2010/12/14

Admiração (Aquele Hermético Recíproco)

Alberto era, felizmente, o cara mais, despropositalmente, lindo e fofo do meu mundo. Diz coisas que, sem querer, são tão bonitas e cativantes. Qualquer garota amaria tê-lo ao seu lado dizendo aquelas graças mas esse privilégio era meu somente.
Sem dinheiro, disléxico, desempregado, tímido, calado, inteiramente meu; cheio de roupas sujas, velhas e rasgadas: esse é apenas um conjunto dentre 280000 definições daquele garoto tão...
Conhecê-mo-nos no dia treze de Abril. Segundo ele, já andava me observando há tempos; porém foi nesse dia que ele finalmente, felizmente, decidira se apresentar a mim. Pra quem não sabe, treze de Abril é o "dia do beijo".
Declarou seu amor platônico, sem sequer me tocar, focando meus olhos; expondo seus convincentes argumentos. E seus principais "defeitos": teimosia, orgulho, ser mimado, possessivo e "quando tem algo não larga desse algo até enjoar". Era lindo vê-lo gesticulando como se apossava de algo, puxando-o para si e apertando contra seu peito e dizendo: "eu quero, é meu, meu, só meu, não largo!". Esclareceu, também, que se o sentimento fosse recíproco ele não abandonaria o romance como quando enjoava de um brinquedo qualquer. A cada palavra solta por este garoto-poeta-tão-apaixonante eu me tornava cada vez mais confusa pois me estava vivendo um romance; conturbado era, confesso, mas era um romance. A cada palavra solta ele assassinava cada vez mais meu sentimento pelo outro rapaz. Ele matou um romance que não era dele e foi melhor pra nós. Como Alberto mesmo descreveu ser um "defeito" seu, foi teimoso até eu me tornar inteiramente sua. Defeito? Se não fosse por isso eu estaria, talvez, frustrada por ter continuado naquele romance que Alberto assassinou com a minha permissão; estaria, talvez, decepcionada por estar com alguém que não era pra mim. "A vida é feita de escolhas e eu não poderia ter escolhido caminho melhor que o teu," Alberto.
Ahr! E como eu sou feliz por ter ouvido aquele garoto tão, expressivamente, confuso, disléxico, convincente e, naquele dia, desconhecido. Ainda é um desconhecido, conheço-o pouco mais a cada dia que se passa desde que daquele dia 13 e quero morrer sem ter conhecido todo aquele ser hermético que chamo, com todo o prazer e toda a convicção, de "meu".
Ahr! Ele é tão folgado (óbvio, após ter conquistado toda confiança, liberdade, carinho, respeito e reciprocidade) ao ponto de não me chamar de "Alice", me chamar de "Ei,..." e prosseguir com o que quer dizer.
Ahr! Como eu adoro esse garoto brincalhão, que no dia treze de Abril disse que se fosse um daqueles caras galinhas, ao invés de ter se declarado sinceramente, teria dito "E aí, gata, tá a fim de comemorar o dia do beijo comigo?"
Ahr! Como era bom ter "liberdade pra poder falar sobre o que se sente e o que já foi sentido" não só entre nós mas no passado também, com outras pessoas. Alguns outros casais tem liberdade apenas sobre uma cama no escuro pra mostrar suas genitálias a(o) parceira(o). Liberdade é, além disso e muito mais, como conversar com espelho: dizer o que quiser sem ter vergonha, sem moderar as palavras. Mas, claro, com respeito.
Em treze de março eu queria acreditar que em algum lugar dessa cidade alguém procurava por mim, assim como eu procurava por alguém. Alguém que procurasse alguém para ser "a sua garota". Eu procurava reciprocidade, alguém para ser "o meu garoto". Pensava que o "garoto decente" apenas existisse nos romances de livraria ou naquelas fotos do Tumblr. Mas de onde viria a inspiração para criar esses romances e essas fotos? Da vida real! Mesmo que pareça utopia, encontrar o seu alguém decente, não é. Utopia é ganhar na mega-sena, é Os Simpsons, é implantar o Socialismo em nosso país; é descer do ônibus, em Curitiba, às seis da tarde sem ser atropelado por quem embarca.
Tem louco pra tudo! Por mais estranho(a) que você seja. Ele me fez acreditar nisso. É como ele mesmo diz: "Para se conquistar algo necessário é preciso 'Acreditar (nesse algo necessário) e Batalhar.'" Acredite e batalhe. Pode demorar três dias, três anos ou uma década, calma, tua hora vai chegar.
Alberto me fez acreditar nele e no amor e batalhar pela felicidade. Graças a nós, eu vivo e é recíproco.
Sem ele não há eu, sem eu não há ele.
Somos nós "ao infinito e além!"

