2013/12/20

Nós perdidos

Na imensidão, encontrou a mulher.
Bar lotado, música rolando, pessoas dançando. Ele só queria atravessar a multidão.
Nos fluxos instáveis de ondas que é andar por lugares lotados, caminhos apareciam e se esvaiam em pouco tempo. Num dos labirintos em que as paredes eram pessoas, o rapaz quase deu de frente com uma moça, que ia no caminho oposto. Ele, tímido, sorriu e fez um gesto cordial para que ela passasse primeiro. Ela sorriu, agradeceu e passou. Ele, ainda parado, acompanhou a rota da menina até ela desaparecer no mar de gente daquele lugar.
Ele não fumava, porque sua pressão zoada não o permitia, mas fugiu ao fumódromo para escapar da multidão e tomar um ar “fresco”. Então, lá fora, encontrou a moça do vestido amarelo com estampas pretas de algo que, lá dentro, ele não conseguira decifrar quando cruzou com ela. Cada um em seu grupo de amigos.
A pauta da conversa da turma dele era estilos de vida diferentes. Vegetarianos, ciclistas utilitários, gays, ateus etc.
Até que o protagonista desse romance que ainda nem existia (e havia a possibilidade não se concretizar), disse:
- Mas as pessoas cismam com o quê as outras pessoas fazem com suas vidas. Qual é o problema de ficar com alguém do mesmo sexo?
Nisso, a moça do vestido amarelo começou a prestar atenção na conversa do grupo vizinho. Morreu de vontade de fazer amizade, porque concordava com algumas coisas que rolavam no diálogo, mas não quis ser intrusa. Até que uma amiga sua fez o favor de se intrometer na conversa. E os dois grupos começaram um debate alcoolizado sobre qualquer coisa que surgisse na roda.
Já de volta a parte interna do bar, os grupos haviam se unificado e dançavam, melhor dizendo, pulavam descoordenadamente, qualquer coisa que tocasse na pista.
Numa das músicas, que Valentim gostava muito... (Perdão, o narrador tinha se esquecido de nomear a dupla de protagonistas, porque gosta de ligar pessoas a detalhes ou qualidades) O povo todo se empolgou. Logo, o rapaz percebera que Charlie (redução para Charlotte, seu "nome artístico", todos achavam isso uma bobagem, mas ninguém sabia o verdadeiro) também sabia a letra da canção. Animados, cada um com uma caneca de cerveja, os dois se encaravam enquanto dançavam desengonçados.
Valentim estava louco pra saber se ela também cantava e dedicava a música (que era sobre ser obcecado por alguém reciprocamente) a ele ou estava apenas empolgada. Ela o olhava com olhos semicerrados e um sorriso tímido - do mesmo tipo que ela o lançara anteriormente, quando se cruzaram pela primeira vez, e o fizera ficar hipnotizado. A dança da moça era leve e o fazia pensar: “Eu quero essa mulher”. Charlie estava bêbada.


...


2013/12/14

A história que eu não escrevi - Parte II

A história que eu não escrevi
(Teoria das cordas e as bifurcações ora almejadas ora indesejáveis da vida)

Parte II
A primeira

Ela fora a primeira em muitos sentidos. No final, foi a primeira que me fez a desacreditar no amor. Antes dela, eu conhecia apenas a dor do platonismo. Depois dela, aprendi que platonismo é bem melhor, porque, enquanto não há contato, não há dor (daquela que te derruba e te faz acreditar que você nunca voltará a ficar bem). Eu fiquei tão mal, por mais que não a amasse mais, que preferi me jogar em coisas que não gostava só para esquecê-la. Eu precisei de novos vícios.
Porém, não posso ser ingrato e lembrar apenas da parte ruim. Vivi grandes momentos com ela. Ela estava ao meu lado em algumas conquistas (e derrotas). Aliás, ela fora uma grande conquista.
Desde o começo, foi tudo muito sincero. Tudo muito recíproco. Eu pude me jogar em seu colo na certeza que receberia conforto. Porque eu precisava.
Aprendi muito. Errei muito. Aprendi muito com meus erros. Renovei-me. Mudei.
As mudanças começaram antes mesmo de começar o namoro. Minha atitude para chamar sua atenção não fora praticada antes. E deu certo.

2013/12/11

Romance sem nomes - Primeiro capítulo

Sexo não tem sexo

Estavam somente os dois na fileira “I” da sala, à quatro poltronas um do outro.
O filme acabou e os dois, cada um em seu próprio mundo, tentavam compreender o filme assim que os créditos começaram a subir. Então, as rotas de seus olhares se colidiram, e os dois, abatidos pela intensidade do longa, olharam-se com cara de “e agora?”.
Ele queria explanar sobre como achou a obra um misto entre Lars Von Trier e Xavier Dolan.
Ela precisava elogiar a atuação do elenco e, ela queria falar sobre, apesar de odiar esse clichê: a entrega deles.
Até que ela perguntou:
- Gostou?
- Eu g...  – travou porque ainda não tinha formado sua opinião – Não sei... – levantou as mãos abertas como se fosse cair do céu alguma resposta – tenho que esperar um tempo pra absorver o filme inteiro. – olhou à até então desconhecida vizinha de poltrona -  E você?
- Eu acho que preciso rever mais algumas vezes.
- Pois é, pena que essa foi a última sessão de hoje.
- Ah, eu arranjo alguma coisa pra fazer até amanhã.


É difícil sentir sem poder sentir

Eles estavam reciprocamente conscientes que pretendiam imitar o que viram na grande tela. A intensidade, o sentimento. Não exatamente da mesma maneira como as pessoas em cena fizeram, mas esses dois queriam repetir o que viram ser encenado. Eles queriam somar o que sentiram enquanto assistiam a performance das atrizes ao que estavam dispostos a fazer.
- O que eu acho mais foda é, na maioria das vezes, os atores, as atrizes, ali, não são exatamente, não pensam do mesmo jeito, não são iguais aos personagens que vivem. Aí eles têm que simplesmente abandonar o que são, o que sentem, para dar vida à outra vida... Às vezes, não é um negócio tão simples. Um cristão fazer o papel de um ateu. Uma homossexual fazer uma hétero. Um casado fazer um mulherengo...
- Têm que sentir sem poder sentir.
- Como assim?
- Eles têm que mostrar um sentimento, que talvez não seja o que eles, atores e atrizes, estão realmente sentindo, sabe? Assim... No papel, a atriz tem que sentir o que a personagem dela está sentindo e não pode deixar o que ela mesma, a atriz, está sentindo escapar. A menos que seja a mesma coisa.
- Ah, faz sentido. Atuar é um negócio...
-... Difícil.

2013/11/30

A história que eu não escrevi - Parte I

A história que eu não escrevi
(Teoria das cordas e as bifurcações ora almejadas ora indesejáveis da vida)

