2012/12/21

Communal blood


Um dos amigos decidiu propor um brinde ao casal, segundo ele mesmo, mais incrível e bonito de todos:
- Por favor, casal, falem alguma coisa sobre amor eterno e essas baboseiras que vocês vivem há, quanto tempo?, sete anos.
Ele, plenamente alcoolizado, dono de uma voz grosseira proclamou convictamente em frente aos amigos e a sua mulher:
- Puta merda, nós não somos um casal...
Mas o excesso de álcool prendeu sua língua que pretendia dizer algo mais. Travou.
Todos na mesa, travados. Ele fora interrompido por ela que se levantou e rumou à saída do bar. Uma reação sem sentido sobre algo mais incompreensível ainda.
Ela sabia que não devia ter saído de casa, pois o deadline de uma matéria venceria no dia seguinte. Mesmo assim, ela decidiu acompanhar seu moço e seus amigos. Ela devia ter ficado em casa trabalhando, ao invés de ouvir tal ofensa alcoolizada. Agora sim ela tinha mais um motivo para se odiar. Pegou um táxi, foi pra casa e percebeu que deixara seu computador e todas as suas anotações a respeito do trabalho na casa do rapaz.
Pegou outro táxi, foi a casa dele. Chegando lá, pegou suas coisas na sala e foi ao quarto espiar se o maldito estava por lá. Sim, dormindo feito um bebê hibernante. Lembrou-se que deixara seu cartão bancário em casa. Sua carteira estava vazia. Não tinha como voltar pra casa de táxi e estava sem coragem pra andar do Alto da XV ao Água Verde às três da manhã. Seu orgulho não queria acordar o desgraçado e pedir-lhe dinheiro emprestado.
Decidiu por ficar ali mesmo terminado suas tarefas. Ela sabia que ele não despertaria tão cedo e que, se ela não o perturbasse, nem saberia que ela esteve lá.
Ele estava com a cabeça no lado oposto do travesseiro. Na beirada do colchão. Quase caindo no chão. Abraçando o edredom. Suando demasiadamente. Vestindo apenas sua velha samba-canção xadrez.
Ela sentou-se no lado oposto. Bem no canto. Colada à parede. Pôs o notebook no colo e pôs-se a trabalhar silenciosamente.
Os sonhos dele sempre queriam fugir e, enquanto dormia, o faziam chutar o ar e suspirar.
Ela mal se mexia focada na atividade.
Subconscientemente, dormindo, começou a perceber uma presença em seu quarto. Uma pessoa, um espírito, apenas vento, ele só poderia afirmar se despertasse. Abriu os olhos lentamente e foi vendo que não era só uma pessoa, nem só um espírito, nem só vento. Era tudo. Pessoa, espírito, vento, carinho, aventura, bagunça, música, altruísmo, egoísmo, megalomania, cientologia, budismo, ciclismo, trem-bala... Sua mulher era tudo.
Despertou, mas fingiu que continuava dormindo. Percebeu que o semblante dela, escondido por trás dos joelhos, estava pesadamente triste. Logo recordou o motivo. Logo se ligou que dissera besteira. Logo sentiu vontade de pedir perdão. Mas sabia que ela o negaria três vezes antes de iniciar um sermão sobre impulsividades alcoolizadas. Ficou observando a moça. Do jeito sonolento que ele sempre se encantava. Toda concentrada. Descalça. Com o vestido xadrez. Com o cabelo bagunçadamente solto. Decidiu por agir.
Começou a acariciar o pé esquerdo da mulher. Do dedão ao minguinho. Do minguinho ao dedão. Carinhos lentos e leves regidos pelo indicador.
Ela mal reagira. Já tinha percebido que ele acordara. Encarnou cara de emburrada e começou a encará-lo.
Enquanto passeava pelo pé de sua moça, refletia e confabulava um pedido de desculpas.
Por mais que ela estivesse de mal, seus pés a subornaram a sorrir. Manteve silêncio, até que ele começou:
“Eu sou os pés... Você é a ligeira nuvem.
Eu sou a dor... Você é o alívio.
Eu sou o rascunho queimado... Você é o poema milenar.
Eu sou a melancolia... Você é o largo sorriso.
Eu sou os freios... Você é o pedal.
Eu sou o coma... Você é o café.
Eu não era... Você me fez ‘ser’.
Nós não somos um casal... Somos um.
Você tem todos os meus opostos justamente pra balancear essa confusão chamada eu.
Eu sou a palavra vomitada que machuca... Você é a compreensão de que sou um idiota, que precisa de você pra me alocar nos trilhos.
Eu sou a ironia mal pensada... Você é a gramática que me corrige.”
Ela amava as epifanias poéticas dele, mas teve que contrariá-lo:
- Puta merda, nós não somos um casal... Quer dizer, ainda somos... Mas seremos um trio em oito meses.

2012/12/20

Damn label

Já havia desistido de tentar convencê-la a ficar, afinal ela começou a juntar grana pra São Paulo antes de entrar no ensino médio. Ninguém a faria ficar. Porém, eu precisava saber o que estava acontecendo entre nós.
Ela, antes mesmo de ficarmos, me dizia, enquanto somente amigos, que amor era balela e que isso prendia e limitava as pessoas. “As pessoas se prendem demais aos rótulos e esquecem de preencher as embalagens”, como ela mesma dizia.
Eu cagava pra nomenclaturas, estereótipos e o que quer que fosse que as pessoas pensassem sobre a minha vida. Mas eu necessitava saber, mesmo que fosse pra ficar entre só nós dois, o que estava rolando.
Nossa amizade já tem uns quatro anos, mas nos conhecemos há mais tempo. Se for pra contar a época em que ela me zoava na escola, nossa, já faz uns dez anos. Na época de escolher entre ser popular ou loser, começamos a frequentar o mesmo grupo. Eu me tornei o rebelde sem causa que tinha como rotina principal atormentar os professores, fosse com comentários ociosos durante uma aula séria ou desenhos pornofensivos no quadro. Ela era apenas a emo-gótica que fingia cortar os pulsos fã do Ian Curtis. Mas, ufa, as pessoas mudam. E nosso relacionamento foi indo, passando por todas as ridicularidades e dores da adolescência.
Fato presente em mais de oitenta por cento das amizades entre uma mulher e um homem, eu sentia uma leve paixonite por ela. Fácil de lidar. Conheci e bem tratei todos os (na minha opinião, podres) namoradinhos dela.
Mas aí a gente sai da adolescência pensando “adeus, confusão! Agora quem manda em mim e nas minhas vontades sou eu!”
A vida adulta veio pra nos tornar mais íntimos (do que já éramos). Dividíamos segredos horríveis. Doía contar, mas doeria ainda mais conter. Era ela meu caderno de confidências. Eu, idem.
O grupinho rebelde do colégio manteve laços e se reunia frequentemente para “beber, provocar o caos, desordem e anarquia.” E foi numa dessas, na minha casa, que ficamos pela primeira vez. Sem mais nem menos, largados no sofá, nos beijamos. Ela tomou a iniciativa, pensei em parar e dizer “o que nós estamos fazendo?”, mas me contagiei com a brutalidade do beijo e larguei mão. Repetíamos esporadicamente as ficadas, cada vez mais fincadas.
Sabíamos que precisávamos estabelecer um manual de comportamento perante a sociedade a respeito da nossa situação. Eu não queria sair pro mundo gritando que ela era minha namorada. Assumir namoro, além de status, é deixar de alimentar o sentimento pra ficar perdendo tempo tirando fotos. Ela pensava o mesmo, eu sabia. Temia chegar nela pra conversar e receber um belo esporro e um pé na bunda. Eu sabia, todos conseguiam ver, que ela estava feliz.
Mas esta alegria não era somente minha culpa. Ela enfim conseguira alugar um apartamento em SP.
Eu mal sabia o que estávamos vivendo morando na mesma cidade, imagina a mais de 400 quilômetros.
Ela pretendia comprar as passagens na segunda-feira de manhã. Então fui armando o destino para que dormisse na casa dela no domingo. “Acorda, vagabundo, preciso sair”, disse ela. Ela, que não confiava em compras online, queria ir ao aeroporto comprar sua passagem. Comprometi-me a leva-la, já que estava de folga e com vontade de dirigir.

