-... Seja! Ame! Mude! Como bem entender!
Estava lá, eu, cantando e sentado ao lado de minha nova conhecida Sílvia, ouvindo, depois de um louco acontecimento, em seu mp3 as músicas da banda que havia terminado, há pouco mais de uma hora, um dos shows mais intensos de minha vida.
Era a primeira que vez que saia com o carro que havia comprado recentemente, após muito empenho, e já consegui me dar mal. Estacionei-o no estacionamento ao lado do bar, sem saber que fecharia bem antes do show acabar. Resultado: meu carro ficou preso lá, me deixando sem meio de transporte para voltar pra casa. Já que não existia onibus madrugueiro para meu bairro. Só me restava ficar por lá e esperar o estacionamento abrir. O bar foi esvaziando, havia alguns bêbados, e eu, sem ideia do que fazer. Enfim, o lugar precisava fechar, então saí, caminhei uns dez passos para a direita e sentei me encostando no muro do estacionamento, quando avistei há uns dez metros à esquerda da porta do bar, uma garota sentada no meio-fio, sozinha, aparentando ter frio.
Era primavera, mas naquela noite a temperatura da cidada estava incrivelmente baixa. Gentil que sou, fui até ela oferecer ajuda:
- Oi, é... Tá sozinha? Precisa de ajuda?
- Oi... Você é algum estuprador, sequestrador ou assaltante?
- Ha... Não! Sou vegetariano, solteiro e auto-sustentável.
- Que?
- Nada... Sério, precisa de ajuda?
Sentei ao seu lado e fiquei tonto com tanta beleza. Cabelo negro e olhos castanhos nada normais. Calei-me, só observava. Depois de uma longa transe, ela me interrompe e pergunta:
- E aí, gostou do show?
- Como você sabe que eu esyava no show? - Perguntei na sinceridade, pois não tinha visto ser tão bonito lá dentro.
-Ah, eu te vi lá, pulando com todas as musicas.
- Poxa, foi incrível. Nunca antes assisti à um show tão potente e emocionante. Foi o melhor da minha vida... E você, gostou?
- Bom, faltaram algumas musicas, mas as que eles tocaram são muito boas, e são muito diferentes das versões do cd.
- Pois é, eles piram ao vivo.
- E você está fazendo o que aqui ainda?
- Haha, meu carro ficou nesse estacionamento aqui, e eu não tenho como voltar para casa. E você, esperando alguém?
- Estava, mas acho que o alcoólatra do meu irmão esqueceu de mim.
- Uau... E agora?
- Ha, não faço ideia. Acho que vou ficar aqui, na esperança de não ser assaltada ou coisa do tipo, até amanhecer e ir caminhando até minha casa.
- Posso ficar aqui com você até lá. - Na inocência, perguntei, mas ela me olhou estranhamente, pensando que eu tivesse segundas intenções. Bem, não tinnha segundas, tinha terceiras, quartas, infinitas intenções com tão bela garota.
- Se não for pedir demais, sim. Preciso de companhia pois tenho medo da madrugada curitibana e seus crimes. E mais, gostei de você, parece ser simpático.
Imitei o pinguim de "Madagascar":
- Você não viu nada!
- Ui, que misterioso.
- He... Então, conte-me mais sobre você.
...
Depois de um prazeroso bate-papo sobre nós e nossas paixões, Sílvia pegou seu "tocador de musicas" e o ligou no "modo aleatório". Começamos a filosofar sobre uma musica chamada "O mito do insubstituível". E depois de um longo silêncio, após a musica acabar e o aparelho ser desligado, ela disse:
- Quer saber? Cansei!
- Por que?
- Cansei de me iludir com vagabundos. Concluí que é melhor eu atar um relacionamento com um desconhecido e construir e fortificar um amor. Sabe, tipo, arquitetar uma vida à dois que funcione e tal... - E ela foi falando e falando, enquanto observava seus grossos lábios, me surgia uma vontade louca de beijá-la, até que o inesperado acontece... Ela me agarra e me beija fortemente, como se quem fosse o homem ali fosse ela.
Silêncio, ambos não tinham o que falar após o ocorrido. Na verdade, não tínhamos folego para pensar em algo. Até que ela liga novamente seu mp3 e escolhe uma musica. Caí na real, percebo que Melina fez me crescer um sentimento forte nunca antes sentido. Não queria mais largar daquela garota. De repente uma grande alegria me domina.
Ouvi com atenção a primeira parte. Quando o refrão chegou, explodi:
-... Seja! Ame! Mude! Como bem entender!
2010/02/28
2010/02/01
Uma baratinada monstro a dois (Parte DOIS) - Não me deixe sangrar
"Eu entrei em pânico ao saber que esta era a casa em que viveria e aquele era o rapaz que a dividiria conosco. Era igual ao anão amarelo do filme "Sin City", asqueroso, feio e deformados. Sebás, partiu em sua direção e o abraçou fortemente. O monstro veio em minha direção, Meu amor disse meu nome, e ele todo efusivo exclamou: Norah, é um prazer recebê-la em minha casa! Fique a vontade.
Tentou me abraçar, mas com nojo, evitei. Quando percebi, Sebás, estava sobre a mesa aspirando aquilo que Jardel manuseava quando chegamos. Assustada perguntei a Sebastião o que ele estava fazendo. E ele, todo enrolado, me perguntou o porque do espanto e aquilo seria só o começo.
Corri em direção a porta, mas Jardel, ligeiro, bloqueou meu caminho, impediu que eu fugisse me mostrando uma arma, e disse:
- Ô, eu disse que a festa está só começando! Então, senta lá, que nós temos uma história.
Olhei para Sebás, que estava entretido com o que estava na mesa, e pedi socorro. Ele me encarou e gritou:
- Senta logo, idiota! E ouve a história.
A partir desse momento senti um ódio mortal daquele que era perfeito para minha vida, mas mudou ao entrar naquela casa. Furiosa, corri em sua direção e ele repetiu "Senta logo!", e me deu um soco, que me fez cair, depois disso, desmaiei.
Acordei atordoada e ferida, mas logo sensações novas fluíram por mim. Um certo calafrio, misturado com euforia, tranquilidade, sonolência, calor, cegueira e dor de cabeça. De repente, senti uma pequena dor nos braços. Olhei, e vi dois furinhos com um pouco de sangue, um em cada braço. O sangue já estava seco, o que provava que adormeci por um bom tempo. Estava deitado no sofá, pelo menos o favor de me acomodarem eles fizeram. Não havia ninguém na sala. Queria saber onde estavam e o que fizeram comigo. Levantei, meio zonza, e vi uma seringa suja e alguns objetos jogados na mesinha de centro. E pelos meus conhecimentos, eles haviam injetado heroína em mim. Pretendia experimentar isso, mas não tão cedo assim, e nem quando estivesse dormindo, que covardia deles. Apesar da boa sensação que sentia, estava furiosa com todas as mentiras que me cercavam desde que conheci o Maldito Sebastião.
