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2017/02/28

Do mesmo discurso

Não queria soar como mais um dos homens que lhe prometeram espaço, liberdade, ar e tudo mais que ela esperava de um relacionamento (não-tóxico), porque sabia que ela estava acostumada, definitivamente cansada, com esses tipos de promessas corroídas pelo tempo, tornando-se mentiras e feridas na memória. Queria evitar chantagens, cinismo ou quaisquer palavras que a convencessem a fazer algo que ela apenas aceitaria devido a insistência manipulando suas próprias vontades.
Não queria se apropriar de seus gostos, forçar-se a gostar da mesmas coisas que ela apenas para ter sobre o que conversar, aonde ir, mas, sem querer, compartilhavam a mesma atmosfera nas artes, na melancolia, no olhar, na vida, assim como habitavam outras atmosferas apesar das dificuldades de adaptação.
Não queria que sua existência a cansasse, machucasse, drenasse toda sua vitalidade. Estaria disposto a "dar-lhe" (como se houvesse a obrigação de ser concedido algo) tempo e espaço, esperaria, desde que ela soubesse que ele permaneceria lá, a sua espera, ou aonde quer que ela o chamasse, iria.
Queria ouvi-la cantar “I Gotta To Find Peace Of Mind” e responderia, com certa dor justificável, que se afastaria - ou até sumiria - caso fosse ele o distúrbio em sua paz. A racionalidade se confunde quando a paz de uma pessoa se torna a guerra de outra.
Queria não soar grosseiro quando sua intenção era ser apenas comicamente sarcástico. Queria não machucá-la de qualquer maneira. Queria não ter estragado qualquer possibilidade nos últimos anos como tanto fez. Queria não perder o foco do restante de sua vida quando ela aparecia, afinal nada parecia interessante ou saudável se comparado a qualquer capítulo da história deles, para que não se viciasse a ponto de autodestruição, sabia da potencialidade de um vício tanto para construir quanto para destruir.
Queria que ela entendesse de alguma forma sua bagunça e suas idas e vindas.
Queria rotina, mas, paradoxalmente, não uma rotina que estragasse a essência da existência de um na vida de outro, vice-versa, não queria que se repetissem apenas por conveniência, não, queria repetir apenas como se fosse uma música repetida tantas vezes na mesma noite por ser a melodia mais incrível que poderia ser ouvida em momento específico. Queria assinar caderno de visitas em exposições com todos os nomes possíveis que lhe surgissem em mente.Queria chegar em casa, qualquer casa, e encontrá-la repousando, lendo, cuidando das plantas que cultivariam juntos, deixando que felinos amassassem pães em seus braços, enfim, dividir o mesmo espaço, mesmo que apenas durante as horas de sono e maratonas na TV, pois a demanda profissional sugaria grande parte de seus tempos.
Queria nada. Queria tudo. O que suas rotas trouxessem.
Queria que o tempo não dependesse de passado, presente e futuro, de mágoas, rancores e toda sorte de traumas. Queria todo o tempo do mundo. Se ela lhe dissesse “não”, guardaria a memória desse amor em um local que pudesse ver, sentir, cheirar e fim.

2017/02/08

Nos frêmitos roxos da tua carne

Nós fomos um erro. Nós fomos um erro. Nós fomos um erro. Queria escrever com interrogações para elucidar a falsa afirmativa, mas, depois de você jogar tantas vezes a verdade em que queria acreditar na minha cara, eu, teimoso, esperançoso de que não, entendi que sim. Enfim aceitei o fato que ignorava a cada gole de vontade. O sentimento era de que a gente devia ter esperado um pouco - ou muito. Esperar que algo bom - e não corrosivo - surgisse do magnético vácuo entre nossos corpos.
Se digo que estou bem ou - pior ainda - se sorrio para você, rio, qualquer seja o motivo, é mentira. Mentira é uma das faces da desonestidade, a outra é a omissão, e minto se permaneço imóvel perante o desconforto de não sermos mais dois corpos na mesma cama, mas sim dois seres distantes. Convenhamos, sem te culpar, apesar do tom contraditório deste meu grito emudecido, não há maneira humana possível de se estar bem depois de tudo, depois de nós, “depois” na condição de algo que jamais se repetirá, as repetições que se cravaram em minha pele para dificultar o desentrelaçamento das lembranças. Se não houvesse o contato físico, seria mais fácil para sair correndo, fugir para longe de você, mas tropeço na memória e na vontade que tento apagar, mas caio, me queimo e me deixo dominar tudo aquilo que queria e abandonar- deveria, para manter minha sanidade em um nível tolerável - , considerando a não-reciprocidade sobre o que poderíamos ser. Você me quebrou, me magoou, "me usou", como você mesma disse, e cada movimento do ponteiro do relógio, cada instante distante do passado repentino que vivemos, as lágrimas invisíveis escorrem ásperas riscando meu rosto com o líquido todo que ingeri quando decidi comigo mesmo estar pronto para me afogar em você. Se fui uma distração, uma miragem no teu deserto solitário, naqueles momentos em que você se distraiu com a minha pele eu podia jurar que você queria mais, mais me iludia.
Por um lado, sinto-me aliviado quando passo alguns dias acompanhado da sua ausência, é um tempo sem você e sua luz, sua energia, seu sorriso, seu cheiro, sua pele, seu andar, seu cabelo… e a distância só seria prejudicial se você me quisesse de fato em sua rotina, mas, como não quer, como não devíamos estar presentes no passado, ver tudo isso que faz de você a pessoa com quem eu gostaria de tentar sermos maiores não contribui para a desintoxicação. Por um tempo, afoguei a saudade em garrafas e mais garrafas de cerveja, porém afogar um vício em algo que nos despertou estava me deixando ainda mais próximo de nosso ponto de partida.
Não te odeio, nem o contrário, apesar de vestir a máscara do rancor e jogar ao vento palavras e atos que te façam me odiar, me desprezar, mas amaldiçoo o Cosmos, teu grande amigo, pela nossa colisão; e também cultivo ódio por mim mesmo por ter deixado a vontade florescer, por ter aceitado teu convite naquela atípica sexta-feira.
Naquela noite, se eu não tivesse despertado de meu porre, naquela maldita noite, se eu não tivesse me virado para o lado que você ocupava naquele sofá desconhecido, por que aquela inebriada noite existiu?, não haveria nós, não haveria repetição, não haveria mágoa nem sequer arrependimento por ter feito o que queria, o que queríamos. A gente devia ter reprimido o desejo até o fim de nossos dias, não deveríamos ter conversado, muito menos descoberto interesses em comum, e, importante, você jamais deveria ter feito meu mapa para confirmar que os astros se alinhavam para que a gente tinha acontecesse, porque, se dependesse de uma prévia do que de fato aconteceria entre nós, eu jamais teria aceito.
Todas as vezes que me disse, convincentemente, que fomos um erro, trucidava-me imperceptivelmente. Demorei pra notar que suas palavras me mutilavam por dentro, ao perceber o sangue abstrato já escorria pela minha boca e eu apenas balbuciava mágoa em forma de qualquer outra coisa. Qualquer coisa que te irritava, que gerava fagulhas para um tipo de incêndio diferente daquele que devia existir entre nós. Então, quando me expôs seus reais motivos, sua nova vida, minha imaturidade, eu já estava quebrado o suficiente para não perceber os pedaços de mim rachando a ponto de se dividirem em outros menores e indecifráveis.
[...] apenas corpos celestes opostos e semelhantes[...] quando recorri a métodos quaisquer para completar no meu peito a falta que você passou a fazer, [...] a tua ausência e [...] me perseguiram por dias, [...] precisava me agarrar a algo já que não mais poderia agarrar a tua pele suada deslizando pela cama.
O sexo nem foi tão surreal assim, poderia ter sido se tivéssemos nos dado mais diálogos e tempo para que meu corpo, meu toque, pudesse memorizar todo o relevo do teu corpo, todas as linhas das tuas tatuagens ligadas intrinsecamente ao âmago do teu prazer. E nem sei se meu corpo, além das mãos que admirou por um tempo agradável, mas dias depois desprezou comicamente na frente de pessoas que não faziam ideia que eram cúmplices de um caso encerrado, era tão estimado assim a ponte de te fazer querer mais do meu suor nos teus lençóis. Então restam as chagas memoráveis e intangíveis do que existiu e a expectativa do que poderia ter acontecido. Tão pouco tempo para ter em mim as marcas constantes de suas unhas, de seus dentes, não sinto a vermelhidão rotineira das cicatrizes e a saudade cínica daquelas noites me fez querer mais mesmo sabendo que não.
Tudo - o prólogo, o início, o meio e o fim - foi tão rápido que não deveria ser aceitável tanta dor, tanta mágoa ou, antes da dor, antes da mágoa, tanto desejo, tanta intensidade em inspirar que aquilo, nós dois, tão diferentes, pudesse se concretizar como algo físico e - pior ainda - emocional, afetivo, visceral, o que quer que seja isso que sentia por você. Assumo, não guardo cada detalhe dos melhores momentos da minha vida, de nenhum, então as minúcias de nós dois escorreram de minhas mãos e permanecem lá, longe, no passado, no chão, em algum canto daquele quarto onde você não mora mais.
Você não devia ter me dado atenção, afeto e espaço, devia ter dito “não” - para mim e para si mesma - no primeiro momento em que nós surgimos, mas como saberíamos que estaríamos arruinados em tão pouco tempo? Há certo alívio pelo início do desfecho ter surgido tão cedo, antes que surgisse a perspectiva de votos e confirmações em um ritual matrimonial, antes da vida conjugal, antes dos partos. Imagina se o real desafeto surgisse no aniversário de quatro anos de Nina, nossa terceira filha. Eis então certo alívio: sempre pode piorar.
Quanto mais conversávamos sobre a impossibilidade, mais incompreensível se tornavam nossos diálogos, mais espontâneos se tornavam nossos conflitos e mais questões eu tinha sobre a real impossibilidade de tudo isso e me perguntava, por não ter coragem de te jogar na parede mais uma vez, se seu escudo de hostilidade (me atacar aleatoriamente após qualquer fala minha) era apenas para não deixar infiltrar em você a vontade de ter algo comigo, vontade que conseguiu expulsar de si. Se foi isso, entendo porque já fiz isso de deixar nascer um sentimento camuflado de ódio para repelir o encanto, um modo de extinguir qualquer afeto para seguir em frente. Falando em seguir em frente, o mundo girou tão rápido enquanto tivemos nosso caso que fiquei tonto e perdi o caminho para qualquer lugar que fosse aonde pretendia ir antes de nos cruzarmos.
A exaustão por fugir de um sentimento que corre incessantemente atrás de mim é tão pior quanto o próprio sentimento, porque aceitei que ele continuará me perseguindo até que o tempo se encarregue de diluí-lo, a perseguição persiste independentemente se o afeto crescer ou diminuir, a única coisa que encolhe é a quantidade de ar que respiro quando tuas lembranças me estapeiam, não, não!, que cesse o sentimentalismo, o que perde tamanho é o sentido no que falo a seu respeito, pois, na tentativa cínica e ilusória de te ter novamente, apesar de nunca tê-la de fato, afinal ninguém tem ninguém, as palavras se unem desesperadamente em mim como se ruídos convencessem você a acreditar que poderíamos ficar juntos - por tempo suficiente para percebermos que devemos nos separar, tempo que acreditava eu não ser viável quando nos distanciamos afetivamente, [...].
Desculpa a insistência de meu corpo e minhas palavras. Há semanas me empenho nesta carta, (in)conscientemente tentando te mostrar o que não consegui dizer pessoalmente, mas toda vez que releio quero acrescentar mais páginas até que não sobre um buraco nessa carcaça baleada, até que tudo seja dito, até que a fonte se esgote e eu não tenha uma gota sequer de afeto, saudade ou vontade. Cada vez mais meu eu-lírico faz menos sentido, não condiz com o que o eu-eu quer, por prezar mais pela escrita poética do que pelo sentimento puro, destilado pela ambição de ser citado por alguém, de se tornar epígrafe, de ser relevante para alguém além desse ser egoísta que escreve sobre e para si a fim de convencer mais alguém de que vale o esforço em enfrentar, ignorar, toda a bagunça de alguém que se perde - e perde o foco - ao sentir, escrever e ser compreendido. Evidentemente, contigo, não funcionou. Chega.
Saudade da rotina que não tivemos.

