2013/11/30

A história que eu não escrevi - Parte I

A história que eu não escrevi
(Teoria das cordas e as bifurcações ora almejadas ora indesejáveis da vida)

Parte I
O término

Sentamo-nos no banco da praça, que já estava acostumado com nossa presença semanal. Firmei minhas costas no encosto de modo tão rígido quanto minha decisão. Não dava mais.
Quase desisti quando nos abraçamos. A ansiedade de executar meu plano somada a angústia do seu atraso me fazia roer as unhas e arrancar os fios da barba.  Ela enfim chegou me lançando de longe um olhar que demandava perdão. Seus olhos castanho-claros brilhavam e me hipnotizam. Acelerou o passo conforme se aproximava e disse que antes que eu surtasse, ela queria me mostrar um negócio. Tirou da bolsa um presente e me estendeu. Parecia que havia me dado uma facada. Doeu-me ter gostado da lembrança pouco antes de eu dizer que não queria mais ficar com ela. Dei-lhe um abraço como se fosse o último. Era o plano.
Depois de um diálogo sobre como nossos dias haviam se passado até então, ficamos observando em silêncio uma criança correndo pela praça carregando um sorvete numa das mãos e uma guia com um cachorro maior que ela na outra. Logo dois adultos correram atrás do pequeno ser gritando para que ele parasse. Era nossa rotina passar horas em praças do Centro olhando esse tipo de coisa. Eu gostava disso, de olhar a vida, mas não me sentia mais bem ao ver que minha vida estava estagnada nesse quase um ano de namoro.
Não que o amor tivesse se extinguido em mim, foi por isso, por excesso, que decidi me livrar da pequena dos olhos castanhos. Eu estava apaixonado por outra.
Eu poderia me fantasiar de “um cara normal” para administrar um namoro e um caso, mas eu não era assim. Em todos os meus relacionamentos (como se tivessem sido muitos até então), esforçava-me para ser intenso e completamente dedicado, chamem de fanático religioso. Eu queria me jogar por inteiro, de cabeça, assim que a mulher fizesse o mesmo.
Quanto mais eu namorava a primeira, menor meu amor por ficava. Quanto maior a rotina com a primeira, mais eu queria fugir disso. Quanto mais eu ficava com a primeira, mais eu queria a outra. Quanto mais eu acariciava a primeira, mais eu queria tocar os lábios da outra.
Eu via bastante a pequena, estávamos acostumados a uma rotina fixa, não podia reclamar de sua ausência. Mas a outra, ah, era a pessoa que eu mais via durante a semana. Por mais que eu não quisesse vê-la, por mais que estivéssemos brigados, ela estaria lá.
Eu bem que poderia empurrar a outra num canto, explanar meu desejo e mantê-lo em segredo entre nós. Mas eu não podia fazer isso com a primeira, não seria justo. Eu a amava muito, mas todo o encanto estava sumindo, saindo de meu corpo. Por mais que eu não amasse mais tanto a primeira, eu tinha uma imensa gratidão por ela. Conseguiu me realocar nos trilhos da vida, eu estava perdido antes dela. Mais que perdido, afundando amarrado a meu passado. Ela me salvou. Porém, eu estava curado. Renovado. Pronto para seguir. Partir.
Essa pequena tinha certos poderes. Ela me conhecia melhor até que eu mesmo. Ainda em silêncio, permanecíamos na praça sob o céu nublado. Então ela disse:
- O que foi? Por que cê tá com essa cara? – fez uma cara de quem parecia saber o que eu pretendia dizer. Respondi.
- Isso vai doer...
- Tatuagem? Qual delas cê vai fazer? A cruz ou a seringa?
Até então, enquanto ela me olhava, eu mirava o chão. Então a mirei:
- Não, não é isso.
- O que foi, menino? – espantou-se.
Dei uma longa inspirada e expirei soltando todas as palavras que me sufocavam.

Tudo dito, um vento soprou meu rosto, fechou meus olhos e me levou para longe dela, das consequências e da falta que ela faria.