2010/10/21

O que há...?

Onisciente é aquele que não precisa descobrir coisas novas, que não quer saber mais, pois tem ciência de tudo.
Alberto não pretendia nem precisava ter onisciência do mundo, precisava apenas conhecer mais e mais sua mulher, suas carências e felicidades. Para isso, era necessário estar com ela, conhecê-la e precisar dela, mais.
Tudo era meio confuso. Alberto havia deitado em sua cama vazia há algum tempo, e pra dormir era preciso ficar vagando por inúmeros pensamentos, planos e teorias. Ainda mais quando sua mulher estava longe: dormindo na casa de sua mãe, de onde não podia dormir fora até adquirir poder e independência para morar sozinha ou com Alberto.
Para Alberto, desde o início, aquela relação surgiu diferentemente das outras: malditas ilusões, relações não-recíprocas. Para Alice, no começo, parecia diferente mas, mesmo assim, ela temia que fosse apenas mais um grande erro. Para alegria de ambos; além de ser real, era recíproco e sincero.
Ele fez de tudo para provar que não estava enganando a si mesmo. Ele batalhou para convencê-la de que ele era o cara certo; aquele que a faria bem, que estaria ao seu lado em qualquer momento. Angústia, tristeza, raiva, alegria, sonho, sono. Ele precisava que fosse recíproco.
Ela exigia mais convicção de si mesma. Ela lutou contra seus traumas e pesadelos para estar certa de que ele era quem ela queria mesmo. Ela precisava de um abrigo, que a confortasse nas tempestades indesejáveis de coisas desagradáveis. Ela exigia que fosse recíproco.
Eles queriam mais. Overdoses, risos, sorrisos, abraços, carinhos, consolos, conforto, certeza, reciprocidade. Eles queriam, podiam e precisavam de mais.
Sem sono e sozinho, Alberto gostava de deitar-se para poder: arquitetar novas maneiras de conquistar sua mulher, pensar nas alternativas que tinha pra vivências futuras, refletir sobre o que fez de bom ou mau pra si e sua mulher, e para tentar entender o que estava vivendo. Era uma chuva em sua mente; palavras, fatos, atos, fotos, frases, certezas, medos etc.
Era um tormento para Alberto tentar dormir sem Alice, sabendo que ela está longe. Mas era só ele olhar pela janela, avistar a Lua e relembrar que eles não estão tão distantes. Estavam sobre o mesmo céu. Sobre o mesmo luar, que os fazia sorrir e lembrar das noites de lua cheia e céu estrelado que passaram juntos.
Ainda eram crianças. Ainda não tinham o poder de fazer tudo, tudo, o que desejassem. Ainda eram subordinados à seus pais. Ainda tinham medo da sair da casa de seus pais. Embora almejassem muito a liberdade de estarem juntos, morarem juntos. Ambos, porém, temiam que a rotina de um casal que mora sob o mesmo teto pudesse destruir o sentimento que os mantia juntos; que o convívio exagerado pudesse fazê-los enjoar, enojar, um do outro. Mas eles adorariam conviver, dormir na mesma cama, dividir o mesmo quarto etc.
O mundo e seus habitantes planejam muitos conluios para separar pessoas. Alice e Alberto sabiam disso. E faziam de tudo para que as armações do universo não os derrubasse, não os distanciasse. E se algo os derrubasse, seria por vontade deles mesmos.
Quando uma pessoa tem uma vontade incontrolável ela pode fazer coisas erradas. Se essa pessoa tem vontade de ter outra pessoa, ela encarna seus instintos primitivos e apela ao indesejável para conquistar, mesmo sem consentimento, a outra. Alberto tinha medo de que algum ameba (sem ofensa aos micro parasitas) abusasse de Alice, por ela ser tão pequena. Aliás, essa grande qualidade, a altura, o fazia sentir-se obrigado a abrigá-la em seus braços.
Pois é, Alberto viajava intensamente em seus pensamentos pré-sono. Muito do que pensava, e do que dizia às paredes, não tinha coesão nem coerência. Ao se desentender consigo mesmo, ria sozinho de sua loucura. Que em partes, era proporcionada pela grande felicidade que Alice o fazia sentir.
Desde o início, ele disse para Alice e ao mundo que aquele sentimento não parecia real, que parecia um sonho. Mas ele não queria que fosse um sonho. Queria acreditar cada vez mais no ditado “tem louco pra tudo”. Ele era incapaz, antes de Alice surgir em sua vida, de acreditar que encontraria alguém decente que fosse capaz de fazê-lo bem, de fazê-lo acreditar que sonhar não era em vão.
Antes de Alice, em seus tempos obscuros, ele insistia em gritar pra si mesmo que deveria acreditar que haveria alguém e , quando surgisse, batalharia por esse alguém, caso tivesse certeza.
E, depois da morte, Alice é a maior certeza que Alberto tem.
O que há com Alberto para ele não querer outra? O que há com ele para precisar tanto dessa pequena? O que há com Alice para querer tanto viver com Alberto? O que há com ela para querer realizar seus sonhos com ele? O que há...?
Ora, eu, mero narrador, não sei nem quero saber, não é meu assunto. Eles que se virem pra descobrir. Isso se eles quiserem. Ficar pensando muito no que os faz ficarem juntos é desperdiçar o tempo que podem gastar vivendo.
Alberto gostava de ficar viajando. Mas preferia, sempre, estar com sua mulher. Já que isso não era possível ele viajava. Mas dizia pras paredes e pra si mesmo: Minha cama está vazia mas é por pouco tempo. Minha vida está cheia de Alice e é pra sempre.
Enfim, ele dormiu. Não sonhou.
Afinal, pra que sonhar enquanto dorme se ao acordar ele viverá tudo aquilo que sonhou antes de conhecer sua mulher?
“Bom dia...” O despertador tocou, Alberto despertou, sorriu e cantou mentalmente:
-“É um ótimo dia para estar vivo, é como se eu pudesse respirar pela primeira vez. Estou realmente vivo”
Ele tinha ciência que, ao despertar, sua mulher diria o mesmo e “wish you were here...”