Parte I
O término

Sentamo-nos no banco da praça, que já estava acostumado com nossa presença semanal. Firmei minhas costas no encosto de modo tão rígido quanto minha decisão. Não dava mais.
Quase desisti quando nos abraçamos. A ansiedade de executar meu plano somada a angústia do seu atraso me fazia roer as unhas e arrancar os fios da barba.  Ela enfim chegou me lançando de longe um olhar que demandava perdão. Seus olhos castanho-claros brilhavam e me hipnotizam. Acelerou o passo conforme se aproximava e disse que antes que eu surtasse, ela queria me mostrar um negócio. Tirou da bolsa um presente e me estendeu. Parecia que havia me dado uma facada. Doeu-me ter gostado da lembrança pouco antes de eu dizer que não queria mais ficar com ela. Dei-lhe um abraço como se fosse o último. Era o plano.
Depois de um diálogo sobre como nossos dias haviam se passado até então, ficamos observando em silêncio uma criança correndo pela praça carregando um sorvete numa das mãos e uma guia com um cachorro maior que ela na outra. Logo dois adultos correram atrás do pequeno ser gritando para que ele parasse. Era nossa rotina passar horas em praças do Centro olhando esse tipo de coisa. Eu gostava disso, de olhar a vida, mas não me sentia mais bem ao ver que minha vida estava estagnada nesse quase um ano de namoro.
Não que o amor tivesse se extinguido em mim, foi por isso, por excesso, que decidi me livrar da pequena dos olhos castanhos. Eu estava apaixonado por outra.
Eu poderia me fantasiar de “um cara normal” para administrar um namoro e um caso, mas eu não era assim. Em todos os meus relacionamentos (como se tivessem sido muitos até então), esforçava-me para ser intenso e completamente dedicado, chamem de fanático religioso. Eu queria me jogar por inteiro, de cabeça, assim que a mulher fizesse o mesmo.
Quanto mais eu namorava a primeira, menor meu amor por ficava. Quanto maior a rotina com a primeira, mais eu queria fugir disso. Quanto mais eu ficava com a primeira, mais eu queria a outra. Quanto mais eu acariciava a primeira, mais eu queria tocar os lábios da outra.
Eu via bastante a pequena, estávamos acostumados a uma rotina fixa, não podia reclamar de sua ausência. Mas a outra, ah, era a pessoa que eu mais via durante a semana. Por mais que eu não quisesse vê-la, por mais que estivéssemos brigados, ela estaria lá.
Eu bem que poderia empurrar a outra num canto, explanar meu desejo e mantê-lo em segredo entre nós. Mas eu não podia fazer isso com a primeira, não seria justo. Eu a amava muito, mas todo o encanto estava sumindo, saindo de meu corpo. Por mais que eu não amasse mais tanto a primeira, eu tinha uma imensa gratidão por ela. Conseguiu me realocar nos trilhos da vida, eu estava perdido antes dela. Mais que perdido, afundando amarrado a meu passado. Ela me salvou. Porém, eu estava curado. Renovado. Pronto para seguir. Partir.
Essa pequena tinha certos poderes. Ela me conhecia melhor até que eu mesmo. Ainda em silêncio, permanecíamos na praça sob o céu nublado. Então ela disse:
- O que foi? Por que cê tá com essa cara? – fez uma cara de quem parecia saber o que eu pretendia dizer. Respondi.
- Isso vai doer...
- Tatuagem? Qual delas cê vai fazer? A cruz ou a seringa?
Até então, enquanto ela me olhava, eu mirava o chão. Então a mirei:
- Não, não é isso.
- O que foi, menino? – espantou-se.
Dei uma longa inspirada e expirei soltando todas as palavras que me sufocavam.

Tudo dito, um vento soprou meu rosto, fechou meus olhos e me levou para longe dela, das consequências e da falta que ela faria.

2013/11/26

Suco de laranja na mesa 15

Numa região repleta de prédios públicos, profissionais e estudantes de Direito, ele se alimentava de seu livro, um queijo quente e um chá gelado. Era o segundo dia em que repetia seu novo ritual: sair do trabalho (que ficava na quadra vizinha da lanchonete), fazer seu pedido, sentar-se na mesa nº 15, abrir um livro e permanecer ali até a hora de ir à faculdade.
Distraído com a história que lia, não olhava para o sanduíche que comia, não media o tamanho da mordida. Com a boca lotada de queijo e pão, olhou pra fora e viu, na calçada oposta, uma moça de casaco amarelo. Ela veio atravessando a rua na direção da lanchonete e Evandro tentava identificar se a pessoa lhe era conhecida. Não reconheceu, mas não tirou o olhar da moça. Ele nem mastigava mais apesar de sua boca ainda estar cheia de comida. Fora pelo fato de ela ser linda, seus batimentos aceleraram ao vê-la entrar no mesmo lugar em que ele estava.
Como a mesa 15 era uma das mais próximas da rua, numa espécia de ambiente externo (porém fechado), ele não conseguiu mais ver a moça, que, certamente, estava no balcão fazendo seu pedido.
Tentou retomar sua leitura, mas estava acelerado demais para juntar letras. Apesar do nervosismo de motivo desconhecido, conseguira terminar de mastigar a mistura que estava petrificando em sua boca. Sentado na direção da rua, começou a olhar por sobre os ombros a fim de ver onde a moça se sentaria. Mirou rapidamente seu olhar ao livro quando viu que ela estava vindo. A moça loira, de olhos azuis, casaco amarelo e de altura que batia nos ombros de Evandro (ele não era bom em chutar alturas alheias), sentou-se no outro canto da "área externa" da lanchonete, sob um quadro com copos cheios de suco desenhados.
O rapaz tentou se ajustar na cadeira, estalar os dedos, focar-se no livro, mas se perdia todo e não conseguia ficar sem olhar pra moça. O pedido dela chegou e o fez sorrir sozinho, porque o copo e o sabor do suco que pedira eram idênticos aos do quadro perto dela.
Nos vinte minutos que a moça ficou sentada tomando seu suco de laranja, o rapaz não conseguiu mais comer, beber ou ler. Entrou na rotina de olha-la, desviar o olhar pra rua, olhar, desviar, olhar, desviar, olhar...
Até que ela se foi.

2013/11/24

Epifania sobre uma crise (Egocentrismo carente)

Assim como suas palavras, sua mochila vivia na desordem. Ele se repete muito, insiste em frases como se quisesse implantar isso na memória das pessoas (ou em sua própria cabeça, porque, meu Deus, como ele tem uma memória ruim).
- Ao invés de falar só dos moradores de rua, a gente podia mostrar também o que os comerciantes fazem a respeito, mas sem bancar os bons samaritanos que defendem a ordem e a higiene das ruas, isso soa meio fascista. Vai começa com “Em Curitiba, são mais de...” – sem folego, parou de falar encarou a parede como se estivesse confabulando uma continuação. Interrompi:
- Como que é?
Ele continuava encarando o nada. Deixei-o pensar, até que:
- O que eu falei mesmo?
- Quando?
- Agora! Não lembro.

Dentro de sua bolsa, sempre presente, seu caderno de anotações. Fosse para rascunhos de poemas e contos, lembretes da faculdade ou rabiscos abstratos, o caderninho de capa preta com “Devolver para: lixo” na contracapa estaria em sua mochila. Se não estivesse com o caderno, pode ter certeza que ele teria no bolso alguma nota fiscal de qualquer coisa ou qualquer flyer recebido na rua, que usaria para depositar suas palavras. Isso, quando sem caderno ou papéis, não se empenhava para digitar no celular (coisa que detestava e morria de preguiça de fazer) e salvar na pasta de rascunhos. Ele se desespera para registrar seus pensamentos antes que sua inconfiável memória jogue tudo no além.

Eu não tenho nenhum afeto romântico por ele, apenas aprecio sua companhia e amizade. Sua impulsividade... Na maioria do tempo, ser impulsivo é um problema para ele, pois as pessoas nem sempre estavam dispostas a ouvir seus vômitos verbais. Porém, às vezes, ele nos joga na cara sem pudor algum o que precisamos ouvir.
- Eu não fui no teu aniversário, porque foi no bar que o meu ex trabalha. Se meu namorado soubesse, ia me matar.
- Ah... – encarnou sua cara emburrada apontada pra mim prestes a soltar um de seus sermões – Você é o que? Namorada dele? Cê não tem que ficar se prendendo, caralho! Não é nem por mim, eu também não fui no teu aniversário, mas não foi porquê minha namorada, se eu tivesse uma, me proibiu. Manda esse cara a bosta que cê não tem que se amarrar com esse tipo de gente. “Cause you’re born free!”

Apesar de impulsivo, ele é mais introspectivo. Tinha motivos para explodir, mas preferia implodir em sua mente, chorar calado, soltar gritos mudos que só ele veria.


Sobre desejar seus beijos: não, não quero, mas seu sorriso espontâneo, que ele raramente expõe, mostra todos os dentes e isso é de um encanto incrível. Parece que nesses não tão frequentes momentos ele tenta mostrar sua bela alma, porque ele é assim mesmo: uma pessoa encantadora (que, porém, poucos veem).

Por mais tímido e introvertido que seja, ele possui a necessidade esporádica de gritar ao mundo o que pensa, ama ou precisa. Isso me obriga a tentar ficar por perto, por mais que se irrite comigo ou se magoa por motivos quaisquer, só para ouvir seus discursos motivadores e admiráveis, quando não são desconexos. Uma coisa que o atrapalha na hora de gritar é sua dicção torta que tornava metade das palavras incompreensíveis, mas, das que eu conseguia captar, ele pensava tanta coisa interessante, que todos deveriam ouvir.

Ele é um gênio (não que se esforce para ser um) a sua própria maneira. Hora parecia se importar em transparecer ser alguma coisa, hora não ligava pra nada.

Não sei dizer se ele era mais apaixonado ou apaixonante. Acima disso, era platônico. Vive falando da garota que costuma pegar ônibus com ele, da que o encara na cantina da faculdade, daquela que viu na loja de produtos vegetarianos (segundo ele, que não pegou a segunda via do recibo do cartão, era assim que se lembrava dela), da outra lá que trabalha na balada que ele detesta, da desconhecida que só o provoca, mas não permite aproximação... Eram tantas, que nem mesmo ele consegue se decidir. Tem dificuldades para se focar numa só. Talvez porquê nenhuma dessas seja digna de seus poemas apaixonados ou afagos no trajeto entre orelha e queixo.

