2015/05/18

carta para novos e velhos amores (rascunho perdido)



Um último brinde antes mais uma de tuas partidas. Partiu meu peito em incontáveis pedaços e agora parte novamente aonde quer que tua liberdade aponte - não abomino seres livres, não mais, porém me machuquei ainda mais nesse vai e vem, traumatizei. Vai e volta, se quiser, mas não me espere aqui. Poderei estar em qualquer lugar. Quem sabe? Jogo na tua frente uma sacola cheia de motivos para você sair e não mais retornar. O mais pesado deles seria, creio, eu, minha instabilidade. Acertei? Ou minha mania de priorizar o escrever ignorando o agir? Toma esse último gole comigo antes que a saudade repouse sobre sua língua e te faça regurgitar o desejo de ficar aqui comigo nesse barco superlotado de memórias fadado ao naufrágio no mar da desgraça. Não embarque, não é saudável. Em nossa viagem, a carga mais constante foi nosso platonismo presente, você sabe, e, antes de sumir, me ajude a jogar isso tudo fora antes que nos afundemos em nada. Bebe, que seja num gole só, para queimar qualquer resto de empatia entalada em sua garganta. Bebe e vai viver tua vida, fazer tuas coisas, abraçar novos e velhos amores (exceto eu, se é que me amou ao menos por um minuto durante o tempo que nos perdemos juntos, o nosso tempo), inebriar-se de algo que não seja minha corrosiva, pessimista, contagiosa e inflamável presença; e, ao menos que seja de fato uma pessoa masoquista emocional, sentimental, passional, enfim, não volte. Viva e morra como e com quem quiser e se esforce para não lembrar de mim quando ver um filme, atravessar uma avenida, entrar em uma loja, embriagar-se no São Francisco, visitar um museu, seguir o vento com uma bicicleta, amar novamente etc.

2015/05/12

Pronto-socorro

A terrível doença crônica conhecida como Amor que vai e volta matando cada vez mais durante o processo ou O relato estúpido sobre alguém ainda mais estúpido

O câncer que havia desaparecido retorna para atormentar um ser, assim era ele: uma desgraça. Daquelas pragas que retornam ao jardim no momento em que todas as flores se recuperaram. Não foi a primeira vez - nem a única e não seria a última - que a seguinte história ocorreu. Era vício. Não espere uma história romântica, isto não passa de repugnância.
Entre espirros e antialérgicos, fungando seu nariz cheio de rinite, ele tentava se reaproximar de/redimir-se com a pessoa que ele mesmo afastou.. O distanciamento, por vezes, se deu por causas líquidas, má digeridas, que se esvaiam sem atrito suficiente para se prender à razão. Ele não se machucava a ponto de procurar o pronto socorro do coração partido. Cismas bestas, nada além disso, que fizeram a outra pessoa acreditar que era o pior ser humano, que fez algo imperdoável e era fortemente odiada, mas não, apenas uma grande injeção de orgulho misturado com teimosia e precipitação. Ele não calculava o estrago que um impulso imbecil pudesse causar na relação com a outra pessoa, só se distanciava. Destruía de longe, assim como o general que ordenou o ataque à Hiroshima e Nagasaki, o que ele mesmo construiu em conjunto com a outra pessoa ao longo dos últimos meses. Seu sado masoquismo nada físico atingia o auge conseguia machucar a si mesmo e, simultaneamente, a outra pessoa, até mesmo a previsão ou ilusão de quebrar corações (incluindo o seu próprio) agradava este setor setor estúpido de seu ego.
Sado masoquismo emocional e contradição, maiores manias indesejáveis. Se ele te disse, ao menos uma vez, impondo a voz, que era a favor de ou contra algo, como, por exemplo, ciúmes e relacionamento aberto, aguarda... Ele vai se contradizer hora ou outra.
Por uma perspectiva otimista, o lado bom disso tudo é a ausência de violência física. O máximo que ele conseguia fazer era derramar-se em textos como este para destilar seu rancor.
No fundo de sua imensa profundeza, ele nunca quis partir. A palavra "nunca" não era aplicada em suas sentenças se não fosse pura verdade, assim como "eu te amo" etc, pureza maior que a do Cristal de Heisenberg. A cisma e o impulso o influenciam há tempos a encarnar uma persona rancorosa, pessimista, vingativa e incapaz de ser amada, porém, não que ele não tivesse esse perfil, longe de serem suas mais notáveis características. Carinho, afago, silêncio… Como este não é um texto para exaltar possíveis qualidades de alguém, mas para simples difamação positiva, relembramos que reações impulsivas causam um estrago enorme.
Não gostava de destruir coisas, pessoas ou sentimentos, mas destruía. O dom que não aceitava.

