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2017/06/29

(A linha tênue entre) o fim e os rascunhos

[Aquela epígrafe que só fará sentido para uma pessoa]


No momento em que abri os olhos, vi que ela me encarava apática, triste (com o mesmo olhar de quando me disse que gostava de mim, muito, mas acreditava na impossibilidade de ficarmos juntos naquela ocasião, muralha que desabou tempo depois, ressalto imediatamente não devo me ater novamente a definição qualquer de “tempo” porque, como Hans Castorp na montanha, não sei há quanto tempo estou aqui, aqui na situação de aparente persistência neste livro, ainda é o primeiro capítulo ou o último?). Quando abri os olhos, mesmo sonolento, imediatamente a reconheci, percebi em seu rosto a importância de nossa história à parte, sabia que não era um sonhador, vejo-a me observando e nossos olhares de divergiram quando seu amigo (que eu conhecia e, aliás, gostaria que fôssemos amigos, mas o timing não permitiu) disse meu nome, acenando, e o susto, tanto pelo chamado quanto pelo reencontro inesperado, me fez discretamente cerrar os olhos e fingir sono naquele ônibus onde não imaginava encontrá-la, afinal ela foi para lá e eu permaneço aqui (neste caso, geograficamente). Devia haver alguma atração artística que a trouxera para cá, ou um aniversário, não devia me importar com o quê, minha rotina não passava de work, work, work, e, apesar de minha formação acadêmica, não lia notícias, sabia das coisas pelo que comentavam no trabalho ou ouvia nos meios de transporte, se estivesse atualizado, saberia o que a trazia de volta. O que ouvi naquele instante de cansaço foi meu nome emitido pelo simpático comparsa da mulher com quem vivi (insisto em me convencer que nosso tempo verbal é passado) o romance mais frustrante para o público, pois se limitava ao platônico, intangível, na maioria dos capítulos, ninguém entendia, espectadores não aceitavam que aquilo era algo tão relevante para seus protagonistas, mas era - de certa forma. Seu amigo me chamou apenas uma vez, cerrei meus olhos tão rapidamente quanto os abri, me tornei invisível, esperei. Adormeci, fato que não se repetia desde minha infância, no constante trajeto entre Cabral e Cachoeira, porém, desta vez, despertei em um ponto do Centenário, sem saber quantas vezes fiz o mesmo percurso adormecido naquele veículo, o importante era que ela não estava mais lá, no ônibus, no desejo. 

Para uma história que se tornou tangível em um show estrangeiro, o último espetáculo à dois (desconsiderando a multidão inebriada ao redor) foi num bar falido com uma banda desconhecida local em que passamos o resto da madrugada abraçados, motivados tanto pelo frio quanto pela saudade gritando que deveríamos agora, enfim, com certeza, ficar juntos. Exatamente uma semana depois disso, me perdi e nego em compartilhar com ela a culpa, nem mesmo cito o episódio que motivou minha perdição, mais uma. Desde as primeiras páginas, me perdi constantemente, tentava voltar, reler o que havia sido escrito, retomar o rascunho com devida coerência, mas no último ano, com certo amadurecimento, concentrei-me para manter o foco, mas mesmo assim o álcool libertou minha persona mais desprezível, gostaria de também ignorá-la, mas restam consequências com as quais preciso lidar, sóbrio ou não, independentemente se quem fez o que fez foi eu ou eu. 

Em um canto sombrio deste mesmo quarto, há uma pilha de coisas que nunca te disse e os demais DVDs que jamais assistimos juntos, porque era um passatempo vê-los no silêncio de nossos solitários refúgios, ansiando por companhia, mas permanecendo nisso: ansiar. O querer sempre foi maior do que o ser/estar. “I love you longing for me”, como dito naquele filme que não vimos juntos, mas era como se ela estivesse ao meu lado ou fôssemos protagonistas em cena.

Nas poucas noites em que meu corpo se desintegrou com a colisão subatômica e se fundiu ao seu, julguei não mais ser viável ter um corpo individual, só meu, atrelado apenas a minha mente, porque, em algum momento, senti nossa unidade fluir sólida, firme como a mármore de construções que visitamos juntos. A ilusão de que dois pode ser um, desprezando a realidade física de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, estraçalhou-se no espaço desfeito. Minha fé em nós era maior do que a ciência, achei que a gente era uma grandeza maior, contudo, em decorrência de tanto, sei que a única força a fluir ininterruptamente é o tempo; nós não, éramos uma força hipotética, que sobreviveu somente em teorias, no papel.