Quando ele não está em seus dias de isolamento ou repulsa a diálogos, eu costumo lhe dar carona até o ponto de ônibus. Por vezes, mesmo nessas épocas que andava triste e distante, ele parece se forçar a aguentar as pessoas. Talvez por preguiça de andar ao ponto, não sei.
Nesse dia, sua mochila estava jogada no chão e parecia que o cinto de segurança pesava trezentas toneladas de tanto que ele sofreu para coloca-lo. Eu lhe contava sobre meu novo emprego e como estava contente por ter saído da outra empresa, mas ele parecia ter congelado e observava o retrovisor lateral do carro. Não sei tentava se enxergar ou olhar o passado através do espelho. Seus olhos cansados diziam nada. Não só os olhos queriam cair, seu corpo estava pesado e frágil ao mesmo tempo. Apesar da indiferença, fazia questão de ser educado. Antes de descer do carro, como sempre, apertou meu ombro, disse “muito obrigado, até amanhã” e se foi. Olhei para o banco onde se sentara e vi que seu caderno caíra. Ele nunca fechava seu bloco de notas corretamente de modo que a capa ficasse pra fora. Sempre deixava aberto na última página utilizada. Ele poderia ficar chateado comigo caso descobrisse, mas quis ler sua recente memória:

“Eu realmente queria que todas essas garotas pelas quais eu sinto algo morressem. E, das cinzas de todas elas, surgisse uma nova que me salvasse. Porque eu cansei de estar perdido. Pode acontecer de chegar um elemento novo que mudará tudo e me fará esquecer esses fardos tão belos que me encantam por aí. Por que ainda não criaram um super-herói que distribui amor às pessoas? Porque não dá pra dar algo que não existe! Ainda não criaram a máquina que transforma o intangível em sólido e, provavelmente, não estarei vivo quando esse o dia em que o amor for item da cesta básica chegar.”

Ainda estacionada com o carro, vi que seu ônibus ainda não havia passado. Corri até ele e gritei ansiosa:
- Você vai se matar?
Mostrei-lhe o caderno em minhas mãos e me respondeu com um olhar surpreso:
- Não, cê é louca?
- O que quer dizer isso? - apontei às palavras que ele escrevera.
Pegou o bloco da minha mão, leu as frases como se fossem inéditas e afirmou:
- Tive uma crise de ansiedade no meio da aula e, pra evitar que vocês vissem qualquer drama meu, preferi explodir em forma desses rabiscos, como sempre.
- Por que isso?
- Tá escrito aqui – levantou seu caderno como um pastor levanta sua bíblia cheio de razão – eu estou oficialmente cansado dessa minha situação.
- Mas cê quer se matar?
- Morrer, eu vou. Spoiler da vida: todos morrem! Mas... Me matar? Não.

No final, descobri que ele “só” quer ser amado, mas, nos dias de hoje, ninguém quer amar. Todos querem ter o amor servido na boca com talheres de diamante sem o menor esforço ou qualquer retribuição.

2013/11/22

Inácio não sabe

Inácio não sabe o que o que quer, não sabe nem se quer.
Não sabe se quer sair com a moça do ônibus ou se quer procurar a tal da Marília. Não sabe se quer se amarrar com a moça dos gostos afins ou se quer sentar ao lado da garota que já frustrou outros. A moça dos longos cabelos escuros e da marca no nariz que já cruzou com Inácio três vezes por aí poderia ser sua salvação.
Ele não sabe de nada. Labirintite e astigmatismo saem de seu rosto e tomam as decisões que ele deveria tomar. Ou seja, nada muito preciso acontece em sua vida.
Ele está perdido. Não sabe se vai ou se fica. Ele tem incertezas. Não sabe se arriscar é realmente certo.
“Aquela mina é firmeza, você deveria tentar algo com ela.” Não, não deveria, Inácio, não sabe se realmente deveria, porque tem certeza que uma hora a frustração ocorreria, fosse de sua parte ou da outra pessoa.
Assim como seus olhos, ele tem dificuldade em focar, não consegue mirar em algo e seguir até o fim. Ele se perde. Ele pensa em tudo, em todas, mas permanece um nada.
Ele não sabe onde deixou sua bússola, mas sabe que precisa dela para se centrar e seguir um caminho. Sem ela, ficará rodando em círculos até que sua cabeça se canse e faça com ele caia. Quando levanta, não sabe novamente aonde deve ir. Ele não sabe. Ele não quer ajuda. Ele só sabe se perder. Inácio precisa de ajuda. Inácio não quer ajuda. Inácio precisa de uma bússola. Inácio não sabe aonde ir. Inácio está perdido em seu próprio labirinto desregulado. Inácio se repete tanto em coisas agradáveis quando no que não quer. Inácio precisa de pessoas ao seu lado, mas prefere que seu orgulho egoísta infle cada vez mais e ocupe todo o espaço que os conselhos poderiam ocupar.  Inácio não quer que tenham pena dele, pois sabe muito bem que tudo que lhe acontece é por sua própria culpa.  Inácio possui uma grande impulsividade, até porque se não  fosse tão impulsivo, não seria o Inácio. Inácio quer dormir e acordar lá longe, quando tudo estiver bem.

2013/11/20

Quem é você?

Até consigo me livrar de você, mas você consegue me encontrar. Você é maior que eu e ainda absorve o que eu sou. Talvez seja por você que eu esteja querendo sair, pra não dizer “fugir”, dessa cidade. É que eu não consigo ficar aqui dividindo espaço com isso que sinto por você. Sim, sou fraco e covarde. Estou partindo, pra não dizer fugindo, principalmente de algo que está comigo permanentemente: meus pensamentos (por você). Acredito que um novo eu em um novo lugar tenha a capacidade de esquecer você e reconstruir a minha pessoa. Talvez tudo isso seja em vão e eu nunca consiga me livrar de você. Às vezes, acho que todo esse ódio que jogas em mim seja apenas desejo retido. Você me ama? Eu não. O ódio que eu sinto por você é mutante, transforma-se em amor, alterna em carinho, converte-se em raiva, é instável e não sai de mim talvez porque eu (no fundo) não queira que saia. Eu não queria ser assim, ser você, estar em você, sentir você, mas eu sou. Será que você quer se aprofundar na minha alma e afastar toda essa minha auto defesa em forma de repulsa (metade-ódio-metade-amor) que me assola? Eu não sei o que você quer, quando você quer e se você quer. Talvez você não seja tudo e seja só uma distração passageira. Você está em mim? Você vem e vai dentro de mim como a minha labirintite, mas as doenças, a maioria delas, vão embora, mas você persiste em ficar não sei se por vontade própria, convenção social ou falta de quem perturbar. Você é uma doença? Talvez eu precise mesmo de você. Talvez eu precise mais de mim. Você tem mais de mim do que eu mesmo. Essa compatibilidade poderia funcionar muito bem ou permanecer como está: incompatível, trágica. Talvez você seja tudo ou nada.

2013/11/18

Desafio

Com trechos escritos por Capa Silveira

Eu cansei de brincar, de distância, de só falar. Cansei de sentir por você essa coisa que não acontece, mas deseja. Convicto de não querer mais participar desse jogo de querer e não fazer. Mas eu sou um vai-e-volta. Não sei se esse brinquedo era da tua época. Tudo bem que não sou tão mais velho, mas, sei lá, década de noventa foi uma transição de costumes. Ioiô? Esse você conhece, acredito. O que quero dizer é que sou mais ou menos como esses brinquedos. Eu estou aqui, vou lá embaixo, às vezes a corda enrosca e fico mais tempo do que o esperado, então subo, desço etc. E vou lá, volto pra cá, vou, volto etc. Tudo isso principalmente em sentimentos. Não que eu esteja novamente querendo pegar o ônibus pra tua casa e passar a tarde de sábado discutindo filmes. Não. É que eu voltei a pensar em você (graças a você que aparentemente quis voltar a esse nosso jogo, que eu não queria mais jogar). Mas chega um ponto do meu interesse por alguém que, quando não me sinto correspondido ou quando canso de não agir, me contento em sonhar acordado com fulana. Eu gosto de imaginar histórias. Algumas tão belas que eu tenho vontade de vivê-las (mas como não ajo, só fico imaginando). Não adianta, por mais que eu diga que não quero mais tentar, que cansei de romantismo, que larguei a meta de ter alguém ao meu lado, eu vou e volto.
Verdade seja dita, nem nos encontramos ainda, mas pra ser sincero ou romântico demais ou bobo demais, acho que estamos perdendo tempo nos escondendo. Seus olhos combinam tanto com os meus, seu sorriso se encaixa perfeito no meu, seus dedos entrelaçados nos meus ficam perfeitos (em meu sonho). E no mundo real, pode ser.
Parece que eu não faço sentido, mas não faço questão de fazer. Muito do que digo de modo bagunçado, na minha cabeça faz total sentido. Não, não quero tentar novamente. Não tenho certeza completa sobre esta última afirmação. Eu gosto de brincar comigo mesmo de só olhar, ficar observando de longe e imaginando como seria se fossemos decentemente competentes para agir. Mas noto que não sou só eu aqui que gosta de criar estórias que poderiam dar certo. Percebo que não estou sozinho na odiosa arte do platonismo. Estamos no mesmo barco, mas precisamos ficar em pontas diferentes para equilibrar e evitar que tudo se afunde.