E foi justo na fila que puxei conversa:
- Então, antes de você ir e quem sabe nunca mais me ver, queria só saber o que está rolando com a gente... Não! Eu não te pedirei em namoro, muito menos gastarei meu dinheirinho com uma aliança, que serviria só de isca pra garotinhos e garotinhas. Tô nem ligando pro rótulo, só quero saber o que é que tá acontecendo entre a gente, porque não saber já tá começando a me incomodar.
- Ótimo lugar pra termos essa conversa, assim não tenho chances de te meter um tiro.
- É...
- Olha, serei sincera como sempre fui, desde os tempos de bullying...
- Blablabullying... Isso é besteira, mas enfim...
- Eu não te amo.
- O significado pra “amor” é relativo, dizem.
- Você sabe muito bem que eu não acredito nessa porcaria. Só não comparo a Deus, porque respeito a tua religiosidade. Mas criaram essa besteira só pra amenizar o desespero das pessoas. Todo mundo se importa tanto em ter a chance de dizer que ama alguém, mas nem sabe o sentido disso tudo. Só acho que as pessoas deviam pensar menos e agir mais. Sabe... Por mais que eu pense assim, admiro casais que se tratem bem e realmente apreciem a presença do outro. Namoro, amor, casamento, tanto faz, vai muito além das saídas de final de semana. Se você tem, entre aspas, uma pessoa, não é pra ficar a exibindo por aí e comprando presentinhos pra motiva-la a ficar. Ninguém mais precisa saber, a menos que você transcreva em forma de arte. Gosto do que estou vivendo contigo exatamente por ser algo  em que os sentimentos se expressam de nós pra nós. Mas nem por isso eu tenho que negar que estamos de fato vivendo algo importante, porque é inegável. Maior parte dos meus sorrisos sinceros surgem de quando estou contigo. Eu gosto de estar com você, de conversar e discutir com você, de dormir quinze horas seguidas com você, de sair por aí e falar mal de todo mundo com você. Tua presença me faz um bem incrível. Tua ausência dói. Mil desculpas se eu não consigo demonstrar.
Chegou a vez dela, comprou passagem pra próxima segunda e nos direcionamos ao estacionamento.
- Poxa, a sinceridade costuma ser algo danoso, mas você conseguiu deixá-la agradável ... Só me diga o que será de nós a partir da tua ida.
- O que vivemos, que seja “namoro”, credo, não se limita somente a presença. Vai muito além... Vontade, carência, sexo etc. Fidelidade é uma coisa dispensável, porque, poxa, eu lá, você aqui, vai ser difícil só tirar a roupa quando estivermos juntos. Sei muito bem do tamanho do teu apetite. Não quero te prender, foda-se. Mas saiba que quando nos encontrarmos, serás só meu... No sentido menos possessivo doentio e mais carnal da palavra "posse".
- Há quanto tempo você vêm pensando nisso?
- Tô meio que pensando, mastigando e vomitando tudo agora.
- Tô meio que não conseguindo pensar numa resposta.
- Contanto que você fique bem. Mas ainda cê tem tempo de me sequestrar, me prender numa cama e me forçar a casar contigo.
- Tipo “Ata-me”, o filme?
- Exato!
- Não, nossa, enjoaria fácil de você!
- Mas, tá... Me diz então o que você pensa disso tudo...
- Aceito os termos de uso e privacidade.
- Nenhuma objeção?
- Acho que não...
- Então é isso? Ficaremos à toa? Você aqui, eu lá, vivendo nossas vidas?
- Já que não tenho grana pra ficar viajando pelo Pacífico, pode ser.
- Sério, ô, babaca, você ficará bem?
Dentro do carro, antes de liga-lo, antes de responde-la, encarei-a e tasquei-lhe um beijo.
- Eu só precisarei encontrar uma substituta.
- Todo mundo procura alguém pra substituir alguma coisa.

2012/12/06

Primeiro: Andar


Uma amizade iniciada na internet, alimentada no colégio e mantida através de encontros mensais. A relação entre Anita e Cândido durava mais de quatro anos e se baseava em conselhos. Eles se sentam, uma fala e o outro ouve. Vice-versa.
Anita era a uma pessoa “de boa”, não se preocupava com muita coisa, mas possuía alguns distúrbios psicológicos que a obrigavam a ter amigxs, um que fosse, pra desabafar. Cândido era perturbado, romanticamente ansioso e estava sempre a procura de uma garota.
Os encontros costumavam ser sempre no mesmo dia, horário e local. Um café perto da XV, que apesar da localidade, pouco movimentado. Ideal para se passar umas boas horas conversando, desabafando e xingando.
Era sempre ela que iniciava a conversa, pois não possuía muitos problemas além de querer matar algum professor. Cândido ficava por último, porque adorava passar um bom tempo falando da tonelada de minas pelas quais estava “apaixonado”. Foi direto:
- Nem eu acredito... Mas cê vai pirar ao saber quem é a garota da vez...
- Eu conheço?
- Vocês duas trabalharam juntas...
- Ai, meu Deus...
- Ela estudou no CELC.
- Ai, meu Deus! – disse Anita certa de quem era a garota, pronta para dar um murro na cara de Cândido.
- É... A Jane.
- Cândido! Puta merda, Cândido!
- Eu também tô de cara comigo mesmo. Eu sei que a Jane é... A Jane! Mas...
- Cê tá ligado, né, que ela é daquelas gurias tipo mega-impossíveis?
- Eu sei... Mas, poxa, vi ela sexta no Barba. Claro, não cheguei nela, porque sou jacu. Mas, de longe, percebi que ela me deu umas olhadas...
- Não, Cândido, não! Ela não é pro teu bico. Ela só pega boy de James.


