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2015/09/21

Indigesto

Underneath the skin there's a human
Buried deep within there's a human
And despite everything I'm still human
But I think I'm dying here

Daughter, Human


Antes de machucar e abandonar (não exatamente nessa ordem, dependo do caso) quem estava a seu lado, a ponto de não conseguir - nem ao menos cogitar - pedir para voltar, pedir perdão, já tinha machucado e abandonado a si mesmo há tempos. Quando percebeu o desmoronamento, já estava com um pé preso numa coluna de metal pesado reforçada com desprezo e remorso, e conseguiu apenas se deixar ser engolido pela destruição
Apesar de destroçado, mantém firme seu orgulho, talvez o pouco de força que lhe reste é aplicada nisto, mostra que (ainda) é forte, que não sente falta, que não precisa de companhia, e talvez até convença outrem ainda com pouca intimidade que é autossuficiente e consegue se manter em pé e lúcido sozinho. No fundo de uma caverna que só ele conhece a entrada e permitiu até hoje o acesso de um número mínimo de pessoas, sabe-se que todo o esquema de um arranha-céu fundado autonomia e segurança é um holograma  para uma cabana de cobertores coberta por aflição e carência, vizinha de uma represa de lágrimas.
A cidade, a comida, a solidão, a companhia, o quarto, as ruas, os cigarros, o álcool lhe fazem mal, mas ainda assim insiste. Por mais que odeie tudo isso, no sentido de não suportar mais, sabe que sem isso tudo não é. Não existe. De qualquer jeito, se está bem em harmonia ou mal em melancolia, não existe - da maneira que gostaria de existir. Eis um paradoxo, não está satisfeito com o arranjo de sua existência, contudo desconhece uma forma, ou um caminho para tal, que poderia deixá-lo completo.
Não consegue engolir o que é, vomita, tenta novamente, os pedaços de sua essência que antes deslizavam suavemente pela garganta, como a mão de alguém que afaga o rosto do primeiro amor, passaram a agarrar a frágil carne e machucar todo e qualquer pedaço de sua mente, como os últimos dias de um romance arruinado.
Não se deve perder tempo para julgar a quem se atribui a culpa pelo desencadeamento da avalanche de estragos, pois várias pessoas seriam responsabilizadas por algo que fizeram, algumas até sem intenção de dolo. Memórias infelizes foram alocadas em algum canto do interior do ser em questão e incharam a ponto de causar uma explosão e muitas cicatrizes. O acumulador de mágoas desaprendeu a administrá-las, e, durante um porre possivelmente, deixou as gaiolas abertas dentro de seu peito e, com mãos trêmulas, sem controle, conseguiu apenas conviver com todas elas, deixando que o arranhassem e falassem por ele. Não culpava o passado nem o que as pessoas lhe fizeram ou disseram, a culpa era do conjunto que possibilitou tudo desandar de forma tão particular e desastrosa.
Pensava em portar um artigo de trinta e quatro páginas sobre como sua cabeça funcionava e consequentemente funcionavam seus comportamentos sociais ao se apresentar a alguém, fosse amizade ou amor em potencial, para que não se magoassem tão facilmente - quanto ele se magoava, às vezes, por nada - e entendessem que, se quiserem tal companhia, estariam entrando numa tempestade natural: descontrole e desespero.
Não espera compaixão de ninguém, nem ao menos que insistam em permanecer a seu lado por dó de uma essência tão desgraçada, deseja que fiquem porque sentem interesse por alguma de suas qualidades... Sim, tem algumas e acredita que são grandes… Não quer forçar ninguém a ficar e pensa em rasgar todo histórico vivido com a outra pessoa, caso julgar o distanciamento melhor que a dor de estar ao lado de alguém cada vez mais perdido. Não sabe se ainda é capaz de conviver em paz com quer que seja sem inesperadamente entrar em crise e desaparecer, mesmo que seja um desaparecimento apenas interno e não seja mais possível enxergar seu núcleo.
Por fim, chegou a um lugar em seu deserto onde não é capaz de fazer uma mensagem atingir qualquer resposta. A subliminaridade de seus gestos não tem mais o mesmo alcance, se é que tiveram alguma força anteriormente. A redoma de isolamento criada por ele mesmo torna delicado qualquer movimento de aproximação, que arrisca não só o distanciamento a se arruinar, como também todo o resto.

2015/05/12

Pronto-socorro

A terrível doença crônica conhecida como Amor que vai e volta matando cada vez mais durante o processo ou O relato estúpido sobre alguém ainda mais estúpido

O câncer que havia desaparecido retorna para atormentar um ser, assim era ele: uma desgraça. Daquelas pragas que retornam ao jardim no momento em que todas as flores se recuperaram. Não foi a primeira vez - nem a única e não seria a última - que a seguinte história ocorreu. Era vício. Não espere uma história romântica, isto não passa de repugnância.
Entre espirros e antialérgicos, fungando seu nariz cheio de rinite, ele tentava se reaproximar de/redimir-se com a pessoa que ele mesmo afastou.. O distanciamento, por vezes, se deu por causas líquidas, má digeridas, que se esvaiam sem atrito suficiente para se prender à razão. Ele não se machucava a ponto de procurar o pronto socorro do coração partido. Cismas bestas, nada além disso, que fizeram a outra pessoa acreditar que era o pior ser humano, que fez algo imperdoável e era fortemente odiada, mas não, apenas uma grande injeção de orgulho misturado com teimosia e precipitação. Ele não calculava o estrago que um impulso imbecil pudesse causar na relação com a outra pessoa, só se distanciava. Destruía de longe, assim como o general que ordenou o ataque à Hiroshima e Nagasaki, o que ele mesmo construiu em conjunto com a outra pessoa ao longo dos últimos meses. Seu sado masoquismo nada físico atingia o auge conseguia machucar a si mesmo e, simultaneamente, a outra pessoa, até mesmo a previsão ou ilusão de quebrar corações (incluindo o seu próprio) agradava este setor setor estúpido de seu ego.
Sado masoquismo emocional e contradição, maiores manias indesejáveis. Se ele te disse, ao menos uma vez, impondo a voz, que era a favor de ou contra algo, como, por exemplo, ciúmes e relacionamento aberto, aguarda... Ele vai se contradizer hora ou outra.
Por uma perspectiva otimista, o lado bom disso tudo é a ausência de violência física. O máximo que ele conseguia fazer era derramar-se em textos como este para destilar seu rancor.
No fundo de sua imensa profundeza, ele nunca quis partir. A palavra "nunca" não era aplicada em suas sentenças se não fosse pura verdade, assim como "eu te amo" etc, pureza maior que a do Cristal de Heisenberg. A cisma e o impulso o influenciam há tempos a encarnar uma persona rancorosa, pessimista, vingativa e incapaz de ser amada, porém, não que ele não tivesse esse perfil, longe de serem suas mais notáveis características. Carinho, afago, silêncio… Como este não é um texto para exaltar possíveis qualidades de alguém, mas para simples difamação positiva, relembramos que reações impulsivas causam um estrago enorme.
Não gostava de destruir coisas, pessoas ou sentimentos, mas destruía. O dom que não aceitava.