2013/11/12

Bolo de chocolate

- Você quer bolo de chocolate?
Atendi o telefone e logo ouvi a pergunta, mas, ao invés de perguntar quem era imediatamente, preferi tentar reconhecer a voz. Estendi o diáologo:
- Quero, mas cadê?
- No bolso do casaco da Marília, que tá pendurado na cadeira – disse a voz feminina, que ainda não conseguia reconhecer. Também não lembrava de conhecer nenhuma Marília.
- A Marília! Tia da minha mãe! Eu sei que você quer bolo, pega lá.
Comecei a filtrar na minha cabeça todas as mulheres que tinham uma voz semelhante a essa do telefone e cheguei a três candidatas. Ao invés de perguntar quem era, insistia em tentar adivinhar. Podia ser minha prima, mas ela não tinha nenhuma tia-avó chamada Marília. Talvez fosse minha colega da faculdade, mas a voz do telefone não tinha sotaque catarinense.
Então, na sala, percebi uma terceira voz, que não me era conhecida. Fui até lá e vi quem era que estava tomando café com minha mãe e minha irmã. Ainda com o celular em mãos, cumprimentei-as e logo percebi quem era a voz do telefone.

Eu estava a horas sob o sol incomum que resolveu visitar a cidade. Minhas costas já estavam queimando por mais que eu estivesse de camisa e regata. Indo em direção a lanchonete da praça, onde compraria uma cerveja para refrescar meu grupo e eu, vi um grupo de meninas sentadas em frente a loja vizinha, que estava fechada. Só olhei, porque faziam barulho.
Tempo depois, quando o sol estava a 90º e insuportável demais, resolvi puxar o grupo pra sombra e nos sentamos ao lado das meninas barulhentas, que naquele momento comiam um bolo de chocolate todo derretido por causa do calor. O espaço para sentarmos era limitado e metade das pessoas que estavam comigo tiveram que se sentar no chão, inclusive eu.
Sentei de modo que conseguia ver perfeitamente uma baixinha de cabelos curtos e piercing no nariz. “Que olhos!”, gritei a mim mesmo. Ela era a única das meninas que não estava comendo, apenas observava o movimento na praça com olhos cansados. Os olhares iam de lá para cá, da esquerda para a direita e quando vinham a minha direção, eu disfarçava.
Eu também estava tão cansando por causa do calor, que não me empolgava pra conversar sobre coisa alguma com meus amigos. Eles falavam sobre arte performática e o russo que ficou nu em Moscou, isso não me interessava. Meu cansaço não me permitia nem tentar elaborar um diálogo com a moça.
As amigas dela, que estavam alcoolicamente alteradas, derrubaram o bolo de chocolate, que mais parecia uma calda, no colo da moça-olhos-cor-de-mel, justo sobre sua camiseta clara. Ela ficou irritadíssima, xingou-as até a morte e, não sei porquê, olhou para um cara que estava sentado próximo a ela, todo hipnotizado pela cena. Ela gritou:
- Você quer?
Era outono, época em que todas as estações do ano visitavam a cidade na mesma semana, no mesmo dia às vezes. O que fazia com que minha rinite atacasse brutalmente. Isso me obrigava a carregar um pacote de lenços no bolso a fim de evitar qualquer constrangimento público relacionado a coisas que saíssem involuntariamente do meu nariz.
Ao conseguir desviar do olhar da moça e focar em sua camiseta suja de bolo de chocolate, puxei meu pacote de lenços e apontei à garota.
Não sei o que deu nela, mas o olhar raivoso se transformou em até-hoje-não-consigo-explicar-o-que-foi-aquele-olhar-pra-mim. Hipnotizada, levantou-se, veio a mim, pegou o pacote de lenços e disse:
- Vem, me ajuda a limpar.
Nisso, tanto o meu grupo quanto o dela, estavam imóveis e mudos. Levantei sem desviar meu olhar, percebi que sua altura batia nos meus ombros e perguntei:
- Onde?
- Por aí – respondeu.
Para evitar que ela se constrangesse mais, tirei minha camisa e dei a ela:
- Meu, tó, veste isso aqui.
- Eu preciso passar em casa trocar de roupa, depois a gente pode dar uma volta por aí, pode ser?
Fomos até lá e não saímos mais naquele dia. Passamos a noite toda trocando olhares, compartilhando experiências frustrantes de vida e deixando marcas em nossas almas. Então parti, sem trocar números ou nomes. Queria que tudo isso ficasse marcado em mim sem a necessidade de repetição. Quanto mais as coisas se repetem, mais enjoam, mais perdem a graça. E eu definitivamente não queria que o gosto daquela moça saísse de mim. Eu sei que poderíamos ter dado muitíssimo certo. Era uma incógnita que eu preferi não decifrar.
Nesse mesmo dia do acidente com o bolo de chocolate, ao entramos na casa, conheci sua mãe, que pareceu não ter se importado com o fato da filha ter levado um estranho pra casa. Uma senhora muito simpática que me ofereceu empadão de frango, mas rejeitei respondendo:
- Não, obrigado, mas eu não como carne.
A moça olhou pra mim surpresa dizendo:
- Sério? Eu também. Há quanto tempo?
Deixamos a senhora sozinha na cozinha e começamos a conversar sobre vegetarianismo.

Eis que quem estava com minha mãe e minha irmã era a tal senhora que havia oferecido empadão de frango. Quem estava no telefone me oferecendo bolo de chocolate era a moça dos olhos-cor-de-mel. Mas o que eu não sabia e morria de curiosidade para saber era:
Quem é Marília?

2013/10/23

Como te fazer me notar

Observava-a desde que estavam no ponto esperando o ônibus e continuou com o canto d’olho cuidando da moça quando subiram no Interbairros I. Soltou um largo sorriso quando viu que ela tentou jogar sua lata de refrigerante no lixo perto da porta, mas havia um cara quase em cima dele, atrapalhando a meta da moça. O desconhecido com distraído em seus fones de ouvido ruidosos e  não flagrou o olhar raivoso da mulher querendo que ele saísse dali. Carlos riu da cena, mas logo mudou de face pra não parecer aqueles sorridentes carentes típicos de ônibus. A moça retornou a seu lugar, em pé, a uma pessoa de distância do rapaz.

No fim da tarde, ele e a moça subiam e desciam nos mesmos pontos, mas o tímido não conseguia chegar nela. Estudavam na mesma faculdade, o que facilitou para Carlos descobrir seu nome. Porém, ele optava por fingir não saber o nome dela para usar desse fato como introdução de diálogo se algum dia sentassem juntos nô ônibus.
Planejador que era, ensaiava como seria o contato entre eles. Sentaria ao seu lado na primeira oportunidade, perguntaria seu nome, reagiria como se já não o soubesse e pediria desculpas. Confusa ela perguntaria o porquê. Então ele contaria a história da noite que se cruzaram num bar.
Era o show de uma banda cover e Carlos só foi porque sua amiga o arrastara pra lá. No meio do show, a tal moça, que ela já vinha observando de outros shows e intervalos da faculdade, passou por perto e o fez perder seu rumo. O show não existia mais, por mais alto que o som estivesse. Ele, lotado de álcool e (consequentemente) extroversão, foi até a moça, encostou no seu ombro e soltou:
- Ô, meu, cê estuda lá na Opet, né?
Ela, soltando-se das mãos dele, com aquele desprezo típico para evitar bêbados, indiferente, respondeu olhando ao palco:
- Sim.
A cabeça do rapaz girava e ele tinha dificuldades pra focar no rosto da moça, demorou pra falar:
- Quê cê faz lá? - ele sabia a resposta, mas fingir não saber fazia parte de uma conversa que imaginara em sua mente alcoolizada enquanto ia em direção a moça.
A indiferença dela permanecia:
- Publicidade.
O roteiro improvisado de Carlos terminava aí, então tentou falar algo para manter o diálogo, mas ao olhar de volta para ela, a moça já não estava mais lá.
Frustrado, retornou sua atenção ao show e bebeu mais ainda. Não voltou a ver moça naquela noite.

