2013/10/14

Sensacionalismo

Prezada,

preste atenção,
ele preza muito pela tua companhia. O problema é que não sabe mostrar, não consegue dizer o quanto e o que quer. Não que ele não seja grato pela cumplicidade entre vocês dois, mas é que ele quer ampliar essa relação. Quer fazer crescer e dominar o mundo.
Ele se contenta com pouca coisa. Ele superestima qualquer demonstração de qualquer coisa. Ele romantiza (não só no sentido "romântico", é mais sobre as metáforas da vida, afinal ele tenta metaforizar sobre qualquer coisa) tudo. Um ato simples pode parecer algo grandioso pra ele. Um aperto na mão, um afago estendido nas costas, um abraço prolongado... Ao fazer isso, tua intenção talvez não seja gritar que o quer mais próximo, mas, pra ele, verdade, isso tudo pode aparentar a melhor coisa dos universos: vocês dois juntos.
Ele não sabe como dizer... Mentira, ele não CONSEGUE chegar e dizer “aô, moça, eu, olha eu aqui, eu quero você”. Ele sabe agir sutilmente, demonstrar aos poucos, subjetivamente clamar. Assim que ele começa a tentar qualquer aproximação, é bem claro que ele se desconcerta todo e deixa a oportunidade passar. Ele é todo atrapalhado pra tentar se mostrar. Ele começa a dançar com a labirintite e se perde todo. Ocupe o lugar de sua labirintite e o guie nessa dança tão esperada.
Você conhece muito bem o orgulho dele. Sabe que esse rapaz é teimosamente orgulhoso. Talvez por isso ele não consiga te dizer tudo. Mentira, o que o prende é o medo da negação.
Por fim, se você ainda não percebeu os sinais tímidos deste rapaz (Como não?) e compartilha de anseios semelhantes: Deixe-o saber.
Termina aqui o apelo de uma alma cansada (de querer e não agir).

(Escrito por Inácio)



"As pessoas querem pedras de diamantes, mas não correm atrás."
Aílton.

2013/10/13

... Tentar

Era um prazer o provocar. Parecia que ela conseguia entrar em sua mente. Coisas que ele não compartilhava sequer com as paredes de seu cubículo do sono, ela soltava por aí. Segredos que ele não mantinha, ela sabia. Mas ela evitava o rapaz. Ao menos parecia demonstrar que não o queria. Queriam só o flerte. Queriam só a distância. Queriam a contradição de querer, mas não agir. Não queriam andar. Caminhar e correr o risco de pisar em cacos de vidro (o que ambos eram: frágeis)... Não, era algo que dispensavam tranquilamente.
Ao mesmo tempo, necessitavam que alguém tivesse sensibilidade suficiente pra acariciar suas almas doentes.
Eram pessoas estranhas, de piras erradas e neuroses frequentes. E se atraíam por semelhantes.
Tanto se atraiam que a força se fazia contraditória e os repelia pros cantos errados da cidade.
Era um vai e volta de sinais desfocados escritos em nuvens explodindo no ar. Quero você, vem, te quero, afundemos juntos, senta do meu lado e vejamos tudo ruir etc. Mas ninguém fazia questão do mais importante: Falar e fazer.
Até que um dos dois se cansou dos flertes platônicos.
Esperou-a em seu ponto de ônibus sem a avisar antecipadamente. Ela acabara de sair da faculdade e só pensava em chegar em casa, qualquer coisa e desabar no sofá pra continuar suas leituras. Distraída com a música que levava sua mente a um palácio onde estava tudo bem, ignorava os errantes que circulavam naquela região de shopping e escolas. Até que ouviu:
- Você tem duas opções: ou foge de mim ou foge comigo.
Assustada, congelou. Tentou emitir a resposta, mas ela não era daquelas pessoas que sabiam improvisar nas falas. Ela não ensaiara nada pra dizer a ele pessoalmente. Surgiu-lhe um sufoco no peito. Misto de vontade de gritar, explodir, correr, abraça-lo, tudo junto. As pessoas do ponto os encaravam, mas os dois tornavam inexistente qualquer presença alheia naquele lugar.
Mesmo com tanto tempo de jogo, eles não sabiam como prosseguir. Se havia um manual, eles o trocaram por um livro qualquer.
Ela não sabia o que responder. Ele não queria mostrar os dentes ao sorrir pra evitar que outras coisas lhe fugissem (um grito, um abraço, um "responde logo e vem" etc), mas só a largura do sorriso tímido já mostrava que ele queria sair correndo dali. Correr com ela.
E foram. Sem palavras.
Ela não respondeu com palavras. Acenou para uma direção, então ele a pegou pela mão e foram.

