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2015/12/28

Lonely People XV


Depois de uns meses de férias impostas simplesmente pela vontade de ficar em casa dormindo, praticando ócio criativo, vivendo seu período sabático, decidindo se tinha feito a escolha certa ao terminar a faculdade, engolindo crises existenciais, enfim chegou o dia de estrear oficialmente como psicóloga profissional. Se conseguisse controlar a crise de ansiedade que emergia de suas mãos, começaria a trabalhar numa clínica de apoio a jovens em situação de risco na A. N. d. J. No caminho, passou em frente a um sex shop da R. A. e, ao encarar a vitrine, lembrou-se que fora encarregada de comprar alguns itens para a despedida de solteira que ela e algumas amigas fariam para a que se casaria em duas semanas. A pequena Sabina Spielrein (apesar da graduação não ser a mesma que a psicanalista russa, tinha-a como inspiração, bem como outras psicanalistas da vida real e da ficção) estava empolgada para a cerimônia, mas não pelo casório em si e a felicidade de Y. Eva não acreditava na seriedade desse ritual sagrado - em decadência. Não crê, aliás, na institucionalização de um sentimento, na autorização escrita para que duas pessoas possam ser felizes, até que a morte as separe, afinal, ninguém precisa de aprovação de terceiros e, mais importante, ninguém será feliz com alguém até que a morte encerre o relacionamento porque o fim vem antes disso. A empolgação para o casamento era, além da felicidade em ver sua amiga tão infeliz antes finalmente completa com alegria e amor, devida à presença do jornaleiro, que também conhecia a noiva e estaria na festa.
Como ainda tinha tempo de sobra antes de bater seu primeiro cartão-ponto na clínica, entrou na loja erótica e comprou algumas lembranças para a despedida de solteira. Ao chegar no trabalho, percebendo a quantia de menores de idade na recepção, mocou a sacola de compras em sua bolsa. A diretora da clínica, uma senhora japonesa mais simpática que qualquer pessoa que Eva já conheceu, entregou-lhe um jaleco branco, com seu nome inscrito no bolso superior esquerdo, que, de tão grande, mais lhe servia como uma bata episcopal. Devidamente uniformizada, então teve uma ligeira epifania: agora a coisa ficara séria,  realmente séria, estava a poucos passos (a distância entre a sala de sua chefe e a de atendimento) de se tornar psicóloga de verdade.
Jennifer Melfi tentou encarar os olhos do primeiro paciente, que já seria memorável simplesmente por ser a primeira pessoa assistida, o adolescente que recém se sentara a sua frente silenciosamente. O olhar do rapazinho mirava o chão. Eva queria que ele fosse o primeiro a falar. Ao invés disso, ele tirou o celular do bolso e começou a jogar algo bem barulhento. Passaram-se cinco minutos e o garoto parou, encarou rapidamente a mulher e perguntou:
- Quantos anos você tem?
A novata pigarreou e entonou uma voz séria, adulta:
- Desculpa, mas não estamos aqui pra falar sobre mim, Douglas.
O adolescente se fechou novamente e permaneceu por mais vinte minutos em silêncio, jogando, enquanto Eva, já sabendo o quê o trouxera ali, fazia anotações sobre o paciente. Até que o garoto quebrou o gelo, ainda encarando a tela do aparelho:
- Minha mãe morreu ano passado.