Era noite de quarta-feira, dez  da noite e Cândido estava a caminho dos sonhos.
Já fazia um bom tempo que tomara aquele sermão de Anita. Além do mais, o tempo fez com que ele perdesse um pouco da pira por Jane e se envolvesse distantemente por outras.
Ele queria dormir, ele precisava dormir, mas seu subconsciente cismava em mantê-lo acordado.
Seu telefone tocou, ele atendeu:
- Oi, mãe, que foi?
- Ô, meu filho, tudo bem? Cê tá em casa?
- Tô... tô sim.
- Escuta, eu estava no mercado, aproveitei umas promoções e comprei umonte de coisa pro natal. Cê podia me ajudar a levar pra minha casa?
- Ai, mãe, sacanagem... Tá, onde cê tá?
- Na portaria do teu prédio. Eu te trago de volta depois.
- Beleza, tô descendo.
A mãe de Cândido, Marília, morava no segundo andar num antigo prédio sem elevadores e pedia sempre o mesmo favor a seu filho quando ia às compras do mês.
Levantou-se da cama, pegou carteira e chaves, e saiu com sua roupa de dormir, que não era um pijama, acrescido de um tênis. Estava bem vagabundo, como sempre. Entrou no carro, beijou sua mãe no rosto e partiram.
Por mais que fosse todo romântico e tal, ele estava numa época despreocupada. Apesar de pequenos sonhos com garotas sem futuro próspero com ele.
Já no apartamento materno, descendo rumo a garagem para pegar mais sacolas, ouviu sua mãe gritando escandalosamente sobre não esquecer as caixas de ovos sob o banco do motorista. Foi um grito absurdamente alto àquela hora da noite. Novamente subindo, percebeu que a porta de um apartamento no primeiro andar levemente se abriu, seguindo de um suspiro. Cândido ignorou e prosseguiu. Mas algo lhe dizia, subconscientemente, que havia algo muito suspeito naquela porta. Deixou as compras na cozinha, respirou, bufou e voltou ao serviço.
“Parece que foi ontem que fiz aquele chá de habu pra te curar da tosse e...” Cândido interrompeu sua cantoria ao se assustar com quem lhe esperava receptivamente na porta mistério:
 - Oi, Cândido, o que você faz no meu prédio a essa hora da noite?
- A... Ah... Jane... você mora aqui?
Ele simplesmente não estava acreditando que... Jane! Ele não estava preparado para, naquela noite até então chata, ter um momento mindblowing. Sua cabeça queria expressar os melhores sorrisos do mundo, mas... ele travou. De volta a si, aproximou-se da porta de Jane e descarregou:
- Poxa vida, Jane... Que lugar pra nos encontrarmos... Como vai você?
- Eu estava bem até ouvir uns gritos aqui no corredor. Sabe quem foi?
- Foi minha mãe. Desculpa. O relógio dela ainda não percebeu que já são quase onze horas da noite.
- Ok... Sexta no Barba, te vi lá, mas não consegui falar contigo...
Cândido costumava se contentar com cousas poucas. Alegrou-se internamente ao saber que ela queria ter ido falar com ele, interrompeu-a:
- Dá nada... Tava um inferno aquele lugar. Eu só vou lá pelo Calico Jack.
- Nossa, aquele negócio é dos Deuses. Com qual hambúrguer você prefere?
- Eu amo qualquer hambúrguer de PTS, mas o de batata e ervilha é brutalmente sensacional.
Eles estavam, àquela hora da noite, alimentando um diálogo no corredor do prédio.
- Vai me dizer que... Cê é vegetariano?
- Não, espera... Vai me dizer que você também é vegetariana?
O papo foi se estendendo e a mente de Cândido confabulava premonições em que ele entrava à força no apartamento de Jane, arrancava seu roupão e... Enfim, era um rapaz muito imaginativo. Ele nunca imaginara na vida que teria tantos assuntos com uma das meninas mais desejadas do colégio. E, melhor de tudo, poderia chama-la pra sair jantar num restaurante sem ter que dar aulas sobre o que um vegetariano come. Porém, do andar superior, a mãe dele berra:
- Cândido! Cadê você, meu filho? Cândido!
Envergonhado, Cândido resmungou:
- Puta merda, essa minha mãe é foda...
- Vai lá, meu. Volta aqui depois... – Disse Jane numa doce voz.
- Mas não tá tarde? Cê não tem que dormir?
- Ha, eu tô de folga amanhã.
Cândido foi lá terminar de carregar as compras de sua mãe.
- Quer um café antes de ir embora, filho?
- Não, mãe, obrigado. Aliás... Nem precisa me levar pra casa, eu dou meu jeito.
- Tem certeza?
- Muita. – já estava ansioso e impaciente demais pra ficar ali no segundo andar, sendo que seu desejo estava no primeiro.
- Você que sabe... Enfim, muito obrigado, meu filho, muito obrigado.
- De nada, mãe, boa noite.
- Vá com Deus, amor, muito cuidado nessas ruas.
Foi-se embora dizendo “amém”. Assim que fechou a porta, começou a correr louco pra bater à porta de Jane. Enquanto descia, mentalizou que teria que tocar a companhia e esperar. Quebrou a cara ao ver que a moça o esperava recostada no batente da porta:
- Uau, você foi rápido... Entra.


- Antes de tudo, Cândido, seu corno, podes me explicar porquê cancelou nosso encontro mês passado?
- Anita... Fui fazer um retiro.
- Quê? Mas você não é ateu?
- Não foi um retiro espiritual, muito menos religioso, apesar de eu ter relaxado bastante...
- Para de alucinação e diz logo a verdade!
- Jane...
- Quê?
- Boa história, daria um conto. Resumindo, ela mora no prédio da minha mãe, encontrei a bendita no corredor, passamos uma noite conversando e temos nos encontrado frequentemente.
- Você... tá... me... zuando...
- Nem eu acredito...
- Mas, tipo, cês são tipo amigos agora?
- Hehe...
Cândido riu encarnando um rosto maliocioso.
- Para, Cândido, fala a real.
- Cê me disse que ela era tipo impossível, né?
- Ela é! Cê tentou dar em cima dela e levou um fora?
- Esse tal retiro... Foi na casa dela... Só eu, ela e muita PTS.