2017/01/07

Rápido

Quando há visceralidade emocional no afeto físico, tudo piora, pois se somente os laços intangíveis do platonismo, nada aperta, nada rasga, nada corta. A negatividade de determinada situação se fortalece por inviabilidade de toque, tato, pleonasmos físicos, seja por bad timing-and-placing ou divergências astrais, não há critérios suficientes nesta narrativa para apurar a absoluta razão para o inconclusivo fim de duas pessoas. Inconclusivamente sem desfecho devido a ausência de um diálogo final devido a continuidade de contato devido a gama de interesses em comum devido ao desentendimento devido a tudo.
Se pensasse em dizer que se sentia um homem melhor a seu lado, mentalizava a cena e se via chorando, porque assumir tal mudança seria um ato tão difícil para quem tão problemático para se expressar clara e sinceramente que romperia as barragens lacrimais depois de alguns segundos, ou minutos, contendo-se para abrir o peito com a escandalosa verdade. Vazaria, explodiria, e pensava que ela era digna da causa de tudo isso: a vontade. De fato, o pessimismo se esvai diante de tudo que a compõe, o sorriso largo ora fechado ora irradiante, os traços tanto naturais quanto os tatuados, a bem-aventurada liberdade, a desavergonhada sinceridade, a admirável curiosidade, a disfarçada reciprocidade… Tudo (agora lembranças impraticáveis) é capaz de encher o peito com lâminas enferrujadas pelo remorso do que não devia ter sido dito ou feito ou sentido ou nada faz sentido quando a mente escapa e flui e não quer encontrar justificativa concreta para o distanciamento e só encontra a dor cínica causada pela possibilidade inicialmente abraçada com receios, sem tanta dedicação, mas então envolvida com todas as forças que agora precisou ser abandonada no meio da correnteza, talvez pelo intenso aperto com cara de obsessão. "Eu não sei nadar”, disse ele, “deixa de ser pessimista”, disse ela, “nada mais profundo que um mergulho no seu corpo”, diria ele (mesmo que desconexo ao diálogo, lembrando-se daquele domingo) se naquele momento se lembrasse perfeitamente da frase pixada em um poste a poucas quadras de onde se conheceram. Quando recordou do que deveria ter dito, não era a única coisa obviamente, envolveu-se novamente pela saudade, que era inversamente proporcional ao tempo de início dessa história, julgava-se incapaz de se apegar tanto a alguém em pouco mais de um mês, mas então seu pensamento jogava uma carta escondida, há mais tempo do que a previsível colisão ocorrera havia o condicionamento emocional para poder sentir calorosa e intensamente mais uma vez depois de outrora destroçado por outros amores, reconstruiu-se quando o determinado encontro aconteceu e, de tanto entender ao longo dos dias a possibilidade de algo maior, aceitou que ela contribuísse de toda e qualquer maneira em sua reconstrução, abriu a porta das obras, mas ela não entrou.
Não havia nada mais convincente do que se permitir sentir tanto a ponto de se tornar visível para quem o sentimento era devido, mas, neste caso, ainda era insuficiente.
Escancarou a porta e não se importou em arrumar a bagunça antes que o alguém esperado entrasse, contudo a desordem, quando excessiva, não merecia ordem.
Os fios da história e dos sentimentos, ambos entrelaçados, perdem-se e arrebentam, restando o que se conseguiu reunir do emaranhado arruinado de tudo que se conseguiu recuperar dessa confusão.
Até que se aceite que não há mais qualquer afeto cultivável, resta o constante e inevitável apodrecimento das emoções que em algum momento do passado foram consideradas em um diálogo franco o futuro adequado.

