2015/11/17

Você era suave ou A Vida...

O sufoco no meu peito e a tremulação nas minhas mãos eram só uma parcela de tudo que sentia a cada passo mais próxima de você, fumando câncer na entrada do terminal, procurando alguma coisa do Fincher na seção de DVDs daquela livraria onde você segurou minha mão pela primeira vez, lendo seus existencialismos em algum banco de praça ou contando estrelas naquele terraço, que - para mim - era nosso lugar secreto, um canto só nosso, por mais que fosse público. Odeio lembrar dessas coisas e de tudo. Você alvoroçava minha ansiedade ao chegar, quão mais perto você ficava, mais ar me faltava, e me deixava mais inquieta ainda ao se distanciar do ônibus após nos despedirmos. Não sabia lidar com sua presença nem com a distância, as duas me machuca(va)m - de maneiras diferentes, que fique claro. Quando você e sua mão quente acariciavam a minha, trêmula e gelada, me dava vontade de gritar “me deixa! não quero que você pule o muro para o meu jardim de intimidades… e fraquezas … e tudo o que existe em mim! quero você longe”. Quero. Você. Longe. Isso resume tanto um perídio de nosso romance. O que de fato me feria com a sua presença era o medo de ter alguém mergulhado de corpo inteiro na minha vida. Parece besteira, mas me desespera(va) ter alguém tão próximo a ponto de saber tudo o que se passa(va) comigo, que conseguisse vasculhar minha bagunça interna. Por outro lado, não ter sua presença me levava a um pântano de ansiedade maior que minha confusão, em que a saudade se entrelaçava em minhas pernas, me puxava pra baixo e enchia meus pulmões com passado, e, quanto mais eu me mexia, quanto mais eu desejasse novas vivências, novos encontros, mais eu me afundava.
Entre me afundar em angústia e me afogar em você, escolhi o caos mais tranquilo, por mais intranquila que eu pudesse ficar ao seu lado no início, decidi que andarmos de mãos dadas em direção ao ponto mais profundo do amor seria o melhor a ser feito. Me acostumei com seu corpo ao lado do meu, que foi ficando menos agitado a cada novo dia. Foi o melhor caminho. Foi. Fomos um oceano de tudo e agora resta somente um lago de passado, do qual eu corro para longe cada vez mais.
Nossas vidas à parte eram instáveis em diversos núcleos e você expôs tudo para mim, sem censuras. Não sei como, mas você tinha entendido que essa recíproca era inviável, que nunca me abriria tanto quanto você. Acontecia muita coisa comigo, um emaranhado de pontas soltas aqui dentro, você sabia, e não havia jeito possível de você resolver. Eu não tinha uma vida dupla nem assassinei meu primeiro marido ou coisa parecida, não, era apenas auto-defesa para ninguém entrar no salão onde guardo todas as minhas porcelanas. Quando seu castelo familiar desmoronou, você recorreu ao meu socorro como se eu tivesse estrutura suficiente para te servir de apoio. Mesmo assim, te acolhi, lembro muito bem, você me ligou perguntando se podia ficar na minha casa por um tempo, “quanto tempo?”, perguntei, “não sei, talvez bastante”, foi sua resposta numa voz fraca e melancólica, então você chegou e chorou no meu colo até desmaiar de tristeza ou sono. Anos depois, a tristeza e o sono continuavam no meu apartamento, e criaram laços afetivos com meu sono e minha tristeza. Viveram em harmonia no apartamento que se tornara nosso. Sua depressão, que apesar de sua abertura para expor seus problemas, levou tempo para ser assumida, mas, ah, eu sabia (ninguém “normal” passa uma manhã inteira deitado, de olhos abertos, encarando a janela como se algum pombo-correio fosse aterrissar carregando uma resposta para tudo). Semelhantes se reconhecem de alguma forma.
Nunca encontramos um campo suficientemente estável para repousarmos isentos de nossas desgraças, sempre passamos por morros pedregulhosos, mares tormentosos, nenhum lugar tranquilo. Quando não era a minha instabilidade que nos derrubava, era a sua, era difícil suportar tudo, ficava cada vez mais difícil, mas continuávamos juntos. Continuamos por um tempo maior do que nossas fraquezas eram capazes de aguentar, cada vez mais quebrados íamos ficando, talvez o tal do amor nos deixou mais fortes… A quem quero enganar? No máximo, o maldito do tempo nos tornou apenas mais pacientes… Ou dependentes. Tento não definir “dependência” como algo ruim em nossa história, a rotina estraga as pessoas, sim, mas, de certa forma, precisávamos um do outro todo para lutarmo contra vilões invisíveis. Precisávamos de uma distração, um alívio, para nossas dores. Sabia que você não chegaria em casa com uma caixa contendo todas as ferramentas para me consertar, porque, afinal, sabíamos que era impossível de resolver meu quebra-cabeça, o seu também, mas o simples fato de eu estar jogada no sofá, soterrada pelo peso da existência, e te ouvir abrindo a porta, te ver com o mesmo rosto cheio de cansaço de sempre, sentir seu abraço ofegante, você já me deixava melhor (ou menos mal).
Essa coisa de “opostos que se atraem” não funcionou com a gente em relação ao pessimismo, éramos iguais não só na depressão. Na verdade, chega a ser uma redundância se identificar como uma pessoa pessimista e depressiva, porque nunca consegui me desfazer destes óculos que uso há 14 anos, que enxergam desgraça, angústia, ansiedade e tudo que há de ruim. Deprimida, depressiva, até hoje não procurei pela nomenclatura correta, muito menos pelo tratamento médico necessário, a desmotivação e o medo de depender de remédios me afastam disso, me prendem em casa.
Não gosto de falar sobre isso tudo tanto quanto parece, mas estou nisso há tanto tempo que não tenho mais forças para tentar escapar, apenas convivo com a dor, com o sufoco no peito, com a tremedeira nas mãos, com os variados e constantes mal-estares - tanto físicos quanto psicológicos… Tantas coisas presas na garganta que algumas escapam em forma de palavras e expressões.
Enfim, sou incapaz de ignorar os momentos felizes - ou não tão melancólicos - de nossa jornada, porque, apesar de poucos, se comparados aos momentos de silêncio e distanciamento - mesmo que lado a lado-, foram muitos. Você sabe. Tudo. Queria escrever um relato mais aprofundado de nosso caso, mas tenho um compromisso com o escuro e a amargura da solidão. Você se foi justo quando desmoronamos como nunca antes, não tinha volta, independentemente do que fizéssemos, chegamos ao nosso limite, muito além de nossas expectativas no amor. A vida segue e nos prende a seu fluxo mesmo que não haja força em nós para seguir. Você se foi e...

