2010/01/29

Imediato

Ganhei meu tão esperado celular e fui logo divulgando-o para galera, via email e etc. Cerca de quinze minutos depois recebo uma mensagem, de um numero até então desconhecido, dizendo "Tá fazendo o que? Me encontra no Mueller daqui uma hora. Te espero lá. Beijos. Heloísa".
Finalmente, com a ajuda do telefone, poderia estar disponível para todos meus amigos, mas não esperava que "ela" quisesse me ver tão cedo. Pois havíamos nos conhecidos dois dias antes, no restaurante de seu pai, que foi meu professor de matemática por sete meses na oitava série, um dos melhores.
Enfim, louco para revê-la, fui logo me arrumando. Mas que roupa vestir eu não sabia, ela não disse nada sobre isso, e pelo tom da mensagem ela queria algo imediato. Fiquei no meio termo, não tão sujo mas nem tão limpo. Vesti meu jeans de duzentos reais, minha camiseta velha do Kings of Leon, exagerei no perfume, baguncei o cabelo, roubei uns chicletes de minha irmã, pedi dinheiro para minha mãe, abracei todas e parti rumo ao shopping.
Como eu saí as pressas, não vi que horas eram e nem quantas faltavam para a hora marcada. Resultado, cheguei lá vinte e cinco minutos antes do combinado.
Encostei-me na parede próximo à porta do Mueller e fiquei vendo as pessoas. Aquele era um lugar em que podia se ver de tudo e todos, (estilos, cores, bandas, penteados tatuagens,...). Mas, naquele momento, nada mais me atraía do que a dona daquele belo par de olhos verdes, que aliás, estava demorando para chegar.
Depois de ser praticamente abusado por duas garotas estranhas que não paravam de me olhar, avistei na longínqua esquina um vestido verde e um sapato vermelho. Fui andando naquela direção, meio em dúvida, mas deduzi que fosse ela. E era, quando me viu acenou e eu acelerei meus passos, sorri e, ainda de longe, fui retribuído com um largo sorriso.
Fomos nos aproximando, e quando ficamos frente a frente, só pensei em uma coisa:
- Nossa, como você está linda!
- Adoro Kings of Leon! - foi essa sua resposta, seguida de um abraço, íntimo demais para pessoas tão pouco íntimas.
Fomos indo em direção ao shopping, pouco me importava. Não olhava para a frente, trombava com quem vinha contra mim, só não conseguia parar de olhar para ela. Meu coração parecia uma dinamite prestes a explodir. Decidi perguntar:
- E então, o que você queria?
Respondeu:
- Te ver.
-Só isso?
-Não, lógico que não.
- Então o que mais?
-Sabe se tem algum filme decente em cartaz?
-Bom... tem alguns, de diferentes estilos. Ação, animação, romance...
Chegamos próximos à entrada do Mueller e, novamente, me encostei na parede. Fiquei observando Heloísa até que ela dissesse algo. Mas eu sabia muito bem o que eu queria. Ela era ideal para mim. Mas tudo o que é ideal, precisa ser transformado em real. Conhecia o suficiente para julgar que ela era tudo o que eu mais queria. Porem, não sabia se ela era comprometida ou coisa parecida. Então, impulsivamente perguntei:
- Escuta, você tá namorando?
-Ah... não. Aliás, nunca namorei.
- Que coincidência.
- Por que nunca namorou?
- Não encontrei a garota certa, ainda. Ou acho que encontrei.
- Hum... Quem?
Ao perguntar, ela se posicionou frente a mim, como se estivesse me interrogando.
- Uma tal aí que conheci recentemente, mas não estou certo de que ela veja algo em mim.
- E o que ela precisa fazer? - Perguntou-me como se fosse uma psicóloga ou conselheira amorosa.
- Me conhecer melhor.
-Ah é? E por que você acha que eu te chamei aqui? - disse, num tão bastante irônico. Confuso, respondi:
- É... o que?
Sou um burro.
- Oh, burrinho... Quando te vi no restaurante, logo percebi que você era um bom garoto. Fiquei curiosa para saber quem você era.
- Sério? Desde segunda-feira, eu só penso nesse par de olhos verdes hipnotizantes. Mas...
- Mas o que?
- Mas você... você - gaguejei- digo, eu... eu...- mais uma vez, gaguinho- ... creio que exista um processo a ser realizado. Tipo, mesmo tendo certeza que te quero, preciso te conhecer para passar ao próximo nível de um relacionamento. Mas sem nos tornarmos amigos, entende?
-Sim, e é isso o que eu quero! - E foi se aproximando - O que você quer?
- Você.