2010/09/30

Concretismo

GADRO, GADRO...

resolvi experimentar uma desconhecida DROGA
mesmo antes usando OUTRAs
não passaram DE ilusões destruidoras
foi PRECISO coragem para
NÃO dar espaço à dor




Bagunçado Concretista Poema Primeiro 5X5

Estar Longe Do Que Preciso
E com que saudade aguento
Gostar de você eu quero
Só você precisa é poder
Necessidade fome tenho de tudo

2010/08/02

Depoimento de um viciado (Microconto psicológico)

Aqueles beijos de vinho e o extremo conforto me deixam mais doente, mais viciado, mais louco por você. O que faço?
Estou tão viciado que, no momento, em nosso caso, me contentaria muito em ficar com você em qualquer lugar, onde quer que fosse, com quem quer que fosse.
Liguei o foda-se, quero você e ponto.
Eu sei que eu tenho você. Acho até que é a única coisa (respeito! coisa não, é pessoa! a unica pessoa) que eu realmente tenho. Mas eu quero te ver, te abraçar, te ter, quando a vontade surgir.
Sabe, estou ali, de repente quero te ter e é só eu ir até você. Entende?
Estou de "bad", e ficarei até o próximo encontro.
Quando o carro foi indo, eu sorri, e geralmente eu sorrio porque não consigo chorar.
Eu sei, eu sei. Só não sei porque temos que estar distantes agora, não entendo, não aceito. Ó, entendi, malditas táticas do vício! Temos que estar distantes agora para que num futuro não tão distante possamos nos manter juntos. Eu estudo, você encontra um emprego que dê pra sobreviver e seremos felizes em algum lugar. Não sei porque estudamos, vou morrer mesmo. É tão desnecessário, né?
Ó, malditas táticas do vício!
Não preciso estudar pra me sustentar através dos meus livros. Alias, pensando bem, nao sei porque estudo. Ah, estudo a vida.
I Want You. I Want You.
Quero crescer contigo. Quando eu crescer: quero ser o teu homem, quero ser o homem da tua vida. Convicção é meu sobrenome do meio.
Smother me, smother me...
Eu quero, quero muito. E nós temos uma vida pra isso. Logo estaremos juntos e eu vou te sufocar de tanto abraço, beijo e amor que te darei.
Smother me, smother me...
Você me apresentou tantos sentimentos, tantas emoções que eu muito faço pra retribuir. Aliás, você me faz acreditar em algo que eu desacreditava, amor.