Meu Deus! Se é que Ele ainda cuida de mim. Naquele momento, Ele foi o primeiro alvo de minhas críticas. Uma vez li num livro de meu pai uma frase polêmica, "Se existisse um Deus bondoso e todo-poderoso, teria feito exclusivamente o bem", e pensando na minha vida, sempre tratei meu pai bem, nunca cometi algum pecado tão grave, nunca fiz nada de grave com outras pessoas..."
-Oi? Repete a ultima frase, por favor?- E, Tomas, o ouvinte atencioso ataca com sua ironia. Apesar de estar entretido com a história, a ultima fala de Norah não podia passar limpa.
-Tá... eu sei. Mas na situação que estava não raciocinava muito bem. Posso continuar? Não durma!
-Pode, claro! Sinta-se à vontade!
- Então... "Possuída por um ódio fulminante, não tive vontade de fugir. Estava xingando Deus e o mundo, quando eles chegaram, trajando umas roupas escuras e com sorrisos enormes em seus rostos. E o anão amarelo disse:
-Tá mais tranquila, agora?!
Fiquei quieta pois a raiva me impedia.
- Tá, é? Tá calminha? - chegou mais perto de mim, enquanto Sebastião preparava alguma coisa de costa para nós- Tá de boa? Então, vamos conversar?
- Fala logo, seu cretino podre!
- Podre, não! Não fala assim do teu novo chefe! - Finalmente Sebás olhou para mim. Acendendo um "cigarrinho".
Ainda meio lesada caminhei na direção dele. Encarei-o e perguntei o porque de todas aquelas mentiras e juras de amor.
- Calma, gata! Tu acha que se eu dissesse que iria te trazer à Portugal para trabalhar para nós, você viria?
- Filho da... - Como Dama, deveria ter dado um tapa, mas a raiva fez com que eu o socasse, bem no nariz. Voltei a sentar no sofá e perguntei:
-Quando é que eu vou embora? Eu quero sair!
- Poxa, a gente te dá duas "picadas" e você quer sair sem retribuir? - E o monstro amarelo falou.
- Vocês não deviam ter feito isso! Poxa, picar uma pessoa desmaiada é covardia! - os dois se encararam - E, como assim, "patrão"?
- É o seguinte, madame, escuta o patrão aqui...
E ele contou, quero dizer, anunciou meu futuro, tudo o que viveria nos próximos anos.
Seria obrigada a morar com eles, realizar tarefas domésticas (e sexuais); trabalhar para eles, vender os seus produtos e se necessário, meu corpo. Seria escreva deles, faria o que eles bem entendessem. No fim do mês, ganharia mais trinta dias de vida, comida, a droga que quisesse e a garantia de que meu estivesse vivo. Prometeram que se eu discordasse deles ou tentasse fugir, fariam de tudo para me destruir, atingindo meu pai. Mostraram-me todo seu arsenal, e eu indefesa e pressionada, aceitei aquilo que seria minha vida nos próximos dezessete meses.
Bem, poderia relatar todas as minhas experiências, mas são muitas então iria demorar meses para terminar. Só digo que foi uma época horrível. Sofri, apanhei, tive overdose, cometi os piores pecados, fiz coisas sem ter vontade, etc. Mas vivi tudo isso, estragando meu corpo e minha mente, para garantir que a vida de meu pai continuasse intacta. Em Portugal, fui obrigada a fazer muitas coisas sem o meu consentimento; nunca fui de receber muitas ordens, mas precisava assegurar a saúde de meu pai. Uns meses depois desde minha chegada lá, consegui juntar uma boa quantia, que cobriu minhas despesas de viajem, então decidi enviar dinheiro ao meu pai, sem qualquer carta ou explicação, porem não sei se ele recebeu.
Um ano e meio depois, o anão amarelo queria que eu fizesse programa com seu irmão e mais um casal, e, acredita, o velho era mais horripilante que o anão. Recusei, mesmo sendo obrigada e sabendo que meu corria riscos caso eu recusasse. Estávamos na cozinha, enquanto eu preparava um sanduíche ele preparava uma picada. Comecei a me irritar com seus gritos me obrigando a obedecê-lo. Pensei em tudo o que tinha se passado até então, e concluí que se meu pai não tivesse morrido de desgosto quando fugi, ela já estaria no fundo do poço, igual quando perdeu Margarethe, sua segunda esposa falecida, e minha madrasta. Comecei a pensar em mim, precisava mudar de vida, realizar meus sonhos que havia abandonado em Curitiba. Sebastião nunca estava em casa, o que facilitava minha fuga. Com uma faca no bolso, caminhei até o anão, olhei bem para ele e disse "Não!", em seguida, dei cinco facadas em sua barriga, peguei a seringa e perfurei seu pescoço três vezes. Ele caiu, desanimado, sem vida. Me ajoelhei e dei mais algumas facadas no corpo dele. Fui até o quarto, peguei só minha mochila pois não tinha roupas limpas, vasculhei as gavetas dos rapazes, peguei todo o dinheiro, e todas as drogas, que consegui. Fugi, finalmente. Precisava sumir daquela cidade, daquele país, mas não tinha verbas suficientes para retornar ao Brasil. Vaguei, sem esperanças, até a auto-estrada mais próxima. Encontrei um placa dizendo "Paris 1734 KM, Madrid 628 KM, Barcelona 1409 KM...". Era meu sonho conhecer a capital francesa, mas como não sabia falar francês mas sabia espanhol, decidi na hora em ir para Barcelona, arranjar algum dinheiro e para voltar ao Brasil. Consegui carona com um caminhoneiro italiano, mal nos entendiamo mas ele entendeu um pedaço da minha historia e concordou em me levar até Barcelona, era caminho para ele, que estava voltando para sua terra após uma entrega.
Enfim, cheguei em Barcelona não fazendo ideia do que faria a a partir daquele momento. Encontrei um hotel três estrelas chamado "Recanto Tropical", que para minha sorte era de brasileiros. Me hospedei lá. Perguntei para a recepcionista, brasileira, se ela sabia onde eu poderia arranhar emprego, ou qualquer outra fonte de renda, respondeu:
- Sim, estamos precisando de uma auxiliar de cozinha. Você precisa ter dezoito anos e alguns documentos, mas se não tiver, nós damos um jeito.
- Nossa, que ótimo! E quando começo?
- Antes você precisa ser entrevistada pela gerente do hotel.
- E onde está ela?
- Bem aqui, na sua frente. Vamos até minha sala conversar, por favor.