Escrever sobre o passado, que seja descrever o que não há entre nós (ou o que há, o nada), não representa apego ao desejo, afinal não existe mais, só menos. A personagem habita em meus textos mesmo que o desejo não habite meus dias. Na névoa das lembranças, o desejo pode se confundir com a nostalgia dos bons momentos e fazer crer que ainda deveria existir contato, carinho e o resto, não o fim. Então prefiro a distância para não me perder novamente no que éramos, se é que existia algo além de um sonho nublado, evitar o querer é o caminho pelo qual optei.

Esta história é como aquele disco que eu tinha, que ela nunca ouviu na minha casa, mas estava no mesmo armário da mesma sala em que nos desintegramos em uma madrugada de novembro (poderia dizer que não me lembro da data, mas "I remember it well"), o vinil sempre se repetia em um trecho, “Penny Lane… Penny Lane… Penny Lane…”, até que eu largasse a louça ensaboada na pia, porque costumava ouvir este álbum fazendo algo na cozinha, e corresse para arrumar a agulha, por mais que gostasse da música, não dava pra deixar um disco riscado se repetir à exaustão. Abandonei discos, gostos e pensamentos, só não abandonei a escrita porque aqui permaneço vivo, mesmo que ela não leia, ao contrário do nosso romance, que não só leu como escreveu e também descartou.

Muito cinismo, muitos parênteses e nenhuma conclusão decente.

2016/06/30

Obra do Tempo ou Kokedama


“Sentiu-se oco, a sensação de leveza se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem raízes: se abrisse as veias não sairia nenhuma gota de sangue, não sairia nada.”