Pensava no filme Tatuagem, na tatuagem do filme Tatuagem e da tatuagem que faria nas costas quanto atingisse certo tempo de relacionamento com a outra pessoa. Apesar de imediatismo no café da manhã diariamente, também se alimentava com o depois. No quarto de livros, no quarto de felinos, nos encontros comemorativos em [local sigiloso] num dia da semana específico, no nome da primeira filha e nas férias conjugais em que ele iria à Suécia; ela, a algum lugar que o rapaz não conseguia resgatar de conversas passadas, e encerrariam o período de afastamento na Pont Neuf.

What it all / what it all / could be / with you”, cantarolava ele sozinho silenciosamente perambulando por um corredor específico da biblioteca pública, enquanto mais um cigarro indesejado caía sobre seu peito, na esperança de ter o acaso ao seu lado mais uma vez para encontrar a agora novamente estranha. Sentia, em vão, a presença da outra pessoa em diversos lugares, mas nada. Nada dela. Nadava ele em lembranças daqueles malditos lugares. Nem a coincidência queria mais ajudá-lo. Ou era o movimento de translação da terra, que, em seu período anterior, gerou rotas de colisões mais precisas. Não acreditava em destino, obra de Deus nem em si mesmo para tentar reverter a infeliz situação.
O bilhete daquela viagem venceu e não havia blowjob suficientemente recompensatório para que ele permanecesse naquele trem. Teria que conviver com os souvenires. O folheto da peça que viram juntos, guardado em saco plástico na caixa de lembranças; a pintura dadaísta feita no verso de um cupom fiscal, pendurada ao lado da prateleira de romances trágicos; a peça de xadrez furtada da galeria do TUC, servindo agora como peso de papel para jornais literários, que também faziam-no lembrar da outra pessoa;; a propaganda da garota de programa Ashley, dada por um andarilho do Passeio Público...
Muitas recordações maiores que ele mesmo. Pesavam, doíam, corroíam, mas eram consequências merecidas para alguém tão imbecil que impediu a criação de novas experiências. Ele era digno de toda melancolia que lhe invadia.

Sobre a sétima palavra do subtítulo, é meramente ilustrativa, a fim de resumir o que ele sentia (ou ainda sente), mas não serve para assumir que era o que realmente corria em seus vasos sanguíneos, porém não pode se descartar a existência de tal praga, digo, sentimento.
Não pretendia ele apelar ao perdão da outra pessoa, caso, hora ou outra, constatasse estar arrependido, que ainda queria viver (ou, ao menos, tentar) “algo” com ela. Sabia que desculpas não seria suficientes. Deveras orgulhoso para afirmar redenção a tal vontade para pedir mais uma chance. Mas, quem poderia adivinhar?, como se trata de uma pessoa impulsiva, talvez, quando menos esperarmos, ele faça alguma coisa para dizer o que quer - ou o que não quer, contradizer-se, levar suas declarações mais a sério… Possibilidades.
Queria ser condenado a ouvir tudo o que a outra pessoa tem a reclamar sobre ele. Tudo.