Então, fui entrevistada e contratada. Ganhei desconto no aluguel de um quarto, e trabalhei lá por dois anos. Já havia feito amizade com o povo brasileiro e integrada à vida noturna da cidade. Ganhei muito dinheiro com as coisas que roubei da casa de Lisboa. Fiz algumas amizades, mas uma em especial me ajudou muito. Ninguém sabia seu nome real, mas todos a chamavam de "Rachel Lux, la brasileña". Ela me fez abandonar a estadia e o emprego no hotel, para morar com ela, dividir despesas e trabalhar com ela em uma livraria. Nos tornamos grandes irmãs, compartilhamos histórias, vícios, segredos e sonhos. Ela também queria voltar ao Brasil. Trabalhamos duro para conseguir o dinheiro, e depois de muito tempo conseguimos voltar. Na véspera da viagem, brigamos seriamente por causa de um certo vício meu. Ela voltou para sua terra natal, e eu, destruída e sem reputação voltei para cá, sem esperanças de encontrar alguém.
Eu já nem sei se meu pai está vivo hoje. Nem sei o que aconteceu nessa cidade desde que sumi. E quero que você me conte tudo."
Tentou me abraçar, mas com nojo, evitei. Quando percebi, Sebás, estava sobre a mesa aspirando aquilo que Jardel manuseava quando chegamos. Assustada perguntei a Sebastião o que ele estava fazendo. E ele, todo enrolado, me perguntou o porque do espanto e aquilo seria só o começo.
Corri em direção a porta, mas Jardel, ligeiro, bloqueou meu caminho, impediu que eu fugisse me mostrando uma arma, e disse:
- Ô, eu disse que a festa está só começando! Então, senta lá, que nós temos uma história.
Olhei para Sebás, que estava entretido com o que estava na mesa, e pedi socorro. Ele me encarou e gritou:
- Senta logo, idiota! E ouve a história.
A partir desse momento senti um ódio mortal daquele que era perfeito para minha vida, mas mudou ao entrar naquela casa. Furiosa, corri em sua direção e ele repetiu "Senta logo!", e me deu um soco, que me fez cair, depois disso, desmaiei.
Acordei atordoada e ferida, mas logo sensações novas fluíram por mim. Um certo calafrio, misturado com euforia, tranquilidade, sonolência, calor, cegueira e dor de cabeça. De repente, senti uma pequena dor nos braços. Olhei, e vi dois furinhos com um pouco de sangue, um em cada braço. O sangue já estava seco, o que provava que adormeci por um bom tempo. Estava deitado no sofá, pelo menos o favor de me acomodarem eles fizeram. Não havia ninguém na sala. Queria saber onde estavam e o que fizeram comigo. Levantei, meio zonza, e vi uma seringa suja e alguns objetos jogados na mesinha de centro. E pelos meus conhecimentos, eles haviam injetado heroína em mim. Pretendia experimentar isso, mas não tão cedo assim, e nem quando estivesse dormindo, que covardia deles. Apesar da boa sensação que sentia, estava furiosa com todas as mentiras que me cercavam desde que conheci o Maldito Sebastião.
Meu Deus! Se é que Ele ainda cuida de mim. Naquele momento, Ele foi o primeiro alvo de minhas críticas. Uma vez li num livro de meu pai uma frase polêmica, "Se existisse um Deus bondoso e todo-poderoso, teria feito exclusivamente o bem", e pensando na minha vida, sempre tratei meu pai bem, nunca cometi algum pecado tão grave, nunca fiz nada de grave com outras pessoas..."
-Oi? Repete a ultima frase, por favor?- E, Tomas, o ouvinte atencioso ataca com sua ironia. Apesar de estar entretido com a história, a ultima fala de Norah não podia passar limpa.
-Tá... eu sei. Mas na situação que estava não raciocinava muito bem. Posso continuar? Não durma!
-Pode, claro! Sinta-se à vontade!
- Então... "Possuída por um ódio fulminante, não tive vontade de fugir. Estava xingando Deus e o mundo, quando eles chegaram, trajando umas roupas escuras e com sorrisos enormes em seus rostos. E o anão amarelo disse:
-Tá mais tranquila, agora?!
Fiquei quieta pois a raiva me impedia.
- Tá, é? Tá calminha? - chegou mais perto de mim, enquanto Sebastião preparava alguma coisa de costa para nós- Tá de boa? Então, vamos conversar?
- Fala logo, seu cretino podre!
- Podre, não! Não fala assim do teu novo chefe! - Finalmente Sebás olhou para mim. Acendendo um "cigarrinho".
Ainda meio lesada caminhei na direção dele. Encarei-o e perguntei o porque de todas aquelas mentiras e juras de amor.
- Calma, gata! Tu acha que se eu dissesse que iria te trazer à Portugal para trabalhar para nós, você viria?
- Filho da... - Como Dama, deveria ter dado um tapa, mas a raiva fez com que eu o socasse, bem no nariz. Voltei a sentar no sofá e perguntei:
-Quando é que eu vou embora? Eu quero sair!
- Poxa, a gente te dá duas "picadas" e você quer sair sem retribuir? - E o monstro amarelo falou.
- Vocês não deviam ter feito isso! Poxa, picar uma pessoa desmaiada é covardia! - os dois se encararam - E, como assim, "patrão"?
- É o seguinte, madame, escuta o patrão aqui...
E ele contou, quero dizer, anunciou meu futuro, tudo o que viveria nos próximos anos.
Seria obrigada a morar com eles, realizar tarefas domésticas (e sexuais); trabalhar para eles, vender os seus produtos e se necessário, meu corpo. Seria escreva deles, faria o que eles bem entendessem. No fim do mês, ganharia mais trinta dias de vida, comida, a droga que quisesse e a garantia de que meu estivesse vivo. Prometeram que se eu discordasse deles ou tentasse fugir, fariam de tudo para me destruir, atingindo meu pai. Mostraram-me todo seu arsenal, e eu indefesa e pressionada, aceitei aquilo que seria minha vida nos próximos dezessete meses.
Bem, poderia relatar todas as minhas experiências, mas são muitas então iria demorar meses para terminar. Só digo que foi uma época horrível. Sofri, apanhei, tive overdose, cometi os piores pecados, fiz coisas sem ter vontade, etc. Mas vivi tudo isso, estragando meu corpo e minha mente, para garantir que a vida de meu pai continuasse intacta. Em Portugal, fui obrigada a fazer muitas coisas sem o meu consentimento; nunca fui de receber muitas ordens, mas precisava assegurar a saúde de meu pai. Uns meses depois desde minha chegada lá, consegui juntar uma boa quantia, que cobriu minhas despesas de viajem, então decidi enviar dinheiro ao meu pai, sem qualquer carta ou explicação, porem não sei se ele recebeu.