Sem saber. Com o sentir.

2013/10/03

Incomunicáveis

A liberdade de falar o que quisessem era bastante ampla, mas um assunto era censurado pelos dois: os dois. A viabilidade de que existisse o termo “nós” entre eles não entrava em pauta nos extensos diálogos.
As pessoas diziam que os dois eram namorados exemplares no sentido de serem livres e independentes. Era admirável que eles não demonstrassem serem namorados, que eles conseguissem não andar colados o tempo todo, mas todos não sabiam de toda a verdade. Todos estavam errados.  O que era livre e saudável era a amizade entre ambos, eles se davam muito bem e não havia impedimentos para serem sinceros e reais um com o outro. Mas o tal namoro aparente almejado pela audiência era inexistente.
Se fossem oniscientes, saberiam que eram reciprocamente apaixonados, mas preferiam esperar que a outra parte dessa relação se pronunciasse. Ambos morreriam na praia se continuassem assim afogados em vontade.
Ele era todo pragmático e ensaiava métodos para expor o que queria (os lábios dela, mas que a liberdade entre os dois se mantivesse): Ficar bêbado junto com ela e aproveitar a espontaneidade para falar a verdade; escrever uma poesia e colar no ponto de ônibus onde ela passava diariamente; aproveitar um abraço de despedida e emendar um beijo ou escrever um conto imaginário que ninguém fosse ler confessando tudo para ela.
Ela era toda silenciosa para expor suas intenções com qualquer pessoa. Confabulava sinais que ele pudesse entender: Aproveitar brechas alcoólicas para explanar sobre o quão compatíveis eles são (por mais que discordassem em muito, entendiam-se e aceitavam as diferenças); aproveitar um diálogo sobre romances para dizer (enquanto mirava a luz da rua e acariciava seu próprio cabelo) que queria se apaixonar; pronunciar a ele que almejava a felicidade do amigo com quem quer que fosse a garota que estivesse no coração dele ou contar sobre os caras que conhecia na vida só pra que ele se sentisse provocado.
Ele iniciara o ano sem metas, numa vibe pessimista, mas com o passar dos meses prometeu a si mesmo que na próxima festa de réveillon diria: “Esse ano, não encontrei a mulher pra me fazer bem, mas tive coragem pra chegar naquela que conheço há tempos e dizer que era ela quem me fazia um homem melhor, por mais que eu tenha demorado quase cinco anos pra dizer isso.”
Ela dizia que queria se apaixonar em 2013, que cansara de tantos casos, mas descobriu que já estava apaixonada há tempos. Fossem pelas frases disléxicas, pelos sonhos megalomaníacos ou pelo sorriso tímido, ela estava encantada por ele.

Eles não sabiam como dizer, nem se deviam. Era um risco a ser tomado. Dizer tudo e (1) inaugurar um romance ou (2) arruinar uma amizade. Eles tinham medo. Ah, se eles soubessem que queriam a mesma coisa, tudo seria mais fácil, mas não haveria a sensação de conquista se a dificuldade em soltar a verdade não existisse. O alívio da confissão e a permissão pare serem mais livres entre si era algo que os motivava a tentar falar. Mas, por mais que falassem sobre tudo, eles não sabiam como dizer.
Ele não se preocupava mais em esconder o encanto que sentia por ela. Ela não se importava em ocultar que a presença dele era precisa. Estava tudo muito explícito, exceto as palavras.
Não era paixão, não era amor. Nada seria enquanto ficassem calados.