2016/12/29

Zero


Grita comigo para que meus defeitos se assustem, deixem-nos em paz e saiam pela janela, que está aberta, e que o vento entre, deslize pela cama amaciando a tua pele que meus dedos magnetizados não conseguem deixar de acariciar. O afeto se desmancha quando me permito ser a minha pior parte na tua frente e sei que tem vontade de ir para nunca mais voltar, melhor dizendo, você deve ter vontade de me expulsar da tua casa, gritar da janela um discurso que acorde toda a vizinhança que não mais me permitiria entrar na tua casa, sequer pisar na tua rua novamente, jogar minhas roupas na rua e me deixar queimar no calor de dezembro. Tua raiva contida causa a miragem de que está tudo bem por enquanto, mas sei que não está, despropositalmente deixo vestígios do que não quero mais ser, sem que eu perceba a maquiagem escorre e você consegue enxergar meu antigo personagem, aquele que tentei assassinar repetidas vezes, mas insiste em se expor quando estou vulnerável. Seja minha cúmplice ou mate o antigo eu por conta própria, assumo a responsabilidade de levar a culpa e de encontrar um novo eu - ao teu lado.
Que seja um caso de um mês ou dois (ou vários, assim desejaria), mas não mereces ter o meu pior nem ouvir de mim as palavras mais cinicamente corrosivas, nem você nem ninguém. Que o pior que você possa ver de mim sejam minhas crises alérgicas abraçando seu família felina ou minhas mordidas ansiosas em minhas próprias mãos ou minhas bebedeiras colossalmente vexaminosas que resultam em machucados de origem imemorável e diálogos em outros idiomas sem nexo algum. Que ainda haja em você um tanto de insistência nisso que temos e vivemos, seja lá o que for, ah, eu gostaria, apesar de meus tropeços. Que você grite comigo tudo o que quiser, grite também para o mundo tuas vontades. Que os teus escândalos sejam a fonte da mudança.

2016/12/06

Ressaca de novo

Anestesiado pela presença dela ali, no apartamento há tanto tempo assombrado pelos fantasmas da ausência e da solidão, contente com o novo episódio que escreviam ali, em uma madrugada alguns anos depois da primeira colisão de rotas ("há quanto tempo a gente se conhece, dois anos, três?", ela perguntara, "quatro, teoricamente", ele retrucou - porém devia ter dito que a cronologia considerada partia apenas de sua perspectiva, excluindo a dela, que era um tanto mais recente, ele deveria ter dito, não apenas isso -, completando com um trecho da música de abertura, digamos, do que pretendia ser o filme mais extenso que conseguiriam imaginar serem capazes de protagonizar, "I remember it well", mesmo que, de fato, a canção era apenas uma regalia dos primeiros dias, não traduzia sinceramente para uma linguagem musical, somente instrumental que fosse, o que viveram), ela estava em sua casa, e alucinado pelo cansaço e o sono que deixavam a gravidade ainda mais influente, focava o que restava de sua força para com seus dedos percorrer o curto e magnético caminho dos dedos dela. Cada centímetro, desde a base das unhas, passando pelas pontas curtas, às impressões digitais. Entorpecido, tentava decifrar os relevos de seus dedos na tentativa de conhecer o que ainda desconhecia dela, o que era muito. Buscava decifrar sua biometria para entender o código criptografado de suas vontades. O peso do cansaço realmente deixava sua mente e seu corpo deslizarem em fluxos de delírios desconexos. 
Naquele momento, o tempo parecia não fluir, a noite que lentamente se camuflava de dia, o frio era teimosamente ignorado, não pelos corações flamejantes tão próximos, apesar de separados pelos braços das duas poltronas, cada um envolvia-se num cobertor diferente, de que deixavam escapar somente as mãos quentes e um tanto trêmulas, fosse por frio, nervosismo ou alguma sensação que representasse o que alguém ansioso e incrédulo sobre a realização de um capítulo igual aquele em que duas pessoas, depois de tantas corridas, repousavam enfim juntas, mesmo que houvesse a possibilidade real de isso não se repetir; e os rostos, iluminados pelos olhares alheios, radiantes, o que os impediu de fechar os olhos por bastante tempo.
Quando suas mãos se cansaram contra sua vontade, aproximou-se ainda mais dela, afundou-se em seus cabelos, cada fio era uma enxurrada, queria se afogar ali, tão delirante estava que se esquecia de respirar. Cada inspiração pretendia absorver uma parte do que criavam juntos para que as memórias invadissem seus pulmões e dali se alastrassem pelo resto do corpo, da sala, da cidade, da vida.

- Você precisa dormir, o cobertor ainda tá quente, vai - disse ela, com seu fechado sorriso tranquilizante, aparentava temer deixar escapar a intensidade de seu sorriso aberto e explodir, desaparecer na luz, mas ele aceitaria, impulsivamente, fragmentar-se a partir de uma explosão solar dela. “Que ridículo eu sou”, pensava sozinho após considerar o que faria ou não por ela, em que metáforas se transformaria para continuar em sua órbita. 
Pegou o cobertor abandonado na poltrona onde ela deitara, percebeu que seu cheiro permanecia ali, e deitou-se, agora em sua cama, mas não pode dormir o quanto queria ou precisava, sua rotina fluía apressada e a luz matinal inundava todo o apartamento. À noite, quando voltou para seu apartamento, depois do trabalho, agora acompanhado apenas das sombras da memória, o aroma se dissipara. Afirmou para si mesmo que o cobertor voltaria a abriga-la, apesar de não ter certeza disso, que seu cheiro voltaria a se prender às peças de cama daquele lugar - ou qualquer peça de qualquer lugar que os abrigasse - futuramente - suplicava às curvas do tempo para que aquela madrugada se repetisse, que se tornasse rotina, mas não do tipo que corrói os relacionamentos. Esta palavra o amedrontava,  gancho para o que queria esquecer fisgava sua pele, doía. Conseguia rapidamente se desvencilhar do passado e retornava ao recanto das memórias doces que cultivava por ela. Entristeceu-se consideravelmente por se lembrar do que lembrava, mas sua mente recordara da canção que repetira tantas vezes nos agora tantos anos que estavam em desencontro constante: "Not now, maybe later". Talvez. Permitia-se massacrar pela crença em um bad timing como método para dormir melhor, sem ser atormentado pelo pressentimento de que nunca teriam uma chance, a chance de viverem juntos de uma vez por todas.
Não demorou para que seu pessimismo arrombasse a porta da casa, de sua cabeça, como em outras vezes naqueles anos, trazendo boatos de que ela teria passado aquela madrugada com ele enquanto esperava algo ou alguém - quem ou o que quer que fosse -, que ela não gostasse tanto dele quanto ele imaginava, que ele não passava de uma distração, que ele era uma ilusão, que ele daria motivos para uma fuga no próximo - incerto - encontro ou em algum momento no futuro - também incerto - juntos. Fato era que a onda de otimismo sempre vinha trazendo tudo o que queria e se arrastava para longe depois de algum tempo, deixando o solo seco e propício aos piores pensamentos. 
Os dias se alongavam e as lembranças emergiam. Em um momento aleatório, insignificante, passou a mão em seu próprio cabelo e recordou do momento em que ela fez o mesmo, o melhor afago que seus curtos e crespos fios já receberam em muitos anos. Não exagerava ao afirmar que qualquer ato dela, apesar de exagerar na importância deles, mais objetivos do que qualquer palavra, eram de significância enorme para ele. 
Ignorou durante um ou dois dias depois do encontro que tiveram, o mais marcante até ali definitivamente, a questão de que não dependia apenas dele ou da relevância da madrugada que passaram juntos encarando o escuro e deixando-se levar pelas mãos alheias, podia ter sido nada demais, nada de menos, ou tudo. O conforto do silêncio à dois emudecia o que queriam dizer um ao outro. Tinha consciência que qualquer gesto seu posterior àquela ocasião poderia ser praticado ou entendido como cinismo, a união de algumas palavras quiçá soassem como apelativas. Não queria gritar suplícios desesperados, não queria gritar de maneira alguma, e passou dias tentando encontrar um meio de não ser o homem que ela não queria (cínico, chantagista, carente etc), porém não sabia o que ela queria, nem mesmo se queria.

2016/08/08

Sono

Queria escrever sobre a conexão que sentira ao saber, naquele dia em que ela, sem intenção de entregar o enredo, depois que ele afirmou saber que alguém morria no meio da história, confessou, sem dizer nome algum, que era sua personagem favorita. Naquele instante, soube quem morreria. Tentava se desprender de tramas doídas, mas, entre Uma Vida Pequena e Dias de Abandono, decidiu prosseguir com a crônica de uma morte anunciada, não aquela do Gabo. Ao fim do episódio, depois de chorar, pressionar a cabeça com as duas mãos, como se tentasse arrancar a memória daquela cena e se concentrar na própria respiração para se acalmar, pensou em mandar uma mensagem sobre conexão mental, "quando você falou que era sua personagem favorita, eu soube", sobre o quanto eles se conheciam, completavam, contemplavam, corriam, à distância, juntos, em silêncio. Ou escrever um conto sobre tudo isso. Intrinsecamente, apesar de não assumir em voz alta a si mesmo nem a ninguém, usava a literatura - tanto no ler quanto no escrever -, corrigindo, a ficção como um  recurso para se aproximar dela. No meio do caminho, teve a epifania de que não era capaz de transcrever, traduzir, o que sentia por ela nem o quanto ela importava para ele. Repetia-se nos rascunhos, apesar disso, não se cansava, não havia crítica literária apontada para seus textos, afirmando que já estavam repetitivos, que deixaram de ser inventivos e não tinham interesse para a sociedade em geral, não importa. Queria escrever. Continuar o que havia começado mentalmente. Porém, estava cansado demais para se livrar das cobertas, levantar e procurar seu caderno ou ligar o computador. Além do cansaço, um pedaço de ferro atravessava seu crânio numa dor de cabeça consequente de um pouco de choro depois de testemunhar a morte ficcional - mas nem por isso indolor -, somado a uma ressaca causada pela labirintite atacada na madrugada anterior.
Devia ter escrito, pois, na manhã seguinte, esqueceria-se das frases elaboradas mentalmente,  que se tornariam célebres e seriam citadas em obras de outras pessoas no futuro, mas dormiu.