2015/09/28

Lonely People XIV


Com as visitas frequentes ao restaurante do outro lado da rua, aprendeu em conversas enquanto esperava pastéis, que as duas pessoas mais velhas que trabalhavam no balcão eram proprietárias do lugar e pais da moça bonita. Porém, por ser péssimo em lembrar nomes, demorava para lembrar os nomes dos membros da família.
Numa sexta-feira de expediente mais leve, tirando quando ocorre alguma tragédia, que não escolhe data para acontecer, fez uma pausa e atravessou para comprar lanche para ele e seus colegas. Entrou no restaurante e se assustou ao identificar a música que tocava na rádio de sempre do lugar. A versão a ser reproduzida não parecia pertencer ao perfil daquele público radiofônico. “Mas se eu já te perdi, como vou me perder? / Se eu me perdi, quando perdi você...”, cantarolou baixinho, lembrando imediatamente da psicóloga, enquanto esperava alguém lhe atender. Saiu da cozinha a dona, sempre muito receptiva:
- Oi, lindo, cê tá bem?
- Tudo certo, como andam as coisas por aqui?
- Tudo meio parado hoje, né? Parece que o povo tá desanimado e esqueceu que hoje é sexta.
- Eita, então agora cês vão trabalhar... - Disse, rindo, e fez o pedido.
- Cinco pastéis de queijo, dois de carne e dois de pizza, Marli, pra viagem. - Gritou a mãe de Ágata cujo nome Jean não lembrava.
O rapaz quis pagar a conta imediatamente e a dona puxou assunto:
- Vi um moço parecido com você esses dias ali na P. XIX d. D.
- Que dia? Sábado?
- Isso, era quase meio dia.
- Era eu mesmo! Como é que não te vi?
- Eu tava na R. P. G., quase na esquina, com a minha filha.
- A… - Pausa para lembrar o nome da moça - Esqueci o nome dela… Agnes? Sei que começa com “A”... Não, não é Agnes, espera, tem a ver com pedra preciosa.
- Ah, ela é preciosa mesmo, mas é Ágata. Agnes é pedra preciosa?
O rapaz se questionou de onde tirou a relação entre Agnes e pedras preciosas. Perguntou:
- Por onde ela anda? Faz tempo que não vejo ela por aqui.
- Ela tá internada…
- O quê? - Perguntou sem deixar a mulher terminar.
-... Em casa estudando. Fim de semestre, menino, ela fica louca de estudar.
- Ah é? O que ela faz?
- Engenharia química.
- Cinco pastéis de queijo, dois de carne e dois de pizza pra viagem! - interrompeu Marli, saindo da cozinha.

***

2015/07/27

Lonely People 13

Quando rotas colidem ou o passado retorna


Acordou atrasado e tinha apenas quarenta minutos para tomar banho, arrumar-se, comer e sair. No meio da lavagem, começou a pensar numa história. Mal se secou e correu para cadeira a fim de redigir, no mínimo, um parágrafo do que recém lhe surgira em mente. Gastou o tempo restante que tinha para isso e partiu rumo ao jornal. Lá pela segunda hora de trabalho, perdeu a concentração de tanta fome. Atravessou a rua para pegar uns pastéis; dois de queijo para ele e um Romeu & Julieta para sua chefe. Acostumado a ser atendido por um simpático senhor, estranhou a moça de touca branca na cabeça e avental preto, atrás do balcão. Após fazer o pedido, Jean ficou observando a televisão, que reproduzia comerciais, até que a atendente, com muita simpatia, tentou puxar assunto, obtendo dele as respostas “sim”, “não”, “do outro lado da rua”, “sim, conheço” e nada mais. A fome impedia o rapaz de demonstrar simpatia ou interesse. Despediu-se com um ligeiro "tchau, obrigado" e foi correspondido com um largo sorriso. Voltou à redação e engoliu o lanche como se fosse sua última refeição em vida. 
Ágata, a moça atrás do balcão, estranhou a aparência jovial, apesar de um rosto repleto de barba e cansaço, do novo cliente, em um lugar frequentado por pessoas mais velhas. Sem saber nome ou idade do rapaz, no entanto, gostaria de vê-lo mais vezes. Ela demorava para perceber se estava ou não encantada, romanticamente falando - ou não, por alguém, mas queria que o desconhecido retornasse para, no mínimo, tentarem cultivarem uma amizade, enquanto seus pais ou Marli preparassem comida na cozinha.
Conversando sobre aleatoriedades com os colegas de jornal, descobriu que o restaurante do outro lado da rua oferecia também um pequeno bifê durante o almoço, a um preço baixíssimo, gerando no rapaz a curiosidade - e a nostalgia das refeições a seis e cinquenta no boteco da N. d. J. - para almoçar ali qualquer dia desses.  Num dia de compromissos bancários antes do trabalho, Jean chegou mais cedo e foi descobrir se o tal almoço barato despertaria no rapaz a vontade de repetir diariamente, enquanto permanecesse em Curitiba, tempo indefinido. Sentado num canto qualquer, mastigando uma salada de berinjela, observou o simpático senhor no caixa conversando com uma mulher morena, magra, de altura mediana e olhos castanhos, que iluminavam o lugar. Ela se despediu do velho e caminhava em direção à porta da rua. Quando viu que alguém a encarava e identificou quem era, acenou um breve “tchau” acompanhado de um tímido sorriso. Error 404, tela azul, Jean travou, com a boca entupida de berinjela, atingido pelo gesto da bela moça, tentando relembrar de onde a conhecia. A memória do rapaz demorou para assimilar que a dona dos castanhos era a mesma moça atrás do balcão que trabalhava ali. Um avental no corpo e uma touca na cabeça são capazes de ocultar o mesmo olhar que o nocauteou no segundo encontro ao acaso dos dois. Ele ficou com aqueles olhos castanhos em mente até a hora em que foi soterrado de trabalho. Morte de um líder religioso, pesquisa sobre varejo municipal, previsão do tempo para o fim de semana, novas alianças políticas estaduais e show de uma cantora estrangeira em diversas capitais brasileiras no mês de setembro. Tudo isso em menos de meia hora.