Numa confraternização de dia dos Professores, estava hipnotizado com a quantidade de salgadinhos na mesa. Sua amiga na entrada da sala anunciou a presença de um colega de trabalho que estudava na mesma faculdade. Carlos simplesmente ignorou o desconhecido e continuou enchendo seu prato com salgados. Sentou-se e antes de mastigar uma bolinha de queijo,  percebeu que o invasor possuía companhia. Engasgou-se ao ver quem era a outra pessoa. Começou a tossir alto pra expulsar o susto. Ele esperava que ela não se lembrasse do diálogo que tiveram naquela noite alcoolizada. A moça pegou refrigerante, alguns salgadinhos e logo saiu da sala, deixando o rapaz querendo partir junto com ela.

Fosse a ocasião que fosse, a vontade dele era dizer:
- Moça, para, senta e me escuta. Eu não domino esse negócio de pegação noturna, flertes e “chegar nas gatas da balada”. Eu sei sentir, eu sei estar ao lado, eu sei me encantar por esses teus olhos, eu sei tanta coisa que pode te fazer feliz. Mas eu não sei como chegar em você nesses moldes que os caras utilizam por aí e que você já deve estar cansada de ver. Eu não sei ser espontâneo,  simpático ou extrovertido com pessoas desconhecidas, por mais que eu almeje contato. De você, quero tanto. Mas eu sou tímido e só consigo me soltar, mostrar meu ser, com uma quantia mínima de intimidade. Então, se liga, espero que sejas tão incrível quanto tua beleza consegue demonstrar, entenda minha dificuldade e aceite logo esse meu convite pra sair, que talvez seja o mais bizarro que já recebeste em toda sua vida. Eu sei que falando assim posso parecer louco, mas tô te mostrando meu eu sincero, sem aquela maquiagem de ego e pacote de mentiras que as pessoas costumam usar por aí nos flertes noturnos. Quanto mais te observo sentada no ônibus ou passeando pela faculdade, mais vontade tenho de te dizer o quanto me hipnotizas; o quanto quero teu olhos encarando os meus; o quanto quero falar que esse teu corte de cabelo novo mostrando um pedaço da tua nuca é de um encanto absurdo; o quanto desejo passar por aí contigo discutindo teorias da comunicação; o quanto quero sair ao teu lado em busca da cerveja mais barata do São Francisco; o quanto quero pegar o Interbairros I pra ir à tua casa; o quanto eu quero tanta coisa relacionada a você.

2013/10/20

Fim do talvez

Ele tentava se encontrar em tudo que ela dizia por mais que não tivesse nada demais para dizer a ele.
Eis que após inúmeros conselhos amigáveis, “cara, sai dessa, ela não vai te levar a lugar algum”, ele se cansou de se perder nesse vai e vem de tentativas frustradas de a encontrar. Decidiu parar de jogar. “Esse flerte não é pra mim”, confessou ao bêbado que pediu um cigarro, sentou-se ao lado e ficaram horas debatendo sobre mulheres, a extensão da praia de Ipanema e a origem dos nomes das ruas do Água Verde.
Ele tentava se encontrar nos desenhos dela por mais que não houvessem lembranças para ela retratar.
Ele sentava na sarjeta em frente a seu bar favorito pra ver a vida passar e falar sobre tudo. Na maioria dos casos, bebia pra se distrair e não pensar nos problemas e nas mulheres que perturbavam sua sanidade. Empecilho deste específico capítulo de sua novela, era que uma dessas moças transitava pela rua do bar diariamente. Ao invés de focar em seu copo de cerveja ou nas discussões filosóficas com os malucos da rua, ele se preocupava em olhar para cada pessoa que transitava por lã a fim de saber se era ela. Era ambíguo: ele queria ver a garota passando e apreciar sua beleza, ele queria estar atento pra desviar o olhar caso ela o percebesse.
Ele tentava se encontrar nos textos que ela escrevia por mais que não existisse história pra ser contada.
Ele não entendia como conseguia ser perseguido pelas memórias de algo que nunca existiu. A tal moça costumava passar por sua cabeça repetidas vezes por dia como se de fato tivesse feito parte da rotina do rapaz. Não, na verdade, tudo não passava de um flerte platônico praticado pelas duas partes.
Ele não queria mais saber dela se fosse pra continuar nessa besteira de só falar. Apesar de se sentir lisonjeado por estar presente numa mente alheia, ele não desejava mais só isso. Ele queria ação. Tanto faz, ele só queria parar de ficar parado. Passar um tempo com ela mesmo que fosse uma viagem de ônibus do Rebouças ao Centro Cívico. Não fosse assim, ele desceria na próxima esquina. Ao fazer isso, ele sentia uma faca enferrujada lhe cortando superficialmente a barriga. Corte suficiente pra sangrar. Sim, ele queria viver algo com ela e dispensar essa possibilidade lhe doeria certamente. Pensando bem, o que ele estava perdendo ao sair disso? Não dá pra perder o que não existe.
Momentos antes de anunciar sua decisão, começou a pensar em como ela lidaria com isso. Se ficaria triste, vingativa ou nem aí. Refletiu se não seria melhor deixar as coisas como estavam só pra não vê-la mal, queixando-se por aí, escrevendo manifestos de ódio contra o rapaz. Então percebeu que sempre seu altruísmo o impedia de dar rumos melhores para sua vida. Resolveu falar tudo e se jogar no barranco consciente de que as feridas surgiriam a qualquer momento de inúmeras facas.
Jogou-se no talvez quem sabe das instáveis ruas de sua vida e sabia que ela também não era uma exemplar condutora.
Certamente, ele sabia que cruzaria com ela por aí querendo ou não, mas estava certo que faria o possível para evitar a repetição de algo que não existia.

2013/10/14

Sensacionalismo

Prezada,

preste atenção,
ele preza muito pela tua companhia. O problema é que não sabe mostrar, não consegue dizer o quanto e o que quer. Não que ele não seja grato pela cumplicidade entre vocês dois, mas é que ele quer ampliar essa relação. Quer fazer crescer e dominar o mundo.
Ele se contenta com pouca coisa. Ele superestima qualquer demonstração de qualquer coisa. Ele romantiza (não só no sentido "romântico", é mais sobre as metáforas da vida, afinal ele tenta metaforizar sobre qualquer coisa) tudo. Um ato simples pode parecer algo grandioso pra ele. Um aperto na mão, um afago estendido nas costas, um abraço prolongado... Ao fazer isso, tua intenção talvez não seja gritar que o quer mais próximo, mas, pra ele, verdade, isso tudo pode aparentar a melhor coisa dos universos: vocês dois juntos.
Ele não sabe como dizer... Mentira, ele não CONSEGUE chegar e dizer “aô, moça, eu, olha eu aqui, eu quero você”. Ele sabe agir sutilmente, demonstrar aos poucos, subjetivamente clamar. Assim que ele começa a tentar qualquer aproximação, é bem claro que ele se desconcerta todo e deixa a oportunidade passar. Ele é todo atrapalhado pra tentar se mostrar. Ele começa a dançar com a labirintite e se perde todo. Ocupe o lugar de sua labirintite e o guie nessa dança tão esperada.
Você conhece muito bem o orgulho dele. Sabe que esse rapaz é teimosamente orgulhoso. Talvez por isso ele não consiga te dizer tudo. Mentira, o que o prende é o medo da negação.
Por fim, se você ainda não percebeu os sinais tímidos deste rapaz (Como não?) e compartilha de anseios semelhantes: Deixe-o saber.
Termina aqui o apelo de uma alma cansada (de querer e não agir).

(Escrito por Inácio)



"As pessoas querem pedras de diamantes, mas não correm atrás."
Aílton.