2010/07/07

O seguidor - Exclusivamente particular

"...just hold me tight.
Lay by my side
and let me be the one..."
The Used - Smother me



___________________



-Bonita sua namorada. Alias, acho que a conheço de algum lugar.
-...Ah, ela me disse que vocês já ficaram.
-Não, sai fora, sou hetero!
- Tô de brinques!


___________________



-Oi, Alice. O que faremos no sábado a noite?
-Oi. Puts, não sei. Alguma ideia?
-Sim, um pessoal me chamou para uma outra festa. Estou afim, vamos?
-Uau, pode ser... Te ligo depois, vou entrar na aula agora. Beijo, Alberto.



___________________



 A rotina era o unico problema no relacionamento de Alberto e Alice. Ainda mais para ele, que estava estudando intensamente, em ano de pré-vestibular. Ela, apesar de ser mais nova que ele, já era universitária. A unica preocupação da família dele, era que ela pudesse atrapalhar seus estudos, mas ele não teve culpa de conhecer a garota no mesmo ano de vestibular. Eram suas duas únicas prioridades, externamente, a principal era o vestibular, mas internamente, ela dominava seu ser.
No meio de semana, eles se encontravam poucas vezes, por pouco tempo, pela rotina de estudos que ambos seguiam. O fim de semana era intenso, overdose. Exceto pelo sábado a tarde, quando ele tinha aulas de revisão. Mas depois da aula, era Alice até a madrugada de segunda, quando ele a trocava pela rotina.
Geralmente, eles ficavam pelo centro da cidade, bebendo, conversando e observando as pessoas e o céu. Raramente, eles iam a alguma festa, bar ou show. 
Não era a intenção de Alberto fazer amigos no Cursinho, mas a necessidade de comunicação e distração o aproximaram de algumas pessoas. Ali ele tinha poucos amigos, como sempre foi. E como sempre ele se aproximava de pessoas com gostos e interesses semelhantes. Num dia qualquer, uma amiga o convidou para uma festa. Ele foi, junto com Alice. Lá, eles ficaram isolados do povo. Na segunda-feira, seus colegas comentaram sobre sua garota. "-Que bonito vocês dois no canto, conversando." "- Vocês combinam.".".. acho que a conheço...". Na mesma semana, a mesma amiga o convidou para outra festa. No mesmo dia ele informou Alice sobre a festa. Depois de mais uma semana cansativa, o sábado chegou.
Já era de praxe Alice esperar Alberto na saída de sua aula. Desta vez, o casal precisava esperar uma galera para irem juntos à festa.
 O Colégio foi o ponto-de-encontro da galera. Enquanto alguns ainda não chegavam, Bertô apresentava Lice aos colegas.

Era a segunda semana em que eles iriam a um festa cujo organizador é colega de Alberto. Na semana passada, eles foram numa junina feita por Norah. Em qualquer festa, Alberto e Alice preferiam ficar isolados, no canto, conversando, tanto que ninguém a conhecia e ele não teve a capacidade de apresentá-la   aos seus colegas.
Na segunda-feira, fora novamente convidado para outra festa, e Norah,que estava na festa passada, comentou para Alberto que acreditava conhecer Alice de algum lugar.
Enquanto o povo restante não chegava, Norah comentou:
- Alice, esse teu namorado é um palhaço! Disse pra ele que você era muito bonita e que achei que te conhecia de algum lugar,-Alberto encarou Norah como se a ordenasse parar de falar- e ele bem assim: "Ah, ela me disse que vocês já ficaram.", mas tipo, eu ri, porque eu sou hétero e tenho nojo de lésbicas.

O que ninguém, além de Alberto, sabia era que Alice fora fortemente apaixonada por uma garota, antes de conhecê-lo. E ele foi o responsável por fazê-la esquecer aquele maldito platonismo corrosivo. E Alice odiava citações homossexuais. Ela tinha péssimas lembranças do tempo de ilusão e auto-mutilação. Ela não podia ouvir qualquer coisa relacionando seu nome ao homossexualismo
Alberto dizia muitas coisas sem pensar, sem querer ofender, mas algumas vezes magova alguém, e se arrependia depois. Ele tentava controlar essa patologia, mas era do subconsciente, era impulso, era desproposital. Alice sabia disso, desde o início tentou viver com essa doença dele. Mas às vezes ele se superava, e ela se machucava. Foi o que aconteceu neste sábado.