2016/07/28

Permanecer, distante (Not to disappear)

Render-se ao cinismo da nostalgia por bons e velhos tempos é tão angustiante, cortante, quanto ignorar o passado e priorizar acabar com a agonia do momento.
A vontade de partir era, muitas vezes, real, visceral, emocionalmente palpável (como se um caroço retirado de um buraco no próprio peito, "aqui está minha dor"), mas, dependendo do momento, impraticável. O motivo para sumir - da vida de alguém, na maioria massacrante das ocasiões em que tal vontade despertava - não é maior que os motivos para ficar - no emprego, na casa, na faculdade, nos trilhos.
Talvez, em algumas circunstâncias, a intenção de se distanciar não estava diretamente associada a uma ou várias ações de alguém. A exaustão por viver, como um todo, não necessariamente cansar-se de alguém em específico, despertava interesse nenhum em interagir com quem quer que fosse a pessoa por quem tinha ou teve sequer uma gota de consideração, afeto.
Ou, até mesmo, cansar-se de uma pessoa especificamente alastrava o camada de isolamento criada e fazia se distanciar de toda relação humana diretamente hedonista - que não envolvesse diretamente trabalho ou qualquer outra obrigação.
De fato, meses depois, não sabia porquê, o que concretamente atingiu e desviou sua rota, mesmo que só mentalmente, para dar um ponto final, apenas...
Nunca gritou na cara das pessoas das quais não teve mais notícias que não queria saber de suas vidas, suas imagens congeladas da tela, lentamente entrando em fade out. Lugares que frequentaram juntos, dívidas, piadas internas, lembrava-se de tudo, guardava tudo, temendo um dia não ser mais capaz de guardar tudo com carinho, derramar rancor ou simplesmente deixar cair pelo caminho enquanto corresse - para longe, das pessoas, de si, de tudo. Contudo, sabia que ao chegar lá, independentemente de onde "lá" fosse, teria novas razões para querer partir mais uma - quem saberia, talvez não a última - vez, novas pessoas que despertariam tal desejo, fugir novamente.
Entrara nesta introspecção ao se lembrar da proximidade do aniversário de alguém de quem se afastou, mas, na tentativa de recordar o ultimato para a relação em questão, contentou-se em concluir que o tempo, a erosão do tempo, corroeu a construção, permaneciam resquícios, entulhos, do que existiu, incertamente sem saber se, de fato, existiu uma razão justificável, aceitável em termos que não abrangem o intento psicológico de cada indivíduo na tomada de decisões - impulsivas ou concisas -, que não só uma manha, uma cisma, um pesar efêmero que distorceu a visão de uma amizade firme para convergências sociais, interações, forçadas pelo comodismo. A resposta, provavelmente, era tão solúvel que nem ao menos uma chuva foi necessária para apagar, apenas o primeiro vento a levou para longe, perdendo-se.
Era estúpido condenar culpados intangíveis, o orgulho, o comodismo, o cinismo, a saudade, quando a culpa nem devia ser considerada, afinal, algumas vezes, o que acontece é que a vida acontece.
Deixava-se enlaçar pela insistência presa ao momento em que decidiu se distanciar, mesmo que não fizesse mais sentido permanecer distante, mesmo que não tivesse se distanciado literalmente, ainda estava onde esteve o tempo todo. Mesmo endereço, mesmo cansaço, mesma desgraça.
Não queria se render à saudade, mas abraçou, por instantes maiores que seu orgulho permitia, as lembranças. Da última vez que realmente se sentiu pertencente (talvez a ilusão, cegando-se a fatos que poderiam ter causado o distanciamento anteriormente), abrigado naquelas companhias, àquelas amizades. Fim de tarde, o sol refletia nos prédios, riam, e alguém perturbava carinhosamente sobre a velocidade que se apaixonava; madrugada, sofá pequeno demais para tantas pessoas e lia, sem censuras, sua autobiografia, com todos os detalhes possíveis sobre suas perdas; foram tantas despedidas. No fundo, apesar da longevidade e/ou consistência daquelas amizades, não se conheciam plenamente, não permitia que o conhecessem. Queria deixar ocultas camadas de sua existência para não se machucar quando usassem sua vida contra si ou fossem embora. Mas, egoísta, contraditório, escancarava-se, de modo a causar a impressão que lhe conheciam inteiramente, partia, distanciava-se. Adiava - provavelmente necessárias - brigas e deixava a sensação de que estava tudo bem ou que passava por mais uma de suas fases de afastamento, que seria encerrada inesperadamente ao aceitar um convite para fazer alguma coisa, qualquer coisa. Porém, dessa vez, talvez, não responderia ou - pior - daria uma resposta apática, que não desse vida a um diálogo. Ou levaria uma reaproximação saudavelmente, seria simpático. Não conseguiria se distanciar, permanecer longe do alcance, da vista, nem no próximo mês, muito menos ao longo dos anos que lhe restam.
Não tem fim.

2016/04/28

Personagens

Querida personagem,

Toda e qualquer característica física sua será desconsiderada e ignorada nos seguintes parágrafos - de mais uma carta que você não quer ler. Os longos cabelos castanhos, que, repentinamente, ficaram acima da nuca, os olhos tão instáveis quanto o humor, ora verdes, ora castanhos, a pinta no pescoço que formava uma constelação com outras espalhadas pelo corpo, os três dentes frontais-inferiores levemente inclinados para frente devido a insistência em usar chupeta até os seis anos, a cicatriz na mão, resultado de um acidente envolvendo piso molhado e copo de vidro, as olheiras cada vez mais profundas e simultaneamente entristecedoras e encantadoras (pois, de um modo muito muito subjetivo, mostram uma fração da sua profundidade, fração magnética, que me atrai - ou atraía, não quero deixar rastros de um possível resquício de desejo, apesar de sempre deixar aonde quer que eu vá ou o que quer que seja que escreva) - para o núcleo de sua existência [passando pelas diversas camadas de seu planeta numa velocidade maior que aquela necessária para me destruir quando você disse que (você sabe, não tenho forças para repetir, mesmo em prosa, suas palavras naquela tarde)… voltando a carta:] cuja temperatura pode me dilacerar antes mesmo de encostar nele. Enfim, tudo o que poderia causar algum tipo de encanto e/ou admiração deve ser repelido tanto deste texto quanto de minha mente, pois os gestos e gostos tiveram maior relevância, mas, seja a essência, aparência ou qualquer outra caraterística, não importa mais. Não deveria importar, mas contradição corre solta.
Hoje, apenas restam o rancor e a vontade de encontrar uma falha na linha espaço-tempo para retornar à estação de trem e tomar outra decisão que não escolher ficar com meu pai ou partir com minha mãe… Espera, não, essa é outra história, não a que está sendo relembrada a fim de causar em mim a mesma repulsa que há em mim (ou deveria existir). Não que de fato haja alguma gota de repulsa em minha língua, garganta ou qualquer lasca de minha carne, o contrário do que essa carta tenta dizer. Tentar, afinal, nunca condiz com a intenção em si. Não sei mais do que estou falando, certamente prolongo as palavras para de alguma forma te fazer gastar mais tempo comigo através minhas palavras. Percebe como podemos manipular o tempo? O tempo alheio, de mudar toda a trajetória espaço-temporal de uma pessoa ao simplesmente gastar seu tempo com algo que você poderia evitar. É óbvio que já percebeu que me perdi - como sempre desde sempre, mas de um jeito diferente de como me perdia ao seu lado - de minhas intenções no primeiro parágrafo. Escrever impulsivamente em fluxo de consciência causa o entendimento de como as vontades fluem, alternam-se, desaparecem e ressurgem em questão de poucos minutos. Resumindo o assunto que já se perdeu, gostaria de ter feito outra coisa, não há certeza em relação ao dia certo para tal encruzilhada surgir a minha frente. Insistir ou desistir, melhor dizendo, seguir para longe de quem te despreza ou te mantém como um plano B, uma caixa de primeiros socorros. “Em caso de solidão, quebre o vidro”.
Saber que não seria o par romântico da protagonista, mas um personagem também importante de alguma maneira tanto para ela quanto para o resto da história. Não sei mais se apenas escrevo ou se sou personagem (não que seja inviável ser ambos) me fez separar todas as páginas desse romance para tentar reorganizá-lo de algum jeito que ficasse menos bagunçado, mas são tantas folhas que talvez precise de ajuda para transformá-lo em algo. Alguma coisa que me faça parar de escrever. E começar a viver. As tentativas de “começar” foram tantas em tantas novelas que se tornou menos doloroso escrever e escrever.