2013/10/13

... Tentar

Era um prazer o provocar. Parecia que ela conseguia entrar em sua mente. Coisas que ele não compartilhava sequer com as paredes de seu cubículo do sono, ela soltava por aí. Segredos que ele não mantinha, ela sabia. Mas ela evitava o rapaz. Ao menos parecia demonstrar que não o queria. Queriam só o flerte. Queriam só a distância. Queriam a contradição de querer, mas não agir. Não queriam andar. Caminhar e correr o risco de pisar em cacos de vidro (o que ambos eram: frágeis)... Não, era algo que dispensavam tranquilamente.
Ao mesmo tempo, necessitavam que alguém tivesse sensibilidade suficiente pra acariciar suas almas doentes.
Eram pessoas estranhas, de piras erradas e neuroses frequentes. E se atraíam por semelhantes.
Tanto se atraiam que a força se fazia contraditória e os repelia pros cantos errados da cidade.
Era um vai e volta de sinais desfocados escritos em nuvens explodindo no ar. Quero você, vem, te quero, afundemos juntos, senta do meu lado e vejamos tudo ruir etc. Mas ninguém fazia questão do mais importante: Falar e fazer.
Até que um dos dois se cansou dos flertes platônicos.
Esperou-a em seu ponto de ônibus sem a avisar antecipadamente. Ela acabara de sair da faculdade e só pensava em chegar em casa, qualquer coisa e desabar no sofá pra continuar suas leituras. Distraída com a música que levava sua mente a um palácio onde estava tudo bem, ignorava os errantes que circulavam naquela região de shopping e escolas. Até que ouviu:
- Você tem duas opções: ou foge de mim ou foge comigo.
Assustada, congelou. Tentou emitir a resposta, mas ela não era daquelas pessoas que sabiam improvisar nas falas. Ela não ensaiara nada pra dizer a ele pessoalmente. Surgiu-lhe um sufoco no peito. Misto de vontade de gritar, explodir, correr, abraça-lo, tudo junto. As pessoas do ponto os encaravam, mas os dois tornavam inexistente qualquer presença alheia naquele lugar.
Mesmo com tanto tempo de jogo, eles não sabiam como prosseguir. Se havia um manual, eles o trocaram por um livro qualquer.
Ela não sabia o que responder. Ele não queria mostrar os dentes ao sorrir pra evitar que outras coisas lhe fugissem (um grito, um abraço, um "responde logo e vem" etc), mas só a largura do sorriso tímido já mostrava que ele queria sair correndo dali. Correr com ela.
E foram. Sem palavras.
Ela não respondeu com palavras. Acenou para uma direção, então ele a pegou pela mão e foram.

Sem saber. Com o sentir.

2013/10/03

Incomunicáveis

A liberdade de falar o que quisessem era bastante ampla, mas um assunto era censurado pelos dois: os dois. A viabilidade de que existisse o termo “nós” entre eles não entrava em pauta nos extensos diálogos.
As pessoas diziam que os dois eram namorados exemplares no sentido de serem livres e independentes. Era admirável que eles não demonstrassem serem namorados, que eles conseguissem não andar colados o tempo todo, mas todos não sabiam de toda a verdade. Todos estavam errados.  O que era livre e saudável era a amizade entre ambos, eles se davam muito bem e não havia impedimentos para serem sinceros e reais um com o outro. Mas o tal namoro aparente almejado pela audiência era inexistente.
Se fossem oniscientes, saberiam que eram reciprocamente apaixonados, mas preferiam esperar que a outra parte dessa relação se pronunciasse. Ambos morreriam na praia se continuassem assim afogados em vontade.
Ele era todo pragmático e ensaiava métodos para expor o que queria (os lábios dela, mas que a liberdade entre os dois se mantivesse): Ficar bêbado junto com ela e aproveitar a espontaneidade para falar a verdade; escrever uma poesia e colar no ponto de ônibus onde ela passava diariamente; aproveitar um abraço de despedida e emendar um beijo ou escrever um conto imaginário que ninguém fosse ler confessando tudo para ela.
Ela era toda silenciosa para expor suas intenções com qualquer pessoa. Confabulava sinais que ele pudesse entender: Aproveitar brechas alcoólicas para explanar sobre o quão compatíveis eles são (por mais que discordassem em muito, entendiam-se e aceitavam as diferenças); aproveitar um diálogo sobre romances para dizer (enquanto mirava a luz da rua e acariciava seu próprio cabelo) que queria se apaixonar; pronunciar a ele que almejava a felicidade do amigo com quem quer que fosse a garota que estivesse no coração dele ou contar sobre os caras que conhecia na vida só pra que ele se sentisse provocado.
Ele iniciara o ano sem metas, numa vibe pessimista, mas com o passar dos meses prometeu a si mesmo que na próxima festa de réveillon diria: “Esse ano, não encontrei a mulher pra me fazer bem, mas tive coragem pra chegar naquela que conheço há tempos e dizer que era ela quem me fazia um homem melhor, por mais que eu tenha demorado quase cinco anos pra dizer isso.”
Ela dizia que queria se apaixonar em 2013, que cansara de tantos casos, mas descobriu que já estava apaixonada há tempos. Fossem pelas frases disléxicas, pelos sonhos megalomaníacos ou pelo sorriso tímido, ela estava encantada por ele.

Eles não sabiam como dizer, nem se deviam. Era um risco a ser tomado. Dizer tudo e (1) inaugurar um romance ou (2) arruinar uma amizade. Eles tinham medo. Ah, se eles soubessem que queriam a mesma coisa, tudo seria mais fácil, mas não haveria a sensação de conquista se a dificuldade em soltar a verdade não existisse. O alívio da confissão e a permissão pare serem mais livres entre si era algo que os motivava a tentar falar. Mas, por mais que falassem sobre tudo, eles não sabiam como dizer.
Ele não se preocupava mais em esconder o encanto que sentia por ela. Ela não se importava em ocultar que a presença dele era precisa. Estava tudo muito explícito, exceto as palavras.
Não era paixão, não era amor. Nada seria enquanto ficassem calados.

2013/09/11

Não existimos

Negamos a felicidade, pois nos privamos da dor. Sabemos que, com certeza, tudo acabará. Seja entre nós ou você e aquele cara ou eu e aquela mina. Tudo acaba entre todos.
Tudo acaba. Eu partirei. Tu partirás. Ela partirá. Ele partirá. Nós ... Vós ... Eles... Elas... “As pessoas vão embora!”

Utópico pensar no “para sempre”. Sabemos que é besteira acreditar plenamente nisso. As pessoas pensam demais no futuro e esquecem de fazer o presente. Planos, promessas, juramentos... Sou muito mais a fim de presenciar os momentos e eternizá-los na memória, mas, assim que partíssemos cada um ao seu rumo, todas essas lembranças se despedaçariam e sumiriam com o vento. O problema não é amar, é o depois. É viver infectado pelas vivências passadas que percorrem as veias sugando todo seu potencial para sobreviver. Depois que o romance acaba, a dor da saudade machuca. Obriga-nos substituir o vício que tanto nos satisfez. Depois que o romance acaba, a corrente está tão enrolada que nos faz sangrar ao tentar fugir.
Dirão que insisto nas paixões antigas, mas não. Não. Hoje, são apenas lições. Do que fazer. Do que não fazer. Do que sentir. Do que não sentir.

Negamos a felicidade, pois nos privamos da dor. Não é proibição imposta. Apenas moderamos. Para evitar que um de nós cisme em acreditar na longevidade desse romance. Pode durar 214 dias. Pode durar 30 anos. Pode durar um flerte no ônibus. Pode durar uma tragédia. A gente não tem que saber prever, a gente tem que fazer. A gente tem que ter vontade pra começar, terminar e partir.

No fundo, quem sabe, estejamos tão pessimistas apenas ansiosos para viver um romance cativante. Talvez esse pessimismo não passe de inveja sobre aqueles que conseguem viver algo forte. Mas eu sei até que os castelos mais estáveis desabam. Tenho histórias pra contar. No fundo, quem sabe, essa alergia ao amor seja só autoproteção. Medo.

A gente sente saudade do que não tem. (Ter alguém). Aliás, “ter” é algo simplesmente utópico. As pessoas “possuem” por pura convenção. Ninguém pertence a ninguém, mas viver com a sensação que faz parte do cotidiano de alguém... Tira a insônia e traz calma. O problema está em priorizar demais essa posse intangível. Impor que alguém é o mais importante na vida já começa errado e piora cada vez mais conforme a neurose possessiva aumenta.
Portanto, o que quero dizer é que não quero ser teu, não quero que sejas minha. Não ligo se você sair com outros caras. Desde que você deseje passar um tempo comigo, ficarei bem. Passar um tempo ao seu lado (presencialmente). Aguentar teu pessimismo, tua agonia, teus plurais. Mas não me peça para te ajudar a solucionar teus outros casos, afinal não quero que deem certo. Não, não quero que sofras. Sou sádico, mas não quero que sofras. Acima de tudo, sou egoísta e quero que passes mais tempo comigo do que com qualquer outra pessoa, mas não quero te prender.