Alberto estava sem reação após ouvir Norah. Ele não achou que sua colega contaria sobre sua brincadeira da segunda-feira. Ele não imaginava que Alice saberia da brincadeira.
Norah percebeu que havia feito cagada, e se calou.
Alice preferiu pensar, calada, numa reação, que não piorasse ainda mais sua situação, e de Alberto. Ele errou, mas não era por isso que ela deveria agir inconscientemente e errar por vingança. Sua opção foi virar as costas e começar a andar, calada, sozinha, em direção a sua casa.
Alberto também preferiu pensar; entre ficar ali e correr atrás, preferiu seguir Alice. Antes, encarou Norah e a mandou à merda. Então, ele correu.

Albertou correu até Alice. Ela apressou o passo, ele imitou. Ela estava indo pra casa, ele iria onde fosse para se explicar e pedir perdão. Ele iria onde ela fosse, em qualquer situação.
Ambos calados, pensando no que dizer.
Como penitência, ela mantinha silêncio. Porque ele sabia que era errado fazer aquele tipo de brincadeira.
Já era noite. Ela tinha medo de andar sozinha a noite, então aceitou sem dizer a presença de Alberto.
Ele pensava, e pensava, e quanto mais pensava, mais confuso ficava, e menos sabia o que dizer. Sabia apenas, tinha certeza, que seguiria sua garota onde ela fosse.
Eles não eram de brigar. Quando havia um desentendimento, conversavam depois de pensar no fato.
Eles não tinham o que conversar, Alberto deveria se explicar, perdir perdão mais uma vez e convecê-la de que, mesmo com a infantilidade, ela deveria ficar com ele; segundo as promessas: pra sempre.
Ela morava longe, a trinta minutos de onde estavam e precisava tomar um ônibus para chegar em casa. Quanto mais próximo o ponto d'ônibus ficava, mais ela acelerava o passo. Alberto foi seguindo.
Ele sabia que já havia errado bastante. Ele sabia que precisava mudar. Ele sabia que ela poderia dar um fim no romance. Ele sabia, principalmente, que não conseguiria mais viver sem tê-la ao seu lado. Ele sabia que era recíproco. Mas ele sabia que ninguém é obrigado a tolerar suas babaquices.
Finalmente, chegaram ao ponto, que estava vazio. Alberto havia pensado no que dizer, pelo menos em como começar a dizer:
- Olha, eu não quero dizer as mesmas coisas que digo toda vez que faço algo errado! Você não quer falar, tudo bem, concordo, mas você ainda têm ouvidos, então, me escute, mesmo que eu trave dizendo verdades que me machuquem...
O ônibus chegou, ela entrou. Ele, sem convite, entrou também. Ele continuou:
-Porra, Alice, porra! Tu sabes que eu ajo desse jeito com todos, amigos, familiares, desconhecidos e você. Sabe que é um sério problema mental que eu tenho. Sabe que é sem pensar. Sabe... Nunca é minha intenção te magoar. Quando você está longe, pra evitar que pense besteiras, eu começo a brincar, me distrair, e nunca é minha intenção te fazer lembrar daquele passado maldito...
"Nós já tentamos destruir esse meu defeito, lembra? Mas nós descubrimos que ele não morre, ele só pode ser controlado. Pouco me importo com qualquer outro, mas com você é diferente... sempre foi, desde o início. Foi diferente na conquista, na convicção, no primeiro beijo, em tudo! Por favor, seja diferente e me perdooe, mais uma vez. Não me ignore. Eu sei que eu sou um idiota, eu sei que eu errei, eu sei que eu digo as mesmas coisas quando erro. E você sabe que é um problema incontrolável. E eu sei que eu não deveria ter brincado sobre aquele assunto, mas você sabe que eu apelo a qualquer coisa pra fazer alguem rir. Você sabe, eu sou um palhaço natural e desproposital... Escute tudo, continue me ignorando, e quando quiser falar, estarei ao teu lado pra te ouvir..."
E ele prosseguiu com seu sermão, ela prosseguiu com seu silêncio, a hora de descer do ônibus chegava.
Ela desceu, ele seguiu. A rua era escura, Lice estava com medo, mas disfarçava, ele não se importava, acompanhava o silêncio observando seu maior vício andar e ignorá-lo.