A Mão no Ombro, Lygia fagundes Telles


Parece que aquele show foi há menos de um ano, sinto que perdi, além do controle da minha vida - de vez -, a noção de tempo. Sinto que não era eu ao seu lado, era outro homem? Eu - definitivamente - era outra pessoa naquele junho?, outubro?, "I remember december"?, ao menos internamente, afinal a mesma cara estragada coberta por um casco de bad guy (talvez só eu mesmo veja isso), mas agora são outros ideais, outras ideias, opiniões, outros receios, rancores, desejos, apesar de sentir ainda algo por Ela talvez muito maior do que senti ao seguir rumo à Praça Liberdade naquela noite de quinta-feira, madrugada de sexta (o tempo ao mesmo tempo que importa tanto para essa história fica cada vez mais líquido, distante, insustentável, igual eu).
Agora, anos depois, quem usa um óculos de hastes vermelhas é outra ponta. Apesar das lentes, ainda não consigo enxergar os detalhes que causaram o distanciamento, as letras são muito pequenas - ou são apenas linhas aguardando alguém preenchê-las com o desfecho ideal para esta história, ou aquela.
Equivoca-se quem afirma que estivemos em um relacionamento sério, namoro etc, enfim, nesses padrões sociais, afinal não, não dá pra chamar de relacionamento sério, muito menos reduzir a um pequeno caso. É como chamar uma pequena árvore suspensa de bonsai. É diferente, é complicado. Da mesma maneira que tentei ter um relacionamento com ela, falhei - quando percebi ter estragado tudo mais uma vez - em cuidar dessa tal forma de vida composta de árvore e recipiente, não consegui, e de um cactus, talvez a forma de vida mais duradoura em minha vida nos últimos anos, e mas morreu num acidente envolvendo gatos e comida, não me perguntem como isso aconteceu, mas me perguntem, por exemplo, o nome dos gatos.
As minhas intenções a respeito desse texto mudaram muito desde a primeira frase escrita, lá naquele ano tão distante, “Ela era uma pessoa que me agradava pelas coisas que gostava”, se era pra ser um conto clichê de “boy meets girl”, uma carta cheia de confissões, um artigo sobre amores líquidos ou o primeiro capítulo de um romance muito maior, não sei o que queria; assim como minhas intenções a respeito da mulher que motivou tudo isso mudaram, assim como eu e ela mudamos - individualmente -, não sei se o que queria condiz com o que quero, aliás não sei exatamente o que quero - ou espero - disso tudo. De uma escrita intencionada a um conglomerado de aleatoriedades sobre uma mulher e o que ela pode causar em mim em todos os tempos verbais vividos até o presente, o tempo dilui isso tudo e transforma em algo novo, não só o texto, as vontades também. Ao menos na minha cabeça, não mais uso de palavras nestes capítulos para conquistá-la ou mostrar o quanto estou arrependido por ter arruinado tudo, “olha como me sinto culpado, tenha dó de mim e volte”, não, não é isso. Cinismo é algo delicado quando exposto ou anunciada sua ausência, cinismo e mentira são afins. O tempo esculpe tudo ao redor de nós, digo, o decorrer dele molda cada curva, cada aresta, cada detalhe, com o nosso empenho em alterações ou não.
Sonhei que a encontrei num restaurante, ela e uma mulher, uma conhecida paulistana, descobri que estavam num encontro e isso deveria me derrubar? O sonho terminou quando, elas, de mãos dadas, estavam sentadas juntas, abraçadas, e a outra mulher repousava sua cabeça no ombro d’Ela. Acordei e não senti raiva, nem naquele dia, nem depois, muito pelo contrário, não, não fetichizei o relacionamento delas, não, fiquei muito contente que, ao menos no sonho, vi Ela soltar um sorriso de tranquilidade, de “estou no lugar certo”, de um jeito que não sorriu ao meu lado em tantos anos. Acabou o sonho e restou a sensação que eu não era capaz de completá-la, talvez nunca seja, mas fico contente que pelo menos em um sonho ela estava bem, felizmente bem. Era um restaurante, ou um café, e as duas se levantaram, havia uma grande vitrine que mostrava a rua, uma rua de paralelepípedos, e vi as duas saindo juntas, a outra mulher segurando no braço dela, protegida. Entreolharam-se, sorriram uma para a outra, sumiram. Sonhei poucas vezes com ela, porque tenho a impressão que vivo numa realidade onírica há anos, não me refiro a este sonho como uma ambição, mas algo que me questiono a cada momento se estou acordado ou dormindo, paralisado. Sinto como se fosse o sonhador de Noites Brancas, envolto na névoa, inspirando a brisa do Rio Neva, sem saber ao certo se Nástienka era real ou um delírio extraído de um desejo enraizado no profundo do subconsciente. O sonho acabou. O sonho acabou, mas arrastei por dias a sensação de que ela realmente, enfim, encontrara alguém. Alguém que não caísse no primeiro buraco da estrada. Alguém que tivesse gravidade, força, alguma grandeza física suficiente para se manter em sua órbita. Alguém que não eu, loose end. Dói, não seu encontro com alguém que não se perdesse nas esquinas labirínticas de um relacionamento, mas sua ausência mesmo platônica na rotina dos meus dias perdidos. Outra noite, outro sonho. Não me lembro se foi Ela ou alguém - se não ela, não importa quem - que me deu a notícia: Ela estava de mudança para Islândia. Era isso. Não me lembro o motivo da ida, mas aconteceria anyways. Não sei se ambos sonhos habitavam a mesma realidade, mas o alívio por vê-la bem se deixou ser substituído pelo desespero de nunca mais, nessa cidade, correr o risco de encontrar Ela na rua, do outro lado da faixa de pedestres, começar a hiperventilar ao vê-la vindo na minha direção.
Os desencontros das histórias - a real e a transcrita - ganham raios cada vez maiores, expandem-se com o tempo, lembro-me da professora de Física, na sexta série, nos explicando sobre o fenômeno da dilatação, exemplificando os trilhos de trem com um espaço considerável entre cada um, sem engrandecê-lo, como se fosse algo banal, mas essa aula permanece em minha memória como uma anotação no canto de alguma página, sobre a importância do tempo para a dilatação e a corrosão dos objetos, neste caso, dos relacionamentos. O texto se expandiu, dilatou-se, corrompeu-se, perdeu-se, graças ao tempo e a mim, que me expandi, dilatei, me corrompi, graças ao tempo, que agiu como si mesmo, fluiu.
Esse texto não é mais apenas sobre Ela, ou sobre mim, está sobre nós, e não encontro mais a convergência entre Literatura e vida, cada uma foi para um lado diferente. Numa terceira rota, encontra-se Ela, desencontrando-se no estado vizinho, numa noite branca, no mar da Groênlandia ou wherever way, não sei. Me perdi no meio da história, sem saber se estou distante do fim.

