arte tão saudosa quanto tua quietude.
E eu... Esquece, deixo aqui o registro da falta que o teu silêncio faz, mas esquece. Aliás, teria você também esquecido o que havia naquele lugar? Lembro da tua presença. 
Não está nos meus planos abraçar a Morte, essa desgraçada, mas saudade mata.
Mas, "se eu parar... pra pensar", o que é que não mata? Amar mata. Perder-me/te/se mata. Perder mata. Vencer mata. Saudade mata. Silêncio mata. Barulho mata. Viver mata.


2014/11/26

Te amo e ponto final

- Você me ama?
- É você quem está indo embora.


Um tiro no meu peito. Tua ausência deixou um rombo no meu peito. Derrubou-me. Doeu… Passou. Voltou, como simples saudades. Como se pudesse encaixar simplicidade na saudade, mas enfim...
Dormi antes dos trinta minutos de filme. Sei que você e esse teu culto por filmes franceses, "por mais que não sejam mais tão vanguardistas, originais ou encantadores, destruidores, , comparados aos de trinta, quarenta anos atrás", como você dizia, odiavam quando eu fazia isso. Mesmo que não gostasse de um novo de um diretor, uma diretora contemporâneo, cê fazia questão de assistir atentamente e captar, em meio a possíveis falhas, algo para que pudesse ser citado depois como algo típico de tal artista. “Isso é muito Garrel”, nunca sabia se falava do pai ou do filho (ou do vô?). Aliás, lembrava de você dizendo, mas não fazia ideia do que se tratava, até que resolvi afogar a saudade em coisas que você gostava.
Justamente por isso, essa tua paixão, preferia não ver filmes contigo. Não era minha área. Não era. Agora é, acredita? Depois que você se mudou e não mais retornou minhas ligações, mensagens, cartas, indiretas etc, decidi guardar o que sentia por você numa caixa, onde encontrei aquela lista de heartbreaking movies que você tinha me dado mesmo sabendo que cinema não era meu forte. Ao lembrar do tanto que falava desses filmes, resolvemos, eu e meu coração destroçado (“oh, broken hearted hoover fixer suckergirl), riscar os itens dessa tua lista aos poucos. Não vou te dar o prazer de te falar como fiquei no final, Elise, mas você deve suspeitar...
Quando ainda estávamos juntos, quer dizer, daquele jeito que estávamos, enfim, toda sinopse de filme que você me indicava tinha alguma situação problemática, trágica ou qualquer outra coisa que pudesse destruir o coração tando de personagens quanto da audiência. Eita masoquismo desgraçado, hein...
“Cara super galã nesse filme e você capotada, roncando”, argumentou você, como se os traços físicos “belos” de alguém fossem me manter acordada. Aquele cara era só físico, fazia sempre a mesma casa em cena, versão masculina de Seydoux, Browning Stewart e cia. (E você ainda exalta a Seydoux, será? Preguiça dessa mulher fazendo aquela adolescente apática). O que lembro hoje do dia em que vi contigo tal filme, que só captei diálogos interessantes pra serem guardados no meu caderno de frases depois, na segunda vez) era você largado no canto oposto do sofá, com uma das pernas sobre o braço do sofá, mexendo na barba - aliás, ainda tem problemas pra fazê-la crescer, ansiedade e tal? Eu não estava ali, parecia, eram só você e o filme. Acho que foi por isso que acabei capotando nos braços de Morfeu, me senti abandonada. Quer dizer, pensei isso até você, que até então estava com a cabeça apontada pra direita, mudar de lado, e repousar seu cofre de pensamentos sobre a minha coxa, como se eu fosse um travesseiro. Ah, como quis ser teu repouso. Por muito tempo. Muito tempo. Mas tempo é relativo, né? Naquela época, foram épocas pra te esquecer, digo, esquecer que te amava, esquecer que desejava tua presença por um longo tempo. Pra sempre, quem sabe. Nah… Hoje percebo que, observando minha própria situação de longe, muito longe, nem foi tão demorado assim superar tua ida. Não voltou, ok. 
Aliás, parabéns, graças a tua ausência pude me considerar cinéfila. Demorei pra entender que as maratonas eram pra preencher a falta que você me fazia.
Depois de tanto tempo afinal, percebi que quão você era, ou ainda é, sádico para relacionamentos. Reais ou representativos. Pra você, “a vida imita a Arte” é quase uma filosofia de vida. O contrário também. Gosta, ou gostava?, de se enxergar filmes, músicas, séries, pinturas etc etc. Parece que você só existia quando se via em outra coisa.

Um tiro no meu peito. Tua ausência deixou um rombo no meu peito. Derrubou-me. Doeu… Passou?