Com todo amor que pode haver na desgraça,
Personagem.


Notas (sobras) que não se encaixaram em linha alguma desta carta

Todas minhas roupas, toalhas e roupas de cama estão sujas de rancor, não conseguia limpar as manchas de ódio, talvez porque a máquina de lavar e a água também estejam sujas, contaminadas com um ódio infundado.

Não te amo, o amor que conservo imerge na personagem que co-escrevemos através de minhas idealizações e suas poesias.

2016/04/24

Quando O Diabo surge

I

Selado o pacto, estava decidido, não mais se envolveria romanticamente com alguém. Ninguém. Julgava não precisar nem querer mais desse item (amor) tão estimado por tanta gente. Queria aceitar sua solidão e conviver com ela distantes da ilusão de conforto quando se “tem alguém”, estava cansado. Foco no trabalho.
Concentrado, manuseava livros, dinheiro e sacolas, o procedimento padrão de todos os dias. Ainda assim, sua visão periférica se ocupava com movimentos e cores ao redor. Em dado momento, percebeu, com canto de olho, uma figura marrom surgindo e logo desaparecendo. Foi um instante rápido, mas suficientemente lento para atrair a atenção e o olhar daquele que guardava dinheiro de troco em seu caixa. O vulto retornou e sumiu mais uma vez, porém Nicolai (digamos que este seja seu nome) conseguiu flagrar o vulto, não era um fantasma, era uma mulher, que poderia se tornar uma fantasma na vida de Nicolai, ninguém sabia naquele momento se isso aconteceria, mas essa história não se foca no fim, apenas no início.
Marya (seu nome fictício), bastante influenciada por seus pais, que, naquele momento estavam no café da livraria, apegara-se à Literatura Russa, principalmente a um conto de Tolstói, que ela tanto recomendava para entes próximos, mas não tinha coragem de emprestar a cópia que tinha em um quase-altar em seu apartamento, então queria encontrar uma versão contendo apenas ele, para que pudesse “alugar” a edição que tinha, uma que incluía mais um conto. Lembrava de, num passado precisamente incerto, de ter visto o tal livro desejado, custando pouquíssimo para melhorar a situação, então se deslocou da seção de literatura estrangeira à de livros de bolso, ao lado do caixa, e começou a procurar. Abaixou-se para olhar nas prateleiras inferiores, enroscou-se em seu grande casaco marrom e lembrou de quase tê-lo deixado no carro por estar calor demais na rua, mas ali, na livraria, fazia frio, tal peça de roupa era útil. Sem encontrar o que queria nas partes baixas da grande estante de livros, levantou-se e voltou a olhar nas prateleiras de cima.
Pouco mais de um minuto depois de perceber a mulher procurando algo, por não haver mais pessoas na fila do caixa, Nicolai foi ao seu encontro e perguntou se precisava de ajuda.
Encarou o rapaz, que surgiu do nada, e disse "oi" e o nome do livro.
Ele começou a procurar com ela.
Quando voltou os olhos à prateleira, sem influência nem auxílio do atendente, Marya mirou o olhar diretamente no desejado livro, mas não era exatamente a edição que queria:
- Vocês teriam uma edição só com este conto? - Apontando para um dos títulos na capa. - É que eu tenho uma versão com esse e um outro, mas quero, se existir, uma só com esse. Lembro de uma que custava cinco reais.
- Só um momento, por gentileza, que vou procurar no sistema. - Disse, Nicolai, andando até um computador de consulta. Digitou as seis letras e obteve alguns resultados, contudo… - Não temos mais em loja, só por encomenda.
- Então quero encomendar.
Seguiram os procedimentos para encomenda, que não importam para este conto, mas, o que realmente interessa aqui, é que: em algum momento desta troca de informações, “é o mesmo nome da minha mãe”, telefone, dados de cadastro etc, em algum instante, como um raio, quando ele pareceu ou quando ela encontrou o livro, ninguém sabe afirmar o segundo preciso do choque, Nicolai olhou para Marya e se perdeu, desfez o pacto que havia selado consigo mesmo, queria amor, precisava se relacionar com Marya, afogou-se, foi absorvido pelos olhos dela, que eram de uma cor entre verde e castanho, ou os dois, ou nada, eram profundos. Talvez Marya, também perdida, submersa, quisesse retornar ali diariamente para procurar livros de Tolstói e, se possível, de preferência, encontrar o amor nos braços de Nicolai, cujo sorriso, sentiu ela, tão magnetizante, dizia tanto, mas ela esperava que dissesse algo que ela não conseguia elaborar em sua mente para falar, alguma coisa que a fizesse ficar ou voltar amanhã.
Marya não voltaria no dia seguinte, mas quando seu livro encomendado chegasse. Nicolai esperava que isso ocorresse quando estivesse lá, para recepcionar e atender Marya, e dizer o que não conseguiu nesse capítulo que termina, quem sabe, neste ponto.

2016/04/12

Cansado de inventar um título que sintetize tudo o que quero dizer sobre o que senti no momento em que me inspirei a escrever tal texto

De todas as faltas que sinto, a que mais sinto falta é a falta de incômodo por ter espaços vazios a serem preenchidos em minha mente. Agora, sou um arranha-céus com vários cômodos vagos ainda com reminiscências falhas de pinturas e buracos na parede de antigos inquilinos. Únicos sons perceptíveis são os dos meus pés pisoteando o chão, correndo atrás de algum fantasma que não sei se habita minha morada, e os remorsos e contradições correndo e dançando pelos corredores para me assombrar.
Implodir isso tudo seria prejudicial demais, não para mim, obviamente, já que estaria desmoronado, aos pedaços no chão, mas, sim, para quem está perto, tanto no prédio vizinho quanto correndo para longe, devido não apenas a fumaça e o barulho tóxicos da implosão, como também pela chuva de entulhos deslizando pelo céu dessa cidade infeliz e pousando aleatoriamente na cabeça de qualquer pessoa - culpada  por qualquer causa do fechamento da construção ou não.
Reformar o prédio custaria tempo demais: trocar todas bases de sustentação, os ferros infestados não só de ferrugem mas também de melancolia e auto-penitência; liberar os (ainda que poucos) espaços ocupados para fazer uma limpeza completa e não deixar um pedaço sequer de passado, não sei por onde começar, o melhor talvez seja fugir. Fugir de mim mesmo.
Fugindo do prédio, o impulso tomado para desabar em palavras ora dura horas ora dura dez minutos e me força a continuar a escrever mesmo sem vontade, digo, sem certeza de onde parti ou aonde quero chegar. O que começa como um pedido de desculpas, passa por algo como “sinto sua falta” e chega a nada, não apenas em texto chego a nada, e em algum momento começo a me questionar: “Por que razão/emoção perdida no meio do caminho, talvez no primeiro parágrafo, comecei a escrever?” Mais um cansado rascunho sem respostas, seja sobre porquê escrever, porquê me arrepender de algo que fiz ou não, porquê parti, porquê deixei partir, porque acabou.