Um ano e meio depois, o anão amarelo queria que eu fizesse programa com seu irmão e mais um casal, e, acredita, o velho era mais horripilante que o anão. Recusei, mesmo sendo obrigada e sabendo que meu corria riscos caso eu recusasse. Estávamos na cozinha, enquanto eu preparava um sanduíche ele preparava uma picada. Comecei a me irritar com seus gritos me obrigando a obedecê-lo. Pensei em tudo o que tinha se passado até então, e concluí que se meu pai não tivesse morrido de desgosto quando fugi, ela já estaria no fundo do poço, igual quando perdeu Margarethe, sua segunda esposa falecida, e minha madrasta. Comecei a pensar em mim, precisava mudar de vida, realizar meus sonhos que havia abandonado em Curitiba. Sebastião nunca estava em casa, o que facilitava minha fuga. Com uma faca no bolso, caminhei até o anão, olhei bem para ele e disse "Não!", em seguida, dei cinco facadas em sua barriga, peguei a seringa e perfurei seu pescoço três vezes. Ele caiu, desanimado, sem vida. Me ajoelhei e dei mais algumas facadas no corpo dele. Fui até o quarto, peguei só minha mochila pois não tinha roupas limpas, vasculhei as gavetas dos rapazes, peguei todo o dinheiro, e todas as drogas, que consegui. Fugi, finalmente. Precisava sumir daquela cidade, daquele país, mas não tinha verbas suficientes para retornar ao Brasil. Vaguei, sem esperanças, até a auto-estrada mais próxima. Encontrei um placa dizendo "Paris 1734 KM, Madrid 628 KM, Barcelona 1409 KM...". Era meu sonho conhecer a capital francesa, mas como não sabia falar francês mas sabia espanhol, decidi na hora em ir para Barcelona, arranjar algum dinheiro e para voltar ao Brasil. Consegui carona com um caminhoneiro italiano, mal nos entendiamo mas ele entendeu um pedaço da minha historia e concordou em me levar até Barcelona, era caminho para ele, que estava voltando para sua terra após uma entrega.
Enfim, cheguei em Barcelona não fazendo ideia do que faria a a partir daquele momento. Encontrei um hotel três estrelas chamado "Recanto Tropical", que para minha sorte era de brasileiros. Me hospedei lá. Perguntei para a recepcionista, brasileira, se ela sabia onde eu poderia arranhar emprego, ou qualquer outra fonte de renda, respondeu:
- Sim, estamos precisando de uma auxiliar de cozinha. Você precisa ter dezoito anos e alguns documentos, mas se não tiver, nós damos um jeito.
- Nossa, que ótimo! E quando começo?
- Antes você precisa ser entrevistada pela gerente do hotel.
- E onde está ela?
- Bem aqui, na sua frente. Vamos até minha sala conversar, por favor.
Então, fui entrevistada e contratada. Ganhei desconto no aluguel de um quarto, e trabalhei lá por dois anos. Já havia feito amizade com o povo brasileiro e integrada à vida noturna da cidade. Ganhei muito dinheiro com as coisas que roubei da casa de Lisboa. Fiz algumas amizades, mas uma em especial me ajudou muito. Ninguém sabia seu nome real, mas todos a chamavam de "Rachel Lux, la brasileña". Ela me fez abandonar a estadia e o emprego no hotel, para morar com ela, dividir despesas e trabalhar com ela em uma livraria. Nos tornamos grandes irmãs, compartilhamos histórias, vícios, segredos e sonhos. Ela também queria voltar ao Brasil. Trabalhamos duro para conseguir o dinheiro, e depois de muito tempo conseguimos voltar. Na véspera da viagem, brigamos seriamente por causa de um certo vício meu. Ela voltou para sua terra natal, e eu, destruída e sem reputação voltei para cá, sem esperanças de encontrar alguém.
Eu já nem sei se meu pai está vivo hoje. Nem sei o que aconteceu nessa cidade desde que sumi. E quero que você me conte tudo."
2010/01/29
Imediato
Ganhei meu tão esperado celular e fui logo divulgando-o para galera, via email e etc. Cerca de quinze minutos depois recebo uma mensagem, de um numero até então desconhecido, dizendo "Tá fazendo o que? Me encontra no Mueller daqui uma hora. Te espero lá. Beijos. Heloísa".
Finalmente, com a ajuda do telefone, poderia estar disponível para todos meus amigos, mas não esperava que "ela" quisesse me ver tão cedo. Pois havíamos nos conhecidos dois dias antes, no restaurante de seu pai, que foi meu professor de matemática por sete meses na oitava série, um dos melhores.
Enfim, louco para revê-la, fui logo me arrumando. Mas que roupa vestir eu não sabia, ela não disse nada sobre isso, e pelo tom da mensagem ela queria algo imediato. Fiquei no meio termo, não tão sujo mas nem tão limpo. Vesti meu jeans de duzentos reais, minha camiseta velha do Kings of Leon, exagerei no perfume, baguncei o cabelo, roubei uns chicletes de minha irmã, pedi dinheiro para minha mãe, abracei todas e parti rumo ao shopping.
Como eu saí as pressas, não vi que horas eram e nem quantas faltavam para a hora marcada. Resultado, cheguei lá vinte e cinco minutos antes do combinado.
Encostei-me na parede próximo à porta do Mueller e fiquei vendo as pessoas. Aquele era um lugar em que podia se ver de tudo e todos, (estilos, cores, bandas, penteados tatuagens,...). Mas, naquele momento, nada mais me atraía do que a dona daquele belo par de olhos verdes, que aliás, estava demorando para chegar.
Depois de ser praticamente abusado por duas garotas estranhas que não paravam de me olhar, avistei na longínqua esquina um vestido verde e um sapato vermelho. Fui andando naquela direção, meio em dúvida, mas deduzi que fosse ela. E era, quando me viu acenou e eu acelerei meus passos, sorri e, ainda de longe, fui retribuído com um largo sorriso.
Fomos nos aproximando, e quando ficamos frente a frente, só pensei em uma coisa:
- Nossa, como você está linda!
- Adoro Kings of Leon! - foi essa sua resposta, seguida de um abraço, íntimo demais para pessoas tão pouco íntimas.
Fomos indo em direção ao shopping, pouco me importava. Não olhava para a frente, trombava com quem vinha contra mim, só não conseguia parar de olhar para ela. Meu coração parecia uma dinamite prestes a explodir. Decidi perguntar:
- E então, o que você queria?
Respondeu:
- Te ver.
-Só isso?
-Não, lógico que não.
- Então o que mais?
-Sabe se tem algum filme decente em cartaz?
-Bom... tem alguns, de diferentes estilos. Ação, animação, romance...
Chegamos próximos à entrada do Mueller e, novamente, me encostei na parede. Fiquei observando Heloísa até que ela dissesse algo. Mas eu sabia muito bem o que eu queria. Ela era ideal para mim. Mas tudo o que é ideal, precisa ser transformado em real. Conhecia o suficiente para julgar que ela era tudo o que eu mais queria. Porem, não sabia se ela era comprometida ou coisa parecida. Então, impulsivamente perguntei:
- Escuta, você tá namorando?
-Ah... não. Aliás, nunca namorei.
- Que coincidência.
- Por que nunca namorou?