Desde que entenderam que estavam realmente dependentes, fisica e mentalmente, um do outro, começaram a brincar, que ambos eram drogas, e ambos estavam viciados em suas drogas, drogas exclusivamente particulares. Às vezes as drogas causavam alguns danos, mas era tolerável, nada que impedisse uma nova overdose.
Cinco quadras de caminhada e eles, enfim, chegaram a casa de Alice. Alberto, que ainda não conhecia, se impressionou com o tamanho e a beleza da casa. Ainda era cedo, 20h, então Alice não se preocupou em tocar a campanhia, da própria casa. Ela não tinha as chaves de sua casa. Uma voz atendeu, liberou o portão, e antes de Alice entrar, ela pronunciou:
- Na minha casa você não entra!
Não era nem pelo erro, Alberto não entrava na casa de Alice pelo simples fato de sua família ainda desconhecê-lo. A mãe e os irmãos de Alice não sabiam da existência de Alberto, nem da importância que ele tinha na vida dela.
Ela entrou, bateu o portão, atravessou o jardim, abriu a porta da casa, entrou e bateu a porta. Alberto ficou ali fora, sem reação.
Por um segundo, ele teve vontade de partir e esperar que ela ligasse; mas não, ele não andou inútilmente para chegar até ali. Em pé, em frente ao portão, ficou ali, sozinho.
Alice deu "oi" à sua família, que estava na sala, fantasiou uma dor de cabeça, e foi para seu quarto. Se trancou.

Num intervalo de pensamentos, Alberto disse ao escuro:
- Pra piorar, poderia estar chovendo.
Não era intenção dele, mas funcionou como um prece. O céu, que não estava tão limpo, começou a se fechar. Nuvens surgiram do nada. Em instantes a chuva nasceu, intensa: como o romance de Alberto e Alice.
Alberto ignorou, continuou ali, sozinho. Depois de um tempo, a chuva passou, Alberto, inteiramente molhado, olhou as horas: 00:00
Ele achava uma besteira  de que: quando alguém vê que horas e minutos estão iguais, alguém está pensando  nesse alguém que viu as horas. Mas ele respeitava quem acreditva nisso, acreditava em Alice.
Ela era aficionado pela brincadeira, e acabou deixando Alberto esperto. Quando ele olhava o relógio, e o fato acontecia, ele lembrava de Alice, que era viciada nessa brincadeira.
Ele esperava que o "00:00" não tivesse sido em vão.
Ele lembrou de uma música, de uma das bandas favoritas de Alice, que dizia: "Não, não, eu não vou desistir assim..." Teimoso e persistente que era, disse à si mesmo:
-Eu só saio daqui quando ela implorar...

Alice, não estava pensando nele, estava relembrando os bons momentos e tentanto se reanimar com as lembranças boas.Não fazia ideia que seu garoto estava na rua, sozinho, esperando quem prolongava sua vida.
Alberto salvou Alice, como ela salvou ele da depressão e da vadiagem. Ela chegou em sua vida para estabilizá-la e pô-la de volta num rumo. Ele precisava de garantias que a mantivessem em seus braços. Começou a estudar.

A rua era escura, mas tranquila e livre de perigos. Perguntem se Alberto importava: Não, ele não se importava.
Uma das coisas que ele dizia que mais apaixonava e confortava Alice, era "Pergunta se eu me importo." Qualquer defeito irrelevante era destruído pelo jeito doce e compreensível de Alberto. Ele não se importava com defeito físicos ou materiais. Ele se importava em cuidar de Alice, em fazê-la feliz, em deixá-la viva. Se importava com Alice e com quem pudesse alegrá-la ou machucá-la. Motivo para se importar consigo mesmo.

Ele já ignorava as horas, mas não conseguia ignorar a dor que dominou suas pernas e seu pulmão.
A casa em sua frente começou a movimentar-se, um zumbido surgiu em seus ouvidos, o coração exigia mais ar para funcionar, o ar não obedecia, o escuro ficou mais escuro, o chão ficou mais próximo. Alberto desmaiou.

Alice pensava que Alberto já havia partido, tanto que estava esperando que ele desse um "oi" em qualquer rede social que participava. Mas ele não aparecia. Cansada, ela escolheu uma série de músicas e aumentou o volume. Ficou lá, deitada, sozinha, cantando, até adormecer.