2015/04/18

Lonely People 10/11/12

***



Ele, que se perdeu em outros colos sem vontade de ficar neles por muito tempo, precisava do ataque de palavras da turista. Ela também se perdeu em outros cantos, sem permanecer neles, de uma maneira mais superficial, sem deixar de ser imersiva a sua própria maneira. Ambos se perdiam, iam e vinham, mas, nos últimos tempos, estavam presos um ao outro, (in)felizmente [como você preferir julgar], por uma corda invisível, intangível, que não machucava. [Atente-se ao tempo verbal].
Depois da visita dela, ele não quis mais saber de nenhuma moça de sua nova capital, nem mesmo da morena. Aprendeu sozinho a canalizar seus impulsos hedonistas em textos que mais pareciam uma continuação não-autorizada de Opus Pistorum, como se o protagonista tivesse embarcado da França para o Brasil. Quando teve uns dias de folga depois de cobrir as férias de uma colega, realizou uma visita surpresa antes do casamento a sua terra natal e mostrou os rascunhos para a mais nova psicóloga do pedaço, que analisou os contos como balzaquianos demais para pornografia.
- Quê? - Indignou-se o rapaz.
- Cara, quem é que descreve o corpo de uma mulher desse jeito tão apurado hoje em dia? - Fazia uma crítica completamente ironizada. - Cuidado que o Miller e o véio Buk vão puxar teu pé a noite. Faltaram uns palavrões aí no meio também.
- Nem todo homem fica soltando sacanagens verbais pra toda mulher. - Exaltando a voz, disse ao desviar o olhar.
- Esqueci de levantar a placa luminosa de “ironia”, foi mal… - Tirou a cara de riso e o encarou seriamente. - Cê sabe que gosto desse teu jeitinho inocente, sem putaria.
- Olha a boca, menina.
- Não dá, fica muito embaixo dos olhos, só se for no espelho, tem algum aí? - Extravasava nela euforia pelo reencontro quatro meses depois daquela noite em que seus corpos se despiram e se despediram do quarto 35, sabendo que estava tudo bem entre eles.
Era a primeira vez que ele pisava na casa dela, nem mesmo quando ainda moravam na mesma cidade entrara lá. Da rodoviária diretamente para o alto da C. Não fez questão de ir à casa dos pais, onde viveu por vinte e três anos. Um ano sem vê-los e nem um pingo sequer de saudade.
Foram três dias acompanhados de uma maratona incansável de desventuras em Litchfield e um afeto entre Eva e Jean cada vez mais crescente. Talvez ainda houvesse um resquício da timidez que os prendia ao passado, mas tal fraqueza se desfazia a cada novo minuto, a cada novo afago no cabelo, a cada novo gemido, a cada nova madrugada em claro, convertendo-se no que ambos queriam negar: Amor. Não que não quisessem mergulhar, mas o pessimismo os impedia de mergulhos profundos no mar que talvez tivesse potencial enérgico para abastecer seus corações por muito mais tempo do que acreditavam. Fechavam-se para falar sobre o que viviam juntos e não havia gigante capaz de destruir a muralha de medo. Só o tempo.
Na manhã de quinta-feira, o último dia do jornalista na cidade, a psicóloga recebeu o convite para acompanhá-lo em seu retorno à Curitiba naquela tarde. Para ele, ela ainda estava desempregada, desocupada, em busca de novas oportunidades.
- Mas você não tem mais uns dias de folga? - Disse ela, atingida por uma vontade de ficar com ele por mais tempo, enquanto a verdade lhe coçava a garganta.
- Tenho, mas vou resolver umas paradas do apartamento, o contrato termina mês que vem e não sei se a proprietária vai querer renovar.
- Que merda… Desculpa, mas eu não posso ir. Estava guardando a surpresa pra depois.
- Sem problemas, mês que vem tem o casamento de qualquer jeito... Espera… Surpresa? Meu Deus, cê tá gravida…
- Calma, não, credo… É que eu consegui um trabalho.
No banheiro, ele escovava seus dentes e cuspiu pasta no espelho ao ouvir a notícia.
- Sério? - Disse, com a boca ainda cheia de pasta de dente.
- Numa clínica bem interessante, só assistem crianças carentes.
Eva ainda estava deitada em sua cama, não queria sair dali, ainda mais ao saber que seriam suas últimas horas com Jean. Depois, só no casamento.
- Tudo a ver com tua monografia… - Secou o rosto e retornou para cama, lugar onde agora Eva conseguia repousar sem receio de ser apenas mais uma mulher a se deitar ali. Jean lhe deu um abraço de parabéns e ficaram deitados por mais uma hora, trocando afagos.
Ela preferiu não ir até a R. T. e ele nem fazia questão. Não reduziria a saudade, muito menos a ansiedade pelo próximo encontro. Estavam cada vez mais apaixonados, mas ainda incapazes de assumir.