“I just let the silence swallow me up
The ring in my ears tastes like blood
Asking aloud, ‘Why you leavin'?’
But the pavement won't answer me”
Something, Julien Baker


2015/06/29

Aula de dança (Quebrar, cortar, queimar...)

"The memory we seem to share 
replays"


Como e onde foi que me perdi, dessa vez, de vez? Onde e como nos perdemos? Não mais encontro o caminho para as hastes de óculos que repousaram sobre meu criado-mudo. Essa história não teve desfecho nem nunca terá, acredito, enquanto vivermos, mesmo que cidades diferentes e distantes, estaremos presos a esse sonho que mal conseguimos tirar do papel. 
Chego a este momento sem saber quem ela é agora, além de ser a responsável por me fazer perder o ar e ter crises de ansiedade ao vê-la se aproximar por tantas vezes durantes esses anos de convívio, mesmo com a ausência física predominando. “Sometimes I think I see your face in improbable places”. 
Foi na terceira temporada desta série de encontros e desencontros que o drama despertou seu lado mais desgraçado. Errei, e como errei!, as always, mas não sei a data exata em que tudo começou a desmoronar.
Perco-me em pensamentos, em textos, bem como me perdi desde o princípio, quando só havia escuridão e não conseguia enxergá-la - por, até então, desconhecer sua existência; a vida começou a fluir neste oceano e a maré insistia, ainda insiste, em ir e vir sem dar tempo para construir castelos de areia, faróis ou quebra-mares.
Entre inúmeras maneiras possíveis para demonstrar a confusão para demonstrar a confusão na qual me (des)encontro, a mais efetiva é vomitar em folhas de papel de um caderno qualquer toda a ânsia, que me ataca do estômago ao cérebro, enraizada na inconstância de uma viagem cheia de atrasos, conexões, jet lags e o que mais puder causar cansaço, agonia e desmotivação por não chegar “lá” - onde ela estiver, qualquer lugar que não seja minha mente.
Escrevemos, eu e aquela que aparentemente não esta aqui nem aí, um extenso capítulo de nosso romance, possivelmente o mais essencial para se entender que nem tudo é desgraça, mas alguém, suspeito que este que vos escreve, destruiu os manuscritos quanto derrubou uísque ao tentar acender um cigarro com uma só mão enquanto tentava terminar trabalhos da faculdade. Tal desastre não exige julgamento ou explicação prolongada, pois está feito. Restam as consequências, entre elas, como a (falsa) impressão de que um dos corações envolvidos na colisão guarda ódio, rancor e coisas assim, que machucam tanto quem os sente quanto quem os motiva. Não respondo por ela, mas, apenas esclarecendo ao nada, não a odeio.
O fim do capítulo mais recente que esboçamos não bastou, é necessário muito mais para transformar afeto em ódio. [Isto não é uma provocação para tentar superar]
Nossos passos desritmados nesta dança cujas aulas nos ensinaram coisa nenhuma, causando pisões em nossos próprios pés e esbarroes em outros pares. Foi assim quando, inesperadamente, houve uma troca inesperada de duplas. Ela foi para lá, não me importa com quem, e tentei dançar sozinho por um tempo até perceber - ou lembrar - que não consigo. Cair não exige ensaio e se torna um movimento mais fácil quando não há alguém em quem se segurar. Quando se tem um par, um possível problema é quando a outra pessoa se transforma em parte vital de quem dança. Não aconteceu comigo neste caso específico, apenas um devaneio.
Alguns de nossos duplicados musicais, neste último ano, vem se orgulhando bastante de nós, extraindo muito conteúdo para canções. De algum pub em Celbridge, nossas composições migraram para um apartamento no Brooklyn, ainda falando sobre fantasias, despedidas, desencontros, distância etc.
Agarro e abandono sentimentos com a mesma leveza de uma bomba despencando do céu, com a mesma velocidade que um trem corta as artérias de uma cidade, com a mesma intensidade de um beijo na porta de um ônibus, com o mesmo desgosto de deixá-la partir. O ponto de ônibus, os bancos de praça, o desenho dadaísta, as cartas, os silêncios, os souvenires, as memórias… ecoam, voltam cada vez mais fortes gritando “volta”. Já desconheço aquela moça que esteve comigo naquele show há dois anos, não sei quem ela é, se uma só pessoa ou várias. Hoje, desconheço. Parece que não é mais a mesma. Ou nunca foi. Em momentos de delírio, creio que nunca existiu, que nossos momentos juntos constituem uma grande alucinação arquitetada por minha mente ansiosa. Talvez seja doença neurológica e essa sensação mista de encanto com vontade seja apenas um inchaço em meu cérebro, destruindo-me lentamente. Se sim, demorei alguns anos para perceber. Devo então procurar tratamento ou aceitar e conviver até ser corroído por inteiro. Cheguei até aqui, vivo, pode ser que minha imunidade não deixe a patologia se espalhar ou esse sentimento tenha se apossado completamente de meu corpo, manipulado a impressão de que estou vivo. Analogia digna de causar na moça dos óculos embaçados naquela noite de quinta-feira a repulsa, o ódio e tudo o que ela ainda não sente por mim. Sou desastroso, queria dizer uma coisa, tentar convencê-la com mais um rascunho que ainda a quero, mas escrevo o oposto. Não sei mais. Não sei se peço desculpas ou mais uma chance. Talvez essa alucinação tenha causado a ilusão de passagem do tempo, parecendo que vivo neste afogamento há anos, havendo a chance de, na verdade, eu ainda estar sentando naquele banco de praça encarando o casarão vermelho, segurando meu Crime e Castigo, sonhando acordado, esperando.