Pensava no filme Tatuagem, na tatuagem do filme Tatuagem e da tatuagem que faria nas costas quanto atingisse certo tempo de relacionamento com a outra pessoa. Apesar de imediatismo no café da manhã diariamente, também se alimentava com o depois. No quarto de livros, no quarto de felinos, nos encontros comemorativos em [local sigiloso] num dia da semana específico, no nome da primeira filha e nas férias conjugais em que ele iria à Suécia; ela, a algum lugar que o rapaz não conseguia resgatar de conversas passadas, e encerrariam o período de afastamento na Pont Neuf.

“What it all / what it all / could be / with you”, cantarolava ele sozinho silenciosamente perambulando por um corredor específico da biblioteca pública, enquanto mais um cigarro indesejado caía sobre seu peito, na esperança de ter o acaso ao seu lado mais uma vez para encontrar a agora novamente estranha. Sentia, em vão, a presença da outra pessoa em diversos lugares, mas nada. Nada dela. Nadava ele em lembranças daqueles malditos lugares. Nem a coincidência queria mais ajudá-lo. Ou era o movimento de translação da terra, que, em seu período anterior, gerou rotas de colisões mais precisas. Não acreditava em destino, obra de Deus nem em si mesmo para tentar reverter a infeliz situação.
O bilhete daquela viagem venceu e não havia blowjob suficientemente recompensatório para que ele permanecesse naquele trem. Teria que conviver com os souvenires. O folheto da peça que viram juntos, guardado em saco plástico na caixa de lembranças; a pintura dadaísta feita no verso de um cupom fiscal, pendurada ao lado da prateleira de romances trágicos; a peça de xadrez furtada da galeria do TUC, servindo agora como peso de papel para jornais literários, que também faziam-no lembrar da outra pessoa;; a propaganda da garota de programa Ashley, dada por um andarilho do Passeio Público...
Muitas recordações maiores que ele mesmo. Pesavam, doíam, corroíam, mas eram consequências merecidas para alguém tão imbecil que impediu a criação de novas experiências. Ele era digno de toda melancolia que lhe invadia.

Sobre a sétima palavra do subtítulo, é meramente ilustrativa, a fim de resumir o que ele sentia (ou ainda sente), mas não serve para assumir que era o que realmente corria em seus vasos sanguíneos, porém não pode se descartar a existência de tal praga, digo, sentimento.
Não pretendia ele apelar ao perdão da outra pessoa, caso, hora ou outra, constatasse estar arrependido, que ainda queria viver (ou, ao menos, tentar) “algo” com ela. Sabia que desculpas não seria suficientes. Deveras orgulhoso para afirmar redenção a tal vontade para pedir mais uma chance. Mas, quem poderia adivinhar?, como se trata de uma pessoa impulsiva, talvez, quando menos esperarmos, ele faça alguma coisa para dizer o que quer - ou o que não quer, contradizer-se, levar suas declarações mais a sério… Possibilidades.
Queria ser condenado a ouvir tudo o que a outra pessoa tem a reclamar sobre ele. Tudo.

2015/03/30

9

Enfim voltei, um tanto atrasado, mas cheguei, anos depois da partida. Não desejo parabéns pela atitude, quero somente me sentar e conversar - mesmo que sozinho. Estou aqui, fuma um cigarro comigo pelo menos. Calma, sei que é contra isso, mas esse desgosto de nada adianta agora. Vim de longe sem esperança de que você quisesse me ver, receber-me aqui, permitir minha entrada, ainda mais pra me ver fumando. Eu sei, te decepcionei, não só com esse vício, não me odeie porém, tenho novas histórias pra te contar que te farão soltar sorrisos orgulhosos. Depois da partida, aliás, comecei a escrever histórias, mas poucas delas sobre você, porque ainda me faltam palavras... Também preciso confessar contos e pensamentos que só me trazem remorso. Muito melhor do que eu, tão humana quanto eu, você sabe que é impossível nunca falhar, nunca errar em escolhas e impulsos. Não te culpo pelos teus atos aparentemente errados e já é tarde para saber das tuas vivências que desconheço, não me interessam. Tarde demais. Não mudará o que sinto por você. Um sentimento puro que sobrevive apenas de sombras, borrões do teu rosto e resquícios quase inaudíveis da tua voz. Não consigo mais ficar aqui, desculpa. Desculpa por tudo. Pensei que todo esse tempo faria cicatrizar a dor da ausência. Enganei-me. Fica com esse resto de cigarro, faz de conta que é uma vela para simbolizar o luto que me marca até hoje. Finge que está tudo bem e que não saí de casa na manhã daquela quinta-feira. Finge que me abraça forte e seca todas minhas lágrimas. Finge comigo, por favor, porque essa realidade sem você dói. Ainda machuca. Tua ausência me levou a tantos lugares distantes daqui, mas continuas presente em memória - e não são poucas nem leves. Onde estou, você está. Não sangro mais para evitar derramar teu sangue, tua única memória ainda tangível.