2015/01/19

Lonely People 89


Tudo tem fim e vai doer quando terminar, sabiam disso. Sob tal previsão, ficariam juntos enquanto o encerramento não ocorresse, tragando realismo e dispensando a invenção de um conto de fadas para encenar uma história em que tudo terminaria bem e viveriam (unidos) felizes para sempre. Esse pessimismo talvez masoquista era essencial na formulação de uma anestesia para a dor. - Prefiro só a primeira parte. - disse ela, encostando os pés no chão e encarando o rapaz.
- Mas a gente pode lutar pra que a segunda parte seja menos influente possível.
- "Lutar"… Isso é uma guerra? Eu sei que sou muito competente pra estragar tudo e ainda te machucar.
- De novo eu usando termos errados. Não é "guerra". A gente pode enfrentar as merdas juntos, é isso. Mas eu tenho cicatrizes suficientes pra enfrentar a dor que você poderia me causar, não que eu esteja te motivando a me machucar...
- Não pretendo... Preciso deitar.
- Quer remédio?
- Preciso ficar em silêncio no escuro.
- Ok.
- Mas a gente ainda termina essa conversa.
Deitaram-se e sonharam acordados com carícias e respirações tranquilas. No dia seguinte, ela voltaria pra São Paulo. 

Nos últimos quatro dias, o rapaz não teve folga no trabalho, ocupando seu dia com assessorias, fontes, entrevistas e matérias; e as 18 horas restantes com a companhia da moça, que, enquanto o rapaz trabalhava, ocupava-se de conhecer a cidade, principalmente as “bocas do lixo” da região central. Adora a mitologia da marginalidade urbana, putas, travestis, traficantes, drogados, empresários chineses etc. Esses lugares sujos, habitados por seres marginais, estranhamente lhe encantavam. Num dos passeios solitários, caminhando pela R. P. C. C., ao lado do maior parque central da cidade, cruzou com algumas mulheres que vendem seus corpos e as invejou. Como conseguem ter tanta coragem de se exporem a homens na maioria dos casos asquerosos e doentes em troca de sobrevivência, questionou a si mesma. Admirava-as. Respeitava-as. Amava-as platonicamente. Acreditava na impossibilidade de um amor concreto e recíproco com alguma delas por julgar-se incapaz de alcançar a santidade dessas mulheres. Queria conversar com uma moça de vestido roxo sentada charmosamente num banco encarando o lago, mas preferiu não interromper o estado de transe no qual ela se encontrava, parecia não estar ali.
Ao invés de virar à direita e seguir ao local de trabalho do jornalista, confundiu-se e pegou a esquerda, passando por bares e restaurantes cheios de mulheres da vida, velhos barrigudos e orientais, além de uma igreja, a coisa mais bizarra que poderia existir naquela rua. Percebeu a rota errada ao alcançar a R. X. d. N e fugiu da multidão de gente que ia e vinha naquele corredor comercial assustador. Seguiu novamente pela R. P. F. e reencontrou seu caminho correto. Seu último dia em Curitiba estava terminando e ela jurava que não sentiria saudade do lugar, mas se conhecia bem e, hora ou outra, a falta do rapaz invadiria seu peito, quebrando qualquer juramento. "Distância faz bem", proclamava.