2014/06/23

O professor...

Um ano após aquele show em São Paulo, muita coisa aconteceu. História digna de ganhar um livro de seiscentas páginas (quiçá uma trilogia se não morrermos antes de terminarmos), uma série com dez temporadas ou simplesmente bastante espaço no campo das memórias. Eu, como sempre, fui e voltei, perdi-me várias vezes principalmente na minha própria bagunça interna. Ela, ah, silêncio magnético, olhares com canto d’olho , novo par de óculos (não sei o que se passou com o primeiro vermelho, agora é um rubro-negro), diversos pingentes que se alternam semanalmente em seu peito, tudo, continuava a mesma da época que a conheci: incrivelmente encantadora e me atraindo cada vez mais. Não que ela não tenha se perdido também, claro que sim, é um direito dela. Não posso obrigá-la a fazer o que ela não quer, nada posso fazer contra isso, até porque, de certo modo, apoio essa causa. Acho que as pessoas têm mesmo é que se perder... sozinhas, acompanhadas, como for, desde que se encontrem. E, no caso dela, que se perca, que se vá, mas, por favor, volte.

Muita coisa aconteceu desde que saímos pela primeira vez, não só apenas entre nós dois, mas comigo e outras; ela e… Não quero saber se ela saía ou ainda sai com outros e não porei na mesa todas as minhas cartas. Curiosidade havia, mas eu sei, ah, como eu me conheço nesse sentido, que surgiria em mim um ciúme que despertaria um sentimento de posse que outras pessoas costumam manter quando namoram. Não, espera, eu e a moça dos gostos estranhamente compatíveis não assumimos namoro, nem mesmo um ano depois. Do meu lado, não desejava que criássemos um laço que apertasse tudo entre nós que flui muito bem. Não que eu não quisesse construir um império ao lado dela. Nossa construção era algo que eu chamaria de intangível, silenciosa, invisível pra vocês. Conversávamos sobre namoro, mas de outras pessoas e o que achávamos de coisas estúpidas que alguns casais se submetiam. Pagar mais de cem reais num par de argolas de metal (imagina, com essa grana dá pra comprar bastante comida e livros), seu par quer exclusividade e obriga distanciar-se das velhas amizades, ligar a cada novo passo para alertar que está dando um novo passo, ir a eventos que não gosta só para "agradar" (aí ambos não se divertem), etc. Esse negócio de aliança no dedo é, segundo ela, pra marcar território e eu completava que “o importante é manter firmes as alianças com o amor de Jesus”. Obviamente, ríamos juntos.