2013/11/26

Suco de laranja na mesa 15

Numa região repleta de prédios públicos, profissionais e estudantes de Direito, ele se alimentava de seu livro, um queijo quente e um chá gelado. Era o segundo dia em que repetia seu novo ritual: sair do trabalho (que ficava na quadra vizinha da lanchonete), fazer seu pedido, sentar-se na mesa nº 15, abrir um livro e permanecer ali até a hora de ir à faculdade.
Distraído com a história que lia, não olhava para o sanduíche que comia, não media o tamanho da mordida. Com a boca lotada de queijo e pão, olhou pra fora e viu, na calçada oposta, uma moça de casaco amarelo. Ela veio atravessando a rua na direção da lanchonete e Evandro tentava identificar se a pessoa lhe era conhecida. Não reconheceu, mas não tirou o olhar da moça. Ele nem mastigava mais apesar de sua boca ainda estar cheia de comida. Fora pelo fato de ela ser linda, seus batimentos aceleraram ao vê-la entrar no mesmo lugar em que ele estava.
Como a mesa 15 era uma das mais próximas da rua, numa espécia de ambiente externo (porém fechado), ele não conseguiu mais ver a moça, que, certamente, estava no balcão fazendo seu pedido.
Tentou retomar sua leitura, mas estava acelerado demais para juntar letras. Apesar do nervosismo de motivo desconhecido, conseguira terminar de mastigar a mistura que estava petrificando em sua boca. Sentado na direção da rua, começou a olhar por sobre os ombros a fim de ver onde a moça se sentaria. Mirou rapidamente seu olhar ao livro quando viu que ela estava vindo. A moça loira, de olhos azuis, casaco amarelo e de altura que batia nos ombros de Evandro (ele não era bom em chutar alturas alheias), sentou-se no outro canto da "área externa" da lanchonete, sob um quadro com copos cheios de suco desenhados.
O rapaz tentou se ajustar na cadeira, estalar os dedos, focar-se no livro, mas se perdia todo e não conseguia ficar sem olhar pra moça. O pedido dela chegou e o fez sorrir sozinho, porque o copo e o sabor do suco que pedira eram idênticos aos do quadro perto dela.
Nos vinte minutos que a moça ficou sentada tomando seu suco de laranja, o rapaz não conseguiu mais comer, beber ou ler. Entrou na rotina de olha-la, desviar o olhar pra rua, olhar, desviar, olhar, desviar, olhar...
Até que ela se foi.

2013/11/24

Epifania sobre uma crise (Egocentrismo carente)

Assim como suas palavras, sua mochila vivia na desordem. Ele se repete muito, insiste em frases como se quisesse implantar isso na memória das pessoas (ou em sua própria cabeça, porque, meu Deus, como ele tem uma memória ruim).
- Ao invés de falar só dos moradores de rua, a gente podia mostrar também o que os comerciantes fazem a respeito, mas sem bancar os bons samaritanos que defendem a ordem e a higiene das ruas, isso soa meio fascista. Vai começa com “Em Curitiba, são mais de...” – sem folego, parou de falar encarou a parede como se estivesse confabulando uma continuação. Interrompi:
- Como que é?
Ele continuava encarando o nada. Deixei-o pensar, até que:
- O que eu falei mesmo?
- Quando?
- Agora! Não lembro.

Dentro de sua bolsa, sempre presente, seu caderno de anotações. Fosse para rascunhos de poemas e contos, lembretes da faculdade ou rabiscos abstratos, o caderninho de capa preta com “Devolver para: lixo” na contracapa estaria em sua mochila. Se não estivesse com o caderno, pode ter certeza que ele teria no bolso alguma nota fiscal de qualquer coisa ou qualquer flyer recebido na rua, que usaria para depositar suas palavras. Isso, quando sem caderno ou papéis, não se empenhava para digitar no celular (coisa que detestava e morria de preguiça de fazer) e salvar na pasta de rascunhos. Ele se desespera para registrar seus pensamentos antes que sua inconfiável memória jogue tudo no além.

Eu não tenho nenhum afeto romântico por ele, apenas aprecio sua companhia e amizade. Sua impulsividade... Na maioria do tempo, ser impulsivo é um problema para ele, pois as pessoas nem sempre estavam dispostas a ouvir seus vômitos verbais. Porém, às vezes, ele nos joga na cara sem pudor algum o que precisamos ouvir.
- Eu não fui no teu aniversário, porque foi no bar que o meu ex trabalha. Se meu namorado soubesse, ia me matar.
- Ah... – encarnou sua cara emburrada apontada pra mim prestes a soltar um de seus sermões – Você é o que? Namorada dele? Cê não tem que ficar se prendendo, caralho! Não é nem por mim, eu também não fui no teu aniversário, mas não foi porquê minha namorada, se eu tivesse uma, me proibiu. Manda esse cara a bosta que cê não tem que se amarrar com esse tipo de gente. “Cause you’re born free!”