2010/01/28

Sabor, dedução, improviso e falta de informação

Desci do ônibus e fui diretamente ao seu encontro e, como de costume, nos beijamos intensamente. Depois de dois dias sem encontro algum, o mínimo que puderia fazer era dar o meu melhor, provar que estava com saudades.
-Poxa, Leo, da próxima vez eu vou contigo! - disse me abraçando fortemente.
-Seria ótimo, mas espero não perder mais um parente distante e ter que viajar às pressas.
-É, mas vamos sair daqui. Nunca gostei de rodoviárias.
Fomos caminhando, quando um cara estranho gritou, "O tetéia, volta pra minha casa!", e eu, como sempre fui calmo, não dei bola, seguimos em frente mas percebi uma certa angústia nos olhos de Michelle, então perguntei:
-Conhece esse maluco?
-... É... Não, lógico que não.
O homem não era velho, aparentava ter a nossa idade, mas não parecia ter sanidade mental. Mas, do nada, uma dúvida surgiu, na verdade, um desentendimento dentro de mim.
Quando beijei Michelle, não senti o mesmo gosto de sempre. O sabor do batom que ela sempre usava junto ao do chiclete que ela sempre mascava, adoro aquela mistura, mas naquele beijo, não senti nada parecido. Era semelhante ao cigarro que eu fumava, mas ela nunca teve vontade de fumar, e nem podia, por problemas de saúde.
Várias teorias iniciaram-se em minha mente... Teria ela me traído, enquanto eu estava chorando pela perda de um tio?... Teria ela começado a fumar?... Teria ela beijado outro garoto, ou garota?...
Sinceridade era o que eu mais prezava em um relacionamento, então decidi interrogá-la, mas antes, optei por beijá-la mais uma vez.
Atravessávamos a rua, quando retornei de meus pensamentos e instantaneamente disse para ela me beijar, ela perguntou "Aqui?", respondi "Agora!". E eu ainda não havia percebido que estávamos no meio da rua. Ela me olhando com um ar luxurioso, me puxou e beijou.
Analisei toda sua boca e seus sabores enquanto nos beijávamos. Não estava enganado, o gosto havia mudado, e analisando mais ainda, ela se comportava de um modo diferente desde a rodoviária.
Percebi que alguns carros buzinavam e empurrei Michelle, enquanto beijava, para a calçada. Quando uma certa fúria me possuiu, joguei a garota no muro, e comecei a interrogá-la:
-Confessa que você beijou outro cara! Confessa que aquele cara estranho não era desconhecido! Confessa que esse gosto da tua boca é de outro vagabundo! Confessa! Confessa que vocês se beijaram! Confessa, quenga!
Cheio de razão, pressionei aquele pequeno corpo contra a parede e lancei olhares fulminantes, esperando que ela confessasse tudo.
Silêncio... Sua expressão demonstrava que ela começaria a chorar, então eu disse:
-Ah, santinha, se arrependeu, é? Confessa!
- Você não sabe de nada!
Conseguiu se soltar dos meus braços, me encarou triste e irada ao mesmo tempo, então, com toda sua força, me deu um tapa na cara e saiu correndo rumo ao ponto de táxi mais próximo.
Poderia ter corrido atrás dela imediatamente, mas a dor era grande, fiquei desnorteado, como quando nos conhecemos. Voltei à Terra e corri, mas era tarde, ela já havia entrado em um carro e partido.
Não sabendo o que fazer, segui caminhando, encontrei um bar e decidi entrar para pensar no que tinha feito.
Duas horas depois, já familiarizado com os outros três clientes do bar, todos nós bêbados, me assustei quando meu celular vibrou. Os amigos riram do susto, e perguntaram o que aconteceu. Li a mensagem:
"Querido Idiota, se você estivesse a par das notícias, não teria apanhado e eu não teria fugido. Saiba que hoje é o dia do mês em que vou ao hospital, doar sangue. E por acaso,fui ao dentista depois. O doutor examinou minha boca e recomendou que eu parasse com os doces, pois estava ferrando com meus dentes. Depois disso, quando estava no elevador, indo embora, aquele "cara estranho" entrou e acendeu um cigarro (só não é mais louco que você) e coincidentemente, o elevador travou. Como eu estava frágil demais devido à doação, o cheiro de fumaça me fez muito mal, fiquei zonza e desmaiei. Me socorreram, e quando acordei tomei alguns remédios no mesmo hospital. Se você, ao invés de ficar lamentando uma morte desde quando desceu do ônibus, decidisse perguntar-me como estava, se aconteceu algo, perguntado sobre novidades, talvez eu não teria corrido de você e sua neurose por cheiros e sabores. E, não, eu não beijei ninguém além de você. Mas tenho uma notícia quente, a partir de agora, anuncio o fim do nosso namoro. Não me ligue, suma!
Como todo o ódio do meu coração, um beijo. Michelle."
Constrangido, fiquei sem palavras. Só ouvia os risos dos bebuns que estavam ao meu lado. Quando um deles disse:
-É, amigo! Haha! Se ferrou!