- Não encontrei a garota certa, ainda. Ou acho que encontrei.
- Hum... Quem?
Ao perguntar, ela se posicionou frente a mim, como se estivesse me interrogando.
- Uma tal aí que conheci recentemente, mas não estou certo de que ela veja algo em mim.
- E o que ela precisa fazer? - Perguntou-me como se fosse uma psicóloga ou conselheira amorosa.
- Me conhecer melhor.
-Ah é? E por que você acha que eu te chamei aqui? - disse, num tão bastante irônico. Confuso, respondi:
- É... o que?
Sou um burro.
- Oh, burrinho... Quando te vi no restaurante, logo percebi que você era um bom garoto. Fiquei curiosa para saber quem você era.
- Sério? Desde segunda-feira, eu só penso nesse par de olhos verdes hipnotizantes. Mas...
- Mas o que?
- Mas você... você - gaguejei- digo, eu... eu...- mais uma vez, gaguinho- ... creio que exista um processo a ser realizado. Tipo, mesmo tendo certeza que te quero, preciso te conhecer para passar ao próximo nível de um relacionamento. Mas sem nos tornarmos amigos, entende?
-Sim, e é isso o que eu quero! - E foi se aproximando - O que você quer?
- Você.
Finalmente, com a ajuda do telefone, poderia estar disponível para todos meus amigos, mas não esperava que "ela" quisesse me ver tão cedo. Pois havíamos nos conhecidos dois dias antes, no restaurante de seu pai, que foi meu professor de matemática por sete meses na oitava série, um dos melhores.
Enfim, louco para revê-la, fui logo me arrumando. Mas que roupa vestir eu não sabia, ela não disse nada sobre isso, e pelo tom da mensagem ela queria algo imediato. Fiquei no meio termo, não tão sujo mas nem tão limpo. Vesti meu jeans de duzentos reais, minha camiseta velha do Kings of Leon, exagerei no perfume, baguncei o cabelo, roubei uns chicletes de minha irmã, pedi dinheiro para minha mãe, abracei todas e parti rumo ao shopping.
Como eu saí as pressas, não vi que horas eram e nem quantas faltavam para a hora marcada. Resultado, cheguei lá vinte e cinco minutos antes do combinado.
Encostei-me na parede próximo à porta do Mueller e fiquei vendo as pessoas. Aquele era um lugar em que podia se ver de tudo e todos, (estilos, cores, bandas, penteados tatuagens,...). Mas, naquele momento, nada mais me atraía do que a dona daquele belo par de olhos verdes, que aliás, estava demorando para chegar.
Depois de ser praticamente abusado por duas garotas estranhas que não paravam de me olhar, avistei na longínqua esquina um vestido verde e um sapato vermelho. Fui andando naquela direção, meio em dúvida, mas deduzi que fosse ela. E era, quando me viu acenou e eu acelerei meus passos, sorri e, ainda de longe, fui retribuído com um largo sorriso.
Fomos nos aproximando, e quando ficamos frente a frente, só pensei em uma coisa:
- Nossa, como você está linda!
- Adoro Kings of Leon! - foi essa sua resposta, seguida de um abraço, íntimo demais para pessoas tão pouco íntimas.
Fomos indo em direção ao shopping, pouco me importava. Não olhava para a frente, trombava com quem vinha contra mim, só não conseguia parar de olhar para ela. Meu coração parecia uma dinamite prestes a explodir. Decidi perguntar:
- E então, o que você queria?
Respondeu:
- Te ver.
-Só isso?
-Não, lógico que não.
- Então o que mais?
-Sabe se tem algum filme decente em cartaz?
-Bom... tem alguns, de diferentes estilos. Ação, animação, romance...
Chegamos próximos à entrada do Mueller e, novamente, me encostei na parede. Fiquei observando Heloísa até que ela dissesse algo. Mas eu sabia muito bem o que eu queria. Ela era ideal para mim. Mas tudo o que é ideal, precisa ser transformado em real. Conhecia o suficiente para julgar que ela era tudo o que eu mais queria. Porem, não sabia se ela era comprometida ou coisa parecida. Então, impulsivamente perguntei:
- Escuta, você tá namorando?
-Ah... não. Aliás, nunca namorei.
- Que coincidência.
- Por que nunca namorou?
- Não encontrei a garota certa, ainda. Ou acho que encontrei.
- Hum... Quem?
Ao perguntar, ela se posicionou frente a mim, como se estivesse me interrogando.
- Uma tal aí que conheci recentemente, mas não estou certo de que ela veja algo em mim.
- E o que ela precisa fazer? - Perguntou-me como se fosse uma psicóloga ou conselheira amorosa.
- Me conhecer melhor.
-Ah é? E por que você acha que eu te chamei aqui? - disse, num tão bastante irônico. Confuso, respondi:
- É... o que?
Sou um burro.
- Oh, burrinho... Quando te vi no restaurante, logo percebi que você era um bom garoto. Fiquei curiosa para saber quem você era.
- Sério? Desde segunda-feira, eu só penso nesse par de olhos verdes hipnotizantes. Mas...
- Mas o que?
- Mas você... você - gaguejei- digo, eu... eu...- mais uma vez, gaguinho- ... creio que exista um processo a ser realizado. Tipo, mesmo tendo certeza que te quero, preciso te conhecer para passar ao próximo nível de um relacionamento. Mas sem nos tornarmos amigos, entende?
-Sim, e é isso o que eu quero! - E foi se aproximando - O que você quer?
- Você.
2010/01/28
Sabor, dedução, improviso e falta de informação
Desci do ônibus e fui diretamente ao seu encontro e, como de costume, nos beijamos intensamente. Depois de dois dias sem encontro algum, o mínimo que puderia fazer era dar o meu melhor, provar que estava com saudades.
-Poxa, Leo, da próxima vez eu vou contigo! - disse me abraçando fortemente.
-Seria ótimo, mas espero não perder mais um parente distante e ter que viajar às pressas.
-É, mas vamos sair daqui. Nunca gostei de rodoviárias.
Fomos caminhando, quando um cara estranho gritou, "O tetéia, volta pra minha casa!", e eu, como sempre fui calmo, não dei bola, seguimos em frente mas percebi uma certa angústia nos olhos de Michelle, então perguntei:
-Conhece esse maluco?
-... É... Não, lógico que não.
O homem não era velho, aparentava ter a nossa idade, mas não parecia ter sanidade mental. Mas, do nada, uma dúvida surgiu, na verdade, um desentendimento dentro de mim.
Quando beijei Michelle, não senti o mesmo gosto de sempre. O sabor do batom que ela sempre usava junto ao do chiclete que ela sempre mascava, adoro aquela mistura, mas naquele beijo, não senti nada parecido. Era semelhante ao cigarro que eu fumava, mas ela nunca teve vontade de fumar, e nem podia, por problemas de saúde.