Distanciei-me de minhas amizades, mas não por causa dela, a estranha, foi por causa da naturalidade em que surge a distância nas relações interpessoais, ela simplesmente aparece do nada como um fantasma que ninguém quer por perto. Coisa natural da vida, convenhamos, “as pessoas vão embora”, como gritou uma das moças com quem me envolvi quando a informei que não queria mais seguir com ela do jeito que estávamos (e decidi seguir em busca de algo sério com a mulher que cantou “I wanna hear what you have to say about me” comigo em São Paulo). “Algo sério”, não saberia definir o que seria isso, nem se seguimos de fato desse jeito. Não houve nesse mais de um ano uma reunião que definisse o status entre nós dois. Tínhamos, acredito, certa dificuldade para levantar determinados assuntos ou era apenas paranoia minha que atrasava tudo. “Paranoia”, pra não dizer “medo de abrir a boca e ouvir o que ela tinha a dizer", pois, sim, eu tinha isso às vezes e sei que podia estar perdendo a oportunidade de que ela falasse algo que pudesse me motivar  ainda mais a seguir nessa nossa estrada, mas tinha e ainda tenho medo de ouvir o que não quero. Ou algo ruim, aí entra o terror. “Ah, mas olha o tipo desse cara se rejeitando a ouvir o que a guria tem a dizer”. Se tivesse que falar, ela vai falaria, eu sei. Mas, calma lá, não é que eu não queira saber o que se passa na mente dela, mas cogitar que algo negativo em relação a nós passa por sua cabeça me assusta muito, porque realmente não quero que tudo isso acabe de forma dolorosa. Quer dizer, acabar vai de qualquer jeito hora ou outra, mas não quero sofrer demais. Apesar de dor ser um item obrigatório na aterrissagem dessa viagem, prefiro pegar o pacote básico. Minhas analogias metafóricas que só eu entendo...

Agora vocês vêm me perguntar como anda nossa vida sexual. Se corre a mil por hora ou estagnou no zero. Olha aqui, ninguém mais preza pela intimidade particular. Intimidade. Particular. Redundância? Sim, porque o termo “intimidade” se desfez com o tempo, foi remoldado e adquiriu novas formas líquidas. Tipo aquela em que as pessoas têm a grande necessidade de mostrar tudo a todos. Beijos públicos, agarramentos em festinhas, gêmeos siameses no ônibus... Ora, não, por favor, dispenso tanto esses tipos de exposição quanto ficar falando sobre intimidades entre duas pessoas para outras. Não, obrigado. Aliás, não é só de sexo que um casal sobrevive. Tem mais. Todo ser humano aliás, até os solteiros, tem o que fazer além daquilo. "Por que o sexo é a definição de ser próximo de alguém?", como disse o vulgo Donald Draper.

Quando disse, há 365 dias, que deixei meu desejo explodir, não esperava que fosse algo tão fora de controle. Comecei a juntar os pedaços, me distraí, me perdi, fui a outros lugares procurar o quê acreditava me faltar. Ah, esse meu jeitinho cretinamente babaca de ser. O que mais me espanta é toda a paciência dela pra esperar eu me encontrar. Ela deve ter nascido de dez meses de tanta calma que tem nesse corpo compacto por fora, imenso por dentro. Essa coisa de gestação faz muito sentido: saí da barriga da minha mãe logo no início do oitavo mês. Ansiedade.