2009/12/20

Uma baratinada monstro a dois (Parte UM) - Não Me Deixe Sangrar

Disposto à xingar o desgraçado que me puxou, olho para o fulano e quando reconheço aquele rosto tão avacalhado, simplesmente travei. Pelo visto, foi um ato recíproco de ambos ali naquela sarjeta imunda do Largo.
Meu rosto, meu corpo, só eram capazes de tremer. Pois, internamente, corriam diversas emoções intensamente. Tantas, que se eu fosse um computador, já teria explodido.
Ao mesmo tempo que estava alegre por estar revendo depois de anos a "garota da ordem", estava furioso por tudo o que ela me causou, nervoso pois fico assim toda vez que a vejo, triste por encontrá-la naquele estado, inconformado por ela ser tão burra, disposto a tirá-la daquele lugar... mas isso só depois de ouvir tudo o que ocorreu com sua vida desde que tinha dezessete anos.
Meu sistema estava sobrecarregando-se, e com isso as emoções começaram a se soltar. Lágrimas leves de angústia e uma dor no peito aumentavam meu tremor. Tentei decifrar o que Norah sentia, mas aqueles malditos olhos verdes me hipnotizaram. Só sei que ela não disse nada, eu também não. Não faço ideia de quanto tempo ficamos ali, paralizados. Até que ela disse algo.
- Se eu tivesse condições, me levantaria e te daria um abraço. Mas já estou morta demais para isso. Então, abaixa aqui e me abraça.
-... como você foi capaz de fazer isso... consigo mesma?
Dizendo isso, me sentei ao seu lado e a envolvi em meus braços.
- O que?... Eu era apenas uma garotinha inocente.
- Mas por que? Você tinha tudo o que quisesse.
- Você já se iludiu por um amor, falso ou platônico, certo?
- Não quero falar sobre mim! Quero saber porque você sumiu... e porque voltou, nesse estado.
- Quer saber mesmo?
- Diga.
- Como diria um antigo programa de tv: Senta que lá vem história...
-Já estou sentado, besta!
- Quer uma pipoca, ou alguma bebida? Olha aqui, tenho um resto de pinga, você quer?
-...
Ignorei. Me calei. Rosto sério. Internamente, implorei para que ela dissesse tudo de uma vez.
- Ai, tá... desculpa. Então... Mudei de colégio no meu ultimo ano do ensino médio. Perdi contato, propositalmente, com a maioria daquelas minhas "amigas" e alguns noobs do Leôncio. Nem me importei com você, mesmo sabendo de TUDO.
"Na escola nova, entrei em uma sala bizarra demais. Cheia de estranhos e estranhas, só uma pessoa era interessante. E quis ter amizade imediatamente com ela. Sebastião era seu nome. Aparentemente bonito, inteligente, carinhoso, e deveras outras características que eu considerava ideais para um namorado. No mesmo dia em que nos conhecemos, fomos ao cinema e lá, ficamos. Foi um romance espontâneo. Simplesmente não nos separávamos. Eu estava louca de amores por ele. Meus sentimentos eram os mais sinceros possíveis, pensava eu. Eramos a dupla dinâmica da turma, fazíamos tudo juntos, estudávamos, matávamos aulas, colávamos nas provas, tudo mesmo. Estava disposta a fazer qualquer coisa para não perdê-lo. E acreditava que tudo isso era recíproco... "Recíproco" é uma palavra engraçada, não acha?"