Jane e Cândido... Eles não queriam amar, eles não queriam status, eles não queriam obrigações, eles só queriam.

2012/11/26

Devotas de um São Francisco alcoolizado


A amizade entre Naná e Lolita não se limitava às bebedeiras, mas era nestes momentos alcoolizados que elas mais se provavam amigas. Conheceram-se na matança de aulas no ensino médio e alimentam até hoje, cinco anos depois, uma relação inabalável. Obviamente, a cerveja fez com que elas vivessem alguns desentendimentos, que eram resolvidos assim que a ressaca terminava.
A Rua Trajano Reis, situada no bairro São Francisco, era um templo para Lolita, Nana e mais uma tonelada de pessoas, que passavam lá horas bebendo, conversando e fazendo coisas legais ou não. Era o local perfeito para viver. Era o local perfeito para fugir. Era o local perfeito para esquecer.
Apesar de irem à Trajano todo santo dia, elas não se enjoavam do lugar. A diversidade de bares lá e nas ruas transversais era tão grande que impede as pessoas de se cansarem do lugar.
Alguns até diziam: “A Trajano é meu pastor e cerveja não me faltará.”
Ambas estavam em períodos decisivos em suas respectivas faculdades; provas, trabalhos e todo o resto, portanto ficaram quase uma semana sem ir pra Trajano a fim de se dedicarem aos estudos. Porém, era sagrado que elas fossem pra lá sexta e sábado.
Enquanto os curitibanos que só saíam de casa para grandes eventos se preparavam para a tão estimada Virada Cultural, Nana e Lolita se recuperavam, a base de café, de mais uma sexta-feira muito louca. Elas não eram a fim da programação de tal acontecimento. Até porque a Trajano não estava incluída no calendário oficial. Mas, como a Trajano era quase que uma religião para muitos, alguns espertinhos organizaram um negócio à parte: A virada só que não. Seriam shows o dia todo só de bandas locais. Não locais de Curitiba, locais da Trajano. Podia-se dizer que a Trajano era musicalmente emancipada do resto da cidade.
Lolita e Nana não eram groupies, longe disso. Detestavam essa classe. Mas, elas possuíam o dom de encantarem os caras de banda. E essa virada seria meio que uma reunião de todos esses ex, pois suas bandas tocariam lá. As duas não ligavam muito para isso, só sentiam nojo das meninas escrotas que se jogavam sobre tais rapazes. Não as agradava saber que esses moços, que já as amaram eternamente durante uma noite, aceitavam ficar com gurias desesperadas tão sem graça.
Perto das quatorze horas, esvaziaram seus porquinhos, compraram seus cigarros e partiram rumo a mais uma jornada sem hora marcada. Elas só precisariam voltar pra casa na segunda de manhã, dia de provas na faculdade.
À caminho da Trajano, pararam num boteco pra aproveitar a promoção de cerveja. Beberam umas, levaram outra. Chegando na Trajano,  cumprimentaram alguns conhecidos, mantiveram distância de uns chatos e se instalaram próximo ao palco.
Em menos de cinco minutos, já estavam sendo observadas por possíveis affaires. Porém, ambas estavam a fim de rapazes impossíveis: um cara casado intensamente apaixonado e um gay. Contudo, o álcool foi as possuindo e criando vontade sobre outros homens.
Um antigo caso de Lolita estava observando Nana, que não deu bola e respeitou um antigo trato entre as duas de não reciclar o romance da outra. O cara veio as cumprimentar, perguntou como elas estavam, obteve respostas secas, ficou quieto e foi tentar chegar em outra. As duas se entreolharam e sorriram discreta e maliciosamente. Era quase que um vício desprezar rapazes.
Começou o show de uma banda que elas queriam ver, mas a falta de cerveja as fez correr atrás de um lugar barato. Acenderam seus cigarros e partiram em busca de mais álcool. No caminho, dialogaram sobre as pessoas permeavam a Trajano e sobre como elas conseguiriam sobreviver lá assim que o dinheiro acabasse:
- Por mais o Norman seja... O Norman... Acho que, se eu chegar com jeitinho, ele nos consegue uns tiros. – disse Naná.
- Bom, você que sabe. Topo tudo pra ficar louca.
- Tudo, Lolis, tudo mesmo?
- Claro... que não.
Logo encontraram bebida barata e voltaram ao show. O calor estava grande, mas, pra sorte delas e do resto, a rua é cercada por prédios com tamanho suficiente pra ocultar o sol depois das três da tarde. Pegaram o show da metade pro final, suficiente pra dançar até cansar, felizmente, sem suar.
O show terminou e deu lugar a uma discotecagem de Soul Music. Naná e Lolita não costumavam ouvir em casa, mas adoravam dançar esse tipo de música. Até porque não era algo difícil de ser dançado, ainda mais com o auxílio da cerveja.
De longe, Lolita percebeu que um cara estranho observava Naná. Tal rapaz apontou a moça para uma amiga, que meneou sua cabeça positivamente. Lolita estranhou e cochichou no ouvido de sua amiga:
- Olha aquele cara bizarro lá no canto, ele tá te querendo...
Naná riu e respondeu em baixa voz:
- Ô, sua retardada, não é um cara. É a Mia.
Surpresa, Lolita cochichou:
- Meu Deus, ela tá parecendo um cara...
- Cê não sabia que ela gosta de meninas? – indagou Naná.
- Tá explicado o visual dela então. Mesmo assim, acho que ela tá te querendo. – disse Lolita dando uma cotovelada em sua irmã de álcool.
- Puts, mas ela não faz meu tipo.
- Oi? Mas qual é o teu tipo?
- Homens. Além do mais, é amiga do Campos... – Naná, dizendo o nome do ex com nojo. - Definitivamente, não quero me misturar com o bando dele.
- Mas... – Lolita fora interrompida por alguém que chegou as assustando.
Era Norman, que apesar de ex da Naná, continuava amigo delas. Disse:
- E aí, senhoritas, como vão?
- Bem... – Responderam as duas cordialmente sem retrucar a pergunta.
- Vamos dar um rolê? – Disse o rapaz mostrando algo em seu bolso.
Naná e Lolita responderam sorridentemente:
- Vamos. – E foram à primeira aventura ilícita do dia.
Desceram até a Paula Gomes e encontraram um recanto. Enquanto Norman preparava a diversão, as duas fumavam seus cigarros ansiosamente. Há tempos elas não faziam o que estavam prestes a fazer. Após, enfim, matar a saudade, o trio se sentou na calçada e começou a dialogar sobre o ritmo do vento que os acariciava. A conversa se estendeu à temas estranhos, que sempre surgem quando há droga na mente dos interlocutores.
- Ô, meu, que horas são aí, por favor? – Perguntou Norman ao se levantar.
Naná não se importou em responder, pois Lolita já estava revirando sua bolsa em busca de seu celular. Enfim respondeu:
- Cinco e vinte...
Norman exclamou um palavrão e disse:
- Meninas, eu tenho que ir, minha banda vai tocar em dez minutos. Cês vão ficar aí?
Ambas negaram e seguiram o rapaz.
De volta a Trajano, Naná furiosamente reclamou à Lolita:
- Estamos sem cerveja!
- Isso é um grande problema. – Lolita pegou Naná pelo braço. – Vamos comprar mais!
Ao chegar no mesmo bar que compraram cerveja antes, se depararam com a resposta do dono:
- Meninas, todas as cervejas estão quentes, mas... - Mal ouviram o que o homem disse, agradeceram e saíram a procura de outro bar.
Chegaram a outro e se frustraram ao ver que lá só havia a pior cerveja do mundo. “Nem a pau que eu tomo isso”, disseram ao sair.  Iniciaram, então, uma jornada em busca de cerveja boa e barata.
Chegando ao sexto bar, encontraram um amigo junkie e o questionaram:
- Tem cerveja aqui ou cê já tomou tudo, Charlie?
- Já tomei tudo. Tá tudo quente agora.
Sabendo o que Charlie fazia nas horas vagas, Naná perguntou:
- Mas cê tem alguma outra coisa aí?
- Não, aqui não. Mas vamos dar uma volta, que eu já arranjo.
Acompanhado de dois amigos, Charlie levou as meninas aonde se fornecia de suas ilegalidades. Encontraram o que queriam, desfrutaram, viajaram e uma hora depois estavam de volta a Trajano.
Cada vez mais loucas, as músicas se tornavam mais fáceis e interessantes para se dançar. Elas já não queriam rapazes, só desejavam ficar lá tirando uma pira nas linhas do Soul.
Entre bandas e a discotecagem, elas davam voltas a procura de cerveja.
A última banda começou a tocar e as moças começaram a se perguntar sobre que fariam após esse show. Aproveitaram as lentas baladas para dançarem com seus copos. Apresentação encerrada e elas ainda não haviam decidido aonde ir. Ficaram lá até o lugar esvaziar e Norman aparecer com mais um passeio.
Após a caminhada, as meninas se despediram de Norman e se encaminharam à área nobre da Paula Gomes.  Deram uma voltinha por lá e, a procura de cigarro, chegaram numa moça, que lhes deu um que elas odiavam. Pegaram o presente, saíram andando e foram abordadas por um rapaz que disse:
- Moças, vocês têm um cigarro?
- Só tenho esse aqui, mas se quiser trocar... – disse Lolita assim que avistara o que o rapaz segurava.
- Pode ser, mas vocês têm seda? - disse o moço já fazendo o escambo.
- Pode deixar que a gente dá um jeito. Obrigada!
Despediram-se do cara e, já que na Paula havia nada de interessante, foram andando sentido Trajano. Lá, também, nada demais. Resolveram apreciar, na esquina da Inácio Lustosa, o presente que receberam. Mal terminaram o momento de degustação, Norman aparece novamente as chamando para mais uma aventura.
Já era quase uma da manhã e elas, bem loucas, estavam no banheiro de um bar lendo as frases na parede, quando Naná perguntou:
- Quanto de grana cê ainda tem?
- Zero vezes zero... – respondeu, tristemente, Lolita – E você?
- Haha, pega o que você tem e multiplica por zero também.
- E agora, o que a gente faz?
- Não sei, vamos na Trajano ver se alguém nos paga uma béra.
Encontraram ninguém e, deprimidas, sentaram-se. Refletindo, cada uma consigo mesma, como era bom viver deste jeito alucinado, ficaram lá até os efeitos passarem e a vontade de ir pra casa chegar.
Algumas pessoas estranhavam esse estilo de vida, mas Naná e Lolita estavam satisfeitas. Não ostentavam coisas impossíveis. Contentavam-se em ficar na Trajano vivendo coisas que a televisão não retratava. Fazendo de suas vidas um conto de João Antônio ou uma foto de Nan Goldin.