2014/10/23

Pra entrar na dança

Sem citar propostas ou casos de corrupção, uma coisa que me incomoda nessa "arena salve-se quem puder" entre partidários proselitistas (ressaltando a redundância proveniente do radicalismo) durante o período eleitoral é o macartismo disfarçado em muita gente. Mas um "medo dos comunistas" um tanto quanto contraditório. O argumento pra muitas pessoas não votarem no PT seria "o golpe comunista no Brasil', porém, por diálogos que presenciei, percebo que algumas dessas mesmas pessoas são a favor do retorno do regime militar. Mas, ué, qual a diferença, sem jogar na mesa o regime político, esquerda ou direita, entre o golpe comunista e o golpe militar? Ambos, tanto no Brasil quanto em Cuba, Coreia do Norte etc, foram/são de iniciativa de golpes militares. Golpes. Militares. O problema não é privatizar até a mãe ou fazer rodízio de Iphone com os colegas de ocupa, a treta é impor forçosa e violentamente um estilo de vida. Pior ainda se essas coisas forem leis que não beneficiam todxs, e até prejudicam os menos favorecidos.
"Ah, mas você não viveu naquela época." Não mesmo, acho que eu, do jeito que sou, não sobreviveria muito tempo, mas isso não me importa, vivo o agora, estou vivendo o 2014, 1964 já era, e espero que esse período em que "ou cê faz isso ou vai pra fogueira" continue distante, sem saudades de ninguém.
Eu não queria votar no PT, entre os dois partidos do dia 26, pois queria um que prezasse ainda mais pelo social perante o capital. Eu voto no PT, entre outras coisas, porque essa mulher consegue provar que não precisa ser "macho" pra ser presidente e aguentar a chuva de conspirações e ofensas, rompendo com essa porcaria de sexismo que nunca deveria ter surgido. Essa imagem de homem no poder já deu, né? Não me importo se for ela ou ele, só quero que faça algo decente (para todxs). Eu não votaria novamente no PSDB (já votei antes e agora me vendi ao sistema comunista, porque o salário é melhor, consegui até comprar uma passagem pra Miami), porque, não pensando tanto em possível retrocesso (extremo) explorado por tantxs, pois mudanças radicais levam tempo, e, durante o processo, alguma revolução contrária surgiria, mas, minha treta é com o fundamento de valorização do capital. Se isto é importante pra você, se a grana realmente é o que te move, aí a gente vê que democracia talvez seja mais utópica que esse tal de socialismo, porque interesses entram em conflito na hora de escolher "representante do povo". O diñero pode não ser o combustível de parte da sociedade. O povo da classe AA+ não é o mesmo povo da classe Z-. A "valorização do capital" perante o social mostra os níveis de superficialidade e egoísmo ao qual chegamos. O bolso precisa ser profundo pra comprar o "item do momento", enquanto, pra muita gente, o intelecto mal mede meio metro. "Se você não tem dinheiro pra comprar também, lamba meus sapatos e me inveje" é o pensamento que alimenta muitas cabecinhas.
"Vai pra Cuba então"... Melhor argumento de sempre Joga o Fidel no meio também. Dinheiro é importante pra mim, sim (como é que vou comprar minhas roupinhas pra mostrar pras vocês? - descarto a possibilidade de roubar, porque, oras, estaria ferrando outras pessoas, incluindo funcionárixs da loja que dividem a lotação comigo), mas não é que mais me importa. Não deveria ser pra ninguém. Acho bastante difícil uma pessoa ser de extrema-extrema esquerda e viver numa sociedade que respira e injeta capital diária e freneticamente, um vício mortal. É preciso (saber viver e) se adequar ao meio sem que os ideais sejam feridos e convertidos.
Não quero nem posso converter ideais e preferências políticas das pessoas, isso seguiria algo que me incomoda: Ditar comportamentos. Se você quer privatizar a bunda, vai nessa. Se quer dividir o lanche com o cara que dorme na marquise ao lado do teu prédio, go on. Se quer usar a camiseta do Che tomando sorvete no shopping, que seja. Só não seja igual de um jeito que te deixe infeliz. Só não vote em determinado candidatx, porque o vizinho da prima que trabalha com a mulher padre pediu ou pois "falaram que outrx candidatx é/fez tal coisa" (se é ou fez, pesquise, averigue e veja se esse passado é tão condenatório assim pra você). Esse "ovelhismo" de existir, ser, pensar, tudo igual: Não. Igualdade necessita existir em Direitos Humanos, sem hierarquia de privilégios sociais. Se eu almoço sanduíche natural e você, bisteca de porco ovo ou risoto de escargot com essência de fadas do Turcomenistão, continuemos assim, cada ser na sua, sem querer interferir nas vontades pessoais alheias. Porém, tratando-se de política, fica meio difícil pensar individualmente, já que você poderia ser a favor de 500 km de ciclovias na cidade e eu, da distribuição de carros sedãs pra todo mundo. Sacrifícios ideológicos, pra viver nesse mundão louco, são necessários, desde que sacrifícios humanos e animais não sejam obrigatórios pra que alguém se beneficie.
Enfim, antes de sair atirando que "ditadura comunista" é coisa do capeta (nada contra Lúcifer) lembre que isso só funciona erroneamente devido ao regime militar. Militar, lembra? Ditadura Militar. Brasil, de 1964 a 1985? AI-5, censura etc. Assim como aqueles 21 anos que você sente falta ("Ah, naquele tempo era tudo melhor"), o problema dos governos comunistas é a imposição através de violência. Tortura etc. "Descer o cacete em quem não obedecer ou pensar diferente", que zoado. O termo "partido de direita" me conservadorismo conservadorismo, que traz um monte preconceitos, um dos pontos iniciais de toda essa bizarrice eleitoral encontradas nas redes sociais. A xenofobia observada nas últimas semanas chega a doer os olhos e a alma. Talvez já existisse nessa proporção atual, mas a internet, que nos trouxe tanta coisa boa, deu voz a essa escória maldita, ampliando pensamentos nojentos que são curtidos e compartilhados pelo Brasil todo. Se você vota no PSDB pra "expulsar a imundície nordestina da 'minha terra' e fazer vagabundo parar de mamar nas tetas das bolsas-esmolas", porra, que pira mais errada. Creio, e realmente espero, que não seja essa a intenção de nenhum partido. Coisas assim não deveriam existir na cabeça de ninguém.
"Mas e a meritocracia? Não tem que dar o peixe..." Cê realmente acha que quem nasceu na merda tem as mesmas oportunidades que alguém que nasceu em berço de diamantes? Uma pessoa negra entra num shopping e, na maioria dos casos, é alvo de desconfiança e medo pelo simples motivo de ser assim. Cor, descendência, classe, roupa, orientação sexual e de gênero etc etc etc não são sinônimo sde maldade. O que faz uma pessoa ser má é sua própria cabeça.
"Essa esquerda-caviar-classe-média só sabe reclamar." Ainda bem que alguém faz isso. E não são poucos (que continuem surgindo mais). Reclamo, sim. Me importo tanto com uma pessoa que cria sozinha 3 crianças e leva duas horas pra chegar ao trabalho quanto com aquela que chefia uma multinacional e joga tênis quatro vezes por semana num iate, porque, assim, se todo mundo estiver bem, o ciclo da sociedade vai rodar sem prejudicar ninguém nem eu.
Por fim, definitivamente, só me formei Técnico em Administração e estou me graduando bacharel em Jornalismo graças aos programas educacionais desse "partido que implantará a ditadura comunista no Brasil". Não que eu fosse viver sob a asa partidária eternamente, definir meus próximos votos por isso, "me vender" por isso, mas, coincidentemente, nasci numa época em que filhxs de mulheres afrodescendentes, solteiras e analfabetas têm a oportunidade de crescer sem correntes, orgulhar quem merece e entrar nas universidades "pra roubar lugares de seres 'mais inteligentes'".

2014/09/05

Te mato antes do fim

Matar tempo no Centro: ou tentava a sorte no cinema ou ia explorar a biblioteca. Opção número 2 foi a escolhida para aquele dia. Nos corredores, apenas quis organizar um protesto na Boca Maldita ao ver que a trilogia Millennium estava na sessão “Literatura Alemã”. Stieg Larsson teria um AVC seguido de mais um ataque cardíaco no caixão ao descobrir essa. Há tempos, depois da experiência bizarra que foi ler sobre as aventuras sexuais de um norte-americano em Paris, não pegava um livro da sessão “Literatura americana”, então resolvi procurar naquelas prateleiras algo curto para passar o tempo. Comecei o passeio por ordem alfabética e, ao chegar na letra H, avistei um fino livro de capa azul - eis uma cor que chama minha atenção sempre - e descobri que era um dos “clássicos americanos do século XX”. Esse mesmo, feito. Fui em direção às mesas e, ao sair do corredor, avistei um caderninho preto numa delas. Pensei em ignorar ou entregar a alguém que trabalhasse ali, mas a curiosidade falou mais alto. Abri na página onde a fita estava e comecei a ler algo escrito a lápis e a mão:


“Curitiba, 5 de setembro de 2014...”