Na rodoviária, a poucos metros do portão de embarque, ele a parou, repousando suas mãos nos ombros da moça e disse:
- Vamos ficar bem, tá? - Em seguida, subiu as mãos ao rosto da garota, segurando aquela cabeça tão cheia de coisas que o faziam bem, e beijou sua boca. Ela só conseguiu assentir com um sorriso, antes de tentar dizer qualquer coisa, e recebeu outro beijo. Abraçaram-se intensamente. Ela se encaminhou ao portão. Ele se abaixou para amarrar seus cadarços e, ao se levantar, já não enxergava mais a moça.

2014/10/29

Lonely People 7

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A moça não conseguiu mais falar e, através de seu olhar, deu espaço para que o rapaz dissesse algo, ainda de longe:
- Como se eu não fosse perdido também. Você sabe que sou. Quero continuar me perdendo, mas em você. Eu quero me afundar, mas em você, em nossos abismos. Quero poder me afundar no teu colo, mesmo que você não tenha força suficiente pra suportar meu peso emocional, assim como eu não seria capaz de aguentar tua imensidão, e que você também possa se afundar aqui.
Levantou-se e ficou encostado na janela ao lado da moça, que respondeu, após ser fuzilada com um sorriso simultaneamente tímido e magnético:
- Eu faria o possível pra te impedir de se afogar nas merdas da vida, por mais que eu não seja uma boa nadadora.
- Nem sei nadar mesmo… A gente talvez precise de paciência, talvez esse trecho esburacado da nossa estrada logo termine.
- Ou talvez a estrada logo termine.
- Mas… - Logo se calou, absorvendo enfim o que a moça acabara de dizer, deu um longo respiro e continuou: - Se não seguirmos em frente, nunca saberemos se a estrada dura mais um quilômetro ou é interminável.
- Tudo tem fim...
- Calma, não era esse o termo, mas, sim, claro, a gente sabe que tudo acaba… Sei lá, ela pode durar mais quatrocentos e doze milhões de quilômetros.
A turista saiu da janela, sentou-se na cama e, apertando o peito contra as coxas, reclamou:
- Minha barriga… dói.
Imediatamente, ele se postou a seu lado e repousou uma das mãos nas costas dela, acariciando-a gentilmente.
- Gastrite?
- Talvez, não sei. Continua o que cê tava dizendo...
Achou que poderia soar um tanto indelicado ignorar sua dor para falar sobre estradas e naufrágios, mas percebeu, através novamente dos olhares da moça, que ela não se importava.
- Tá... Esse nosso pessimismo realista sobre relacionamentos é algo bom, sabe? A gente tá muito consciente que vai acabar e, que, quando isso acontecer, vai doer.