Não sei se você ainda lembra de mim como uma pessoa que esteve na tua vida, no teu coração, na tua cabeça, por um longo tempo ou apenas tem cravada na mente a recordação de uma pessoa que não quer reencontrar. Mas, saiba, ainda te amo. Não aquele amor que a gente costumava definir, como era mesmo?... Nem lembro mais. Não que não tenha sido importante, a definição ou o sentimento em si, mas o espaço que tua ausência criou foi se ocupando aos poucos com novos vícios, novas distrações, paixões, o que seja. Ainda te amo, mas te amo pelo o quê você era, pelo bem que me fez, pelas experiências que vivemos juntos, pelo encanto dos teus olhos, do teu carinho, do teu silêncio, que ainda me visita de vez em quando mostrando que a cicatriz no meu peito pode estar a um encontro de romper, explodir, e deixar sangrar novamente tudo. Te amo e...
Não, não tente me encontrar, stop!, não existo mais. Aquela pessoa que dormia, no sofá, no cinema, onde fosse, ao teu lado só existe em lembranças, mas você talvez você consiga abrir meu peito e encontrá-la, resgatá-la, ou reproduzi-la num conto, num filme.

2014/11/08

Porcelana: Cicatrizes



Entrou no banheiro para tomar banho sozinho. Ela, que ansiosamente respondeu que não queria entrar junto com ele no box, ficou deitada, reflexiva. Suas costas e seu peito estavam encharcados de suor, tanto dele quanto dela. Nas paredes, azulejos, alguns deles quebrados, bege com flores desenhadas em marrom. O chuveiro, de ferro, enferrujado, parecia que soltaria café ao invés de água. Postou-se no box, abriu a torneira sem medo e foi atingido por uma enxurrada de água gelada que rapidamente esquentou, sem dar tempo para fugas ou grunhidos de susto. Sorridente, não tinha tempo para temer temperaturas, estava bem demais para se preocupar com isso. Água batendo no pescoço, encarava o chão, refletindo sobre o que aconteceu. A mulher.
Logo ela, que parecia apenas mais uma pessoa com que cruzaria nos corredores da cidade, dava a impressão desproposital de que marcaria sua pele, não, sua carne, sua alma, com ferro quente.
De olhos fechados, transportado a um êxtase relaxante, sorrindo contra a água, não percebeu que a moça entrara no banheiro e começara a se despir para entrar com ele. Era a primeira vez que os dois corpos nus se viam longe da escuridão. Antes, naquele quarto, ela disse, quando começaram a tirar as roupas:
- Fecha a cortina, apaga a luz, não quero te ver, quero te sentir.
Mas agora, dentro do banheiro, conheciam as formas físicas dos corpos a olho nu, corpos nus.
Abraçou-se por trás, passando a mão em seus peitos e acariciando a pele e os pelos. estacionou próxima ao coração e sentiu uma diferença na pele do rapaz. Duas, havia duas linhas. Fez com ele ficasse de frente para ela e, alternando a visão entre a marca e os olhos dele, perguntando sem palavras o que seria aquilo.
- Foi assim que terminou - passando os dedos sobre suas duas cicatrizes paralelas no peito. Com a unha, traçou uma linha cortando as duas marcas, de modo que se formasse a primeira letra de seu nome.
Essa era uma marca que ele gostaria de ter em seu peito, em sua vida: o nome dela, a vida dela.
Então foi a vez da moça mostrar sua cicatriz tangível, entre tantas outras marcadas apenas na memória. Olhou para o próprio ventre e o rapaz logo acompanhou o movimento. Um corte horizontal na barriga. Seus olhos miravam o chão, carregados de lágrimas. Invadida por uma melancolia trazida para aquele banheiro pelas memórias cortantes de uma vida que não existia mais, conseguiu desentalar sua garganta, repleta de saudades, apenas para dizer:
- Dói lembrar - chorou, encostando-se na parede e escondendo o rosto nas mãos.
O semblante do rapaz foi tomado pela angústia de não saber o que feria a moça ali, naquela suíte de hotel. A fraqueza por não saber como tirar a tristeza dali reforçava como, às vezes, as pessoas são incapazes de ajudar. A falta de intimidade entre os dois, talvez, impedia que ele forçasse sua alma para tirar algum palpite, alguma resposta, para resolver o problema, a fuga das lágrimas. Queria agarrá-la pelos braços e gritar “para!” até que cessassem as comportas de choro. Cascatas. Soluços.
Não demorou muito para que ela se sentasse no chão e ele imitasse o movimento. Desligou o chuveiro. Sentados lado a lado, sabiam o que aconteceria. Sem uma palavra sequer, entenderam a origem daquela angústia. Os traumas poderiam aniquilar tudo construído pelos dois para os dois até ali.