Privamo-nos da dor e talvez seja por isso que não encontramos a felicidade. Desse modo, acabamos por nos proibir de existir. Enfim.

2013/09/05

Terrorismo construtivo

Quero que tenhas a liberdade para me destruir.
E me reconstruir.
E me destruir mais vezes.
E continuar reconstruindo.
E manter a destruição.
Seguida de reconstrução.
Pegar minhas ruínas e remontá-las.
Desconcertar minhas estruturas
(como já faz tão bem).
...
Num ciclo vicioso
cheio de redundâncias
e sorrisos teus.
...
Num laço bonito
cheio de encanto
e nós.
...
Até que nos reste nada além
da ausência de ritmo
e excesso de nós.

2013/08/28

devil inside

Um conto em flashes

- Ai, eu não consegui terminar o filme. A cena do estupro me deixou...

O rapaz estava dando bronca em uma amiga e resolveu simular uma situação. Então se levantou e encarou outra amiga com um olhar sedutor. Ela disse:
- Ai, não me olha assim que me dá vontade de te beijar.

As luzes da viatura alternavam escandalosamente entre azul e vermelho como se houvesse forma de mudar o que acontecera. Irreversível, demônio havia escapado.
- Você está alcoolizado, senhor?
- Tô, sim, senhor, bastante. 
O guarda  desistiu de conversar com o infeliz, que só encarava a moça num olhar de quase-choro.

- A senhorita conhece esse rapaz?
- Sim, é meu melhor amigo... - ainda meio trêmula, mas mastigando as palavras minimamente pra não ferrar o moço - Estuda comigo e vem me deixar em casa todo dia.
- Então por que você estava gritando "não", "para" e querendo fugir dele?
- Eu tenho namorado.
- Mas e por que esse rapaz estava te empurrando pra parede?
- Eu disse que estava com vontade de beijá-lo.

Entrou no escritório pesando o mundo.
- O que aconteceu, meu deus?
- É óbvio. - Desprezo - Um cara me deu umas porradas.
- Deu queixa?
- Não, eu mereci.
- Mas nada justifica a violência!
- Eu mereci... - olhava para baixo completamente ciente de que permitira seu demônio interno fugir e causar o que causou.
- O que você fez?
- Mereci... - Indignação lhe dominava. - Cismei na vontade e ignorei o resto.

Passara-se um tempo, mas o "a gente é só amigo" ainda ecoava em sua mente, assim como a tentativa frustrada de beijo que se tornara apenas uma faminta mordiscada no lábio inferior somada a uma vontade de adentrar naquela alma intensamente. Assim como tudo, passou e acabou.

2013/07/30

O cético

Não importava seu nome, origem ou objetivo. O que importa é que mesmo após o ocorrido ele continuava não acreditando em destino. Obra do acaso era apenas um grupo de coisas que aconteciam e geravam a ilusão de que havia alguma relação direta entre os fatos. Coincidências do destino, pra ser exato.
As coisas simplesmente aconteciam. Ele acreditava na inexistência de uma razão espiritual para que as coisas ocorressem. “Nossos destinos foram traçados para permanecermos juntos”, o escambau. As pessoas se encontravam, separavam-se e/ou se reencontravam porque sim, não existia “alguém” que fez com que aquilo acontecesse. Não, não “estava escrito”.
Porém, fato era que o fato o marcou e quase o instigou a acreditar que as "armações do destino" eram reais.

Acabara de entrar na Estação Central e logo se encostou para continuar a leitura do livro que ganhara de sua amiga na semana passada. Basicamente, a história era sobre um jovem que cruzou com uma moça num bonde e a lembrança desse encontro o acompanhou por muito tempo até reencontra-la em um restaurante qualquer. O próprio protagonista do livro assumia que era bastante racional. O leitor seguia o princípio de que magia não existia. Apesar de ter uma mente muito imaginativa, eram coisas diferentes.

Saindo do livro, voltando uns dois meses na realidade, naquela mesma estação-tubo, não exatamente no mesmo horário. O rapaz percebera uma guria  baixinha de cabelos ruivos (um laranja cobre artificial) acompanhada de um rapaz aparentando ser seu namorado. Aí eles se beijaram e o nosso rapaz logo abandonou o possível flerte. O ônibus veio, ele ficou entre as portas três e quatro, percebendo que o casal se alocara próximo a porta dois. Horário de pico, tudo lotado. Ele mal conseguia enxergar a moça, que possuía um olho meio verde meio mel bastante chamativo. Ele sabia que a pequena não era possível, mas isso não o proibira de se encantar. O ônibus balançava, as pessoas se agitavam e ele se contorcia todo pra tentar enxergar a moça. Tanto que numa dessas, seus olhares se cruzaram e ela soltou um sorriso que quebrou as pernas do rapaz. Os olhares se conectaram e permaneceram assim. O sorriso da guria mirava todo cheio de beleza o moço. E ele incrédulo desviou o olhar, disfarçou, retornou e a moça continuava sorrindo para ele.

De volta a hoje, o personagem do livro estava a procura da moça, tanto que a reencontrou. O leitor se contentou e sorriu para a cena que acabara de ler. Com o canto de olho, percebeu pessoas passando ao seu lado. Olhou para ver quem era. Ele sempre olhava. Eis que a moça ruiva do sorriso distante estava ali sozinha a cerca de três metros dele olhando para a rua. Ele voltou o olhar ao livro e explodiu internamente. Assustara-se com a grande coincidência. Enquanto o protagonista do livro reencontrava uma mulher encantadora, ele reencontrara outra. Fascinado, continuou a leitura atento aos movimentos da moça. Começou a engolir as palavras rapidamente a fim de que acontecessem as mesmas coisas tanto na ficção quanto em sua vida. E aconteceu: ambas partiram.

Não ficou encantado pela grande coincidência do reencontro ou pelo “a vida imita a arte ou a arte imita a vida?”. A ilusão das "obras do acaso" ainda inexistia. A razão de seu fascínio era que ocorrera consigo um fato semelhante num livro que lhe agradava.

As duas histórias ainda não estavam encerradas.

2013/07/20

Praça das ilusões

Descia a rua de rua casa com a mente focada em tirar seus sapatos, fazer seu macarrão e assistir qualquer filme. Parecia um cavalo selado seguindo as instruções do condutor. Porém, não conseguia desviar da tradição de cortar pela Praça pra ver se encontrava algum dos cachorros que costumavam perambular por lá. Possuía uma ansiedade de olhar para todos que passeavam ou repousavam por lá, vai que encontrava alguém conhecido ou alguma alma interessante. Quase ao fim do atalho, olhou para trás da grande casa que havia lá e percebeu um casal deitado. Olhou para os dois, percebeu que a moça o observava, ignorou, olhou para frente, surgiu-lhe um calafrio, retornou seu olhar para eles e viu quem ela era. Acordou assustado, suado e indignado. Sonhara novamente com aquela garota. Segundo sonho em duas noites seguidas.

Ele chegou a desejá-la por um tempo devido a grande compatibilidade de interesses, mas um romance era inviável. Cada um possuía seus motivos para não se afundarem um no outro ou nunca tiveram coragem para debater tal possibilidade. O negócio foi que ele conseguia esquecer essa novela. Mas ela era um fantasma, aparecia constantemente em sua rotina sem ser convidada. Uma intrusa que lhe roubava a atenção e invadia seus pensamentos. Ele insistia em lutar contra isso, contra ela, contra os pensamentos. Felizmente, quando ela sumia, era por bastante tempo.

Estava num restaurante, sentado com três amigas numa das mesas externas do recinto. Antes de as encontrar, matou tempo na livraria que ficava do outro lado do calçadão onde ficava o restaurante. Conseguiu controlar seu vício e saiu da loja sem livros ou dvds. Nenhuma delas havia chegado ao encontro, todas atrasadas. Então se sentou no banco em frente a livraria e esperou. Chegaram e foram ao restaurante.
Enquanto uma das amigas fora ao banheiro, ele divagava sobre o efeito que determinado filme exercia sobre ele:
- Não sei, ao mesmo tempo que esse filme me fascina, ele me assusta muito... - Expressava-se com olhares aleatórios para a rua - E nem é um filme de terror. Assisti várias vezes já e sempre fico atordoado... - Até que mirou seu olhar ao banco onde se sentara anteriormente.
Exatamente no mesmo lugar onde ficou, estava a tal moça dos sonhos. Interrompeu sua fala, ficou mudo, mas logo a amiga retornou e os puxou a outro assunto.
O olhar do rapaz se prendia à moça, que, obviamente, estava acompanhada de seu namorado.
Ele já nem ouvia mais o que suas amigas diziam. Ficava figurando coisas. Imaginando. Pensou em chegar no banco onde os dois estavam, falar "ô, rapaz, dá licença, vai embora" e ficar ali sentado com a moça.