Se fosse um pão, estaria saindo fumaça deste caderno (e talvez o padeiro tinha ido dar uma volta enquanto a massa esfriava). Cogitei largar a leitura, mas, não. Enfim, continuando:

“Quando ouço certas músicas
quando vejo certos filmes,
é como se meus pulmões
além de ar
se enchessem com algo bonito
mesma sensação que tenho
quando estou ao teu lado.
Às vezes, nem mesmo perto,
apenas pensando em ti, sou
invadido por um sentimento
semelhante ao que me invade
quando escuto algo, assisto
a algo, que me deixa num
estado pra lá do Amapá. Distantemente
bem. É como se todo meu peso,
que não é pouco aqui dentro, se
revertesse apenas em uma folha
de papel em que só é permitido
escrever coisas boas sobre.
Destas músicas, quanto mais
as ouço, mais me afundo
em você. E não quero sair dessas
águas. Quando deito pra ver estes
filmes que me deixam 'assim'
no final, parece que você
está deitada do meu lado
e nós dois estamos na
tela. Sim, eu te vejo até
naqueles romances trágicos,
mas sempre te mato antes
do fim pra te poupar de dores
piores. Aliás, assim deveria ser, espero,
entre nós, isso tudo PRECISA
acabar
antes de se transformar
em algo muito distante daquela
boa sensação que as
músicas e os filmes
e a tua presença
nos trazem.”

Ora, alguém chama o Houston, porque nós temos um problema conhecido como excesso de gostar de alguém. Qual é o número do "Conluio dos Amantes Excessivos"? O texto terminava assim trazendo boa sensação e me obrigou a relê-lo.
Entrei tanto na leitura que não percebi se havia mais alguém naquela grande mesa retangular. Fechei o caderninho e flagrei, na outra ponta, um rapaz, com as mãos repousadas na madeira, me observando seriamente. Antes que eu tentasse encontrar uma reação, ele disse:
- Oi, moça, pode devolver meu diário? Tinha esquecido aqui…
- E como eu vou saber que é teu?
- “A Náusea, tempo, 91".
- Que?
- Só abre na última página, faz favor.
Reabri o caderninho e encontrei o tal código “ANAUSEATEMPO91” que ele mencionara. O rapaz se levantou, fechou um botão rebelde de sua camisa azul  e veio em minha direção.
- Você gosta mesmo dessa pessoa, hein? - disse eu, querendo fazer amizade, apesar da beleza do rapaz, que me faria querer muito além de ser sua amiga.
- Você não me conhece. - Respondeu secamente, estendendo a mão. Atrapalhada como sempre, entendi o gesto de outra forma e apertei sua mão, num cumprimento ligeiro, dizendo:
- Prazer, eu sou a Eduarda.
- Ok, moça, eu sou o Raul, mas você poderia, por favor, devolver meu caderno? - Acho que ele estava um pouco incomodado com a situação.
Devolvi o pedido e ele partiu em direção à saída sem dizer nada. Virei-me para acompanhá-lo se distanciando (meu pai tinha uma camisa daquela cor...), mas logo parou e voltou. Assim que disfarcei o olhar, folheando o livro azul, ele disse:
- Desculpa minha grosseria… Eduarda… mas eu não estou num bom dia.
- Imagina, todo mundo tem dias assim…
- Pois é… Posso sentar? - apontou pra cadeira ao meu lado.
- Fique à vontade.
- Sei que a gente mal se conhece, mas eu preciso perguntar algo… pra qualquer pessoa... - por um instante, parou e estranhou o que disse -. Não que você seja qualquer uma…
- Fica tranquilo. Pergunta.
- Você leu o que estava marcado aqui, né? - apontou para o caderno, repousando na mesa.
- Sim, as duas últimas páginas… - fiquei receosa para comentar sobre o que li, vai que era algo extremamente confidencial, o que de fato poderia ser por se tratar de um diário…
- Então, o que achou?
- Sei lá, cara, eu não sei do que se trata…
Interrompeu rapidamente minha estúpida resposta:
- É sobre uma garota… Uma mulher… que me faz um bem desgraçado e não faço ideia de como falar tudo o que sinto pra ela ficar...
- É, escrever é uma boa forma de falar, digo, de se expressar.
- Qual você acha que seria a reação dela?
- Eu não sei, eu não conheço ela.
Não que nossa conversa estivesse alta demais, mas, por se tratar de uma biblioteca, fomos solicitados por uma senhora gentilmente a ou nos calarmos ou sairmos dali.
- Desculpa pelo vacilo - disse Raul.
- Vamos sair daqui, odeio esse lugar. - sugeri, cochichando ironicamente pra mulher ouvir. Deixei o livro azul sobre a mesa e partimos.
Sentamo-nos na padaria da esquina, pediu um pão de queijo e um café preto, pedi apenas um suco de laranja e começou a me contar sobre a garota e a história deles juntos. Quer dizer, juntos entre aspas, porque, durante grande parte do caso, eles mais passaram tempo distantes, alimentando desejos, do que propriamente lado a lado. Ficamos quase uma hora debatendo sobre o que ele deveria fazer e, ao dar a hora de meu compromisso, trocamos telefones e partimos cada um pro seu lado. Quanto mais ele falava, mais eu tinha vontade de invadir a casa dessa guria, pegá-la pelos braços e gritar:
- Puta que o pariu, mulher! O que você está fazendo aqui, sozinha, longe do Raul? Esse cara tá bem louco, num bom sentido, por você. Não demora!

2014/03/05

Rota de colisão

Meu planeta interno tem problemas no processo de rotação desde o meu próprio Big Bang. Isso faz com que eu me perca às vezes desde sempre. Minha rota é um tanto instável.
Minha órbita foi submetida a um choque que desconcertou meu passeio pela vida. Você surgiu e... Bem, o Universo agora é outro e, por mais que eu lute para fugir desses encontros - mesmo que, na maioria das vezes, imaginários -, estamos em rota de colisão.
Eu queria esse encontro, sim, eu queria. Contudo, não resultou o esperado. O contato não foi de fato como eu sonhava. A colisão foi estrondosa. Mas eu... Eu sou forte, eu sei que sou forte, eu preciso ser forte. As explosões resultantes de nossos contatos são grandiosas, iluminadas. Não consigo mensurar os estragos, se é que há algo danoso, nisso tudo.
Não há rota de fuga, pois, enquanto vivermos nesta mesma cidade, haverá colisões. Nossos campos gravitacionais possuem polos contrários, resultando em atração. Apesar de, às vezes, o atrito gerar repulsão.
Mas não adianta... Nos cruzaremos por aqui, por aí, até que um de nós seja engolido por um buraco negro ou uma pane no Multiverso (num mundo em que não existimos um ao outro).
Nossas rotas , pretendidas à colisão, são instáveis, portanto, anárquicas às leis da Física.
Somos dois planetas, cada qual com seus próprios habitantes desejos e planos, que apelativamente enviam sinais um ao outro para contatos imediatos.
Como tudo no Universo expande, estamos fadados a crescermos ainda mais, seja coexistindo numa mesma atmosfera ou explorando cantos distintos da imensidão espacial.