Alberto foi recuperando seus sentidos. Primeiro, o pensamento. Depois, a voz, que fracamente pediu por Alice. Quando recuperou o tato, percebeu que onde estava deitado não era maisa calçada onde havia caído, era bem mais confortável. Enfim, voltou a visão.
Não estava mais na rua, era um quarto. Um quarto desconhecido em que a decoração se aparentava muito com o quarto de sua vó, mas não era pela cama de solteiro onde estava deitado. Ele simplesmente não sabia onde estava, e não encontrava uma pista que o respondesse.
Suas pernas e seu pulmão ainda doíam. Deitado, cansado, prefiriu ficar ali, quieto, agurdando a resolução do mistério: Que lugar é esse?
Ele ouvia um barulho, mas não sabia distinguir o significado nem a origem.
Pensando em Alice, se assustou quando a porta abriu. Entrou no quarto uma senhora dizendo:
- Como você está?
Alberto, meio com vergonha, questionou:
-Mas que lugar é esse? Quem é você?
-Meu quarto. Bernadette é meu nome.
Esse nome não lhe era estranho, ele já ouvira várias vezes mas não lembrava de quem... Alice, foi ela quem citou esse nome. Ele lembrou:
- Você... Não!... Você é a mãe da Alice!

Era ela mesma. Ela e seu outro filho, Caio, recolheram Alberto para sua casa, sem noticiar sua filha. Ela já conhecia indiretamente Alberto:
- Calma! Nem toda sogra é bruxa. Até mesmo porque toda sogra é mãe. Tua mãe é sogra, portanto não tenha ódio de sogras... Enfim, eu sei que você é o Alberto, o garoto que namora minha  filha, sem minha autorização... Mas fique tranquilo, a internet é incrível, me ajudou a descobrir esse romance sem sequer minha filha saber...
Era certo que ele ficaria pasmo ao saber disso. Mas lembrou da filha de Bernadette:
- E onde Alice está?
-No quarto dela, trancafiada, no escuro, com suas músicas.
- Que horas são? Quanto tempo eu fiquei desacordado?
- Já passou das três horas. Bom, quando eu e meu filho te recolhemos já passava da uma hora.
-Caramba... Não sei nem o que dizer.
-Não precisa. Se quiser dormir mais, durma.
-Não! Eu quero ver Alice!
-Bom, se você conseguir entrar no quarto dela... eu autorizo o namoro de vocês.

Quatro meses, e a mãe de Alice nem sabia. Como se fizesse diferença.

Alberto tentou levantar, mas uma tontura o fez sentar. Acalmou-se e perguntou a recém-conhecida sogra:
-Onde é o quarto dela?
- Vem comigo...

O som era aterrorizante, a porta estava trancada. Bernadette pediu silêncio. Alberto fez sinal de "tudo bem". A sogra foi embora. Ele se aproximou da porta. Reconheceu a música, era uma que ele odiava mas Alice amava.
Ficou em pé, em frente a porta, pensando no que fazer.
O nível de ódio da música seguinte aumentou, e foi crescendo, sucessivamente.
Ele sentou, na parede oposta à porta, de fronte a porta.
Um silêncio enfim surgiu. Alberto conseguia ouvir lágrimas vindas do quarto. Óbvio que eram de Alice. Ele sentiu vontade de chorar, pelos erros que a motivaram a chorar.
O silêncio deu lugar à calmaria de uma canção. A favorita do casal. Instantes após o início, a porta se abriu.
Alice, em lágrimas, permaneceu muda. Alberto, acompanhando a música, declamou:
- "...just hold me tight. Lay by my side and let me be the one..."
Alice atravessou o corredor, sentou-se ao lado de Alberto, deixou que os braços dele a envolvessem, e permaneceu muda.
Alberto, que não conseguia chorar por motivo qualquer, abraçou Alice fortemente, como se gritasse: "Eu sou o único, você não tem escapatória. Você é minha, tanto quanto eu sou teu."
Alice, brincando com os dedos de Alberto, como sempre fazia, disse calmamente:
-Porra, Alberto... - e deixou ser levada por Hipnos.
Alberto, perdoado, sentiu-se vivo mais uma vez, e acompanhou sua mulher na incrível jornado do sono.

Os dois ficaram ali, no corredor escuro, juntos, viciados,  até que a vida os chamasse para sair.