2012/11/23

Vivre sa vie

- Eu amo viver a vida.
- Isso aí! É assim mesmo que tem que pensar. Positividade!
- Quê?
- Tua filosofia de vida, achei legal. Amar a vida é importante.
- Eu tô falando do filme do Godard.

2012/10/23

- Cara, vocês não combinam!
- E?
- Por que cê tá com ela? Não vai durar...
- Ela gosta de mim, eu gosto dela.
- E o que mais?
- Precisa de mais?

2012/10/12

Saudosa


Acostumei-me facilmente com minha nova rotina de trabalhar até duas da manhã. Era chegar em casa pouco antes das 3h, comer um miojão enquanto passeio rapidamente pelas internets e cama.
Era exatamente o que eu desejava ter uma vida diferente. Uma rotina anormal. Viver algo diferente. O que eu não queria era me viciar em alguém, e consegui por muito tempo. Até que Jonas, amigo de uma amiga, apareceu na minha vida. Não me interessei inicialmente, porque o cara namorava. Eu também.
Engraçado que terminamos nossos namoros quase que na mesma época e encontramos um no outro um ponto de repouso. Nossa relação antes disso somente existia quando nossa amiga em comum nos chamava pra sair. Após os términos, no aproximamos mais, sei lá como, e fortalecemos uma boa de uma bela amizade. Ele reclamava da ex. Eu reclamava do ex. Trocávamos conhecimentos literários, cinematográficos e afins. Saíamos semanalmente atrás de alcoól e o que ele mais pudesse nos oferecer.
Contudo, porém, poxa vida, surgiu-me um encanto sútil pela estranheza do rapaz. Idiota que sou, não consegui bolar um plano de conquista. Na verdade, nem tentei. Apenas fui alimentando a amizade e deixando que seu charme me encantasse cada vez mais. Eu queria, mas não agia.
Eu estranhava que Jonas nunca tentara me seduzir. Pelo menos nunca percebi. E meu sensor  pra flertes, cantadas e tal era bem preciso. E eu nem sou tão feia pra ele me evitar. Talvez minha irmã esteja certa: “Gi, acredite que ainda existem caras românticos, mas não daqueles que se fazem. São raros, mas ainda existem garotos melancólico, romancistas, românticos, etc. Ainda tem cara que respeita a guria, que é gentil, que fica quietinho por mais que te deseje e só se declare se perceber uma reciprocidade, blablabla. Problema é que muito cara escroto se paga de bom moço.” Eu não tentei perceber como Jonas agia na paquera, só conseguia enxergar um encanto indescritível naqueles olhos cheios de ressaca e naqueles três dentes inferiores frontais perfeitamente tortos.
Ele vivia elogiando meu perfume, meus sapatos, meus vestidos floridos, minhas meias-calças e meu eterno batom vermelho. Dormi na casa dele. Ele dormiu na minha. Até pensei que ele fosse gay, mas não. Era apenas gentil. Derretia-me com esses elogios.
Apesar do desejo, com medo de estragar nossa linda amizade, desliguei-me do pensamento de tê-lo. Saí com caras aleatórios. Não pensava tanto mais nele. Aliás, nem pensava nele. De algum modo implícito e desproposital, distanciamo-nos.
Numa madrugada rotineira, assim que me deitei comecei a pensar na vida. Aprofundei-me seriamente em reflexões sobre filmes. Eis que me lembrei de umas cinematografias que precisava terminar. Faltava só um do Aronofski. Aí lembrei que o Jonas vivia me chamando Nina Sayers. Jonas. Meu Deus. Jonas maldito. Quanto tempo já não pensava nele?
Tudo que pensara até então sumira.
Jonas, Jonas, Jonas...
Senti-me uma idiota por ter deixado de pensar nele com tanta frequência. Eu gostava de pensar nele. De figurar coisas que poderíamos fazer juntos.
Por mais que eu tentasse, ele não saía da minha cabeça. Sua voz perambulava pelo meu quarto dizendo “ô, Gisele, como assim você nunca assistiu Seinfeld?”. “Quê? Você não gosta de Woody Allen? Sai daqui agora!”. “Você não chorou com Gran Torino... Vá se tratar...” Eu adorava discutir com ele, eram sempre embates saudáveis e terminavam com ele me dando um peteleco na ponta do nariz. Um gesto bobo, porém adorável.
Flashbacks e mais flashbacks me atormentavam acompanhados de uma saudade emergente e uma falta de ar absurda.
Meu peito começou a palpitar fortemente. Não gosto de clichês, mas não posso negar: meu coração estava querendo explodir minha caixa torácica. Meus batimentos cardíacos estavam mais rápidos que o Papa-léguas.
Eu estava surtando. Eu estava desesperada. Eu precisava de Jonas.
Foi só lembrar do maldito Jonas que essa dor inédita se iniciara. Nunca havia surtado por uma pessoa. Ninguém mesmo. Nem quando platonismo imperava no ensino médio. Nem ex-namorados. O tal do Jonas teve a moral de me tirar o fôlego. E nem precisou de contado íntimo.
Então o ar voltou e o coração se estabilizou, porém uma ansiedade desgraçada aparecera. Eu precisava ver o maldito Jonas.
Pensei em esperar até um próximo encontro, porém eu não aguentaria. Pensei em mandar uma mensagem o convidando para uma cerveja na noite seguinte, contudo ele poderia negar. Pensei em ligar, mas não seria suficiente. Pensei em esperar até ele acordar... Eu estava ansiosa demais pra esperar.
Minha impulsividade ansiosa não me deu tempo para escolher uma roupa bonita, mas me lembrei de passar o perfume que Jonas gostava. Saí feito uma louca pedalando. Eu não tinha medo de pedalar às três e pouco da manhã. Furei todos os sinais possíveis da Sete de Setembro. Esqueci-me de respirar várias vezes. Cogitei o fato de que talvez ele não estivesse em casa e me desesperei mais ainda.
Cheguei, prendi a bike num poste em frente ao prédio e corri pra portaria. Nelson, o porteiro, que já me conhecia, abriu-me a porta dando bom dia e, para minha alegria, disse que eu podia subir ao apartamento de Jonas.
A ansiedade não me permitiu aguardar o elevador e me fez subir as escadas saltando de quatro em quatro degraus até o sexto andar.
Cheguei, toquei a campainha rapidamente três vezes e comecei a andar ansiosamente pelo corredor.
Escutei o barulho da chave penetrando a fechadura, corri pra frente da porta e sorri por dentro.
- Meu Deus, Gisele! - assustou-se Jonas ao me ver toda ofegante parada em frente a sua porta às quatro da manhã de uma quarta-feira.
- Bonita camiseta. Chorei nas três vezes quando vi esse filme. – minha impulsividade nervosa falou por mim e me fez comentar sobre uma camiseta d’onde vivem os monstros.
- Eu também... Quê cê quer, Gisele? – cochichou todo manhoso de sono.
- Eu... – pausa para respirar -... Preciso te contar uma coisa. Ai...
 Sabia muito bem que me arrependeria, mas estava ansiosa demais pra fazer uma análise de consequências.
- Vai falar no corredor ou quer sentar?
- Com licença. – fui entrando e rumando ao sofá da sala.
Enquanto ele trancava a porta e se direcionava ao sofá, aproveitei para respirar. Tanto respirei que não escrevi um roteiro mental do que eu pretendia dizer a Jonas.
Olhei seriamente e sorri timidamente. Sentou-se e brincou:
- Prossiga... – disse-me passando o microfone invisível.
Iniciei meu monólogo:
“Jonas, não sei se você notou, mas meio que nos distanciamos no último mês. Não sei se foi por falta de rolês ou porque enjoamos de sair juntos. Sei lá! Só sei que gosto de tomar cerveja e debater sobre as vidas contigo. Mas hoje me aconteceu uma parada muito estranha.
Eu estava em casa já tentando dormir e pensando em aleatoriedades. Aí, do nada, lembrei de você. Lembrei que me esquecera de você. Não digo esquecer de verdade, mas você estava escondido no fundo da minha mente. Aí me surgiu uma saudade agonizante. Sei lá, do nada, me surgiu uma falta de ar tremenda. Sério, sem mentira, meu coração começou a estremecer parecendo um junkie epiléptico com overdose. Minhas tentativas de respiração soavam alto. Estava difícil puxar ar. Batia forte o tambor, eu achava que ia infartar. Foi desesperador.”
Falei tudo de modo rápido e bagunçado. Mirei seus olhos, que miravam o canto vazio de sua sala. Ele parecia distantemente disperso e reflexivo. Só consegui esperar uma resposta. Enfim, ele disse:
- Tá... Mas me diga o porquê de tudo isso.
- É que porque eu que... – me embananei toda e travei.
- Fala... Por que te deu esse negócio?
- Passei noites pensando em você logo que começamos a sair com maior frequência. – assim que comecei, não parei. Decidi falar tudo e f#0da-se.
“Não só pensando na nossa amizade. Pensando nesse teu maldito encanto. Pensando nesse teu sorriso desgraçadamente lindo. Pensando nessas tuas canelas tortas. Pensando em você. Pensando em passar tardes e mais tardes deitados num colchão fazendo nada além de nada. Pensando em tanta coisa... Mas eu não queria desperdiçar essa nossa amizade, então não te falei nada, por mais que eu quisesse imensamente. Pensei que se eu me confessasse pra você, eu estaria estragando tudo. Eu não quero você longe, então pra conservar nossa relação, me calei e fiquei te desejando silenciosamente. Até que no último mês, paramos de nos ver tanto. Aí hoje me veio essa saudade desesperadora de ver teu sorriso, teu riso e todas as demais coisas que te tornam um rapaz extremamente encantador. Esse teu charme...”