2014/01/24

Voltei aonde nunca estive

Despida, tira uma letra do teu nome e, em inglês, parecerá “undressed”, que é justamente como eu te quero. Despida, desvestida, vulnerável. Perdoe-me por parecer tão explícito no sentido erótico, mas não é o que pretendo ser neste momento. Quero adentrar nos teus pensamentos. Desarmar sua mentalidade pessimista que teima em querer não se relacionar.
Conhecer-te plenamente a fim de realizar minha próspera convicção de que você é tudo isso que aparenta ser. Tudo isso que me faz passar horas pensando em você. Sei que tens problemas pessoais, eu também tenho toneladas deles.
Não sou de acreditar no poder astral ou em numerologia, mas se for pra falar disso.Um dos teus números faz certo sentido na minha vida. Ou teimo em acreditar que essa coincidência realmente signifique algo. Porém, deixando as crenças tolas de fora, eu queria que a nossa existência fizesse sentido, que minha existência na tua vida fosse mais concreta do que foi durante todas essas novelas inspiradas no intangível que vivemos.
Sinceramente, gostaria de apagar as pessoas que nos ferraram de nossas memórias e te sequestrar para vivermos numa outra cidade. Tu não sabes, creio eu, mas despertas em mim um descontrole injustificável. É algo que me domina, cega-me de todo o resto e me faz enxergar  apenas você. Vai e volta. Sei que percebeste que alguns manuscritos digitais eram sobre ou para você. Sei que pensaste que foste uma indireta. Não foi indireta. Foi bem direto. Só não chamo teu nome, porque você sabe que te chamei em alto e bom som através de palavras. Apenas não disse que era pra você, mas está bem explícito que é sobre você. Para você.

Pois é, acredite, eis-me aqui novamente acreditando no potencial entre nós dois. Voltei aonde nunca estive, pois voltei a desejar visitar tua vida. Perdi o foco ao começar a dialogar comigo mesmo sobre como e quanto quero que você acredite no potencial entre nós dois e deixe de temer o risco. Isso pode dar muito certo, o que quer que "certo" possa significar.
Em um ano, eu fui e voltei tantas vezes, me perdi tantas vezes, congelei várias vezes, me afundei muitas vezes, mas continuo cismando em você. Deve ter um porquê (e não me venha dizer que sou um idiota teimoso e insistente, que está perdendo tempo, porque minha convicção, assim como meu orgulho, estão bem decididos neste caso).





Do dicionário de nomes próprios:
"'Extrema feminilidade'. 'Robusta' ou 'guerreira' são outras das possíveis definições para esse nome, segundo alguns estudos."

2013/11/20

Quem é você?

Até consigo me livrar de você, mas você consegue me encontrar. Você é maior que eu e ainda absorve o que eu sou. Talvez seja por você que eu esteja querendo sair, pra não dizer “fugir”, dessa cidade. É que eu não consigo ficar aqui dividindo espaço com isso que sinto por você. Sim, sou fraco e covarde. Estou partindo, pra não dizer fugindo, principalmente de algo que está comigo permanentemente: meus pensamentos (por você). Acredito que um novo eu em um novo lugar tenha a capacidade de esquecer você e reconstruir a minha pessoa. Talvez tudo isso seja em vão e eu nunca consiga me livrar de você. Às vezes, acho que todo esse ódio que jogas em mim seja apenas desejo retido. Você me ama? Eu não. O ódio que eu sinto por você é mutante, transforma-se em amor, alterna em carinho, converte-se em raiva, é instável e não sai de mim talvez porque eu (no fundo) não queira que saia. Eu não queria ser assim, ser você, estar em você, sentir você, mas eu sou. Será que você quer se aprofundar na minha alma e afastar toda essa minha auto defesa em forma de repulsa (metade-ódio-metade-amor) que me assola? Eu não sei o que você quer, quando você quer e se você quer. Talvez você não seja tudo e seja só uma distração passageira. Você está em mim? Você vem e vai dentro de mim como a minha labirintite, mas as doenças, a maioria delas, vão embora, mas você persiste em ficar não sei se por vontade própria, convenção social ou falta de quem perturbar. Você é uma doença? Talvez eu precise mesmo de você. Talvez eu precise mais de mim. Você tem mais de mim do que eu mesmo. Essa compatibilidade poderia funcionar muito bem ou permanecer como está: incompatível, trágica. Talvez você seja tudo ou nada.

2013/11/18

Desafio

Com trechos escritos por A. C. S.

Eu cansei de brincar, de distância, de só falar. Cansei de sentir por você essa coisa que não acontece, mas deseja. Convicto de não querer mais participar desse jogo de querer e não fazer. Mas eu sou um vai-e-volta. Não sei se esse brinquedo era da tua época. Tudo bem que não sou tão mais velho, mas, sei lá, década de noventa foi uma transição de costumes. Ioiô? Esse você conhece, acredito. O que quero dizer é que sou mais ou menos como esses brinquedos. Eu estou aqui, vou lá embaixo, às vezes a corda enrosca e fico mais tempo do que o esperado, então subo, desço etc. E vou lá, volto pra cá, vou, volto etc. Tudo isso principalmente em sentimentos. Não que eu esteja novamente querendo pegar o ônibus pra tua casa e passar a tarde de sábado discutindo filmes. Não. É que eu voltei a pensar em você (graças a você que aparentemente quis voltar a esse nosso jogo, que eu não queria mais jogar). Mas chega um ponto do meu interesse por alguém que, quando não me sinto correspondido ou quando canso de não agir, me contento em sonhar acordado com fulana. Eu gosto de imaginar histórias. Algumas tão belas que eu tenho vontade de vivê-las (mas como não ajo, só fico imaginando). Não adianta, por mais que eu diga que não quero mais tentar, que cansei de romantismo, que larguei a meta de ter alguém ao meu lado, eu vou e volto.
Verdade seja dita, nem nos encontramos ainda, mas pra ser sincero ou romântico demais ou bobo demais, acho que estamos perdendo tempo nos escondendo. Seus olhos combinam tanto com os meus, seu sorriso se encaixa perfeito no meu, seus dedos entrelaçados nos meus ficam perfeitos (em meu sonho). E no mundo real, pode ser.
Parece que eu não faço sentido, mas não faço questão de fazer. Muito do que digo de modo bagunçado, na minha cabeça faz total sentido. Não, não quero tentar novamente. Não tenho certeza completa sobre esta última afirmação. Eu gosto de brincar comigo mesmo de só olhar, ficar observando de longe e imaginando como seria se fossemos decentemente competentes para agir. Mas noto que não sou só eu aqui que gosta de criar estórias que poderiam dar certo. Percebo que não estou sozinho na odiosa arte do platonismo. Estamos no mesmo barco, mas precisamos ficar em pontas diferentes para equilibrar e evitar que tudo se afunde.