2016/03/25

Leite integral

Qualquer ato consciente segue o desejo subconsciente de autopunição por seja lá qual for o delito cometido.
Mais uma vez, estão cheios o copo e a certeza de que a cada gole seu estômago estará mais próximo de se estragar inteiramente. A cada dose no balcão, um passo a mais perto da beira do precipício que é perder a consciência e deixar que o impulso trate de apagar qualquer memória e toda a moral, se é que a sua (in)sanidade algum dia permitira que isso corresse por seu sangue. Cada batida é um soco na própria barriga que faz escorrer da garganta palavras e mais palavras de autodepreciação e insignificância.
O nojo de si mesmo não é aparente, mas tem ânsia de vômito quando revira a caixa do passado ou a de pensamentos. Segue fazendo o que faz mesmo não querendo mais, mesmo que agora não seja tão prazeroso quanto antes, machucando-se com isso, sabendo que faz mal a si e - ocasionalmente - a alguém mais.
Consegue se manter por algum tempo longe de tudo (ou quase tudo) que lhe é nocivo, mas manter-se em equilíbrio não é seu forte. Sua maior qualidade é ter fraquezas e se render a elas quando lhe é conveniente, quando quer fugir, por mais que saiba que não consegue fugir delas quando as mesmas não são outros seres, mas parasitas em seu organismo, a dor começa a escorrer de sua boca, seus olhos e suas mãos. Deixa-se derramar, vaza a liquidez de seus pecados, até que restem somente os entulhos de sua existência, permanentes. O aparentemente alto e resistente edifício de sua personalidade não passa de casebre insustentável a qualquer batida na porta.
Não suporta mais as metáforas, as analogias, as besteiras que cria para definir a si mesmo e explicar como sua mente vê, absorve e expele/repele tudo. Não consegue se expressar. Detesta ser o iceberg, que: 1. É muito além do que se percebe em sua superfície e 2. Pode causar sérios danos se houver aproximação desatenta.

2016/03/05

Verde, laranja, vermelho, verde, amarelo...

O cansaço deixa que o vento empurre seus corpos pela cidade, cada um em uma rota diferente. A única vontade convincente que sentem, cada um em sua própria solidão, é deixar o fardo de suas existências desabar sobre um colchão e respirar - não mais como antes, inspiração e expiração sincronizada juntos. Em tempos idos, eram algo inominável, mas eram alguma coisa, porque queriam tentar ser alguma coisa, apenas algo que não doesse tanto no mesmo cômodo quanto em países de continentes diferentes separados por um oceano.
Suas vidas divergiram para longe um do outro, apesar de frequentarem as mesmas vias da mesma cidade - ou de outra, ocasionalmente. O acaso entendia que não devia brincar com eles e jogá-los na mesma rua, no mesmo horário, porque, mesmo que não houvesse mensagem subliminar alguma enraizada na coincidência de transitarem pelo mesmo lugar na mesma hora, dariam um jeito de criar duas versões diferentes para o que Deus Destino tentava dizer (algumas vezes, nada). “Not now, maybe later”, rezou ele, “I don’t want to belong, to you, to anyone”, rogou ela. Antes disso, antes de cantarem mentalmente suas orações mais convenientes, antes de avistarem o passado do outro lado da rua, afirmavam a si mesmos que haviam superado o que quer que fosse que viveram juntos. O silêncio de causas não-dialogadas trouxe o consentimento de que não se sentiam mais necessários um para o outro. Era a maior história sem fim que protagonizaram até este momento.
Olhares cruzados, distração, atropelamento e “hello, stranger” seria uma possibilidade exagerada para ocorrer com eles, devotos de romances desgraçados, cinematográficos, televisivos, literários, teatrais... Os dramas românticos repletos de incerteza, magnetismo, ansiedade e desgraça faziam ambos sentirem-se vivos, tanto na ficção quantos os seus próprios, mas a roda de repetição - também com com outros personagens - corroeu os sentimentos, transformando-os em cansaço e lucidez, percebendo enfim que o ciclo - de encanto, aproximação, reciprocidade, carinho, desentendimento, silêncio, afastamento e algo que diferenciasse a história em questão das demais - não tinha mais impulso para girar.
Meses depois, contudo, ainda restava algo inspirador, inspirador apenas para desabafos e retratos. De certa forma, viver uma nova história, de preferência com um detalhe inédito, para se distanciar do passado que insistia em perambular pelas ruas em que eles, separados, rastejavam sem saber se encontrariam o futuro ou águas passadas na próximo cruzamento. Hoje, encontraram-se, avistaram-se cada um de um lado da via e congelaram. Os menos de quarenta segundos do semáforo duraram tanto quanto o romance deles durou.
Esgotou-se o tempo da luz vermelha, deram seus primeiros passos e fizeram o que deviam ter feito antes do primeiro encontro: ignorando sentiam um pelo outro, deixando o silêncio reinar, eliminando qualquer chance de um romance entre eles, seguram seus próprios rumos. Talvez se encontrarão outras vezes, mas não importa.

2016/02/26

Sem tempo para nós ou [Confidencial]

[...]

- Não só me arrependo como me odeio por ter sido a pessoa horrível que fui contigo. A lembrança se tornou uma farpa. Todo dia tento arrancar mais um pouco.

[...]

-Tô faz tempo numa crise de identidade, que não consigo manter um comportamento só, fico instável, como você bem viu, e isso faz com que eu machuque as pessoas, mesmo quem quero que permaneça por perto. Por mim, te pediria desculpas diariamente, mas sei que não adianta.

[...]

- Consegui me desintoxicar de algumas relações e alguns sentimentos que ma faziam mal e creio que ainda leve um tempo pra me "recuperar".

[...]

- Achei que você me fazia mal, mas então percebi que o que havia de ruim entre nós estava tudo na minha cabeça e era o que eu fazia, nada você.

[...]

- Se fosse em outra época, a gente teria dado realmente certo, mas “you met me in a very strange time of my life”.

[...]

- Poderia dizer que desejo uma segunda chance (ou seja lá qual for), mas, e isso não tem muito a ver com esses problemas que superei nos últimos meses, eu simplesmente não sei se sou forte o suficiente pra viver viver uma vida a dois com você... Nem com ninguém. I just can’t. Isso me machuca ainda mais, por mais que eu viva por amor, que eu respire romantismo, quando acontece de fato ou surge simplesmente uma ótima possibilidade de tentar... Eu fraquejo, corro, estrago.

[...]

- Eu tinha medo, porque não sabia lidar com teu sentimento.

[...]

2016/02/17

15 metros ou Insistência ou desistência

Após meses distanciamento, o tempo destila todos os sentimentos existentes em uma relação - romântica ou de amizade -, deixando restar apenas aqueles que realmente fundamentaram o contato, memoráveis, ignorando aqueles que fizeram tudo desmoronar, na maioria das vezes. Neste episódio específico, o que aflorou naquele que lia na lanchonete não foi toda a amizade de quatro anos que teve (ou ainda tinha?) com aquela que estava no ônibus, que passava em frente ao lugar onde ele se encontrava, mas o amor, o romance, o platonismo ao qual se deixou afundar com o passar dos dias ao lado de, segundo, ele mesmo, a pessoa mais afetuosa que se arriscou a entrar em sua vida conturbada, levando para o fundo todo o afeto fraternal que havia. Depois daqueles seis segundos passados entre o ônibus surgir no espaço em frente a fachada da vidro da lanchonete e desaparecer seguindo o fluxo da rua, logo virando na primeira esquina à direita, despertou o amor afogado, o carinho rememorou os brilhos flamejantes que o atingiam diariamente quando ainda acreditava que ela seria - ou deveria ser - sua companheira para a vida, a cama, as festas, os trabalhos, as viagens, as gestações, o fim.

A insistência dele em permanecer romântico, o romântico clássico, do tipo que sangra (figurativamente, por favor, sem equívocos) por amor e morre por sequelas do sentimento, e o altruísmo benevolente que transborda afeto dela, mantendo próximo quem estivesse (de algum modo, psicologicamente) danificado para que tentasse consertar tal pessoa.
A harmonia entre eles se manteve por meses, anos, através de um código criptografado por desconhecidos, até que uma epifania (possivelmente) coletiva gerou a repulsão de qualquer intenção de se derramar de amor por ela ou ser a barragem de contenção para ele, a ausência de saudade, o desentendimento sobre desejar a amizade ou tudo e amizade ou estudar uma psiquê desgraçada.


Tão rápido quanto o encontro e o ressurgir de algum sentimento maior foi o desmoronamento do mesmo, depois de as lembranças dolorosas invadirem a mente daquele que tentava retomar sua leitura, mas não desfocava os pensamentos daquela que esteve presente por tanto tempo em sua instável vida, poucas pessoas conseguiam.