2012/09/30

Mais um sonho dominical


Hélio estranhava como sua cidade era um baita ovo. Alguém do colégio conhece alguém da rua, que já trabalhou com um primo, que estudou com a antiga paixão, que morou no mesmo bairro da professora da faculdade, que é tia de uma amiga do Opera1, que já saiu com o professor de sueco, que trabalhou com a esposa do irmão, que é melhor amiga de uma inimiga da namorada do amigo, que ouvia a banda do vizinho no myspace em 2005, que bebia no bar que um amigo trabalhava, que ficava ao lado da casa da mãe da menina que Hélio stalkeava no facebook.
Nosso rapaz dividia apartamento com sua velha amiga de escola, Cíntia. De tanto que serviu de psicóloga conselheira para Hélio, a moça resolver cursar Psicologia. O que Hélio não esperava era que Cíntia fosse colega e amiga de Antônia. Para ele, essa moça tinha uma imagem muito errada.

Numa manhã dominical, Hélio recebeu a visita de Júlio, seu primo. Tomavam café e conversavam sobre suas nostálgicas aventuras infantis, quando Cíntia aparece na sala com cara de “bebi pra carajo noite passada, meu deus, preciso de água”.
- Bom dia, dona ressaca! Como foi a noite passada? – disse Hélio à sua roommate.
- Meu Deus, foi uma porcaria. Mas acho que se não tivesse bebido, seria pior. Ainda bem que encontrei uma amiga minha e ficamos reclamando até o amanhecer. Aliás, ela tá aí, se comportem, garotos. Aliás, oi, Júlio!
- Oi, Cíntia, tem café na cozinha. Toma lá.
Hélio admirava duas coisas em sua amiga: os conselhos afetivos e as garotas bonitas que ela conhecia.
- Ô, Cíntia, chama lá tua amiga pra tomar um café com a gente. – empolgou-se Hélio para saber quem era a gata.
- Puts, eu acho que ela tá em coma. Sério, ela caiu da cama no meio da noite e ainda tá no chão roncando.
- Ahr... Bom, daqui a pouco o Júlio vai ao mercado comprar umas paradas pro almoço. Cês duas tão convidadas pra almoçar com a gente, tá?
- Beleza, temos nada pra fazer hoje mesmo. Mas, ei, Júlio, ela é vegetariana, não coloque bacon no feijão.
- Ok... Domingo não é dia de feijão. De qualquer jeito, eu estava a fim de matar saudades da minha época de Formosa.
- Como assim? Já foi vegetariano? Perguntou Cíntia, que andou até a cozinha para se servir de café.
- Não, mas trabalhei lá no Formosa um bom tempo. Ainda lembro de alguns pratos vegetarianos.
- Que bom , Jú, ela vai adorar.
- Espero que ela goste de outra coisa... – interrompeu Hélio.
- Oi? – Cíntia e Júlio questionaram meio que de modo sincronizado.
- Homens... Ela é hétero?
Cíntia e Júlio riram da pergunta.
- Quê? Cê sabe que tuas amigas são bonitas, mas o problema é que muitas são gays.
– Apesar de ter frequentado muito o James e o Simão, ela gosta de caras. Acho que até cês já se conhecem.
- Hum...
- Esquece, ela é tipo missão impossível.
- Veremos... D’onde eu a conheço?
- Ela era da gangue da Heloísa, na época do cavalo babão.
- Tá, eu não conhecia a maldita Hell’o’isa nessa época.
- Mas sei que tua ex odeia essa mina.
- Tá, seja lá qual for a desavença entre as duas, f#da-se.
- Enfim, obrigado pelo café. Minha cabeça tá pesada, tô voltando pra cama, tchau, meninos. – despediu-se a moça, voltando ao seu quarto acompanhada de uma xícara de café e uma cartela de paracetamol.
- Falô, mano. – disseram os rapazes, que, logo, retornaram a conversar sobre suas peripécias de infância.

Hélio, quando namorava, sempre apoiava sua digníssima, independente da treta. Ela falava mal de diversas garotas, e ele tratava esses podres como verdade. Mesmo após o término, ele ainda portava um certo preconceito sobre essas pessoas.