Várias teorias iniciaram-se em minha mente... Teria ela me traído, enquanto eu estava chorando pela perda de um tio?... Teria ela começado a fumar?... Teria ela beijado outro garoto, ou garota?...
Sinceridade era o que eu mais prezava em um relacionamento, então decidi interrogá-la, mas antes, optei por beijá-la mais uma vez.
Atravessávamos a rua, quando retornei de meus pensamentos e instantaneamente disse para ela me beijar, ela perguntou "Aqui?", respondi "Agora!". E eu ainda não havia percebido que estávamos no meio da rua. Ela me olhando com um ar luxurioso, me puxou e beijou.
Analisei toda sua boca e seus sabores enquanto nos beijávamos. Não estava enganado, o gosto havia mudado, e analisando mais ainda, ela se comportava de um modo diferente desde a rodoviária.
Percebi que alguns carros buzinavam e empurrei Michelle, enquanto beijava, para a calçada. Quando uma certa fúria me possuiu, joguei a garota no muro, e comecei a interrogá-la:
-Confessa que você beijou outro cara! Confessa que aquele cara estranho não era desconhecido! Confessa que esse gosto da tua boca é de outro vagabundo! Confessa! Confessa que vocês se beijaram! Confessa, quenga!
Cheio de razão, pressionei aquele pequeno corpo contra a parede e lancei olhares fulminantes, esperando que ela confessasse tudo.
Silêncio... Sua expressão demonstrava que ela começaria a chorar, então eu disse:
-Ah, santinha, se arrependeu, é? Confessa!
- Você não sabe de nada!
Conseguiu se soltar dos meus braços, me encarou triste e irada ao mesmo tempo, então, com toda sua força, me deu um tapa na cara e saiu correndo rumo ao ponto de táxi mais próximo.
Poderia ter corrido atrás dela imediatamente, mas a dor era grande, fiquei desnorteado, como quando nos conhecemos. Voltei à Terra e corri, mas era tarde, ela já havia entrado em um carro e partido.
Não sabendo o que fazer, segui caminhando, encontrei um bar e decidi entrar para pensar no que tinha feito.
Duas horas depois, já familiarizado com os outros três clientes do bar, todos nós bêbados, me assustei quando meu celular vibrou. Os amigos riram do susto, e perguntaram o que aconteceu. Li a mensagem:
"Querido Idiota, se você estivesse a par das notícias, não teria apanhado e eu não teria fugido. Saiba que hoje é o dia do mês em que vou ao hospital, doar sangue. E por acaso,fui ao dentista depois. O doutor examinou minha boca e recomendou que eu parasse com os doces, pois estava ferrando com meus dentes. Depois disso, quando estava no elevador, indo embora, aquele "cara estranho" entrou e acendeu um cigarro (só não é mais louco que você) e coincidentemente, o elevador travou. Como eu estava frágil demais devido à doação, o cheiro de fumaça me fez muito mal, fiquei zonza e desmaiei. Me socorreram, e quando acordei tomei alguns remédios no mesmo hospital. Se você, ao invés de ficar lamentando uma morte desde quando desceu do ônibus, decidisse perguntar-me como estava, se aconteceu algo, perguntado sobre novidades, talvez eu não teria corrido de você e sua neurose por cheiros e sabores. E, não, eu não beijei ninguém além de você. Mas tenho uma notícia quente, a partir de agora, anuncio o fim do nosso namoro. Não me ligue, suma!
Como todo o ódio do meu coração, um beijo. Michelle."
Constrangido, fiquei sem palavras. Só ouvia os risos dos bebuns que estavam ao meu lado. Quando um deles disse:
-É, amigo! Haha! Se ferrou!
-Poxa, Leo, da próxima vez eu vou contigo! - disse me abraçando fortemente.
-Seria ótimo, mas espero não perder mais um parente distante e ter que viajar às pressas.
-É, mas vamos sair daqui. Nunca gostei de rodoviárias.
Fomos caminhando, quando um cara estranho gritou, "O tetéia, volta pra minha casa!", e eu, como sempre fui calmo, não dei bola, seguimos em frente mas percebi uma certa angústia nos olhos de Michelle, então perguntei:
-Conhece esse maluco?
-... É... Não, lógico que não.
O homem não era velho, aparentava ter a nossa idade, mas não parecia ter sanidade mental. Mas, do nada, uma dúvida surgiu, na verdade, um desentendimento dentro de mim.
Quando beijei Michelle, não senti o mesmo gosto de sempre. O sabor do batom que ela sempre usava junto ao do chiclete que ela sempre mascava, adoro aquela mistura, mas naquele beijo, não senti nada parecido. Era semelhante ao cigarro que eu fumava, mas ela nunca teve vontade de fumar, e nem podia, por problemas de saúde.
Várias teorias iniciaram-se em minha mente... Teria ela me traído, enquanto eu estava chorando pela perda de um tio?... Teria ela começado a fumar?... Teria ela beijado outro garoto, ou garota?...
Sinceridade era o que eu mais prezava em um relacionamento, então decidi interrogá-la, mas antes, optei por beijá-la mais uma vez.
Atravessávamos a rua, quando retornei de meus pensamentos e instantaneamente disse para ela me beijar, ela perguntou "Aqui?", respondi "Agora!". E eu ainda não havia percebido que estávamos no meio da rua. Ela me olhando com um ar luxurioso, me puxou e beijou.
Analisei toda sua boca e seus sabores enquanto nos beijávamos. Não estava enganado, o gosto havia mudado, e analisando mais ainda, ela se comportava de um modo diferente desde a rodoviária.
Percebi que alguns carros buzinavam e empurrei Michelle, enquanto beijava, para a calçada. Quando uma certa fúria me possuiu, joguei a garota no muro, e comecei a interrogá-la:
-Confessa que você beijou outro cara! Confessa que aquele cara estranho não era desconhecido! Confessa que esse gosto da tua boca é de outro vagabundo! Confessa! Confessa que vocês se beijaram! Confessa, quenga!
Cheio de razão, pressionei aquele pequeno corpo contra a parede e lancei olhares fulminantes, esperando que ela confessasse tudo.
Silêncio... Sua expressão demonstrava que ela começaria a chorar, então eu disse:
-Ah, santinha, se arrependeu, é? Confessa!
- Você não sabe de nada!
Conseguiu se soltar dos meus braços, me encarou triste e irada ao mesmo tempo, então, com toda sua força, me deu um tapa na cara e saiu correndo rumo ao ponto de táxi mais próximo.
Poderia ter corrido atrás dela imediatamente, mas a dor era grande, fiquei desnorteado, como quando nos conhecemos. Voltei à Terra e corri, mas era tarde, ela já havia entrado em um carro e partido.
Não sabendo o que fazer, segui caminhando, encontrei um bar e decidi entrar para pensar no que tinha feito.