2015/04/27

Cobra acumuladora ou Loba não come baratas

Meses, anos, dias depois, ainda se arrastava presa escamas passadas. Não queria, não conseguia abandoná-las. Talvez por crer que aqueles pedaços carregavam restos importantes e impossíveis de serem desprezados do que um dia foi. Recusava-se a aceitar que aqueles resquícios cheios de cicatrizes de sua existência não mais lhe faziam bem.
Contudo, não tinha onipotência sobre si para controlar seu organismo, escamas caíam pelo chão. Matéria orgânica repousava no chão pronta para ser devorada. Não demorou a surgirem baratas pela casa cheia de garrafas vazias, manuscritos vomitados e escamas velhas - há registros de algumas com quase dez anos, ainda jogadas pelo interior da residência.
Insetos encontraram um agradável lar em meio as ruínas de um ser, um lugar com comida, aconchego e calor para os invernos pesados.
Desejava ser o "lagarto que tinha o costume de jantar suas mulheres", mentira, queria ser o próprio Galeano, porém a cobra era ela mesma. Sabia calcular a distância entre desejo e realidade, e sabia o quão difícil seria abandonar o campo das ideias e migrar para a vida real. O platonismo confortava o dócil réptil ao mesmo tempo que o corroía por dentro, as lembranças percorriam seu corpo espalhando caos e flagelação em cada célula ainda viva. O ser rastejante deitava em terreno áspero há meses, anos, dias, sem conseguir descansar. Não dormia, perambulava pela casa revirando gavetas, perambulava pelas memórias, perambulava sobre pedaços de si mesma. Enquanto mais um litro de uísque dançava em seu estômago, queimando tudo, declamava para si: “I Wander… I Wander… I Wander…”, o poema insistia em correr pela sala sem receios de trombar com a cobra fragilizada pelo álcool e derrubá-la. Ninguém a levantaria naquela noite solitária, nem o príncipe encantado, nem a musa inspiradora, nem as baratas, nem Galeano, nem a Loba de Diane di Prima, muito menos as memórias.
No chão, tentando alcançar na escrivaninha o copo de alumínio preenchido com quatro doses de destilado, pensava se havia se transformado na versão reptiliana de Gregor Samsa. Se as baratas que escalavam suas costas se fundissem a cobra, talvez sim, porém sua repugnância (interna) repelia qualquer ser de possível contato ou interesse.
Queria se desfazer das memórias transformadas em escamas. Queria se distanciar das baratas, únicas companheiras que conseguiu encontrar nos últimos meses, anos, dias. Mas sabia que não era capaz de fugir das escamas, dos insetos ou das memórias.

2015/04/18

Lonely People 10/11/12

***



Ele, que se perdeu em outros colos sem vontade de ficar neles por muito tempo, precisava do ataque de palavras da turista. Ela também se perdeu em outros cantos, sem permanecer neles, de uma maneira mais superficial, sem deixar de ser imersiva a sua própria maneira. Ambos se perdiam, iam e vinham, mas, nos últimos tempos, estavam presos um ao outro, (in)felizmente [como você preferir julgar], por uma corda invisível, intangível, que não machucava. [Atente-se ao tempo verbal].
Depois da visita dela, ele não quis mais saber de nenhuma moça de sua nova capital, nem mesmo da morena. Aprendeu sozinho a canalizar seus impulsos hedonistas em textos que mais pareciam uma continuação não-autorizada de Opus Pistorum, como se o protagonista tivesse embarcado da França para o Brasil. Quando teve uns dias de folga depois de cobrir as férias de uma colega, realizou uma visita surpresa antes do casamento a sua terra natal e mostrou os rascunhos para a mais nova psicóloga do pedaço, que analisou os contos como balzaquianos demais para pornografia.
- Quê? - Indignou-se o rapaz.
- Cara, quem é que descreve o corpo de uma mulher desse jeito tão apurado hoje em dia? - Fazia uma crítica completamente ironizada. - Cuidado que o Miller e o véio Buk vão puxar teu pé a noite. Faltaram uns palavrões aí no meio também.
- Nem todo homem fica soltando sacanagens verbais pra toda mulher. - Exaltando a voz, disse ao desviar o olhar.
- Esqueci de levantar a placa luminosa de “ironia”, foi mal… - Tirou a cara de riso e o encarou seriamente. - Cê sabe que gosto desse teu jeitinho inocente, sem putaria.
- Olha a boca, menina.
- Não dá, fica muito embaixo dos olhos, só se for no espelho, tem algum aí? - Extravasava nela euforia pelo reencontro quatro meses depois daquela noite em que seus corpos se despiram e se despediram do quarto 35, sabendo que estava tudo bem entre eles.
Era a primeira vez que ele pisava na casa dela, nem mesmo quando ainda moravam na mesma cidade entrara lá. Da rodoviária diretamente para o alto da C. Não fez questão de ir à casa dos pais, onde viveu por vinte e três anos. Um ano sem vê-los e nem um pingo sequer de saudade.
Foram três dias acompanhados de uma maratona incansável de desventuras em Litchfield e um afeto entre Eva e Jean cada vez mais crescente. Talvez ainda houvesse um resquício da timidez que os prendia ao passado, mas tal fraqueza se desfazia a cada novo minuto, a cada novo afago no cabelo, a cada novo gemido, a cada nova madrugada em claro, convertendo-se no que ambos queriam negar: Amor. Não que não quisessem mergulhar, mas o pessimismo os impedia de mergulhos profundos no mar que talvez tivesse potencial enérgico para abastecer seus corações por muito mais tempo do que acreditavam. Fechavam-se para falar sobre o que viviam juntos e não havia gigante capaz de destruir a muralha de medo. Só o tempo.
Na manhã de quinta-feira, o último dia do jornalista na cidade, a psicóloga recebeu o convite para acompanhá-lo em seu retorno à Curitiba naquela tarde. Para ele, ela ainda estava desempregada, desocupada, em busca de novas oportunidades.
- Mas você não tem mais uns dias de folga? - Disse ela, atingida por uma vontade de ficar com ele por mais tempo, enquanto a verdade lhe coçava a garganta.
- Tenho, mas vou resolver umas paradas do apartamento, o contrato termina mês que vem e não sei se a proprietária vai querer renovar.
- Que merda… Desculpa, mas eu não posso ir. Estava guardando a surpresa pra depois.
- Sem problemas, mês que vem tem o casamento de qualquer jeito... Espera… Surpresa? Meu Deus, cê tá gravida…
- Calma, não, credo… É que eu consegui um trabalho.
No banheiro, ele escovava seus dentes e cuspiu pasta no espelho ao ouvir a notícia.
- Sério? - Disse, com a boca ainda cheia de pasta de dente.
- Numa clínica bem interessante, só assistem crianças carentes.
Eva ainda estava deitada em sua cama, não queria sair dali, ainda mais ao saber que seriam suas últimas horas com Jean. Depois, só no casamento.
- Tudo a ver com tua monografia… - Secou o rosto e retornou para cama, lugar onde agora Eva conseguia repousar sem receio de ser apenas mais uma mulher a se deitar ali. Jean lhe deu um abraço de parabéns e ficaram deitados por mais uma hora, trocando afagos.
Ela preferiu não ir até a R. T. e ele nem fazia questão. Não reduziria a saudade, muito menos a ansiedade pelo próximo encontro. Estavam cada vez mais apaixonados, mas ainda incapazes de assumir.