- Talvez, mas lembro que é o nome de uma poesia que te escrevi, creio que foi uma das ultimas que te entreguei, antes de você partir.
- Nossa, que memória você tem! Como é mesmo esse poema?
-Não lembro.
- Capaz! Claro que lembra. Eu lembro:
"Espere um pouco,
me livre deste sufuco,
todo esse vazio me deixa oco.
Preencha-me com tua vida.
Mas, por favor, ..."
-... que seja recíproco.
Ou, um dia, te darei o troco.
- Uau!
- Que vergonha dessa minha criação. Uma das piores que fiz, foi de improviso. Escrevi no guardanapo e te entreguei em seguida.
- É, eu lembro. Li e reli várias vezes. Tentei decifrar teu sentimento, mas falhei. E então vai me dar o troco?
- Seria o certo, bem que eu quero. Mas não agrido mulheres, muito menos bêbadas.
- Haha... Bêbada é pouco. Já nem sei quanto bebi e quantos comprimidos ingeri.
-Depois você conta, agora continua a história.
- Tá bom, tiozão.
"Enfim, eu e Sebas namorávamos escondido. Porque ele dizia que seus pais não aprovavam qualquer tipo de relação antes do casamento, devido à religião. Ele, com quase dezoito anos, já não suportava mais essa privação. Eu, louca com recém dezessete anos completos, queria oficializar de qualquer jeito.
Então, ele me propôs que quando completasse seus dezoito anos, nós iríamos para Portugal, ter uma vida só nossa. Eu, louca apaixonada e inconsequente, aceitei. Mesmo temendo que meu pai tivesse um ataque do coração.
Na véspera do aniversário, comecei a arrumar minhas malas e uma desculpa que meu pai aceitasse bem. Disse a ele que uma colega de turma iria fazer uma festa na chácara de sua família, uma espécie de acampamento de final de semana. Ele me autorizou a ir, e me deu dinheiro para comprar doces. Tudo bem, peguei todas minhas economias guardadas para comprar meu carro e parti. Não sei o que Sebastião disse para seus pais, mas só sei que ele chegou no horário certo onde combinamos. Pegamos o avião para São Paulo às três da manhã, e de lá pegamos outro para Portugal. O fuso horário me confundiu, mas aterrissamos em Portugal quando o pôr-do-sol já ia desaparecendo. Sebás, já tinha tudo combinado com um "amigo" que morava no centro de Lisboa. Do aeroporto, fomos até a casa dele. Um verdadeiro muquifo, aterrorizante. Pensei que estava no Massacre da serra elétrica. Não estava no filme em questão, mas meu pesadelo começou na mesma noite em que cheguei. Quando chegamos, Jardel, o dono da casa, estava fazendo uma coisa que eu nunca havia experimentado, estava preparando uma "carreira", se é que você me entende. Olhou para nós e disse:
-Sejam bem-vindos! Querem um pouco disso? É só a entrada, a noite vai ser de festa, uma longa festa!"