Era maior que ele, obrigava-o a se afundar num desejo indesejado, mas ele sorria.

2013/07/15

The sick mind

As coisas só eram ruins na sua cabeça. As coisas só aconteciam em sua mente.
Fora dela, ele era um bom moço na sociedade. Dentro da lei, caridoso, benevolente.
Dentro dela, psicopata, serial killer, repugnante.

Havia um cara sentado em seu banco de sempre, onde se sentava todos os dias. Aquele lugar lhe posicionava num espírito de superioridade aos outros passageiros. Porém, tinha um babaca sentado lá roubando seu trono.
Parou em frente ao senhor, esperou que ele percebesse sua presença. Agarrou o intruso pelo pescoço e bateu repetidas vezes a cabeça dele num ferro ao lado do banco. Até que o cara não conseguisse mais urrar de dor, até que o cara não conseguisse mais respirar, ele continuou. Jogou o corpo no corredor do ônibus, que logo tombou à escada. Andou ao peso morto, rasgou um pedaço da camiseta e o usou para retirar os respingos de sangue que repousaram sobre o seu prezado banco.
Encarnou uma pose de poder como se fosse o Tony Montana em seu escritório. Então ficou ali emburrado encarando a vida passar pelas ruas da cidade amanhecida.

Na verdade, ele apenas se sentou num outro banco.

2013/07/08

Kill the poet

Seus horários de fim de expediente não coincidiam. Ficou matando tempo por uma hora num sebo próximo ao trabalho dela. Quinze minutos antes, sentou-se na esquina a fim de esperá-la. Ela não imaginava encontrá-lo após o serviço. Ele já tinha alinhado toda uma estratégia para acompanhar a moça. Moravam no mesmo bairro.

Sentaram-se no sofá. Ela já sabia o que aconteceria, mas quis esperar pela ação dele. Havia a coincidência de que eram dois tímidos ansiosos. Por mais que desejassem algo ou alguém, temiam arriscar-se.

Não era uma agressividade doentia ou imoral. Era apenas uma ansiedade que o dominava. Como se fosse outro ser, como se alguém o manipulasse. Ela se entretinha com isso e não desejava ter-se por satisfeita. Queriam mais.

Suados, sobre a cama, incrédulos e exaustos. "Se dupla personalidade existe, esse rapaz é um anjo e um demônio", ela repetia para si mesma. 
- Mas você não era assim, você parecia ser tímido... "Cavalheiro", sei lá... O que mudou?
- Você me conheceu quando eu já tinha fama besta de ser um dos últimos românticos vivos, só que eu abandonei há muito tempo. Apenas vivia nesse estereótipo porque gostava de ser reconhecido assim. Além do mais, não conseguia fugir disso. Não conseguia fugir de mim mesmo.
Enquanto ela lhe resgatava toda sua bondade, ele mordia seus próprios lábios e mastigava o remoroso de ter assassinado sua essência. Até que enfim disse:
I'm killing that poet before he kills me first.
- Oi? De quem é isso?
- Ah, ninguém... - tentou dizer algo que na sua mente fez sentido, mas ao repensar, desistiu. - É que tem coisa que fica mais bonita em outro idioma. Pelo menos, na minha cabeça.
A moça apenas sentou-se na cama e afagou as costas dele, que deu uma puxada de ar um tanto ofegante, num misto de choro contido com desespero e raiva. Era como se quisesse reabsorver o que abandonara apenas pela inspiração. Ela não dizia mais nada, apenas passava a mão nas costas dele.

Ele não queria repetir a dose daquela moça. Ele não queria repetir o "erro" de entrar num "relacionamento sério". Ele queria evitar amar para não repetir a dor de um coração partido. Mas essa moça lhe ressuscitara o desejo de pertencer a alguém. Sentiu-se livre para desabar nos braços dela. Ela era forte. Se não forte; ao menos, tinha disposição para aguentar a fragilidade dele.
Porém, ele preferiu manter seu orgulho e negar as alegrias para continuar alimentando seu lado sombrio, que se afundava em qualquer esquina, em qualquer cintura. Cansara-se de amores, era menos doído esconder sua verdadeira personalidade.

Esquecera a moça que o acolheu. Porém, a moça nunca o esqueceu e passeava constantemente com a boa imagem que o moço expressava: Bondade (que se suicidara afogada em mágoas).
No final, essa bondade retida maquiada de maldade não passava de egoísmo e medo.

2013/06/29

les revenants

Nada de romance.
Quer dizer, não era só romance.
Sua vida possuía inúmeros fantasmas.
Em seus vinte e um anos, foi obrigado a tanto depender quanto se desprender de muita gente. Ele não compreendia essa natureza de as pessoas saírem da sua vida, muitas vezes despropositalmente. Algumas apenas sumiam. Outras, ele negava a existência. Estas eram o problema maior.
Sempre se questionara se isso tudo não passava de uma mania implícita em seu ser ou se era a vida mesmo que adorava conspirar contra ele.
A vida dele nunca fora completa, o que o instigou a impor que nada era perfeito, nada era cem por cento. Acostumara-se com isso juntamente com a imposição de apagar da memória os fantasmas de seu passado. Não eram todos do mal, mas simplesmente se foram.
Obviamente, os fantasmas que mais lhe incomodavam eram os românticos. Corrigindo, as fantasmas.
Andava por aí com uma ilusória sensação de completude a fim de não almejar planos impossíveis. Ou pessoas.
Não havia lugar para se esconder, pois sempre haveria uma fantasma onde quer que fosse, nem mesmo sua mente era um lugar seguro. Aliás, era o pior lugar para se refugiar. Sua doentia e imaginativa mente. Ele precisava ancorar-se em alguém para despistar seus próprios pensamentos. Fato era que as cordas que o prendiam ao píer eram fracas demais. Ou era ele que não sabia dar nós. Ele era fraco. Quando conseguia forças, não as mantinha por muito tempo. Afinal, não era permanentemente forte.
Até “esquecia” das pessoas que perturbavam suas memórias e conseguia viver desprendido. Mas quando reapareciam por aí, quebravam-lhe as pernas e ressuscitavam sua convicção de que sempre fora incompleto. Corria-lhe um frio na alma, um vazio no estômago. Parecia-lhe que roubaram seus intestinos. Era um calafrio impossível de ser mensurado. Sua vontade era desabar no chão e só acordar após a cirurgia que preenchesse o que lhe faltava.

Acabara de sair de um bar, onde esteve com o pessoal da faculdade, e caminhava pela Rua XV. Poderia parecer coisa de turista, mas ele gostava de caminhar pelo calçadão. Mas ele só apreciava o local a noite, quando calmo, desabitado e sombrio. Gostava de ver quem andava por lá, tentava adivinhar de onde vinham, aonde iriam, o que faziam, pensavam e amavam. Sua curiosidade maior destinava-se às pessoas que se sentavam nos bancos da XV, pois não era um lugar muito seguro para descansar. Até que olhou para duas pessoas sentadas e o batom vermelho de uma delas ofuscou-lhe a visão.
Era a moça do beijo nos ombros. Uma história vivida que lhe fez muito bem, porém que foi obrigada a ser esquecida.
Ela sorriu. Não foi um sorriso direcionado a ele, era para pessoa que estava com ela. Porém, sorriso suficiente para quebrar suas pernas e trazer-lhe a tona novamente tudo que sentiu por ela. Ele sentiu muita coisa por ela. Em maioria, teve bons sentimentos por ela. Aliás, porém, ela nunca soubera. Ou descobriu e deixou que a timidez do rapaz o matasse.
Continuou caminhando disfarçadamente para não ser notado pela moça, que estava muitíssimo entretida em sua conversa. Ele foi até o ponto de ônibus num misto de êxtase e choque. “Meu Deus, ela!” Então começou a se martirizar por ter esquecido a moça. Relembrou de tudo de bom que sentiu por ela e viveu com ela, apesar de não ter sido tudo o que desejava.

Enfim entrou no ônibus e se encantou com uma baixinha que estava lendo Bukowski. Seguiu a viagem observando a moça sem criar expectativas ou método de abordagem. Esquecera moça do beijo nos ombros.

Esse era seu jeito. Ao mesmo tempo, tão dependente das memórias e cheio de distrações. Perdido, hermético, explícito, vai e volta em sua própria mente.