2014/09/21

Lonely People 6

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Ainda calados, chegaram ao quarto de hotel e se separaram. Ele entrou no banheiro, carregando uma muda de roupas em mãos, para se trocar - sim, apesar da intimidade, que, além deles, só o escuro daquele lugar presenciou, tinham vergonha de outras intimidades, como trocar de roupa em frente ao outro -, e ela abriu seu computador para ver se a psicóloga amiga de uma professora havia respondido o email sobre uma vaga de emprego nesta cidade - segredo - e se aconteceria uma reunião/entrevista no dia seguinte. Assim que o rapaz saiu do banheiro, enquanto ele arrumava algumas coisas em sua mochila, a moça disfarçou singelamente, mudando de página, fechando a caixa de entrada sem respostas, e logo abandonou o notebook, abriu o frigobar e pegou o whisky que haviam comprado na noite anterior. Ainda imersos em silêncio, tomou um baita gole no seco e ofereceu ao moço, que tomou quase a mesma quantia que ela. A garrafa foi abandonada no criado-mudo.
Separaram-se novamente, ainda pensando no que conversaram há menos de uma hora. Encostada na janela e de costas para a rua, reflexiva e roendo unhas encarando o chão, disparou:
- Eu… - viu então que ele, antes deitado observando o teto, sentou na cama assim que ela abriu a boca - Vou embora...
O rapaz levantou seu comprido corpo assustado, aproximou-se, fitando o fundo daquela que começara a ficar com os olhos vermelhos como se para ver o reflexo de seus próprios olhos e encontrar, em sua mente, algum motivo que a fizesse ficar. Alguma resposta. Qualquer coisa para resolver este caso. Talvez dizer que estava vivendo os quatro melhores dias dos últimos cinco meses. Mas ela não deu tempo:
- Calma… - esperou que ele retrucasse como tanto fez nesses quase quatrocentos dias, mas nada. Não exatamente agora. Só queria falar que… - então despejou-lhe uma enxurrada de palavras que tentariam provar que os dois deveriam, sim, continuar se vendo, mas, também, sim, poderiam encarar a distância como algo que os ajudasse a fortalecer essa relação. Queria construir uma ponte forte e bonita que conectasse Curitiba a São Paulo, Braavos a Porto Real ou a cabeça tão pesada do jornalista ao colo instável daquela que já não sabia mais se queria se formar psicóloga, tanto faz, desejava arquitetar um plano para que o relacionamento funcionasse, mas sabia que planejamento poderia estragá-los. Após um silêncio criado como se para reavaliar o que pretendia dizer, seguiu: - … Eu gosto de você e quero continuar, mas … - O rapaz se sentou na cama, ainda encarando a mulher, impactado pelo peso do que ela lhe dizia, queria se levantar e dar-lhe o maior abraço do mundo, mas achou melhor não interromper o monólogo da moça iluminada pelo poste de luz em frente a janela do quarto - … Eu não quero um acordo. Isso pra mim seria sinônimo de comodismo, que só estraga as coisas. Tem muita coisa aqui dentro... - Deslizando a mão aberta do peito à garganta - Tá tudo muito bagunçado e eu quero me organizar pra poder seguir. Eu não quero te machucar, seria muita ingratidão minha estragar algo entre nós, mas a vida sempre acha um jeito de me derrubar, de fazer eu me perder, de arranjar uma forma para eu machucar as pessoas… Por mais que não queira machucar, acabo machucando. E não quero te machucar… Eu me perco e me afundo, cara, e… Ah...

2014/09/10

Lonely People 4/5

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- Tivesse me falado antes, que a gente não saía do quarto.
- Não... Aliás, a gente tá indo no único bar que conheci nessa cidade.
- Meu deus, você está aqui vai fazer seis meses. Não tem vida social?
- Chamo isso de workaholic.
- Chamo isso de anti-social.
- Que seja, eu só quero saber de dormir, trabalhar, ler e escrever.
- Decidiu terminar aquele teu romance, como se chama, “Deitar e amar”?
- Nossa, não…. Nem lembrava desse. O que tô escrevendo… É um diário, na verdade, sobre as impressões dessa nova vida e... saudades.
- Saudade do que?
-Tô matando agora - disse ele, apertando as mãos da moça carinhosamente.
- Já conheceu muita gente?
- Tirando pessoal do jornal, gente de assessoria e dos lugares onde como, ninguém. Tô bem assim, não quero forçar amizades.
Já sentados no sofá do bar, não aguentava mais segurar, ela precisava perguntar:
- Quanto tempo cê pretende ficar aqui?
- Achei que fosse amar esse lugar, o que me faria ficar por muito tempo, mas…
- Mas, o quê?
- Aqui tem nada pra mim. Nada que me faça querer ficar. O nada não me serve. Não é igual nossa cidade.
- O que te incomoda? Qual a diferença?
- Tanta coisa, mas… principalmente, porque você não vive aqui.
A moça repousou a cabeça na parede e encarou o teto, sorrindo, enquanto apertava as mãos dele:
- Queria morar aqui, mas tenho que ficar lá por mais um ano. Se você tiver calma…
- Eu tô calmo. Eu tô muito calmo… agora. - repousou sua cabeça nos ombros da moça, respirou lentamente - Só não quero ficar longe. Fiquei muito feliz pela tua surpresa, sério, mas sei que se repetirmos muito isso não vai ser a mesma coisa.
- Por que você não volta? Cê diz que essa cidade tem nada pra você, então volta. - exaltou-se a moça por um momento. - Por que não volta?
- Porque… - soltou-se das mãos dela e cruzou os braços - Talvez porque... - riu um tanto indignado por pensar de tal forma - Eu não volto pra lá, talvez porque eu goste de sentir saudade. Sei lá… - ela não quis interromper, apesar de estranhar tal comentário, porque estava curiosa para saber onde esse monólogo poderia chegar; ele coçou a cabeça e, com a mesma mão, apertou os lábios inferiores - Acho que se a gente se visse com mais frequência... tudo isso entre nós, que, aliás, funcionava tão bem com doses moderadas de distanciamento, sem transbordar nem secar, acabaria… Mas, ao mesmo tempo, eu não consigo me motivar a sair trabalhar, a fazer qualquer coisa, se não pensar em você. Conversando contigo na minha cabeça, vendo um filme imaginando que estou afagando teu cabelo… Eu… Ah… - abaixou a cabeça a balançando negativamente e não mais falou.
Ela soltou o ar dos pulmões com força e a intenção de que ele pudesse perceber o desconforto que saía de seus lábios. O silêncio se manteve naquele canto do bar até que um dos garçons se aproximou e perguntou se queriam mais uma cerveja e levou a garrafa que os dois beberam. Juntos, como se ensaiados, acenaram que não e sorriram para o moço, que, pelo sotaque e o carisma, também era de outra cidade. A dupla ficou por ali, incomodada pelo rumo que a conversa alcançara, sem saber falar algo que pudesse salvá-los.
Na dança de olhares aleatórios pelo ambiente, encararam-se e trocaram sorrisos negativos. Levantaram e voltaram ao hotel. Na primeira quadra, ela interrompeu o silêncio:
- A gente saiu sem pagar?
- Não, eu paguei na hora, enquanto você foi ao banheiro e eu esperava o pedido.
Silêncio entrou na conversa. Novamente.