2015/11/02

Another one about me delusioning

Ive know fucking idea what is going with what the hell i want or who the hell i know
Even if i already knew i dont have not a clue bout how to get it how to get out of this disgraceful fuckin hole of emptyness and desparate dreams
I maybe am one of those henry millers characters looking for booze and boobs but isntead of alcohol and sex i wander for mental health and confort or maybe im just the reencarnation of raskolnikov leaving myself die because some emotional remorse after some crime that i dont know exactly wich one or the cocroach of paixao segundo gh waiting for the woman that will crush my body in a door or gregor samsa trapped in a insects being without no fucki idea whats goin on
I took a long time to realize that my head was and still is wrecking constantly even thought nothing is happening nowadays. nothing but the wrecking
I get out of my claustrophobic room and go to places to be alone with a crowd that i dont know or even want to talk just to feel the presence the life flowing trough
A fuck could make me better but nobody gives a single one and i think my head is too spoiled to get better just with me touching a body and feeling it with all my senses and hearing oh yes right there yeah fuc me
I dont need compassion for my lost soul maybe just passion
When i talk to someone that ive known for a long time i feel untranslatble so imagine when i try to talk to someone new someone thats crossing my rail i rather do not talk because what i say from the bottom of my sincerity its not understood nobody comprehends what i talk and they feel that im a crazy delusional weirdo not that im not that a sociopath oh i tottaly am but i just wanted the people have the interest in talk about everything even though sometimes some egocentric monologues escape from my eyes i know im trouble i know i know i will never be fully understood or filled but i just want you not just you you all to try to be by my side without unnecessary damages but well lets be honest with each other sometime the heart mine or yours will break someone like it or not and there is no fu shit we can do about this tragedy called life
Im tired of people telling me this withou saying a single word
f you
I keep losting myself and i dont think ill ever find my whole structure with all the original pieces im just a great wall of scraps that i recovered or newones i find somewhere in the past
For those who are not so far and still can see me dont try to repair me it would be a waste of time just stay and hold on its just a phase that comes and go
For those who are emotional sadists don't lose the next episode
oh i just one more thing