Preciso de mais espaço e tempo pra expor nossas vivências, aquelas que não rompem a barreira da intimidade, pois acredito seriamente que a união de nossas vidas, desde antes de nos (des)encontrarmos (juntos), deveria ser contada num livro, num filme, num disco, numa série, num anúncio publicitário, numa igreja, num encontro de dependentes químicos ou apenas para nós dois.
Não conversamos, eu e ela, sobre alguns assuntos, porém, entendo que fica subentendido entre nós o consenso de que não falamos de tais coisas e ponto. Ou, eu e meu “pensar quarenta e 12 vezes antes de agir” julga um erro pôr essas coisas na pauta. Eu sou um belo de um covarde pra certas coisas.
Já acho meio desnecessário ficar expondo minha vida, mas “I am a pretty anxious person and creating is a way for me to deal with it” (DELPY, Julie), ainda mais sobre romances particulares. Criar, escrever, imaginar, viajar, que seja, é preciso. Dentre outras coisas, algo que me agrada nela, a magnética-hipnotizante-minha-vontade-de-envolvê-la-em-meus-braços-se-mostra-quando-o-ar-fica-pesado-e-meu-corpo-começa-a-ficar-mole-fazendo-com-que-eu-precise-me-escorar-em-algo, é esse jogo de referências que participamos. Pelo menos enxergo isso, vai ver apenas eu, vai ver ela nem se empolga com isso. Às vezes, penso que estou numa ficção. Não sei se sou Franz, Dean, Martín, Alex ou eu mesmo. Perco-me em minhas próprias ficções, aquelas que escrevo em minha mente antes de ela chegar, no meu caderninho pra ninguém ler ou aqui. É muita coisa escrita, pensada, guardada, vivida. Posso ser a soma disso tudo, dos personagens, que, somado a toda essência dela, que também recebe influência ficcional, algumas diferentes das minhas, torna o nós algo muito diferente de tudo que assistimos, lemos ou absorvemos por aí. Nesse um ano e tanto, as referências aumentaram, assim como o que sinto por ela aumentou. Aí vocês me perguntariam: “Ah, mas o que você sente por ela? Amor?”, calem suas bocas, por gentileza. Não quero dizer, quero sentir, o que quer que seja. E se eu dissesse o que ainda não sei traduzir da língua das emoções, pode ter certeza que não seria para vocês. No máximo, num momento delirante, eu sairia pela rua gritando seu nome.
Falando em ficção, além de tudo que ela é, incluindo a dona do corpo que faz o meu amolecer e perder a força ao seu lado, seja por seu campo gravitacional ou magia divina, não sei; esta mulher considera filmes que te deixam despedaçado no final o melhor tipo. Sério, não dá pra mensurar o que senti quando terminamos “Alabama/Monroe” e olhei para cara dela de “e agora?”. Consegui apenas desejar envolvê-la em meus braços para afundarmos juntos. Enquete: O que leva duas pessoas a assistirem um filme trágico mais de uma vez? O que me levou a fazer isso? Ela. O que me leva a sair de casa num domingo, dia que costumava guardar para hibernar? Ela. O que tem me curado do astigmatismo na vida? Ela. Ela, seu um metro e “altura que bate nos meus ombros”. Ela e seu olhar desconfiado quando começo a encará-la com meu apelo em forma de olhares dizendo “beija-me antes que eu me afunde sozinho”. Ela e tudo nela que não consigo construir uma descrição metafórica ou entre aspas. Ela.

2013/06/22

... a dançarina

Ela era uma pessoa que me agradava pelas coisas que gostava. Somente. Afinal, era só isso que eu conhecia dela. Mas era justamente esse pacote todo de gostos que despertava um singelo desejo de passar um tempo com ela. Ficar com ela umas horas vendo os tantos filmes sobre os quais ela escreve. Nos intervalos, enquanto preparasse meu macarrão pra ela, ouviríamos os discos que ela tanto ouve.

Não sabia como ela funciona, não sabia se me adequaria as suas manias, não sabia se eu tinha sobre ela o mesmo poder que ela tinha sobre mim.

Não conversávamos muito, ela era uma antiga treta de um amigo meu. Portanto, eu me retinha em tentar algo por pensar que ele chiaria, mas, não, pelo contrário. Ele me deu seu aval (como se meu desejo fosse depender disso...) por acreditar que nos daríamos bem.

Eu interagia com ela, mas sem exagerar muito, sem acelerar as coisas, sem gritar “ô, olha eu aqui, goste de mim.” Tão lento fui que larguei mão.

Conheci uma garota incrível, que me curou de umas merdas que eu sentia. Eu queria construir algo com ela. Eu queria. Alguma coisa concreta, que equilibrasse nossas instabilidades.

Mas eu sempre fui daqueles que, quando enfim tinha algo, queria outra coisa.

A moça dos gostos estranhamente compatíveis com os meus começou a me cercar com palavras que, acredito, eram só comentários dispersos sem intenções direcionadas a mim. Com certeza, ela não tivera a intenção de me chamar dizendo tais coisas sobre determinadas coisas. Mas, então, aderi ao hábito de relacioná-la a certo disco de um cara da terra do São Patrício.