2014/09/01

Lonely people 01123

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- É que - engasgou-se com palavras que pretendia soltar, pensou um pouco, encarou o rapaz, percebeu que ele lhe observava curiosa e fixamente, voltou a encarar o chão do quarto 35 e continuou - sonhei que vim te visitar e perguntei se estava saindo com alguém.

- O que eu respondi?
- Você disse “estou bem, não quero mais” e parecia que queria falar mais, mas você sorriu e eu acordei.
- Desculpa, menti pra você… - ele não era de acreditar no misticismo e nos significados dos sonhos, mas havia algo que não conseguia entender na razão dela para viajar. Os olhares que a moça o lançara desde que se encontraram, foram, sem que ele notasse, tomando pouco a pouco qualquer espaço vazio nele que ainda não estivesse repleto com a escuridão reconfortante que saía dos olhos cor de mel da moça - ou verdes, dependendo da luz. O que o rapaz dissera no sonho dela, gerou-lhe uma atordoante epifania, que o obrigou a respirar lentamente antes de prosseguir… Escondeu o rosto entre as mãos, jogou as costas na cama e confessou - fiquei com outras mulheres, mas foi só para…
Antes que o envergonhado dissesse o que ela não queria ouvir, interrompeu, segurando as mãos do rapaz:
- Sh, não quero saber - repousou dois dedos sobre os lábios dele - Eu sei da tua bagunça aí dentro - alfinetando com o indicador a cabeça do rapaz.

Seguiram rumo ao Oeste, passando por ruas repletas de pixações em casas antigas. Numa destas, viram a inscrição “the night is dark / and full of you”, óbvia referência a uma série que os dois ali e mais meio mundo assistiam. Por impulso ou magia do Senhor da Luz, as mãos, que andavam distantes, acolheram-se e os dois, como da primeira vez que entrelaçaram dedos, comentaram sobre as temperaturas tão opostas dos dois corpos, por mais que estivessem na mesma cidade. Seguiram caminhando pela R. I. L. para que ela conhecesse o bar favorito do rapaz na nova cidade, que, aliás, era o único que conhecia, graças a uma indicação de um colega de trabalho.
- Não gosto de andar à noite por aqui, sempre acho que alguma coisa ruim vai acontecer.
- Tivesse me falado antes, que a gente não saía do quarto.