O que ocorreu dias após essa colisão poderia ser narrada, mas não possui relevância para quem ainda possui (que seja, um pouco de) fé na continuidade de qualquer relação entre aquela que apertava a mão de seu cônjuge no ônibus, agarrando-se a certeza real que sentia ao estar a poucos dias de mudar de cidade e de vida, e aquele que lia um livro por semana para se livrar das memórias corrosivas de pessoas que haviam partido ou encontrado um canto melhor que o seu poço de traumas para repousar.

2016/01/27

Lucidez ou Ceci n'est pas un revê

Não se lembram como chegaram àquele lugar. Enxergava-se tudo em preto e branco, o penteado de L. estava diferente do último e distante encontro, as tatuagens nos dedos de F. estavam mais apagadas, assim como os cigarros que ambos tanto fumavam. Não mais. Não mais fumavam. Não mais se encontravam. Até então. Os detalhes específicos deste encontro escapam às memórias tanto de quem o narra quanto de seus personagens, porém alguns deles - os detalhes - são resquícios do passado cravado na pele de ambos, portanto ainda permanecem visíveis, mesmo que as lentes e as perspectivas tenham mudado. Falando em lentes, neste caso, de óculos, L. trocara a armação preta por uma azul marinho e isso incomodou F. um tanto, “nada contra azul, mas cansei de dizer que vermelho combina mais com você”, disse várias vezes, incluindo durante o reencontro, mas logo se corrigiu, “quem sou eu pra opinar qualquer coisa agora?”. Sentiam, enquanto encaravam a pessoa a sua frente ou tentavam se desfazer da visão turva para reconhecer os objetos ao redor, em uma calada constrangedora que invadia ali aquelas pessoas, que perderam quase toda a intimidade que tiveram outrora e neste instante são mais estranhos do que amantes. Tinham a impressão que já viram a cena que protagonizavam em outra história contada em bar, pedaços de papel ou imagens em movimento. Certamente, alguém viveu ou transformou em ficção uma situação idêntica. Precisavam de uma guia, mas, enquanto o socorro não vinha, teriam que dar um jeito.
Alguém precisava falar algo antes que fossem arrastados por águas de passado e rancor. 
L. disse que sentia a falta de de F., que concordou antes de ouvir o que L. ainda queria dizer: "A gente tinha tudo pra dar certo, mas você estragou tudo, não tem como tentar mais uma vez”.
Silêncio. Desolação. “Corta”, alguém berrou. Fim.

2016/01/15

Água fria

Baseava-se em marés o que sentia. Seu corpo permanecia enterrado em uma praia nada paradisíaca, sem palmeiras nem cavalos brancos, apenas pedregulhos da existência e a areia cada vez mais áspera e movediça de passado. Memórias permaneciam distantes por algum tempo, tão longe que alcançava o recife em vias de morte, que devia estar coberto por água salgada, mas que ressuscitava com a maré vindoura, reaproximando-se da areia e empurrado todos os entulhos de um barco naufragado sobre o peso morto encoberto. As peças que restavam da embarcação poderiam servir para reconstruir o que afundou, ou algo menor, mais resistente, e, talvez, ter potencial para navegar por mais tempo e por mares mais turbulentos, mas as mãos para consertar eram ansiosas demais para segurar os componentes, que, de alguma forma misteriosa, estavam todos enroscados a pesada âncora da navegação, que, em algum buraco no fundo do mar, puxava tudo para junto de si.
Desta vez, não a primeira nem a única, as ondas precisaram de pouco menos de quatro dias para inundar o peso morto na areia, no terceiro dia, já alcançavam os pés e começavam a atormentar os pensamentos, e, no quarto, já inundavam cada pedaço do ser, afogavam cada milímetro dos pulmões, com reminiscências do passado.
Ninguém sabia a localização exata desta praia, mas podia afirmar-se que era próxima a um dos polos deste planeta, avaliando o tipo de areia e de vegetação (zero), não era possível dizer se era Norte ou Sul, o que sabia-se muito bem era que a água permanecia em temperatura negativa, então, mesmo quando a maré recuava, o corpo ainda permanecia molhado e congelado. O líquido frio que insistia em não evaporar ou escorrer para longe era pior que a maré, porque - a água - incomodava a possibilidade de distração, de pensar em tudo que não fosse a água, a maré, as ondas, ficava na pele, penetrava, qualquer ato ou pensamento era acompanhado da água e tudo que a envolvia, tudo que a lembrava, tudo...
O corpo continuava preso na areia, mas a maré recuou, alguns meses após a última grande onda foram necessários para o pedaço de carne humana se secar e descobrir que o grande oceano estava a uma distância confortável, conseguiria se preparar caso ela retornasse com força.
Por estar com o corpo enterrado, não conseguia ver o que havia atrás de si, e, quando pensou estar livre da agonizante maré que ia e vinha destruindo sua existência mais e mais, mal sabia que havia um vulcão pronto para explodir nas suas costas, a lava fervendo de outras lembranças. As possibilidades de destruição nunca cessariam, deveria apenas aceitar que a maré, o vulcão ou qualquer outra força alcançaria seu inerte corpo. Afogando-se, queimando, não conseguia evitar sua própria destruição. Reconstrução. Onda. Vai. Volta. Destruição.

2015/12/31

Cansaço

“And if it pleases you to leave me, just go.”
Sufjan Stevens, Enchanting ghost

Você insiste. Você insiste em mim. Você insiste em ver algo dentro desse buraco de desgraça chamado eu que ninguém vê, não tenho mais o que você precisa: estabilidade. Danificado demais estou para viver com qualquer pessoa, infelizmente, incluindo você. Estabilidade para viver em paz com alguém, sem ter que se preocupar com crises de ansiedade, socos na parede, curativos nos nós dos dedos, tremedeiras, calmantes e isolamento. Tudo gira, tudo treme, nada está no lugar, nada está certo. 
Quão fácil seria partir? Não seria melhor? Por que não parti? Por que você não pergunta por que não tomo a iniciativa, já que insisto tanto em acreditar na prejudicialidade do prosseguimento deste relacionamento? Porque não consigo, não tenho iniciativa, ela não me serve, nunca me serviu, não me adapto a ser a pessoa pró-ativa, que fala na cara o que sente e o que acredita que precisa ser feito, nunca consegui ser assim, então apenas deixo-me arrastar, sem forças, até que alguém faço algo. Em tantos momentos, bons e ruins, você agiu primeiro. Agora, novamente, você precisa assumir o controle. Você precisa partir. Você precisa arrancar os nós que nos unem, mesmo que seja doloroso demais, antes que você seja puxada para baixo e se afogue junto comigo. Não quero te ver mal. Não quero te ver aqui, nesta loja que vende apenas óculos que enxergam melancolia e tragédia. Não há tempo para retrospectivas, mas, resumindo, tivemos um prazeroso relacionamento por anos, até que...

2015/12/13

Liberdade

A cada passo dado, o nervosismo gerava grande tensão entre ela e o solo e os prédios e tudo, não conseguia se acalmar, não conseguia encontrar a calmaria qualquer fosse a rua que pisasse, tudo se movimentava, tudo tremia, tudo fluía tão rapidamente quanto seus pés conseguiam acompanhar. A cidade o diminuía. A diminuía? Não sabia mais quem era, nem mesmo se de fato era. O asfalto gerava raízes que se enrolavam nas pernas dela, dele, melhor dizendo, o asfalto criava raízes que abraçavam suas pernas onde quer que fosse, apertavam-nas, mas também a acariciavam. Quaisquer toques diferentes daquele de sua cidade natal (ou de quem não vive mais a seu lado), por mais doloroso que pudesse ser, era melhor que o toque do passado.
A ansiedade foi se exaurindo com o passar dos dias, adaptou-se inércia de sua nova capital, não mais se feriu com o movimento ora frenético ora sonolento. Corria, dormia, repetia.
Dentro do metrô, tentava congelar um frame das paredes, dos tuneis, os prédios, as pessoas, tudo que passava, mas, como entendeu dias antes de sua grande mudança, as pessoas, os prédios e os túneis não param, não ficam, nada para, nada fica e tentar parar o tempo para apreciar o que surgisse em sua frente era tão inútil quanto insistir em relações corrosivas demais, abusivas demais, nostálgicas demais, exageradas demais, distantes demais, ademais. Perder-se em solidão no meio de uma nova e maior cidade seria menos doloroso que ficar. Adiantando o desfecho não exposto desta narrativa, a dor alcança todos os lugares e não há maneira de se prevenir, ela sempre chega e invade seu corpo, sua mente, tudo, destrói tudo, incinerando rapidamente, numa velocidade invisível, ou lentamente, lentamente, lentamente… corroendo pedaço por pedaço de uma existência já em pedaços.
Sabendo de seu destino, ignorava-o, seguia o seu fluxo, que se unia ao da cidade, e vivia, inspirava rotina e expirava passado, desintoxicava-se, quarto, banheiro, cozinha, ruas, vagão, ruas, escritório, ruas, bar, ruas, vagão, quarto, solidão, corria, dormia, repetia.
Confundia seus vasos sanguíneos, músculos e tendões com as vias da cidade, sentia cada passo, cada pássaro, cada queda, cada gole, tudo que a cidade sentia.
Ali, com aquelas pessoas, seguindo cada uma seu próprio caminho, ninguém queria ser uma formiga, sentiu vontade nenhuma de expurgar seus demônios, vomitar suas angústias, xingar seus fantasmas, queimar seu passado, nada disso, superara-o. Ali, respirava, sentia a tranquilidade de não pertencimento àquele lugar ou àquelas pessoas.