Eis que então o tal irlandês anunciou show em São Paulo. Obviamente, lembrei diretamente dela. Puxei conversa sobre o tal evento e ela se empolgou com a ideia de uma viagem. Eu tentei não me iludir, pois é bastante normal as pessoas se mostrarem dispostas quando é anunciada uma apresentação internacional qualquer. Porém, no dia seguinte, ela veio falando que conseguiria umas passagens de avião mais baratas:

- Eu tenho um monte de milhas acumuladas.

- Daria pra quantas passagens?
- Duas idas e duas voltas.
- Pra nós dois?
- Seria muito estranho viajarmos sozinhos, só nós dois?
- Acho que não.
- Mas você tem namorada, não tem?
- Sei lá, é complicado...
- Cê acha que ela liga?
- Acho que não, e o teu namorado?
- Enfim, tenho que ver com duas amigas minhas se elas vão, porque se elas forem nem rola essa parada de avião.

Dois maltrapilhos, largados, sozinhos, matando tempo até a hora do show. Conversando. Parecíamos Celine e Jesse. Só que ao invés de Áustria, França ou Grécia, era São Paulo.
E ela era adorável. Não a cidade. Ela. Fora o fato de conhecer mais filmes favoritos em comum, ela me jogava na cara motivos para... Je nes sais pas.
Não queria agir como se estivesse flertando, a fim de coito ou querendo qualquer outro tipo de “segunda intenção”, até porque eu não sei flertar. Estava sendo eu mesmo. Escarrado, escancarado, largado, grosseiramente carinhoso, carinhosamente grosseiro, torto, apaixonanteado, tímido, falante...
Passamos em frente a um cinema de rua e xingamos nossa cidade por não ter desses - que não fossem pornôs. Empolgava-me demais pra falar sobre cinema. O problema é que não conseguia dissertar claramente para traduzir meus sentimentos por um filme:
- ... Cê nunca assistiu? Nossa... Esse filme é.... Killer Joe! Puta que o pariu... – movimentava meus braços num gesto de expressar grandeza. - Ah, é demais...
Ela sorria belamente, mas entendia nada. Sabia, porém, desde o começo, que eu amava falar sobre isso. Ela também:
- O Annie Hall é legal, porque o noivo... Ele é todo ferrado e infeliz... Pessimista, desgraçado, irônico... Gosto desses filmes sinceros.
- Não há filme mais sincero que "Blue Valentine".
- Ai, muito amor por esse. Mas por que é o mais sincero?
- Por que mostra um relacionamento de um jeito muito verdadeiro. Desde o começo fofo até o desfecho trágico em que os dois não se aguentam mais. Amor, casamento, enfim, relacionamento é isso. Blue Valentine é perfeitamente sincero.
- Closer entra nessa lista?
- Ó, estranha... Closer tem uma pira diferente, é mais tipo novela com uma sinceridade afiada e bonita.
- Falando em Closer, acho que já tá na hora...

Durante uma das músicas bastante esperada por nós dois, percebi um suspiro vindo do meu lado esquerdo. Quando olhei, ela estava secando uma lágrima que escorrera. O lugar estava tão abafado, que embaçava seus óculos de hastes vermelhas. A canção terminou, olhei pra ela, peguei os óculos e limpei as lentes com minha própria camiseta. Ela sorriu toda tímida e desconcertada. Agradeceu.
O show terminou. Encaramo-nos completamente empolgados pela alegria de ter presenciado tal ato. Olhamo-nos com cara de “E agora?”.
Em momento algum, foi minha intenção dar em cima dela. Não que eu não estivesse a fim dela. Pois, sim, desde quando a conheci. Ainda era cedo. Digo, cedo para pegarmos nosso voo. Preferimos ir ao aeroporto para matar tempo do que de ficar vagando pela cidade escura enquanto a hora do avião estava distante.
Havia um ponto de táxi perto do bar, d’outro lado da via. Quando fomos cruzar a rua, ela pegou no meu braço. Durante toda a travessia, ela deixou-se ser guiada por mim, como se eu soubesse aonde - figurativamente - deveríamos ir. Senti seu dedão acariciando minha pele, subindo e descendo, leve e disfarçadamente. Porém, eu senti. Não só o carinho. Parecia que ela queria que eu a levasse... Wherever... Parecia que ela pensava que eu sabia onde estávamos indo. Eu apenas sabia que meu coração pulsava escandalosamente.

E esse foi apenas o fim do meu desejo retido. Explodiu.