Apesar de impulsivo, ele é mais introspectivo. Tinha motivos para explodir, mas preferia implodir em sua mente, chorar calado, soltar gritos mudos que só ele veria.


Sobre desejar seus beijos: não, não quero, mas seu sorriso espontâneo, que ele raramente expõe, mostra todos os dentes e isso é de um encanto incrível. Parece que nesses não tão frequentes momentos ele tenta mostrar sua bela alma, porque ele é assim mesmo: uma pessoa encantadora (que, porém, poucos veem).

Por mais tímido e introvertido que seja, ele possui a necessidade esporádica de gritar ao mundo o que pensa, ama ou precisa. Isso me obriga a tentar ficar por perto, por mais que se irrite comigo ou se magoa por motivos quaisquer, só para ouvir seus discursos motivadores e admiráveis, quando não são desconexos. Uma coisa que o atrapalha na hora de gritar é sua dicção torta que tornava metade das palavras incompreensíveis, mas, das que eu conseguia captar, ele pensava tanta coisa interessante, que todos deveriam ouvir.

Ele é um gênio (não que se esforce para ser um) a sua própria maneira. Hora parecia se importar em transparecer ser alguma coisa, hora não ligava pra nada.

Não sei dizer se ele era mais apaixonado ou apaixonante. Acima disso, era platônico. Vive falando da garota que costuma pegar ônibus com ele, da que o encara na cantina da faculdade, daquela que viu na loja de produtos vegetarianos (segundo ele, que não pegou a segunda via do recibo do cartão, era assim que se lembrava dela), da outra lá que trabalha na balada que ele detesta, da desconhecida que só o provoca, mas não permite aproximação... Eram tantas, que nem mesmo ele consegue se decidir. Tem dificuldades para se focar numa só. Talvez porquê nenhuma dessas seja digna de seus poemas apaixonados ou afagos no trajeto entre orelha e queixo.

Quando ele não está em seus dias de isolamento ou repulsa a diálogos, eu costumo lhe dar carona até o ponto de ônibus. Por vezes, mesmo nessas épocas que andava triste e distante, ele parece se forçar a aguentar as pessoas. Talvez por preguiça de andar ao ponto, não sei.
Nesse dia, sua mochila estava jogada no chão e parecia que o cinto de segurança pesava trezentas toneladas de tanto que ele sofreu para coloca-lo. Eu lhe contava sobre meu novo emprego e como estava contente por ter saído da outra empresa, mas ele parecia ter congelado e observava o retrovisor lateral do carro. Não sei tentava se enxergar ou olhar o passado através do espelho. Seus olhos cansados diziam nada. Não só os olhos queriam cair, seu corpo estava pesado e frágil ao mesmo tempo. Apesar da indiferença, fazia questão de ser educado. Antes de descer do carro, como sempre, apertou meu ombro, disse “muito obrigado, até amanhã” e se foi. Olhei para o banco onde se sentara e vi que seu caderno caíra. Ele nunca fechava seu bloco de notas corretamente de modo que a capa ficasse pra fora. Sempre deixava aberto na última página utilizada. Ele poderia ficar chateado comigo caso descobrisse, mas quis ler sua recente memória:

“Eu realmente queria que todas essas garotas pelas quais eu sinto algo morressem. E, das cinzas de todas elas, surgisse uma nova que me salvasse. Porque eu cansei de estar perdido. Pode acontecer de chegar um elemento novo que mudará tudo e me fará esquecer esses fardos tão belos que me encantam por aí. Por que ainda não criaram um super-herói que distribui amor às pessoas? Porque não dá pra dar algo que não existe! Ainda não criaram a máquina que transforma o intangível em sólido e, provavelmente, não estarei vivo quando esse o dia em que o amor for item da cesta básica chegar.”