2015/10/28

Segundo

Romântica desde sempre, se a questionassem sobre seu estado - tanto físico quanto mental - atual, responderia que (na medida do possível) está “tudo bem”, generalizando tudo obviamente, sem a necessidade de guardar para si uma resposta sincera, “não, tá tudo uma merda, não consigo entrar num relacionamento saudável...”, pois deixara de se preocupar com o coração vazio, o que a deixava intensamente melancólica, para direcionar seu estresse a outros cenários de sua tragicomédia, como o emprego inexistente, o aluguel pendente, as amizades ausentes ou a tentativa de encontrar a razão e a culpa para todo esse desmoronamento contínuo no último ano, apesar disso, estava bem. Não que estivesse com o coração em paz, repousando no colo de alguém, fazendo programas de casal etc, não, continuava sozinha, e não era por vontade própria, mas porque se afastava de qualquer amor em potencial, enxergava suas próprias falhas e temia que pudessem repulsar a paixão platônica da vez, corria para longe de qualquer sorriso simpático por imaginar que se transformaria em ódio fulminante quando o romance deixasse cair o cenário fantasioso de perfeição e mostrasse somente a podridão real de seu teatro de aparências e as rachaduras de seu passado, percebia que a pessoa recém-conhecida não era tão desgraçada da cabeça quanto ela e mudava seu rumo para um lugar distante a fim de evitar que contaminasse a pureza de outrem com pessimismo e rancor, não queria desperdiçar o tempo que poderia usar para dormir ao lado de alguém, conjecturar sobre um futuro perfeito ou conversar sobre interesses em comum para dar lugar a declamações de seus monólogos egocentricamente depreciativos. Quantos amores eternos desperdiçou desse jeito?, cultivando quilômetros de distanciamento?, perguntava-se constantemente, quando não estava procurando por um novo emprego ou engolindo seu orgulho no seco para pedir dinheiro emprestado a sua família para pagar contas, porres solitários e carteiras de cigarro. Tão alheia a romance, amor e essas coisas que até esquecia de remoer seus sentimentos pela única que realmente se mostrou disposta a encarar seus demônios e embarcar em um relacionamento - supostamente - estável, mas recebeu apenas silêncio, relembrar da mensagem que não respondeu daquela que poderia ter se mudado para outro estado com a memória do corpo de quem a ignorou cravada em sua pele, tentar encontrar um meio de voltar a falar com a que se distanciou achando que era odiada, entre outros casos, dedicava pouco tempo a tais mulheres por mais que quisesse a presença de todas em sua vida. Não mais sabia como manter pessoas a seu redor, não conseguia, se é que algum dia soube ou conseguiu de fato. Adjetivavam-na como romântica, emotiva, apaixonada ou palavra similar, e ela não negava tal título, mas não tinha disposição para exercê-lo, o cansaço a impedia.
Passou pela Praça Osório, cabisbaixa, ignorando as árvores que costumava apreciar, e caminhava, melhor dizendo, tropeçava pela Vicente Machado no fim da tarde, início do horário de pico, passava por estudantes e pessoas que tinham o que ela queria, emprego, e precisava se concentrar em onde pisava para não trombar com alguém e cair, o que era provável devido a sua exaustão física. Tinha acabado de sair de um teste para uma vaga correspondente a sua graduação, a primeira em meses, mas deixou a ansiedade pelo resultado, que chegaria em três dias por email, na recepção da empresa. Quase foi atropelada no cruzamento com a Visconde de Nácar, local onde os semáforos sempre a deixavam confusa sabe-se lá porquê, por um. Pensou em parar na Excelência para comer um pão de queijo, mas, ao parar para cruzar a rua, o semáforo se avermelhou para pedestres, e as poucas moedas em sua bolsa gritaram que ainda havia metade da panela de arroz com legumes que sobrou do almoço. Seguiu andando. Pouco adiante, um impulso aleatório fez sua cabeça jogar seus olhos para dentro de um café, onde, num banco alto, bem na entrada, estava uma mulher, que imediatamente percebeu estar sendo observada por uma estranha na rua. Antes que os olhares se divergissem, naquele ligeiro instante em que se encontraram, surgiu o amor e o futuro, a paixão e a vontade. Foi um momento de certeza, ela deveria entrar ali e iniciar o maior romance de sua vida. Nunca antes se sentiu tão encantada por uma pessoa. O relógio parou. Esqueceu de respirar enquanto avistava a moça. No passo seguinte, quando a perdeu de vista, seguiu seu caminho e ignorou o fim dessa história que mal começou. Acendeu um cigarro, distraiu-se com seu próprio silêncio e seus próprios conflitos em meio a buzinas e palavras e continuou.