2013/09/11

Não existimos

Negamos a felicidade, pois nos privamos da dor. Sabemos que, com certeza, tudo acabará. Seja entre nós ou você e aquele cara ou eu e aquela mina. Tudo acaba entre todos.
Tudo acaba. Eu partirei. Tu partirás. Ela partirá. Ele partirá. Nós ... Vós ... Eles... Elas... “As pessoas vão embora!”

Utópico pensar no “para sempre”. Sabemos que é besteira acreditar plenamente nisso. As pessoas pensam demais no futuro e esquecem de fazer o presente. Planos, promessas, juramentos... Sou muito mais a fim de presenciar os momentos e eternizá-los na memória, mas, assim que partíssemos cada um ao seu rumo, todas essas lembranças se despedaçariam e sumiriam com o vento. O problema não é amar, é o depois. É viver infectado pelas vivências passadas que percorrem as veias sugando todo seu potencial para sobreviver. Depois que o romance acaba, a dor da saudade machuca. Obriga-nos substituir o vício que tanto nos satisfez. Depois que o romance acaba, a corrente está tão enrolada que nos faz sangrar ao tentar fugir.
Dirão que insisto nas paixões antigas, mas não. Não. Hoje, são apenas lições. Do que fazer. Do que não fazer. Do que sentir. Do que não sentir.

Negamos a felicidade, pois nos privamos da dor. Não é proibição imposta. Apenas moderamos. Para evitar que um de nós cisme em acreditar na longevidade desse romance. Pode durar 214 dias. Pode durar 30 anos. Pode durar um flerte no ônibus. Pode durar uma tragédia. A gente não tem que saber prever, a gente tem que fazer. A gente tem que ter vontade pra começar, terminar e partir.

No fundo, quem sabe, estejamos tão pessimistas apenas ansiosos para viver um romance cativante. Talvez esse pessimismo não passe de inveja sobre aqueles que conseguem viver algo forte. Mas eu sei até que os castelos mais estáveis desabam. Tenho histórias pra contar. No fundo, quem sabe, essa alergia ao amor seja só autoproteção. Medo.

A gente sente saudade do que não tem. (Ter alguém). Aliás, “ter” é algo simplesmente utópico. As pessoas “possuem” por pura convenção. Ninguém pertence a ninguém, mas viver com a sensação que faz parte do cotidiano de alguém... Tira a insônia e traz calma. O problema está em priorizar demais essa posse intangível. Impor que alguém é o mais importante na vida já começa errado e piora cada vez mais conforme a neurose possessiva aumenta.
Portanto, o que quero dizer é que não quero ser teu, não quero que sejas minha. Não ligo se você sair com outros caras. Desde que você deseje passar um tempo comigo, ficarei bem. Passar um tempo ao seu lado (presencialmente). Aguentar teu pessimismo, tua agonia, teus plurais. Mas não me peça para te ajudar a solucionar teus outros casos, afinal não quero que deem certo. Não, não quero que sofras. Sou sádico, mas não quero que sofras. Acima de tudo, sou egoísta e quero que passes mais tempo comigo do que com qualquer outra pessoa, mas não quero te prender.


Privamo-nos da dor e talvez seja por isso que não encontramos a felicidade. Desse modo, acabamos por nos proibir de existir. Enfim.

2013/09/05

Terrorismo construtivo

Quero que tenhas a liberdade para me destruir.
E me reconstruir.
E me destruir mais vezes.
E continuar reconstruindo.
E manter a destruição.
Seguida de reconstrução.
Pegar minhas ruínas e remontá-las.
Desconcertar minhas estruturas
(como já faz tão bem).
...
Num ciclo vicioso
cheio de redundâncias
e sorrisos teus.
...
Num laço bonito
cheio de encanto
e nós.
...
Até que nos reste nada além
da ausência de ritmo
e excesso de nós.