Ainda estacionada com o carro, vi que seu ônibus ainda não havia passado. Corri até ele e gritei ansiosa:
- Você vai se matar?
Mostrei-lhe o caderno em minhas mãos e me respondeu com um olhar surpreso:
- Não, cê é louca?
- O que quer dizer isso? - apontei às palavras que ele escrevera.
Pegou o bloco da minha mão, leu as frases como se fossem inéditas e afirmou:
- Tive uma crise de ansiedade no meio da aula e, pra evitar que vocês vissem qualquer drama meu, preferi explodir em forma desses rabiscos, como sempre.
- Por que isso?
- Tá escrito aqui – levantou seu caderno como um pastor levanta sua bíblia cheio de razão – eu estou oficialmente cansado dessa minha situação.
- Mas cê quer se matar?
- Morrer, eu vou. Spoiler da vida: todos morrem! Mas... Me matar? Não.

No final, descobri que ele “só” quer ser amado, mas, nos dias de hoje, ninguém quer amar. Todos querem ter o amor servido na boca com talheres de diamante sem o menor esforço ou qualquer retribuição.

2013/11/22

Inácio não sabe

Inácio não sabe o que o que quer, não sabe nem se quer.
Não sabe se quer sair com a moça do ônibus ou se quer procurar a tal da Marília. Não sabe se quer se amarrar com a moça dos gostos afins ou se quer sentar ao lado da garota que já frustrou outros. A moça dos longos cabelos escuros e da marca no nariz que já cruzou com Inácio três vezes por aí poderia ser sua salvação.
Ele não sabe de nada. Labirintite e astigmatismo saem de seu rosto e tomam as decisões que ele deveria tomar. Ou seja, nada muito preciso acontece em sua vida.
Ele está perdido. Não sabe se vai ou se fica. Ele tem incertezas. Não sabe se arriscar é realmente certo.
“Aquela mina é firmeza, você deveria tentar algo com ela.” Não, não deveria, Inácio, não sabe se realmente deveria, porque tem certeza que uma hora a frustração ocorreria, fosse de sua parte ou da outra pessoa.
Assim como seus olhos, ele tem dificuldade em focar, não consegue mirar em algo e seguir até o fim. Ele se perde. Ele pensa em tudo, em todas, mas permanece um nada.
Ele não sabe onde deixou sua bússola, mas sabe que precisa dela para se centrar e seguir um caminho. Sem ela, ficará rodando em círculos até que sua cabeça se canse e faça com ele caia. Quando levanta, não sabe novamente aonde deve ir. Ele não sabe. Ele não quer ajuda. Ele só sabe se perder. Inácio precisa de ajuda. Inácio não quer ajuda. Inácio precisa de uma bússola. Inácio não sabe aonde ir. Inácio está perdido em seu próprio labirinto desregulado. Inácio se repete tanto em coisas agradáveis quando no que não quer. Inácio precisa de pessoas ao seu lado, mas prefere que seu orgulho egoísta infle cada vez mais e ocupe todo o espaço que os conselhos poderiam ocupar.  Inácio não quer que tenham pena dele, pois sabe muito bem que tudo que lhe acontece é por sua própria culpa.  Inácio possui uma grande impulsividade, até porque se não  fosse tão impulsivo, não seria o Inácio. Inácio quer dormir e acordar lá longe, quando tudo estiver bem.

2013/11/20

Quem é você?

Até consigo me livrar de você, mas você consegue me encontrar. Você é maior que eu e ainda absorve o que eu sou. Talvez seja por você que eu esteja querendo sair, pra não dizer “fugir”, dessa cidade. É que eu não consigo ficar aqui dividindo espaço com isso que sinto por você. Sim, sou fraco e covarde. Estou partindo, pra não dizer fugindo, principalmente de algo que está comigo permanentemente: meus pensamentos (por você). Acredito que um novo eu em um novo lugar tenha a capacidade de esquecer você e reconstruir a minha pessoa. Talvez tudo isso seja em vão e eu nunca consiga me livrar de você. Às vezes, acho que todo esse ódio que jogas em mim seja apenas desejo retido. Você me ama? Eu não. O ódio que eu sinto por você é mutante, transforma-se em amor, alterna em carinho, converte-se em raiva, é instável e não sai de mim talvez porque eu (no fundo) não queira que saia. Eu não queria ser assim, ser você, estar em você, sentir você, mas eu sou. Será que você quer se aprofundar na minha alma e afastar toda essa minha auto defesa em forma de repulsa (metade-ódio-metade-amor) que me assola? Eu não sei o que você quer, quando você quer e se você quer. Talvez você não seja tudo e seja só uma distração passageira. Você está em mim? Você vem e vai dentro de mim como a minha labirintite, mas as doenças, a maioria delas, vão embora, mas você persiste em ficar não sei se por vontade própria, convenção social ou falta de quem perturbar. Você é uma doença? Talvez eu precise mesmo de você. Talvez eu precise mais de mim. Você tem mais de mim do que eu mesmo. Essa compatibilidade poderia funcionar muito bem ou permanecer como está: incompatível, trágica. Talvez você seja tudo ou nada.