2015/10/20

Casa (des)construída

Não sabiam se eram dominados pela raiva de terem aguentado tanto tempo para finalmente enxergar o buraco onde estavam ou pelo desespero de perceber que o tão temido fim enfim estava ali, com os dois, no quarto cheio de vazio e dor. Além de lágrimas, derramavam ansiedade e abnegação sobre o chão do apartamento congelado por memórias apagadas de um tempo distante repleto de afeto e carinho.
Enquanto Ele pressionava uma mão com a outra, após ter socado a parede a fim de tentar abir uma rachadura que deixasse sair toda a melancolia presa na casa que o afastava d'Ela, que estava sentada a seu lado no chão, puxava um botão de sua camisa com mãos trêmulas, quando, querendo arrancar a mágoa que impedia o amor que guardava em por Ele de se manifestar, acabou arrancando a peça de roupa.
- Não sou mais capaz de te amar, de viver aqui, mas tô perdida, porque também não sei não te amar, não consigo ficar longe, é como se você mantivesse todos os meus cacos de vidro da minha existência unidos… Mas o que quer que seja que você usa pra colar meus pedaços, tá me machucando. Ou talvez sejam meus próprios cacos de vidro que estão me cortando cada vez mais, abrindo minha pele, deixando qualquer coisa boa que sinto por você fugir. A gente chegou num ponto que o comodismo se enraizou entre nós e nos prende juntos, mas não dá pra arrancar porque já não dá pra diferenciar sangue de raiz.
- Talvez seja melhor deixar o vidro se quebrar inteiro e tentar remendar com mais calma. Olha pra mim, eu não queria que acabasse assim, com a gente numa dança entre raiva e choro, eu queria que não acabasse, na verdade, do fundo da minha existência, você é a pessoa que mais me entendeu, apoiou, amou... Só você conseguiu aguentar essa minha bagunça por tanto tempo, mas... Mas eu sinto que meu egoísmo foi o que mais nos distanciou, o que mais prejudicou nossa convivência desde sempre, vendo agora, percebo que o que fiz por você não chega nem perto de tudo o que você fez por mim.
Quando o silêncio começou a perturbá-los, lembravam, cada um em sua própria mente, da primeira vez que se encontraram, do chaveiro, do bilhete, das relíquias e memórias que guardavam em suas bolsas e carteiras e seus corações desde a noite em que se conheceram em outra cidade, em outra vida.