Júlio saíra para comprar coisas pro almoço, enquanto Hélio ficou pra dar um trato na casa. No banheiro, encontrou uma carteira feminina caída e, ao apanhá-la, deixou cair uma porção de papéis e documentos. Dentre eles, um ingresso antigo para o show de uma banda que ele conhecia muito bem.. De Cíntia, a carteira não era, pois odiava essa banda. Só podia ser da visitante.
- Meu Deus... Essa mina conhece... Meu carajo, eu estava nesse show.
Obviamente, não teria como ele apontar quem era a tal, pois muitas meninas foram àquele show em 2007. Começou a recolher os demais papéis caídos, e encontrou outros ingressos de shows que ele também assistira.
- Puta merda, essa mina só pode ter sido emo de Müeller – confabulou sozinho o cara que pertencera a uma tribo muito esquisita.
Nisso, ouviu um diálogo no quarto de Cíntia e resolveu ir até lá para devolver a carteira e, claro, conhecer a menina mistério. Bateu na porta, pediu licença e perguntou se havia alguém sem roupa.
- Eu! – respondeu Cíntia saindo de trás da porta e se jogando sobre Hélio. Apesar da resposta, a moça estava trajada.
- Ô, vaca, sai fora! – reagiu Hélio agarrando sua amiga e a lançando na cama. Só depois disso, ele teve tempo pra procurar a outra moça, que estava sentada na cadeira de balanço, usando o notebook.
- Gazélio, essa é a Antônia. Tônha, esse é o Hélio. – Cíntia cordialmente apresentamdo um ou outro.
Cumprimentaram-se com sorrisos tímidos e rápidos ois.
Rapidamente, Hélio lembrara que já conhecia Antônia, mas só de longe. Costumavam frequentar quase os mesmos lugares há cinco anos, mas eram de turmas diferentes. Ele começou a namorar, distanciou-se dos rolês e descobriu que a tal da Antônia era odiada por sua namorada.
“Ai, ela é uma falsa, uma poser. Ontem, ouvia Fresno; hoje, ama Chris Brown. Hoje te chama de bff; amanhã dá em cima do menino que você gostava. Sério, tenho muito nojo dessa cobra”. Era o que Hélio sabia de Heloísa sobre Antônia, além de que ela “pagava muito pau pra mim, começou a ir pro Largo, porque eu também ia.”
- Essa carteira é tua? Estava lá no chão do banheiro. – perguntou Hélio todo tímido.
- Sim! Brigada. - Antônia se levantou, deixou o note sobre a cadeira e foi ao rapaz pegar seu pertence.
- Nossa, que camiseta bonita!
- Você conhece Every Time?
- Meu, se o finado myspace trouxe alguma coisa boa pra minha vida, foi essa banda.
- O myspace morreu?
- Não, tá vivo ainda, mas já não é mais tão legal como antigamente.
- Verdade, posso dizer que esse site regeu meu estilo musical por muito tempo. – disse Tônha ao se sentar na cama de Cíntia, que já estava sentada só rindo da situação.
- Que foi, retarda? – indagou Hélio, alocando-se entre as duas garotas e dando um pescotapa em sua amiga.
- Cara, como é que vocês conseguem gostar dessas bandas?
- Cí, acho que aqui estamos em dois contra uma. – Antônia sorriu para Hélio, como se estivesse o convidando para zoar Cíntia.
Ficaram lá os três conversando sobre música até que Júlio retornou do mercado e os levou para ajudarem-no com o almoço. Os assuntos começaram a se diversificar e Hélio foi se convencendo de que aquela menina não era o demônio todo que ele imaginava.

Apesar da beleza de Antônia, Hélio não estava motivado a conquista-la. Passara o tempo em que ele se obrigava a esse tipo de coisa. Vivia dizendo que não queria forçar nada com ninguém. O pôster em seu quarto explicava muito bem sua atual filosofia amorosa: “... o vento vai dizer...”

O papo se prolongou ao início da noite, quando as duas garotas começaram se aprontar para sair. Apesar de terem sido convidados pelas moças, os rapazes já tinham compromisso marcado com um campeonato de vídeo-game. Hélio já se aposentara da vida baladeira. Júlio estava passando o final de semana na casa de seu primo, portanto estava meio que obrigado a fazer as mesmas coisas que ele, mas não se importava. Apesar de viverem em mundos diferentes, a amizade dos dois se mantia pelo parentesco e pelas nostalgias.
- Cê curtiu a tal da Antônia? – Júlio sabia a resposta, mas perguntou para ouvir Hélio dizer “sim, claro, quero ela pra mim!”
- Não, Júlio, pior que não... – respondeu secamente.
- Sei, sei...

Depois de uma maratona exaustiva de jogos, foram dormir. Pelo menos, tentar. Os temas eram tão infinitos que continuaram conversando até serem interrompidos por Cíntia e Antônia, que entraram no quarto e sentaram na cama de Hélio e se incluíram na conversa.
Júlio já estava apagado quando Hélio se levantou e disse:
- Ô, vocês duas, tô indo na cozinha. Querem alguma coisa?
Ambas negaram e ele saiu.
- Amiga, por que é que você não me apresentou esse piá antes? – cochichou Antônia.
- Quê?
- Ahr... – respondeu Antônia fazendo cara de sei lá
- Falo nada. Só não fique de cuzisse com ele.
Ao voltar para o quarto, Hélio tropeçou em Júlio e caiu sobre ele. Os dois, no colchão do chão, começaram a brigar. Entendendo a brincadeira, Cíntia se jogou e entrou no ringue. Não demorou para que alguém puxasse Antônia.
A luta prosseguiu até os quatro estarem amontoados e imóveis.
Desde o início do dia, Antônia e Hélio trocaram olhares estranhos. Não se sabe se eram surpresos, amedrontados ou românticos. Inconscientemente, ambos sabiam que algo estava rolando.
Luta encerrada e três dos perdedores subiram à cama de Hélio, deixando Júlio, que já estava dormindo, no colchão.
Aquela camiseta rasgada do Every Time I Die com os ombros à mostra. Aquele papo sobre o disco novo do Between the buried and me. Aquele batom vermelho pós-festa. O “...” tatuado na canela. Hélio estava convencido que Antônia era uma garota interessante e que se desvencilhava dos estereótipos criados por Heloísa.
Obviamente, a garota ideal só existe na cabeça de quem a cria. Por mais incrível que a mina seja, ela sempre terá algo diferente do que se almeja.
Cíntia logo deitou e dormiu. Hélio estava sentado apoiado na parede.
- Posso? – Disse Antônia, apontando a barriga de Hélio.
Incrédulo, meneou a cabeça e deixou que a garota repousasse sobre sua barriga. Imediatamente, Hélio entendera que o olhar lançado por Antônia poderia ser traduzido como “te quiero”.
Os dois empurram Cintia para fora da cama e se deitaram confortavelmente.
Pode-se dizer que Antônia era uma daquelas belas garotas que 100 em cada 10 caras desejam. Hélio, sempre muito pessimista, ainda não acreditava que ela estava ali com ele. Enquanto ele acariciava seu cabelo, ela passava a mão em sua barba. Os dois focavam seus olhares ao teto como um torpedo de felicidade.
Gasélio não era de exigir que sua garota seguisse tal moda, muito menos de desprezar tal tipo de roupa. O visual de Antônia era bacana: Camiseta rasgada de banda, calça jeans que ficou curta e virou bermuda, tatuagem com sentido particular. Era, visualmente falando, a versão feminina de Hélio. Porém, ele não portava a magreza encantadora dela.
Por mais que aqueles ombros fossem um convite sexual para ele, os dois apenas se mantiveram deitados até amanhecer. Não dormiram, não transaram, queriam nada disso. Permaneceram acordados e desacreditados por estarem começando a acreditar no potencial entre os dois.