2015/03/30

9

Enfim voltei, um tanto atrasado, mas cheguei, anos depois da partida. Não desejo parabéns pela atitude, quero somente me sentar e conversar - mesmo que sozinho. Estou aqui, fuma um cigarro comigo pelo menos. Calma, sei que é contra isso, mas esse desgosto de nada adianta agora. Vim de longe sem esperança de que você quisesse me ver, receber-me aqui, permitir minha entrada, ainda mais pra me ver fumando. Eu sei, te decepcionei, não só com esse vício, não me odeie porém, tenho novas histórias pra te contar que te farão soltar sorrisos orgulhosos. Depois da partida, aliás, comecei a escrever histórias, mas poucas delas sobre você, porque ainda me faltam palavras... Também preciso confessar contos e pensamentos que só me trazem remorso. Muito melhor do que eu, tão humana quanto eu, você sabe que é impossível nunca falhar, nunca errar em escolhas e impulsos. Não te culpo pelos teus atos aparentemente errados e já é tarde para saber das tuas vivências que desconheço, não me interessam. Tarde demais. Não mudará o que sinto por você. Um sentimento puro que sobrevive apenas de sombras, borrões do teu rosto e resquícios quase inaudíveis da tua voz. Não consigo mais ficar aqui, desculpa. Desculpa por tudo. Pensei que todo esse tempo faria cicatrizar a dor da ausência. Enganei-me. Fica com esse resto de cigarro, faz de conta que é uma vela para simbolizar o luto que me marca até hoje. Finge que está tudo bem e que não saí de casa na manhã daquela quinta-feira. Finge que me abraça forte e seca todas minhas lágrimas. Finge comigo, por favor, porque essa realidade sem você dói. Ainda machuca. Tua ausência me levou a tantos lugares distantes daqui, mas continuas presente em memória - e não são poucas nem leves. Onde estou, você está. Não sangro mais para evitar derramar teu sangue, tua única memória ainda tangível.