Lembravam pedaços do primeiro capítulo deste romance, a integridade dele, assim como a de suas mentes, havia se diluído nos litros de álcool ingeridos naquela noite. Primeira cena, estavam no fumódromo de um bar, cada um com seu grupo de amigos, então Ele procurou um lugar para se sentar quando sua cabeça começou a pesar demais. Conseguiu um espaço, entre uma goteira e algumas pessoas, e repousou a cabeça no próprio colo. A pressão baixa o fez companhia até que Ela percebeu a situação, deixando seus amigos, sem conhecê-Lo, perguntando se estava tudo bem. Ele só teve força para levantar uma mão e fazer um gesto de positivo. “Você tá sozinho? Quer alguma coisa?”, perguntou Ela. Recuperando-se aos poucos, o rapaz levantou a cabeça, sorriu e respondeu que estava bem e completou, ainda extrovertido por conta das bebidas: “Falei pra mim mesmo que devia parar de beber tanto assim e tentar ficar sóbrio em festas, mas, como é meu aniversário, achei que precisava de uma despedida do álcool...” “É seu aniversário? Parabéns!”, empolgada pela vodca, deu um  abraço, “vou te dar um presente, tenho um chocolate aqui, você gosta desse?”, tirou o doce da bolsa e, com a resposta afirmativa d'Ele, entregou ao rapaz, “Falando em despedida, hoje é a minha também, mas não do álcool, da cidade”. No meio da conversa, quando o desejo já era grande e recíproco, Ela o ajudou a se levantar para fumar, "Mas isso não não vai fazer tua pressão cair de novo?", "Talvez", mas não encontravam seus esqueiros. Ela deu alguns passos para pegar um emprestado de uma fumante, e, na volta, chutou alguma coisa, sem perceber, que foi na direção do rapaz. A moça tinha por costume soltar a fumaça com o queixo levantado para ver a noite absorver o gás carbônico, e, numa dessas, o rapaz rapidamente se abaixou para pegar o objeto que Ela havia chutado há pouco. Guardou no bolso a miniatura de Torre Eiffel e os dois continuaram conversando sobre tudo. Quando o relógio bateu duas da manhã, as pessoas começaram a se descolocar para o balcão do bar, pois havia começado open bar de vodca com energético. Terminaram seus cigarros e entraram para se enebriarem ainda mais. 
Não sabiam como foram parar da Liberdade à Consolação, os dois compartilhavam um momento de euforia - e uma garrafa de vinho, que ambos odiavam, mas era o que tinha de mais barato no posto de gasolina que encontraram no meio do caminho. Fizeram o trajeto caminhando, conversando, como se não fosse quatro da manhã e não houvesse possibilidade alguma de assalto ou coisa pior. Graças a D… Graças ao acaso, de não terem encontrado ninguém mal intencionado no percurso, nada aconteceu além de um afogamento: caminhavam de mãos dadas, como se tivessem intimidade estabelecida há anos, e procuravam por um hotel. Abraçavam-se a cada parada para atravessar a rua e se distraíam com calorosos e alcoolizados beijos. Subconscientemente, acreditavam, de maneiras diferentes que apenas o sexo amenizaria a paixão explosiva que emergia cada vez mais forte e devastadora. Enfim entraram num quarto e o que sentiram durante a noite toda - desde o "Você tá sozinho?" até o beijo de despedida na manhã seguinte - ecoou por tanto tempo quanto durou a paixão, o amor e a saudade.
Após se jogar nos braços d'Ela e antes de se entregar a Hipnos, pegou o chaveiro e jogou dentro da bolsa d'Ela, aberta e jogada no chão.
Acordou no meio da noite, na verdade, o sol já gritava lá fora, acendeu um cigarro e observou o corpo daquele que teria potencial para ser alguém em sua vida e pensou na despedida que deveria acontecer em seguida. Terminou o cigarro, alcançou sua bolsa, seu bloco de notas e uma caneta, "de todas as profissões do mundo, tinha que aparecer outro jornalista", riu sozinha e escreveu algo para o rapaz. Deitou-se novamente e cochilou por duas horas ou menos. Queria continuar ali, queria continuar com Ele, mas precisava sair.
Sob seu celular no criado-mudo, havia uma nota de vinte, outra de dez, e um pedaço de papel:
“Precisei partir.

O dinheiro é minha parte pra pagar o quarto.

Meu telefone: […]
Mande notícias.”

2015/10/05

Cabou (Não tenha dó)