2013/10/14

Sensacionalismo

Prezada,

preste atenção,
ele preza muito pela tua companhia. O problema é que não sabe mostrar, não consegue dizer o quanto e o que quer. Não que ele não seja grato pela cumplicidade entre vocês dois, mas é que ele quer ampliar essa relação. Quer fazer crescer e dominar o mundo.
Ele se contenta com pouca coisa. Ele superestima qualquer demonstração de qualquer coisa. Ele romantiza (não só no sentido "romântico", é mais sobre as metáforas da vida, afinal ele tenta metaforizar sobre qualquer coisa) tudo. Um ato simples pode parecer algo grandioso pra ele. Um aperto na mão, um afago estendido nas costas, um abraço prolongado... Ao fazer isso, tua intenção talvez não seja gritar que o quer mais próximo, mas, pra ele, verdade, isso tudo pode aparentar a melhor coisa dos universos: vocês dois juntos.
Ele não sabe como dizer... Mentira, ele não CONSEGUE chegar e dizer “aô, moça, eu, olha eu aqui, eu quero você”. Ele sabe agir sutilmente, demonstrar aos poucos, subjetivamente clamar. Assim que ele começa a tentar qualquer aproximação, é bem claro que ele se desconcerta todo e deixa a oportunidade passar. Ele é todo atrapalhado pra tentar se mostrar. Ele começa a dançar com a labirintite e se perde todo. Ocupe o lugar de sua labirintite e o guie nessa dança tão esperada.
Você conhece muito bem o orgulho dele. Sabe que esse rapaz é teimosamente orgulhoso. Talvez por isso ele não consiga te dizer tudo. Mentira, o que o prende é o medo da negação.
Por fim, se você ainda não percebeu os sinais tímidos deste rapaz (Como não?) e compartilha de anseios semelhantes: Deixe-o saber.
Termina aqui o apelo de uma alma cansada (de querer e não agir).

(Escrito por Inácio)



"As pessoas querem pedras de diamantes, mas não correm atrás."
Aílton.

2013/09/11

Não existimos

Negamos a felicidade, pois nos privamos da dor. Sabemos que, com certeza, tudo acabará. Seja entre nós ou você e aquele cara ou eu e aquela mina. Tudo acaba entre todos.
Tudo acaba. Eu partirei. Tu partirás. Ela partirá. Ele partirá. Nós ... Vós ... Eles... Elas... “As pessoas vão embora!”

Utópico pensar no “para sempre”. Sabemos que é besteira acreditar plenamente nisso. As pessoas pensam demais no futuro e esquecem de fazer o presente. Planos, promessas, juramentos... Sou muito mais a fim de presenciar os momentos e eternizá-los na memória, mas, assim que partíssemos cada um ao seu rumo, todas essas lembranças se despedaçariam e sumiriam com o vento. O problema não é amar, é o depois. É viver infectado pelas vivências passadas que percorrem as veias sugando todo seu potencial para sobreviver. Depois que o romance acaba, a dor da saudade machuca. Obriga-nos substituir o vício que tanto nos satisfez. Depois que o romance acaba, a corrente está tão enrolada que nos faz sangrar ao tentar fugir.
Dirão que insisto nas paixões antigas, mas não. Não. Hoje, são apenas lições. Do que fazer. Do que não fazer. Do que sentir. Do que não sentir.

Negamos a felicidade, pois nos privamos da dor. Não é proibição imposta. Apenas moderamos. Para evitar que um de nós cisme em acreditar na longevidade desse romance. Pode durar 214 dias. Pode durar 30 anos. Pode durar um flerte no ônibus. Pode durar uma tragédia. A gente não tem que saber prever, a gente tem que fazer. A gente tem que ter vontade pra começar, terminar e partir.

No fundo, quem sabe, estejamos tão pessimistas apenas ansiosos para viver um romance cativante. Talvez esse pessimismo não passe de inveja sobre aqueles que conseguem viver algo forte. Mas eu sei até que os castelos mais estáveis desabam. Tenho histórias pra contar. No fundo, quem sabe, essa alergia ao amor seja só autoproteção. Medo.

A gente sente saudade do que não tem. (Ter alguém). Aliás, “ter” é algo simplesmente utópico. As pessoas “possuem” por pura convenção. Ninguém pertence a ninguém, mas viver com a sensação que faz parte do cotidiano de alguém... Tira a insônia e traz calma. O problema está em priorizar demais essa posse intangível. Impor que alguém é o mais importante na vida já começa errado e piora cada vez mais conforme a neurose possessiva aumenta.
Portanto, o que quero dizer é que não quero ser teu, não quero que sejas minha. Não ligo se você sair com outros caras. Desde que você deseje passar um tempo comigo, ficarei bem. Passar um tempo ao seu lado (presencialmente). Aguentar teu pessimismo, tua agonia, teus plurais. Mas não me peça para te ajudar a solucionar teus outros casos, afinal não quero que deem certo. Não, não quero que sofras. Sou sádico, mas não quero que sofras. Acima de tudo, sou egoísta e quero que passes mais tempo comigo do que com qualquer outra pessoa, mas não quero te prender.


Privamo-nos da dor e talvez seja por isso que não encontramos a felicidade. Desse modo, acabamos por nos proibir de existir. Enfim.

2013/05/08

A noiva


Mas eu caso contigo só umas dezoito vezes quando te vejo passar.
Mas esse teu batom bordô na tua boca te deixa ainda mais.
Mas eu vejo tua cara fechada e me abro de vontade.
Mas você passa... e eu passo do ponto.
Mas eu domino a arte do ficar quieto, mas querer gritar.
Mas eu exagero no silêncio, quando eu bem queria tua voz no meu ouvido.
Mas eu já falei contigo, te joguei uma dúzia de palavras e você fugiu da minha confusa abordagem.
Tô me preparando pra te ver passar e encarar “Ô, moça, casa comigo? Quer dizer... Posso te acompanhar até o ponto? Ou até o ponto final?"