2013/11/18

Desafio

Com trechos escritos por Capa Silveira

Eu cansei de brincar, de distância, de só falar. Cansei de sentir por você essa coisa que não acontece, mas deseja. Convicto de não querer mais participar desse jogo de querer e não fazer. Mas eu sou um vai-e-volta. Não sei se esse brinquedo era da tua época. Tudo bem que não sou tão mais velho, mas, sei lá, década de noventa foi uma transição de costumes. Ioiô? Esse você conhece, acredito. O que quero dizer é que sou mais ou menos como esses brinquedos. Eu estou aqui, vou lá embaixo, às vezes a corda enrosca e fico mais tempo do que o esperado, então subo, desço etc. E vou lá, volto pra cá, vou, volto etc. Tudo isso principalmente em sentimentos. Não que eu esteja novamente querendo pegar o ônibus pra tua casa e passar a tarde de sábado discutindo filmes. Não. É que eu voltei a pensar em você (graças a você que aparentemente quis voltar a esse nosso jogo, que eu não queria mais jogar). Mas chega um ponto do meu interesse por alguém que, quando não me sinto correspondido ou quando canso de não agir, me contento em sonhar acordado com fulana. Eu gosto de imaginar histórias. Algumas tão belas que eu tenho vontade de vivê-las (mas como não ajo, só fico imaginando). Não adianta, por mais que eu diga que não quero mais tentar, que cansei de romantismo, que larguei a meta de ter alguém ao meu lado, eu vou e volto.
Verdade seja dita, nem nos encontramos ainda, mas pra ser sincero ou romântico demais ou bobo demais, acho que estamos perdendo tempo nos escondendo. Seus olhos combinam tanto com os meus, seu sorriso se encaixa perfeito no meu, seus dedos entrelaçados nos meus ficam perfeitos (em meu sonho). E no mundo real, pode ser.
Parece que eu não faço sentido, mas não faço questão de fazer. Muito do que digo de modo bagunçado, na minha cabeça faz total sentido. Não, não quero tentar novamente. Não tenho certeza completa sobre esta última afirmação. Eu gosto de brincar comigo mesmo de só olhar, ficar observando de longe e imaginando como seria se fossemos decentemente competentes para agir. Mas noto que não sou só eu aqui que gosta de criar estórias que poderiam dar certo. Percebo que não estou sozinho na odiosa arte do platonismo. Estamos no mesmo barco, mas precisamos ficar em pontas diferentes para equilibrar e evitar que tudo se afunde.

2013/11/12

Bolo de chocolate

- Você quer bolo de chocolate?
Atendi o telefone e logo ouvi a pergunta, mas, ao invés de perguntar quem era imediatamente, preferi tentar reconhecer a voz. Estendi o diáologo:
- Quero, mas cadê?
- No bolso do casaco da Marília, que tá pendurado na cadeira – disse a voz feminina, que ainda não conseguia reconhecer. Também não lembrava de conhecer nenhuma Marília.
- A Marília! Tia da minha mãe! Eu sei que você quer bolo, pega lá.
Comecei a filtrar na minha cabeça todas as mulheres que tinham uma voz semelhante a essa do telefone e cheguei a três candidatas. Ao invés de perguntar quem era, insistia em tentar adivinhar. Podia ser minha prima, mas ela não tinha nenhuma tia-avó chamada Marília. Talvez fosse minha colega da faculdade, mas a voz do telefone não tinha sotaque catarinense.
Então, na sala, percebi uma terceira voz, que não me era conhecida. Fui até lá e vi quem era que estava tomando café com minha mãe e minha irmã. Ainda com o celular em mãos, cumprimentei-as e logo percebi quem era a voz do telefone.