Duas horas depois, já familiarizado com os outros três clientes do bar, todos nós bêbados, me assustei quando meu celular vibrou. Os amigos riram do susto, e perguntaram o que aconteceu. Li a mensagem:
"Querido Idiota, se você estivesse a par das notícias, não teria apanhado e eu não teria fugido. Saiba que hoje é o dia do mês em que vou ao hospital, doar sangue. E por acaso,fui ao dentista depois. O doutor examinou minha boca e recomendou que eu parasse com os doces, pois estava ferrando com meus dentes. Depois disso, quando estava no elevador, indo embora, aquele "cara estranho" entrou e acendeu um cigarro (só não é mais louco que você) e coincidentemente, o elevador travou. Como eu estava frágil demais devido à doação, o cheiro de fumaça me fez muito mal, fiquei zonza e desmaiei. Me socorreram, e quando acordei tomei alguns remédios no mesmo hospital. Se você, ao invés de ficar lamentando uma morte desde quando desceu do ônibus, decidisse perguntar-me como estava, se aconteceu algo, perguntado sobre novidades, talvez eu não teria corrido de você e sua neurose por cheiros e sabores. E, não, eu não beijei ninguém além de você. Mas tenho uma notícia quente, a partir de agora, anuncio o fim do nosso namoro. Não me ligue, suma!
Como todo o ódio do meu coração, um beijo. Michelle."
Constrangido, fiquei sem palavras. Só ouvia os risos dos bebuns que estavam ao meu lado. Quando um deles disse:
-É, amigo! Haha! Se ferrou!
2009/12/20
Uma baratinada monstro a dois (Parte UM) - Não Me Deixe Sangrar
Disposto à xingar o desgraçado que me puxou, olho para o fulano e quando reconheço aquele rosto tão avacalhado, simplesmente travei. Pelo visto, foi um ato recíproco de ambos ali naquela sarjeta imunda do Largo.
Meu rosto, meu corpo, só eram capazes de tremer. Pois, internamente, corriam diversas emoções intensamente. Tantas, que se eu fosse um computador, já teria explodido.
Ao mesmo tempo que estava alegre por estar revendo depois de anos a "garota da ordem", estava furioso por tudo o que ela me causou, nervoso pois fico assim toda vez que a vejo, triste por encontrá-la naquele estado, inconformado por ela ser tão burra, disposto a tirá-la daquele lugar... mas isso só depois de ouvir tudo o que ocorreu com sua vida desde que tinha dezessete anos.
Meu sistema estava sobrecarregando-se, e com isso as emoções começaram a se soltar. Lágrimas leves de angústia e uma dor no peito aumentavam meu tremor. Tentei decifrar o que Norah sentia, mas aqueles malditos olhos verdes me hipnotizaram. Só sei que ela não disse nada, eu também não. Não faço ideia de quanto tempo ficamos ali, paralizados. Até que ela disse algo.
- Se eu tivesse condições, me levantaria e te daria um abraço. Mas já estou morta demais para isso. Então, abaixa aqui e me abraça.
-... como você foi capaz de fazer isso... consigo mesma?
Dizendo isso, me sentei ao seu lado e a envolvi em meus braços.
- O que?... Eu era apenas uma garotinha inocente.
- Mas por que? Você tinha tudo o que quisesse.
- Você já se iludiu por um amor, falso ou platônico, certo?
- Não quero falar sobre mim! Quero saber porque você sumiu... e porque voltou, nesse estado.
- Quer saber mesmo?
- Diga.
- Como diria um antigo programa de tv: Senta que lá vem história...
-Já estou sentado, besta!
- Quer uma pipoca, ou alguma bebida? Olha aqui, tenho um resto de pinga, você quer?
-...
Ignorei. Me calei. Rosto sério. Internamente, implorei para que ela dissesse tudo de uma vez.
- Ai, tá... desculpa. Então... Mudei de colégio no meu ultimo ano do ensino médio. Perdi contato, propositalmente, com a maioria daquelas minhas "amigas" e alguns noobs do Leôncio. Nem me importei com você, mesmo sabendo de TUDO.
"Na escola nova, entrei em uma sala bizarra demais. Cheia de estranhos e estranhas, só uma pessoa era interessante. E quis ter amizade imediatamente com ela. Sebastião era seu nome. Aparentemente bonito, inteligente, carinhoso, e deveras outras características que eu considerava ideais para um namorado. No mesmo dia em que nos conhecemos, fomos ao cinema e lá, ficamos. Foi um romance espontâneo. Simplesmente não nos separávamos. Eu estava louca de amores por ele. Meus sentimentos eram os mais sinceros possíveis, pensava eu. Eramos a dupla dinâmica da turma, fazíamos tudo juntos, estudávamos, matávamos aulas, colávamos nas provas, tudo mesmo. Estava disposta a fazer qualquer coisa para não perdê-lo. E acreditava que tudo isso era recíproco... "Recíproco" é uma palavra engraçada, não acha?"
- Talvez, mas lembro que é o nome de uma poesia que te escrevi, creio que foi uma das ultimas que te entreguei, antes de você partir.
- Nossa, que memória você tem! Como é mesmo esse poema?
-Não lembro.
- Capaz! Claro que lembra. Eu lembro:
"Espere um pouco,
me livre deste sufuco,
todo esse vazio me deixa oco.
Preencha-me com tua vida.
Mas, por favor, ..."
-... que seja recíproco.
Ou, um dia, te darei o troco.
- Uau!
- Que vergonha dessa minha criação. Uma das piores que fiz, foi de improviso. Escrevi no guardanapo e te entreguei em seguida.
- É, eu lembro. Li e reli várias vezes. Tentei decifrar teu sentimento, mas falhei. E então vai me dar o troco?
- Seria o certo, bem que eu quero. Mas não agrido mulheres, muito menos bêbadas.
- Haha... Bêbada é pouco. Já nem sei quanto bebi e quantos comprimidos ingeri.
-Depois você conta, agora continua a história.
- Tá bom, tiozão.
"Enfim, eu e Sebas namorávamos escondido. Porque ele dizia que seus pais não aprovavam qualquer tipo de relação antes do casamento, devido à religião. Ele, com quase dezoito anos, já não suportava mais essa privação. Eu, louca com recém dezessete anos completos, queria oficializar de qualquer jeito.
Então, ele me propôs que quando completasse seus dezoito anos, nós iríamos para Portugal, ter uma vida só nossa. Eu, louca apaixonada e inconsequente, aceitei. Mesmo temendo que meu pai tivesse um ataque do coração.
