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2010/04/18

Deitar e amar... (Parte DOIS)

Estávamos lá, deitados. E quietos. Estávamos lá, felizes por estarmos juntos, de verdade, dispostos a recuperar o tempo perdido, e o amor que não conhecíamos há um bom tempo.
Estávamos lá, quietos. Eu estava feliz só por saber que ela queria recuperar nosso amor. A felicidade era tanta, que minha boca não tinha o que dizer.
Até que ela disse:
-No que você está pensando?
Respondi com toda minha sinceridade:
-Ah, meu estômago está doendo. Penso em chegar em casa e fazer uma macarronada, só para mim.
-Então vá! Eu fico aqui, tentando paquerar um qualquer que passar por aqui.
Sempre precisava de um tempinho para responder toda aquela sua agressividade irônica:
-Quando eu digo: "para mim". Quero dizer para nós! Porque você já faz parte de mim. Sabe, você é um orgão meu. Sem você, anemia, falta de ar e cegueira, me atingem facilmente. Sabe, dependo de você para viver...
Enquanto dizia tudo aquilo. Deitado, olhava para o céu, e gesticulava intensamente com as mãos. Até que percebi um suspiro, indecifrável. Olhei para aquela garota que estava ao meu lado, e me emocionei com a emoção que seus olhos que me olhavam.
Tenho dificuldade para chorar. Mas naquele momento, minha única vontade era imitar o gesto daquela garota que me deixava encantado a qualquer momento, tanto no felizes quanto nos tristes.
Em qualquer momento, eu sentia necessidade de estar ao lado de Melina. Mas ela andava um tanto quanto distante. O que era ruim para nós dois. Eu precisava de seu sorriso, precisava de suas palavras. Mas ela andava quieta, como se não existisse um cara que dependesse totalmente dela para viver.
Nos encarávamos, intensamente. Depois daquele meu "sermão", e a reação de Melina, não tinha forças para continuar a falar. Depois de algumas lágrima soltas, alguém precisava limpar seu rosto. E essa função era minha, sempre foi.
Com a manga de minha camiseta, sequei as lágrimas. E ela, com um sorriso simples, o mesmo que me conquistou há cinco anos, agarrou minha mão, e disse:
-E o que eu respondo depois disso?
Confortado com toda aquela mágica, respondi:
-Nada!
Apertei mais ainda a sua mão. E envolvi aquele pequenho e magro corpe entre meus braços. Para que ela tivesse certeza de que eu estava ali, com ela. E ficamos lá, deitados e abraçados, em silêncio.
Meu coração batia rapidamente, impossibilitando que palavras se formassem em minha boca. Mesmo com riscos de ter uma parada respiratória, ou cardíaca, não me importava. Pois não existe modo melhor de morrer do que estar ao lado de quem se ama.
Sentindo sua respiração e seu corpo, começei a viajar entre as nuvens. Não conseguia refletir sobre coisa alguma, só me concentrava em contar as batidas daquele coração, que estava próximo ao meu.
Silêncio, entre nós. As crainças gritavam atrás de bolas e cachorros latindo. Os passáros migravam pelo parque. Rodas de skates e bicicletas arranhavam a ciclovia. Mas tudo isso, não me importava.
Sentia a cabeça de Melina, subir e descer, com os movimentos da minha respiração. Pensei em para de respirar, só para meu peito não a encomodasse tanto. Mas morto, talvez eu não poderia ficar com ela, cuidando dela.
Fechei meus olhos, me concentrava na respiração de Melina, e toda aquela calma que sua presença me causava. O branco das nuvens aparecia, mesmo eu estando com os olhos fechados. Fiquei assim: nuvens, Melina, nuvens, Melina...
A anestesia era tanta que o tempo parecia não passar, mas toda aquela agitação do parque foi sumindo. Mas não me importava. Até que senti uma pequena pancada na costela.
Abri meus olhos, assustado. Com medo de que houvesse algo de errado com Melina.
O que vi foi um Guarda Municipal, nos encarando. Com autoridade, ele perguntou:
-O que estão fazendo aqui? O parquejá está vazio.
Enquanto ele perguntava, olhei para meu outro lado, me certificando de que Melina estava bem. Estava bem, coçando os olhos, depois de dormir, por não sei quanto tempo. Esqueci da pergunta do Guarda, só queria ficar aquele rosto sonolento acordar. Lembrei da pergunta, e respondi:
-Nossa, nós deitamos aqui e dormimos, perdemos a hora!
Melina, olhou para o  Guarda e disse:
-Ei, Guarda Belo, nós podemos dormir por aqui?
Melina adorava arranjar apelido para conhecidos recentes. Com medo de que o Guarda
surtasse, me levantei, puxei Melina, e falei:
-Desculpa, seu Guarda, nós já estamos indo, só precisamos...
Precisaríamos de nossas bicicletas para voltar para casa. Mas as mesmas, não se encontravam no local. Surtei:
- CARAMBA! Onde estão as bicicletas!!?
O Guarda, com toda a calma do mundo, anunciou:
-Calma, garoto. Eu as recolhi, e guardei na central de informações.
Confuso, perguntei, como autoridade:
-Por que?
- Você prefiria que alguem marginal as roubasse? Melhor que elas ficassem guardadas, em segurança. Venham comigo, entrego as bicicletas, e vocês podem ir embora.
Fomos, pegamos nossas bikes, agradeçemos ao Guarda. E partimos.
Andando, fomos indo, com nossas bicicletas ao lado.
Já escurecia. E sim, nós dormimos o dia todo no Parque. Foma era uma coisa que me dominava.
Mesmo que não tenhamos conversado sobre nosso relacionamento, e a terrível fase que havíamos passado. Aquele dia no parque foi incrível, calmo e simples. Bem a cara de Melina.