2014/08/24

Lonely people 2

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Deitados, ela ouvia os relatos dele sobre sua nova metrópole e como as pessoas eram lá. Até então, o rapaz não a questionara sobre as razões que a levaram a sair da cidade natal, pois estava encantado com a surpresa e não pretendia perder tempo com interrogatórios. Quando começaram a sair, isso há mais de ano, ele percebera que perguntas exigentes demais a cansavam e não inspiravam nela vontade de respostas complexas. Ela era direta, “porque sim”, “porque eu quis”, ou impulsiva - soltava uma resposta sem tempo para respiros. Nesse último caso, quando acontecia, seus olhos se enchiam de vermelho como se prontos para lágrimas, mas o rapaz, nesse tempo todo, nunca a viu chorar. Ao invés de tentar analisar aquela mente protegida por um par de óculos, cabelos loiros e um rosto quase sempre fechado, ele preferia se contentar apenas com a presença dela desacompanhada de sermões explicativos. “Pra quê ficar enchendo a moça de perguntas?”, reclamava para si mesmo, argumentando que deveria se contentar apenas com a aparição da moça, que, com tempo, ele aprendeu, não carregava muitas justificativas para seus atos, só vontade. Porque sim.
Surgiu um breve silêncio, olhares intensos à profundidade castanha do moreno e carícias nos fios loiros bagunçados dela, que disse:
- Você não vai perguntar porquê estou aqui?
- Não… A menos que você queira responder.

2014/08/14

Lonely people

1
The night is dark and full of you

“Estou aqui”, alertou a sms. Recém saíra do trabalho e imediatamente recebeu a mensagem, logo acreditou que ela sabia seus horários. Perguntou “onde?” e rapidamente obteve a resposta: “Nessa cidade que você tanto ama.”
Havia seis meses, quando ele ainda não tinha se transferido de capital, que não se encontravam. Os dois nunca namoraram, como os padrões tão estimados sugeriam, nem nunca terminaram. Iniciaram uma história sem título nem gênero ou prazo. Sentiam falta de estarem juntos, mas impuseram a si mesmos que precisavam se distanciar por um tempo. Não aprofundaram o diálogo sobre o que o dois eram, estavam sendo ou pretendiam ser. Então ele partiu, mas não a esqueceu. Nem ela abandonou pensamentos sobre ele, tanto que escreveu no banco onde se sentaram para conversar num dos primeiros encontros, observando a fachada de uma construção do século XIX e especularam como era viver ali naquela época: “Que seja”, sublinhando as iniciais dos protagonistas desse romance sem nós.
Ele não tinha planos para depois do serviço além de ficar em casa, mas, via sms, propôs que os dois deveriam se reencontrar o quanto antes. “Agora? Você tem algum compromisso?”, perguntou a turista, que obteve a resposta: “Não. Não tenho compromisso. Tenho saudade.”
Após enviar a última mensagem, recebeu uma ligação de sua chefe pedindo que ele fosse cobrir um evento de última hora para o jornal. O moço pensou em rejeitar, sabendo que essa possibilidade poderia ser aplicada, mas, descobrindo exatamente do que se tratava e que o convite era duplo, aceitou com a certeza de que Ela gostaria de ir junto.


- Posso te emprestar meu colchão e durmo na sala.
- Não, não quero.
- Vai passar onde a noite?
- Com você.
- Mas, se não for na minha casa, onde?
- Não quero ficar numa cama onde nunca estive, ainda mais num lugar que você já esteve com outras.
- Meu Deus! Quem disse? Tô nessa cidade a trabalho e deixei meu desejo com você. - Mentira, ele mantinha um caso há dois meses em que se encontrava semanalmente com uma morena linda de belos seios, que lhe servia apenas para engolir o impulso sexual que o perturbava. Ele não queria alimentar amor, o que tinha de sobra n'ela, por ninguém nessa cidade ou em outra que não fosse a mulher que neste momento lhe encarava com uma face clamando por um abraço; então lhe surgiu a ideia - Vamos a um hotel! Na minha primeira semana aqui, fiquei num bem barato da R. I. L.
- Pode ser.
O da R.I.L. estava cheio. Foram ao da R.D.C. d. S. Ele comentou que, nessa mesma rua, seguindo mais um pouco acima, havia uma feira de livros todo domingo. Então a moça quietamente se lembrou de um dos primeiros encontros deles - o segundo - numa livraria. Preferiu não falar sobre, pois não queria que fossem acometidos pela superficialidade da nostalgia desnecessária que, de um jeito impulsivo, seduz as pessoas.