Eu estava a horas sob o sol incomum que resolveu visitar a cidade. Minhas costas já estavam queimando por mais que eu estivesse de camisa e regata. Indo em direção a lanchonete da praça, onde compraria uma cerveja para refrescar meu grupo e eu, vi um grupo de meninas sentadas em frente a loja vizinha, que estava fechada. Só olhei, porque faziam barulho.
Tempo depois, quando o sol estava a 90º e insuportável demais, resolvi puxar o grupo pra sombra e nos sentamos ao lado das meninas barulhentas, que naquele momento comiam um bolo de chocolate todo derretido por causa do calor. O espaço para sentarmos era limitado e metade das pessoas que estavam comigo tiveram que se sentar no chão, inclusive eu.
Sentei de modo que conseguia ver perfeitamente uma baixinha de cabelos curtos e piercing no nariz. “Que olhos!”, gritei a mim mesmo. Ela era a única das meninas que não estava comendo, apenas observava o movimento na praça com olhos cansados. Os olhares iam de lá para cá, da esquerda para a direita e quando vinham a minha direção, eu disfarçava.
Eu também estava tão cansando por causa do calor, que não me empolgava pra conversar sobre coisa alguma com meus amigos. Eles falavam sobre arte performática e o russo que ficou nu em Moscou, isso não me interessava. Meu cansaço não me permitia nem tentar elaborar um diálogo com a moça.
As amigas dela, que estavam alcoolicamente alteradas, derrubaram o bolo de chocolate, que mais parecia uma calda, no colo da moça-olhos-cor-de-mel, justo sobre sua camiseta clara. Ela ficou irritadíssima, xingou-as até a morte e, não sei porquê, olhou para um cara que estava sentado próximo a ela, todo hipnotizado pela cena. Ela gritou:
- Você quer?
Era outono, época em que todas as estações do ano visitavam a cidade na mesma semana, no mesmo dia às vezes. O que fazia com que minha rinite atacasse brutalmente. Isso me obrigava a carregar um pacote de lenços no bolso a fim de evitar qualquer constrangimento público relacionado a coisas que saíssem involuntariamente do meu nariz.
Ao conseguir desviar do olhar da moça e focar em sua camiseta suja de bolo de chocolate, puxei meu pacote de lenços e apontei à garota.
Não sei o que deu nela, mas o olhar raivoso se transformou em até-hoje-não-consigo-explicar-o-que-foi-aquele-olhar-pra-mim. Hipnotizada, levantou-se, veio a mim, pegou o pacote de lenços e disse:
- Vem, me ajuda a limpar.
Nisso, tanto o meu grupo quanto o dela, estavam imóveis e mudos. Levantei sem desviar meu olhar, percebi que sua altura batia nos meus ombros e perguntei:
- Onde?
- Por aí – respondeu.
Para evitar que ela se constrangesse mais, tirei minha camisa e dei a ela:
- Meu, tó, veste isso aqui.
- Eu preciso passar em casa trocar de roupa, depois a gente pode dar uma volta por aí, pode ser?
Fomos até lá e não saímos mais naquele dia. Passamos a noite toda trocando olhares, compartilhando experiências frustrantes de vida e deixando marcas em nossas almas. Então parti, sem trocar números ou nomes. Queria que tudo isso ficasse marcado em mim sem a necessidade de repetição. Quanto mais as coisas se repetem, mais enjoam, mais perdem a graça. E eu definitivamente não queria que o gosto daquela moça saísse de mim. Eu sei que poderíamos ter dado muitíssimo certo. Era uma incógnita que eu preferi não decifrar.
Nesse mesmo dia do acidente com o bolo de chocolate, ao entramos na casa, conheci sua mãe, que pareceu não ter se importado com o fato da filha ter levado um estranho pra casa. Uma senhora muito simpática que me ofereceu empadão de frango, mas rejeitei respondendo:
- Não, obrigado, mas eu não como carne.
A moça olhou pra mim surpresa dizendo:
- Sério? Eu também. Há quanto tempo?
Deixamos a senhora sozinha na cozinha e começamos a conversar sobre vegetarianismo.

Eis que quem estava com minha mãe e minha irmã era a tal senhora que havia oferecido empadão de frango. Quem estava no telefone me oferecendo bolo de chocolate era a moça dos olhos-cor-de-mel. Mas o que eu não sabia e morria de curiosidade para saber era:
Quem é Marília?