Não lembro se estávamos em uma de nossas camas ouvindo a chuva ou em uma praça sob o pôr do sol, nem se estávamos bêbadas ou chapadas, nem se seu corpo estava nu, coberto pelo edredom azul claro, ou com pedaços de grama, ao lado do meu e nós acompanhadas do silêncio que não dizia - nem mesmo implicitamente - que havia algo errado, porque realmente não tínhamos do que reclamar em relação ao nosso relacionamento naquele dia específico. Ao menos essa era a impressão que eu tinha, e olha que eu tinha um sensor bastante preciso para identificar problemas entre nós. Na verdade, nosso porre durou tanto tempo, mais do que eu conseguia imaginar que era capaz de me manter ébria e viva, que já não sei se este específico episódio ocorreu de uma vez só, com introdução, desenvolvimento e conclusão (e referências bibliográficas), ou minha memória mantém apenas uma colagem das diversas vezes que conversamos sobre isto: o fim. O terceiro e último ato de nosso romance dramático com extensos períodos cômicos, leves e saudáveis, como já deixei a entender: não sei se começou sob o céu nublado da cidade ou o teto branco de um quarto, apenas mais uma das diversas incertezas que me assolam agora, depois do adeus, mas lembro que a trilha-sonora começou silenciosa, contemplativa, como o prelúdio de Tristan und Isolde, e seguiu em um crescendo, tornando-se cada vez mais ruidosa, como uma caixa de som estourada reproduzindo We’re No Here. Perdi o roteiro completo da cena, a primeira fala se perdeu no breu da memória, hoje resta apenas o enorme vazio que ela deixou, como se eu tivesse um braço fantasma, apenas a sensação de ainda ter algo que não existe mais. Quer dizer, ela ainda existe, mas não aqui. Não é que eu a queira de volta, mas ainda dói.
Um discurso que repeti tantas vezes com seu consentimento - ao menos, ela dizia que concordava, mas hoje entendo que talvez fosse apenas para não me irritar, conhecendo a facilidade para eu cismar com quem me contradizia -, consistia, resumidamente, em aceitação e inevitabilidade de um término. Acontece e não há nada que se possa fazer para evitar, apenas adiar. Talvez nós tivéssemos adiado despropositalmente, acomodadas pela calma porém venenosa rotina. De tanto que insisti nessa fala, talvez sua mente tenha se convencido, ou se deixado vencer pela exaustão, que o fim estaria ali, no próximo instante. Mas eu não esperava que fosse justamente quanto estávamos tranquilas.
Chega uma hora que cansa, chega uma hora que chega, a partir de um dia qualquer, quando menos se espera, toda e qualquer imperfeição, espera, ignore essa palavra inexistente, melhor dizendo… Todo e qualquer detalhe que incomodava mas era ignorado passa a ser algo repulsivo, e até mesmo o que mais lhe agravada na pessoa se transforma em ódio. A mordida no ombro quando dormíamos juntas, nós apertadas embaixo de uma pequena sombrinha - enquanto seus dedos subiam e desciam pelo meu braço, as discussões sobre qual o melhor livro da Gillian Flynn, o melhor episódio de Mad Men ou o melhor disco da Nina Simone - nunca chegávamos a um consenso em ambos temas -, ela me puxando para dançar quando eu não queria dançar, as unhas que ela roía para pegar no sono jogadas pelo chão dos quartos, todo o nosso universo particular de carinhos e esquisitices, eu aceitava tudo isso, ignorava a possibilidade que um desacordo sobre Artes, ou um desleixo higiênico, qualquer coisa, pudesse nos distanciar de nós mesmas. Eu acreditava que éramos maiores que isso tudo. Fomos gigantes até não sermos mais. Fomos intensas até não sermos mais. Fomos amantes...
Quando nosso roteiro enfim apontou para o desfecho definitivo, a raiva se apossou de mim, prejudicando minha memória, eu não queria aceitar que o que eu tanto previ desde o prólogo estava realmente acontecendo. Tentei, e continuo tentando, lembrar de todos os instantes precedentes ao “acho que está na hora de terminarmos”, nem me recordo quem disse isso, mas essas palavras foram ditas e permitiram que toda uma onda de frio e vazio invadisse meu litoral até então ensolarado e repleto de vida. Se eu ainda conseguisse descrever em detalhes nosso último dia juntas, escreveria algo muito mais bonito, visceral, dilacerante, sensível, qualquer coisa diferente desse relato incompleto de uma memória destroçada, arruinada, abandonada nos escombros de uma despedida inevitável. Assim como nossa história poderia ter ido muito além do dia de sua morte - do amor, não da mulher que o despertou, ela continua viva, não sei onde nem com quem-, ser algo completamente diferente; esse conto teria potencial para continuar por muitas páginas, tornar-se uma novela, um romance, nossa Comédia Humana, mas, como não sei cuidar de amores nem de rascunhos, apenas os abandono, por mais que pudessem ser algo maior que meu pessimismo seja capaz de imaginar. Tanto na escrita quanto na vida, que são quase a mesma coisa para mim, eu me perco de uma maneira tão confusa e definitiva que fica difícil convencer alguém a insistir, persistir, retornar, o que seja, em mim. Sinto saudade daquela que se deitou ao meu lado para concluirmos que deveríamos ter um fim naquele exato momento, e deixo ela, a saudade, me abraçar, me corroer, me matar pouco a pouco até que eu renasça em outro amor e deixar o ciclo fluir novamente.