2013/04/13

O outro, a outra


Quantos anos? Quantos anos se passaram? Mais de quatro? Não lembro.
Também não me recordo exatamente como te conheci. Só sei que puxei assunto e começamos a conversar. Muito. (E eu gostando). Muito. Éramos próximos, apesar de distantes. E parece que, justo na época que você anunciou que se mudaria pra minha cidade, nos distanciamos.
Ah, mas foi outro motivo. Outra garota.
Mas o que me passa agora é pensar no que poderia ter acontecido numa data específica há três anos. E se eu tivesse ido te encontrar?
Vivíamos conversando no Messenger sobre aleatoriedades. E eu gostava disso. Apesar de te achar uma guria incrivelmente linda e lindamente incrível, nunca consegui (coragem: meu maior dom) te chamar pra sair. Até que um dia você me mandou um email dizendo que estaria com a tarde livre, perguntando se eu podia te encontrar. Eu queria. Mas tinha encontro marcado com outra no mesmo horário. Aí fico aqui agora, anos depois, confabulando sobre as possibilidades. E se eu tivesse ido te encontrar? Se eu tivesse dado os canos na outra? Se eu saísse com as duas? Se você apaixonasse por mim? Se eu te escolhesse? Ah, se...
A correnteza me levou pra outro lado e me afastei dessa tua imensidão maravilhosa. Eu gostava de você, mas afoguei essa vontade pra alimentar uma outra paixão. E você continua aí. Só não sei onde mora agora, se tem alguém, o que anda pensando sobre a vida... Eu sabia. E quero voltar a saber.
E eu ainda nunca te vi pessoalmente. Internet imaculada criando laços abstratos entre as pessoas.
Enquanto vives tua vida, cogito sobre como seria a minha se eu tivesse aceitado teu convite. Aquele dia X traria outras lembranças. Seria um outro dia com outra garota. Seria outra história. E eu não estaria aqui escrevendo sobre você. Talvez, não agora.
Vida, suas bifurcações e consequências me fazendo querer voltar no tempo só pra saber como seria esse mesmo dia se eu tivesse escolhido a outra garota. Viver contigo era uma vontade, sumiu e voltou. Atenta-te à tua caixa de entrada.

2013/03/26

Àquele abraço


Antes de tudo, como prevejo que continuas uma convencida egocêntrica, logo aviso: Este texto é sobre você, mas não é uma súplica de volta pra mim.
Estava lembrando... Como sempre, lembrando... Vivo preso à elas, as lembranças. Mas apesar disso, não são meu combustível. Você era.
Lembrei de um certo abraço que me deste. Quando tudo já estava em pedaços. Quando eu estava em ruínas e você veio apreciar sua obra destrutiva. Na época do tal evento (e ainda hoje), não me restavam esperanças de te ter novamente. O que havia era dor e saudade. Dor por ter amado demais, saudades por amado demais. Faziam, o quê?, uns quatro meses que minha reabilitação começara e dormimos na mesma casa. E eu dormi mesmo, não fiquei sonhando acordado desejando que você viesse ao meu colchão e me beijasse. Não estava para masoquismo naquela ocasião. Eu estava bem, apesar de tão perto de você. Mentira, não estava nada bem, roubaram minha bicicleta na noite anterior. Acordei com você se jogando em cima de mim, me abraçando, dando "bom  dia..." justamente como fazia quando eu dormia na tua casa. Eu amava quando você chegava me sacudindo, me descobrindo pra me acordar. Preciso te confessar uma coisa: geralmente, eu acordava antes, mas gostava tanto da tua bagunça, que fingia estar dormindo, mesmo que tivesse acordado uma hora antes. Eu gostava desses apertos e de muitas outras estranhezas suas, mas deixei de querer pra seguir meu caminho, que bifurcou-se do teu. Mas por que você veio me dar esse abraço? Por quê? Não que aquilo tenha ressuscitado meu desejo por você, mas cê me deixou confuso. Cê tava pensando o que? Que eu era teu homem? Que tinhas intimidade suficiente pra fazer aquilo.
Ah, você teve muita intimidade comigo, como nunca ninguém teve. Sou de me prender e evito me soltar com qualquer pessoa. Mas quando eu conseguia me soltar... Só você testemunhou o tamanho da intimidade que eu tinha quando finalmente me soltava com alguém. Só você descobriu o peso do meu ser ao me sentir leve perto de alguém. Eu conseguia voar e mostrar o que eu realmente era. Porque eu me sentia seguro. Sem medo de levar porrada. Além das minhas bizarrices, você sabia da quantidade de porradas que eu levara na vida, mas, mesmo assim, teve vontade de me desbravar. E eu fui, me joguei, saltei sem medo. Dediquei-me a você. Tu eras minhas religião. Aí eu caí, quebrei a cara, tornei-me cacos de vidro. Estou ainda tentando me recompor, mas você me bagunçou demais e me fez perder algumas peças desse quebra-cabeça que sou eu.
Quando acabou, parei imediatamente de ser teu íntimo. Evitava abraços, toques, sorrisos ou qualquer coisa que eu costumava fazer, por exemplo, quando assistíamos aquelas tuas séries. Aliás, nunca mais quero vê-las.
Porém, quando acabou, você não se distanciou, manteve a intimidade. Continuou me tratando como se eu fosse teu homem. Não, você não tinha o direito de fazer isso comigo. Eu poderia achar, nessa minha mente paranoica, que você me queria de volta.
Me diz, esse abraço foi um sinal? Porque, assim como você e a Robin Scherbatsky diziam, “toda mulher tem um sinal!”. Você mesma viu que meu radar pra esse tipo de coisa era bem lento. “- Você já quis me beijar? – Já...” Nada fiz. Enfim, se você usou aquele abraço como sinal, vacilou. Mas tenho muita certeza que não, não foi um sinal. Foi um simples gesto de carinho íntimo. Tipo de coisa que eu não queria mais de você. Eu precisava manter-me limpo desse vício que foi você.
Eu te amei, menina, como eu te amei... Não nego. Negar esse tipo de sentimento é coisa de gente ingrata e orgulhosa.  Tenho orgulho de dizer que fui felicíssimo ao teu lado. O que eu não farei é dizer que foi tudo uma porcaria. Teve umonte de coisa errada, claro, somos humanos idiotas. O maior problema foi ter acabado. Analisando melhor, foi ter começado, pois se eu não tivesse falado contigo e me apaixonado (não nessa ordem talvez), eu não teria te amado e não teria que sofrer com o término.
Falando em sofrimento... Eu sofri? Não. Quer dizer, não, comparado a outra perda específica. Mas o que eu posso dizer é que você liberou o Kraken, que emergiu trazendo de volta minha depressão. Porque eu não me lembro de estar contigo e passar por tempos de extrema melancolia. Sim, você me rotulava como uma pessoa melancólica, mas você viu nem a metade desse meu poder. Aliás, você liberou esse monstro e fugiu (não no sentido covarde) antes de vê-lo em atuação.
(Na entonação que você proclamava) Certeza que você tá achando que eu tô te querendo de volta. Você, sempre tão egoísta, egocêntrica, convencida, orgulhosa e cheia de cismas deve estar pensando que isso não passa de uma última súplica. Não! Não! Nãããããããããããaãaãããããããã~ôôôôôô! Não é. Tenho convicção suficiente pra dizer que não te desejo mais. Poderia dizer pra soar vitorioso e revoltado: Desejo que você morra. Mas não sou do tipo que deseja o mal. Eu supero. Assim como fiz com a bruxa de Joinville, a garota do sonho, a fake paulista, entre outras, eu larguei mão de você. Tudo bem que todas essas paixonites de colégio e internet não podem se comparar a você no tamanho do amor, do companheirismo, da filhadaputice, do carinho ou da dor.
Assim como os heróis, todos precisam de uma última missão para poderem se aposentar. Pra eu finalmente me livrar de você, tenho uma última tarefa: encontrar uma nova pessoa pra viver... A banda que você nem ouve mais diz que “lá pode ter um novo amor pra eu viver” e é certo. Pra te esquecer, preciso de outra pra lembrar. Falar “outra” faz parecer que desejo uma nova cópia de você. Longe disso! Quero uma pessoa diferente, mas que tenha somente uma coisa em comum contigo: vontade de mim.
Moça, a gente não consegue esquecer as pessoas. O que fazemos e tratamos como “esquecimento” não passa de substituição. Você troca uma pessoa por outra pessoa, um livro, uns filmes, uma mania, uma fobia, uma depressão e a lista continua... A gente não esquece as pessoas, a gente as guarda numa caixa selada bem lá no fundo da memória. A gente tem que trancar a lembrança num caixão selado, enterrar bem fundo na penumbra da memória e perder a chave.
Se você dont give a shit pra mim, parabéns. Estou no processo de dizer o mesmo. Aquele abraço.