2009/12/06

Cegueira proposital - Não me deixe sangrar

Algumas pessoas se assustavam com minhas atitudes, em relação à Norah. Depois de tudo o que ela fez e não fez comigo, eu ainda a amava. Isso sim, é amor, platônico de verdade. Por mais que o tempo passe, por mais que ela tenha me humilhado, por mais que tenha mudado, eu simplesmente não parava de amá-la. Depois de alguns anos de abstinência, sem saber onde ela estava, tudo aquilo que senti voltava a superfície. Quando ela partiu, adorei, porque teria a oportunidade de não vê-la mais, e esquecer tudo que me atormentava. Mas amor platônico é assim, não morre, parece que sim, mas ele engana. Na verdade, ele só está bem escondido no fundo do coração. E eu consegui cavar um buraco bem fundo e escondido para Norah, pois não conseguia mais encontrá-la, mas o que aconteceu, ela ressuscitou, e trouxe todos os fantasmas da minha adolescência. Alguns se converteram em amor, e preocupação- pois ainda não a encontrara-, mas os mais fortes trouxeram lembranças, péssimas lembranças.
Recordei de tudo que fiz para impressionar quem pouco se importava com minha existência. Lembrei de todos os lugares que frequentei para observá-la. Recomprei todas as roupas que usava para chamar a atenção. Mas a atenção de Norah era cara e surda.

Estava tão inconsequente que saí de casa, àquela hora da madrugada, à pé. Alvo fácil de qualquer ladrão. Tinha carro e bicicleta, mas o retorno inesperado de Norah me deixou atordoado, e não me deixou pensar em meio de transporte.
No caminho para o Largo, passei pela praça Osório e em frente a um snooker bar da mesma rua. E isso me fez lembrar de uma coisa, quero dizer, uma pessoa. Por incrível que pareça, não era Norah. Como pude esquecer de Sofia?
Não era exatamente minha amiga, muito menos minha namorada. Mas confesso que tínhamos uma relação muito diferente de qualquer uma.
Ela sabia de todos os meus segredos, eu sabia de todos seus segredos. Sabia de todo o meu passado, eu sabia de todo o seu passado. Sabia de todos meus romances que deram errado, eu sabia de quantos homens ela havia gostada. Sinceramente, eu conhecia ela mais do que qualquer um. Ela me conhecia por inteiro. Mas não sei o que nos impedia de assumir um namoro formal. Creio que se fossemos fazer isso, tudo daria errado. Então era melhor manter essa relação louca e sem rotina. Ela saia com quem quisesse, eu pegava quantas pudesse. Nós aceitávamos tudo o que o outro fizesse. Era um caso sem aliança qualquer. Quando um precisasse do outro, era só chamar.
Mesmo eu estando com outras. Mesmo ela pegando outros. Nós sabíamos que encontraríamos carinho, conforto, alegria, confiança e apoio quando estivéssemos juntos.
Eu, apesar do passado, era aparentemente comportado. Mesmo tenho uma juventude rebelde. Ela, apesar da beleza, era toda suja e alcoólatra. Mesmo sendo de uma família religiosa. Nós fazíamos um casal bonito, interessante.
Mas eu sentia a necessidade de ter um tempo sem ela. Não sabia explicar ao certo, mas hoje sei que o motivo para isso, estava jogado em alguma sarjeta, esperando alguém. A morte ou eu.
Acredito que eu era o único homem a realmente gostar de Sofia. Tornava seus defeitos, grandes qualidades. Simplesmente ignorava seus erros, e aproveitava ao máximo sua bondade. Eu fui cego ao não perceber que eu a deixava realmente feliz e motivada a viver mais, ao meu lado. Eu era quem ela mais desejava.

Mas o que me assustou naquela madrugada dominical foi simplesmente eu esquecer de Sofia. Esquecer de nossa relação. E me preocupar com uma desgraçada que ferrou toda minha adolescência.
Depois de voltar no tempo e me distrair com a loira do snooker bar, começo a andar mais atento. Pois me aproximo do Largo da Ordem e sei que Norah está próxima.
Sabia que ela estaria perto do Opera, mas não conseguia encontrar nada parecido com uma bela moça que não via há muito tempo. Só alguns moradores de rua e uns bêbados desmaiados. Passei por um corpo que puxou minha perna e disse:
-Você demorou!