2010/03/08

Deitar e amar... (Parte UM)

Já se passava das quatro da manhã, e eu já não sabia o que fazer ou para onde ir. Todo aquele tédio já não era benéfico. Estava há mais de cinco horas deitado assistindo à maratona de um seriado de humor clichê que não era mais tão divertido. Pensava em um meio de me entreter ou esquecer todos os problemas que me enforcavam. Não encontrava resposta alguma para solucionar minha dor.
Deitado em uma cama tão grande, estava totalmente vazio. Nenhum livro, filme ou musica me animava. O que poderia me alegrar parecia estar tão longe, parecia ter um preço a ser pago, parecia não ser para mim.
Depois de um tempo mudei de canal, mesmo sabendo que não encontraria nada decente. Começou a Santa Missa, e isso me motivou a desligar a tv e tentar dormir.
Pensei que Melina estivesse morta, mas então, depois de horas, ela disse:
- E então, Rafael, vai ficar deitado aí ou aceitar minhas desculpas?
- Desculpas, do que?
Finalmente, lembrei o que estava faltando em mim. Ela era há muito tempo o que me mantinha vivo, mas atualmente nos distanciamos, mesmo dormindo na mesma cama, tudo graças àquele maldito curso de teatro que fazia lavagem cerebral nos alunos. Mel foi vitima, e esqueceu de viver, esqueceu de mim. E eu, solitário, esqueci de viver. Continuou ela:
- Sei lá... Por ter abandonado esse amor tão forte que sinto por você.
- Não sei... Acho que ambos desistiram desse romance por um tempo.
- Ah, eu comecei com aquele maldito curso e abandonei tudo. E como, já diz a canção, "o comodismo é um mal parasitário", acho que te passei um pouco dessa minha desmotivação.
- E você quer recuperar todo o tempo perdido?
- Agora!
- Mas são seis horas da manhã de domingo!
- Bom, pelo menos já tem onibus circulando, podemos andar por aí.
- Hum... Vamos esperar o mercado abrir, comprar coisas e fazer um pique-nique no São Lourenço.
Levantei, abri a cortina e me assustei com o belo nascer do sol. Melina já estava sentada, resolvi sentar ao seu lado. Ficamos calados até que ela exclamou:
- O mercado não abre aos domingos!
- Eita... Será que as nossas bicicletas estão úteis ainda?
- Já sei, pegamos as bicicletas e saímos pela cidade até encontrarmos um lugar bacana para sentar e conversar.
- Boa, mas poxa, já estou há horas aqui deitado e sem comer. Preciso comer alguma coisa, nem que seja uma bolacha.
Não sei como encontramos motivação para sair, pois estavamos há horas deitados mas sem dormir.
- Na minha bolsa tem um pacote.
- Beleza, mas antes vou tomar banho.
- Que mané, banho! Vamos assim mesmo! Queremos recuperar nosso amor, não queremos paquerar ninguém, nem conseguir emprego. Afinal, é domingo, e alias, adoro esse teu pijama.
- Tá bom, mas antes...
- Cale a boca!
- Ok, então... sem energético para nós.
- Opa! Aí você apela para o vício! Pega lá algumas latas, e vamos logo.
- Já vou, mas antes...
- Ah, chega!
- Não quer um beijo? Tá bom...
- Sem problemas, eu tenho o dia inteiro para te roubar um.
- Isso se você conseguir me alcançar!
Corri, como nos velhos tempos. Uma criança correndo rumo a felicidade. E eu não sabia que desde pequeno eu estaria destinado a viver com uma garota que, não tinha roupas de marca, não tinha carro, não tinha dinheiro, não tinha vícios além de "Rafael", tinha apenas um coração que me conquistava todo dia, mas apesar disso andava distante. Porem, tenho certeza que daqui pra frente, se tornará uma necessidade fisiológica. Se me perguntassem o porquê de eu gostar ela, só responderia: porque ela gosta de mim, e ela gosta de mim porque eu gosto dela, eu gosto dela porque ela gosta de mim... Enfim, é um ciclo, confuso. Looping após looping.
Fui até a cozinha pegar uns energéticos e doces, nossos vícios. Apesar de nossa vida ter um aspecto "vagabundo", nós não bebíamos, não fumávamos, não injetávamos, não... Resumindo, não usávamos drogas. Nunca experimentei e nunca tive vontade, já sou "louco" demais. Lina, tomava remédios para dormir e para depressão. Problemas que, milagrosamente, sumiram de sua vida quando me conheceu e veio morar comigo.
Melina gritou do "quartinho" querendo que eu pegasse minha bicicleta e saíssemos logo. Partimos sem rumo certo.
Fomos dançando entre as ruas da cidade, observando as placas de pontos turístico, e procurando algum que nos atraísse bastante. Jardim Botânico, Praça do Japão, Parque Barigui, Praça 29 de Março, Bosque João Paulo II... Nenhum destes foi escolhido, eu queria Parque São Lourenço, mas Melina insistiu e insistiu no Parque Tanguá. Então, para lá fomos.
Depois horas para chegar ao parque e encontrar um lugar tranquilo, finalmente chegamos e encontramos um recanto ao pé da colina. Largamos nossas bikes ao chão, e deitamo-nos.