2012/01/31

Uma parada massa

Doença, vício e carência


Por mais estúpido ou orgulhoso,
no final, você vai sentir falta e culpa.


A gente nasce pra morrer, esse é o propósito da vida.
O que nos resta é distrair a mente até que esse final chegue.
A gente sabe, deixa de ser cego, que esse é o único final de nossas vidas.
A gente precisa fazer algo pra não ficar pensando o tempo todo em vou morrer, vou morrer, vou morrer...
Eu não escolhi esperar, eu decidi por amar... por mais doloroso que seja às vezes. É tudo uma questão de fases e individualidades. Você não pode viver num amor sem se importar com os problemas dela(e). Por mais que você não resolva o problema, você precisa sentir-se incomodado com isso. Aquela tristeza escondida sem razão. Aquela grosseria gratuita sem motivo. Você compartilha a treta alheia e, às vezes, se preocupa mais que a própria dona.


Ás vezes. Tudo está. Nada é.
Não sou triste. Estou. Posso mudar. Ás vezes mudo sem pensar.
As pessoas se prendem demais ao "infinito das coisas", como se tudo fosse o que é pra sempre. Sempre não existe. O que pode existir pra sempre é o momentâneo.

O NADA é complexo. Por mais que não represente coisa alguma. Nada existe.

Enquanto eu viver pra sempre, quero seguir a crença de que quase tudo vale a pena. O resto a gente enfrenta e vence pra provar que presta.

Falando agora sobre a morte: não sei, nunca morri. Não dá pra dizer o que acontece lá. Cada um diz uma coisa segundo sua crença. Cada um tem um crença e uma criança em si. E a minha insiste em dizer que sou imortal.

2011/08/31

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Algumas pessoas confundem excesso de desejo com sofrimento. Nunca sofri por amor, apenas desejei desesperadamente algo utópico. Que, na real, não foi nem um pouco como o amor deve ser: benéfico, construtivo, recíproco ... Só aprendi a não me prender ao que não está preso a mim, saltar de bungue jump sem corda sabendo onde cairei, ter convicção racional dos meus desejos (por mais emocionais que sejam), e que, mesmo que tenham sido péssimas experiencias, foi bom para a construção do meu ser ainda em desenvolvimento.


Mas a gente sabe que às vezes a gente se prende a algum pensamento, já que ele conforta, dá algum status ou acoberta outra coisa.

Aquela sensação de quem ninguém mais gosta de você, talvez seja só fome.

Aquela desmotivação para viver, talvez seja só sono acumulado.

Então, durma bem e coma bastante antes de refletir sobre o quão ruim está sua vida, talvez ela nem esteja tão ruim assim.

Talvez, você seja amigo da Maria Juana só pra ter amigos mesmo, talvez, cê nem curta tanto ela.

Talvez, você tenha nojo de abrir cadáveres e só esteja cursando medicina pra pegar umas gata.

Talvez, você nem tenha a alma do negócio e esteja fazendo PP só porque é deslocado, quero dizer, descolado.

Talvez, você nem seja um apreciador das carnes, mas come uma alcatra mal passada no capricho pra não ser zuado com "come grama" durante o churras da galera.

Talvez, você odeie cerveja e bebe só pra ter coragem de chegar em alguém. (você pode até chegar, mas a cerveja não será suficiente para conquistar e manter essa pessoa ao teu lado. Pra isso, existe o caráter)

Talvez você ainda precise da amizade daquele babaca, mesmo que ele seja um babaca, mas teu orgulho é orgulhoso demais pra ceder.

Talvez você foi, mas negou.

Talvez você nem seja, mas é.


A gente se preocupa demais em agradar os outros, e acaba desagradando a si mesmo.

A gente acaba se confundido e seguindo outros caminhos.

2011/02/19

Distração

Vivemos para nos distrair, pois sabemos que vamos morrer.
Viver é distrair-se da morte. Você sabe que vai morrer, então vive pra se distrair. Vive pra passar o tempo. Vive esperando a morte. Você nasce pra morrer.
Mas até chegar este momento tão misteriosamente desconhecido, a morte, você deve e precisa e necessita viver. Viva. Intensamente. Loucamente. Incoerentemente. Com convicção. Com responsabilidade; ou sem, às vezes. Com amor. Com liberdade. Com pressa. Com lentidão. Com respeito. Com lembranças. Com vitórias. Com derrotas. Com porradas. Com carinhos. Com tudo. Com nada. Com explicações. Com ...

2009/02/07

Pesticida

Passei a acreditar que a chuva purifica.

É anunciada a chuva.
Na hora de ir pra casa, opto propositalmente por um longo caminho até o ponto de ônibus, cerca de 15 minutos de caminhada ao invés de pegar ônibus. Peguei uma chuva fortíssima. Enquanto pessoas procuravam abrigo em qualquer cobertura do centro da cidade, eu caminhava sozinho no meio da Rua XV.
Quando passei a mão na cabeça e percebi que estava inteiramente molhado, sorri pela primeira vez no dia e ri da besteira que fazia. Daí pra frente, fui esquecendo os problemas e alargando o sorriso. Ri da onda que um carro fez e cobriu uma senhora d'água. Sorri para o cachorro molhado deitado no ponto de ônibus.
Sem motivos.