2015/12/04

De mãos dadas

No exato instante em que acendeu o primeiro cigarro, ainda na esquina de sua casa, permitiu vazar a angústia há tanto tempo que era incapaz de saber como surgiu, a incapacidade era tanta que não conseguia combater o tormento, que crescia e crescia e adormecia e despertava e crescia... Sozinho, tenta encontrar a fragilidade do sentimento para atingi-lo e causar sua destruição.
Qualquer pessoa que cruzasse sua jornada em busca de uma garrafa de qualquer coisa que conseguisse lhe dar algumas horas de distanciamento do que o corroía - e de si mesmo - poderia ser considerada uma ameaça a sua saúde física (ou o que restava dela) - a mental já estava danificada demais para uma nova rachadura, não havia mais espaço para outras. Temia que as pessoas pudessem tirá-lo deste precipício onde tropeçou e permanece em queda livre, como se o fundo levasse diretamente ao topo, ad infinitum, causando cada vez mais dor. Temia o que as pessoas poderiam leva-lo a um novo precipício - ou um lago de tranquilidade -, não queria arriscar.
O segundo cigarro foi aceso logo que o primeiro se deitou na sarjeta, ainda queimando. Ele queria ser aquela bituca, queimar-se inteiro até que os ventos levassem e a cidade dissolvesse suas cinzas. "Todo munto é um cigarro", afirma ele, "todo mundo é consumido por outra pessoa, queima e é jogado fora". Ele não acredita em salvação, independentemente de como acontece ou que “força superior” a executa; para ele, ser salvo é o holograma de uma escultura: é possível vê-la e acreditar nela, crer no conforto que emana dela, mas seu toque de cura é tanto intangível quanto inexistente, inútil.
Quanto mais andava, mais a agonia o abraçava e segurava sua mão, como se fossem o casal perfeito, mas ele não queria se comprometer com a melancolia de uma vida sem causa nem motivação. Aliás, esse era o único "relacionamento" que conseguia manter nos últimos meses. Seu estado gerou um campo de força que afasta qualquer pessoa, aquelas que já estavam em sua vida ou as que poderiam ser "algo", restam apenas as memórias da época que conseguia conviver em paz e os sentimentos, todos os sentimentos - sobre tudo.
Havia a ilusão de estabilidade, claro, e o disfarce era mantido de maneira exemplar, porque, um, sua apatia em relação a sua situação era tão grande que não se esforçava nem mesmo para se auto-sabotar, e, dois, ninguém se interessava em investigar sua mente, desconstruir seus problemas, analisar sua complexidade, reconstruir tudo. Não que ele se importasse com isso, mas refletia sobre.
Ao fim do terceiro cigarro, já sentado no meio-fio, engolindo o pior vinho que encontrou, seu favorito, sente-se como Antoine Roquentin, apesar de não saber se amanhã vai chover sobre Curitiba (ou Bouville), vazio. Não tem expectativas ou curiosidade para saber como tudo vai terminar. Deixa-se ser dominado pelo álcool e pela nostalgia de quando não estava destruído.

2015/11/30

Veredito - Parte II

- Testemunha número dois


Acho que a última vez que te vi desconsertado desse jeito foi quando saímos juntos pela primeira vez sem a turma do bairro, como um verdadeiro encontro. Você sentado todo sem jeito encarando as mãos repousadas em seu colo batendo os indicadores nas coxas e lançando olhares ligeiros na minha direção. Só que agora, no ônibus, você tinha um novo hábito. Se eu te perguntasse isso, sobre por que começou a roer unhas, responderia que era apenas mais uma mania para controlar sua ansiedade. Exagerado. Ah é, exagero, aí uma coisa que você repete demais em sua vida. Ao menos, no tempo em que convivemos, mas fazem tantos anos que certamente você não é mais o mesmo. Com toda certeza, eu não sou mais aquela de antes. Era coisa demais pra sustentar, a sua intensidade exagerada nas coisas. Parece que você gostava de ser assim, estupidamente complexo e intenso. Cara, devia ter falado naquele tempo: Para de ser assim. Era preciso ter muita paciência pra lidar contigo. Além de paciência, eu tinha afeto, muito, que me fazia acreditar que sua problematicidade - minha pesquisa de mestrado me faz usar essas palavras diferentes, aliás, você adoraria saber que agora concretizo minha pós-graduação, mas não temos mais a mesma intimidade para conversarmos (sobre nada) - era apenas um curto empecilho que eu devia enfrentar, tolerar, ignorar para ficar contigo. Eu acreditava que valia a pena. Acreditei. Acho que deixei de dizer muita coisa enquanto estivemos juntos pra evitar discussões. Tenho a impressão que você partiu pensando que estava tudo definitivamente acertado entre nós. Que o término fora um acordo recíproco e pacífico. Pacificidade era o que não havia em mim naquela época. Você era tão decidido de tudo que enxergou um desfecho tranquilo onde havia uma cratera siberiana. Deixei relacionamento cheia de raiva. “Raiva por estar longe de mim”, você pensaria assim, eu sei. Não seja convencido como antes. O mundo não gira ao seu redor, Plutão. Sei que você tinha uma cacetada de traumas e problemas e conseguia aos poucos superar tudo isso, belo exemplo de superação, mas, cara, seu egocentrismo é corrosivo. Ego inflado e distanciamento se tornaram para mim componentes repulsivos do seu organismo. Apesar dessa montoeira de coisa que me afastava de você, apesar de tudo, eu gostava de você. Demais. Seu magnetismo tinha, ainda tem, um efeito tão desgraçado que falo de você quando devia estar falando de mim ou qualquer outra pessoa. Por exemplo, meu marido. Não quero reduzi-lo apenas a um fato, mas, para que você saiba, ele foi o maior antídoto que eu poderia ter encontrado pra te tirar do meu sistema. Descanse em paz.

Anos depois, agora, depois de vários tapas na cara que levei da vida, percebi que também errei, sempre tentando encontrar os defeitos nas pessoas para julgá-las e persuadi-las a mudar para o certo - segundo o que eu acreditava ser correto. Pensando bem, você também fora bastante paciente pra lidar comigo. Mas, poxa, éramos tão jovens e cheios de certezas que não passaram de impulsos momentâneos.

Agora eu olho pra você, depois de tanto tempo, e vejo um homem tão diferente daquele jovem que conheci na casa daquela nossa amiga, que hoje mora em Chicago - é, alguém de nosso bairro tinha que dar orgulho internacional pra gente. Não sei se é a roupa ou a maturidade que vaza de seus olhos, mas algo em você traz um novo encanto. Estamos aqui em silêncio e começo a encarar seus rosto. Algo diferente. Morro de vontade de perguntar o que é essa cicatriz na tua cara, Tony Montana, mas tanto tempo distantes fez com que eu desaprendesse a falar contigo, perdesse a intimidade e tudo mais que havia entre e dentro de nós. Tenho certeza, baseada no quanto te conhecia, que tenta julgar um réu para nosso crime, mas, pense bem, a culpa não é minha nem tua, é nossa.

Inesperadamente, a vontade de te abraçar entrou pelas janelas do ônibus, não por, sei lá, te querer de volta, não, mas por saber que alguém da sua família morreu, e tenho certeza que você precisa de ser abraço, porém a primeira coisa que consegui fazer foi dizer:
- Você sentou em cima do meu vestido.

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