Na véspera do aniversário, comecei a arrumar minhas malas e uma desculpa que meu pai aceitasse bem. Disse a ele que uma colega de turma iria fazer uma festa na chácara de sua família, uma espécie de acampamento de final de semana. Ele me autorizou a ir, e me deu dinheiro para comprar doces. Tudo bem, peguei todas minhas economias guardadas para comprar meu carro e parti. Não sei o que Sebastião disse para seus pais, mas só sei que ele chegou no horário certo onde combinamos. Pegamos o avião para São Paulo às três da manhã, e de lá pegamos outro para Portugal. O fuso horário me confundiu, mas aterrissamos em Portugal quando o pôr-do-sol já ia desaparecendo. Sebás, já tinha tudo combinado com um "amigo" que morava no centro de Lisboa. Do aeroporto, fomos até a casa dele. Um verdadeiro muquifo, aterrorizante. Pensei que estava no Massacre da serra elétrica. Não estava no filme em questão, mas meu pesadelo começou na mesma noite em que cheguei. Quando chegamos, Jardel, o dono da casa, estava fazendo uma coisa que eu nunca havia experimentado, estava preparando uma "carreira", se é que você me entende. Olhou para nós e disse:
-Sejam bem-vindos! Querem um pouco disso? É só a entrada, a noite vai ser de festa, uma longa festa!"
Meu rosto, meu corpo, só eram capazes de tremer. Pois, internamente, corriam diversas emoções intensamente. Tantas, que se eu fosse um computador, já teria explodido.
Ao mesmo tempo que estava alegre por estar revendo depois de anos a "garota da ordem", estava furioso por tudo o que ela me causou, nervoso pois fico assim toda vez que a vejo, triste por encontrá-la naquele estado, inconformado por ela ser tão burra, disposto a tirá-la daquele lugar... mas isso só depois de ouvir tudo o que ocorreu com sua vida desde que tinha dezessete anos.
Meu sistema estava sobrecarregando-se, e com isso as emoções começaram a se soltar. Lágrimas leves de angústia e uma dor no peito aumentavam meu tremor. Tentei decifrar o que Norah sentia, mas aqueles malditos olhos verdes me hipnotizaram. Só sei que ela não disse nada, eu também não. Não faço ideia de quanto tempo ficamos ali, paralizados. Até que ela disse algo.
- Se eu tivesse condições, me levantaria e te daria um abraço. Mas já estou morta demais para isso. Então, abaixa aqui e me abraça.
-... como você foi capaz de fazer isso... consigo mesma?
Dizendo isso, me sentei ao seu lado e a envolvi em meus braços.
- O que?... Eu era apenas uma garotinha inocente.
- Mas por que? Você tinha tudo o que quisesse.
- Você já se iludiu por um amor, falso ou platônico, certo?
- Não quero falar sobre mim! Quero saber porque você sumiu... e porque voltou, nesse estado.
- Quer saber mesmo?
- Diga.
- Como diria um antigo programa de tv: Senta que lá vem história...
-Já estou sentado, besta!
- Quer uma pipoca, ou alguma bebida? Olha aqui, tenho um resto de pinga, você quer?
-...
Ignorei. Me calei. Rosto sério. Internamente, implorei para que ela dissesse tudo de uma vez.
- Ai, tá... desculpa. Então... Mudei de colégio no meu ultimo ano do ensino médio. Perdi contato, propositalmente, com a maioria daquelas minhas "amigas" e alguns noobs do Leôncio. Nem me importei com você, mesmo sabendo de TUDO.
"Na escola nova, entrei em uma sala bizarra demais. Cheia de estranhos e estranhas, só uma pessoa era interessante. E quis ter amizade imediatamente com ela. Sebastião era seu nome. Aparentemente bonito, inteligente, carinhoso, e deveras outras características que eu considerava ideais para um namorado. No mesmo dia em que nos conhecemos, fomos ao cinema e lá, ficamos. Foi um romance espontâneo. Simplesmente não nos separávamos. Eu estava louca de amores por ele. Meus sentimentos eram os mais sinceros possíveis, pensava eu. Eramos a dupla dinâmica da turma, fazíamos tudo juntos, estudávamos, matávamos aulas, colávamos nas provas, tudo mesmo. Estava disposta a fazer qualquer coisa para não perdê-lo. E acreditava que tudo isso era recíproco... "Recíproco" é uma palavra engraçada, não acha?"
- Talvez, mas lembro que é o nome de uma poesia que te escrevi, creio que foi uma das ultimas que te entreguei, antes de você partir.
- Nossa, que memória você tem! Como é mesmo esse poema?
-Não lembro.
- Capaz! Claro que lembra. Eu lembro:
"Espere um pouco,
me livre deste sufuco,
todo esse vazio me deixa oco.
Preencha-me com tua vida.
Mas, por favor, ..."
-... que seja recíproco.
Ou, um dia, te darei o troco.
- Uau!
- Que vergonha dessa minha criação. Uma das piores que fiz, foi de improviso. Escrevi no guardanapo e te entreguei em seguida.
- É, eu lembro. Li e reli várias vezes. Tentei decifrar teu sentimento, mas falhei. E então vai me dar o troco?
- Seria o certo, bem que eu quero. Mas não agrido mulheres, muito menos bêbadas.
- Haha... Bêbada é pouco. Já nem sei quanto bebi e quantos comprimidos ingeri.
-Depois você conta, agora continua a história.
- Tá bom, tiozão.
"Enfim, eu e Sebas namorávamos escondido. Porque ele dizia que seus pais não aprovavam qualquer tipo de relação antes do casamento, devido à religião. Ele, com quase dezoito anos, já não suportava mais essa privação. Eu, louca com recém dezessete anos completos, queria oficializar de qualquer jeito.
Então, ele me propôs que quando completasse seus dezoito anos, nós iríamos para Portugal, ter uma vida só nossa. Eu, louca apaixonada e inconsequente, aceitei. Mesmo temendo que meu pai tivesse um ataque do coração.
Na véspera do aniversário, comecei a arrumar minhas malas e uma desculpa que meu pai aceitasse bem. Disse a ele que uma colega de turma iria fazer uma festa na chácara de sua família, uma espécie de acampamento de final de semana. Ele me autorizou a ir, e me deu dinheiro para comprar doces. Tudo bem, peguei todas minhas economias guardadas para comprar meu carro e parti. Não sei o que Sebastião disse para seus pais, mas só sei que ele chegou no horário certo onde combinamos. Pegamos o avião para São Paulo às três da manhã, e de lá pegamos outro para Portugal. O fuso horário me confundiu, mas aterrissamos em Portugal quando o pôr-do-sol já ia desaparecendo. Sebás, já tinha tudo combinado com um "amigo" que morava no centro de Lisboa. Do aeroporto, fomos até a casa dele. Um verdadeiro muquifo, aterrorizante. Pensei que estava no Massacre da serra elétrica. Não estava no filme em questão, mas meu pesadelo começou na mesma noite em que cheguei. Quando chegamos, Jardel, o dono da casa, estava fazendo uma coisa que eu nunca havia experimentado, estava preparando uma "carreira", se é que você me entende. Olhou para nós e disse:
-Sejam bem-vindos! Querem um pouco disso? É só a entrada, a noite vai ser de festa, uma longa festa!"
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