Sarjeta da Abstinência - Não me deixe sangrar

Graças à um morador de rua e seu cão, me livrei de três ou quatro caras, não lembro ao certo pois estava "chapada" demais, que queriam ir comigo à não lembro onde para "brincar", segundo eles.
Esse era o problema em ter vinte e quatro anos e um rosto de dezeseis, as pessoas, principalmente homens, queriam se aproveitar de minha inocência aparente. Bem, alguns conseguiram, por isso estava no estado em que Tomas me encontrou, drogada, suja e sem vida. Mas depois do que aconteceu entre eu e Sebastião lá em Portugal, minha mente mudou, fiquei mais perversa, maligna, e depressiva.
Tudo o que o meu mais novo companheiro de sarjeta, e salvador, quis em troca foi um gole de cachaça e comprimidos, pois precisava manter o vício. Dei a ele o exigido, pois eu já estava "semi-morta", não me faria falta. Um só comprimido não faria mal algum a ele, em comparação às doses que tomei... algumas várias, com cachaça pura. Então, não estava só lesada, e esperando a morte devido as dúzias de comprimidos, estava bêbada também. Pelo menos não quebrei a promessa que fiz ao meu avô antes de morrer. Ele me pediu que eu nunca fumasse, pois poderia ter câncer, doença que matou o homem mais bondoso do mundo. Bem, nunca fumei, mas bebi litros e mais litros de todo e qualquer tipo de bebida alcoólica e usei algumas outras drogas, tudo menos o cigarro. Não sou de quebrar promessas.
Meu amigo da calçada se despediu e partiu rumo a agitação noturna do Largo. Mas, o que um pobre miserável, sem um vintém, faria no Centro de Curitiba? Não faço ideia, mas qualquer coisa era melhor do que ficar esperando a morte em uma calçada podre de suja em frente a um dos lugares que mais frequentei quando adolescente. Ao menos poderia esperar relembrando todas as aventuras que tive e presenciei na minha passada vida de groupie. Foram tantos momentos divertidos e satisfatórios. Perdi quase todo o tipo de virgindade naquele lugar, mas parti para Portugal com a pureza de uma criança. A ilusão é predominante na infância, faz com que elas pensem que tudo é perfeito, tudo flui a favor delas, mas é tudo mentira. E foi assim, iludida, que fugi do que pretendia me fazer bem.
Apesar das perdas e dificuldade que tive enquanto morei com meu pai, dos dois aos dezessete anos, minha vida era prazerosa. Se eu realmente quisesse algo, batalhava por isso. Mas todos têm defeitos, e por mais que dissessem que eu era a garota ideal, tinha meu lado negativo. Orgulhosa, imatura e ignorante. Isso não me prejudicava, só fazia mal a quem estava querendo se aproximar de mim. Odiava que as pessoas se interessassem por mim, para fazer amizade, se eu quisesse, eu faria. Sei que magoei muita gente, mas só concluí isso, após ser magoada por um maldito ilusionista.
Pois é, eu e meus dezessete anos, recém-completos, queriam festejar, mas conheci Sebastião. No início, era tudo o que eu queria, fazia qualquer coisa pelo seu amor, até fugiria de casa. E fiz isso, fui para Portugal com ele, que me prometeu muitas coisas, e eu iludida, o segui. O que o desgraçado realmente queria era viver às minhas custas. Me torturou, me obrigou a vender coisas ilícitas, para uma menor de idade. Vendi drogas, vendi rins e órgãos variados, e vendi meu bem mais precioso, o corpo. A virgindade que eu não perdi no Opera1 em Curitiba, eu perdi em Lisboa. Seria melhor perder isso, do que a vida completa.
Sebastião era membro de uma gangue, quase máfia, que trazia garotas do Brasil para Portugal, dizendo que teriam muitas coisas, todos aqueles sonhos juvenis. Mas na verdade, elas eram escravizadas. E eu, iludida, fui umas das primeiras vítimas dessa armação

Não entendo como consegui ficar tanto tempo refletindo sobre meu passado sombrio e vergonhoso, pois achei que logo teria um ataque causado pelos remédios. Ou, não sei, vomitaria pelo excesso de cachaça. Despertei para conferir se me restava algum comprimido, ou qualquer coisa que me matasse. Mas um fato me assustou.