- Cara, vocês não combinam!
- E?
- Por que cê tá com ela? Não vai durar...
- Ela gosta de mim, eu gosto dela.
- E o que mais?
- Precisa de mais?
2012/10/23
2012/10/12
Saudosa
Acostumei-me facilmente com minha nova rotina de trabalhar
até duas da manhã. Era chegar em casa pouco antes das 3h, comer um miojão
enquanto passeio rapidamente pelas internets e cama.
Era exatamente o que eu desejava ter uma vida diferente. Uma rotina anormal. Viver algo diferente. O
que eu não queria era me viciar em alguém, e consegui por muito tempo. Até que
Jonas, amigo de uma amiga, apareceu na minha vida. Não me interessei
inicialmente, porque o cara namorava. Eu também.
Engraçado que terminamos nossos namoros quase que na mesma
época e encontramos um no outro um ponto de repouso. Nossa relação antes disso
somente existia quando nossa amiga em comum nos chamava pra sair. Após os
términos, no aproximamos mais, sei lá como, e fortalecemos uma boa de uma bela
amizade. Ele reclamava da ex. Eu reclamava do ex. Trocávamos conhecimentos
literários, cinematográficos e afins. Saíamos semanalmente atrás de alcoól e o que ele mais pudesse nos oferecer.
Contudo, porém, poxa vida, surgiu-me um encanto sútil pela
estranheza do rapaz. Idiota que sou, não consegui bolar um plano de conquista.
Na verdade, nem tentei. Apenas fui alimentando a amizade e deixando que seu
charme me encantasse cada vez mais. Eu queria, mas não agia.
Eu estranhava que Jonas nunca tentara me seduzir. Pelo menos
nunca percebi. E meu sensor pra flertes,
cantadas e tal era bem preciso. E eu nem sou tão feia pra ele me evitar. Talvez
minha irmã esteja certa: “Gi, acredite que ainda existem caras românticos, mas
não daqueles que se fazem. São raros, mas ainda existem garotos melancólico, romancistas, românticos, etc.
Ainda tem cara que respeita a guria, que é gentil, que fica quietinho por mais
que te deseje e só se declare se perceber uma reciprocidade, blablabla.
Problema é que muito cara escroto se paga de bom moço.” Eu não tentei perceber
como Jonas agia na paquera, só conseguia enxergar um encanto indescritível
naqueles olhos cheios de ressaca e naqueles três dentes inferiores frontais
perfeitamente tortos.
Ele vivia elogiando meu perfume, meus sapatos, meus vestidos
floridos, minhas meias-calças e meu eterno batom vermelho. Dormi na casa dele.
Ele dormiu na minha. Até pensei que ele fosse gay, mas não. Era apenas gentil.
Derretia-me com esses elogios.
Apesar do desejo, com medo de estragar nossa linda amizade,
desliguei-me do pensamento de tê-lo. Saí com caras aleatórios. Não pensava
tanto mais nele. Aliás, nem pensava nele. De algum modo implícito e
desproposital, distanciamo-nos.
Numa madrugada rotineira, assim que me deitei comecei a
pensar na vida. Aprofundei-me seriamente em reflexões sobre filmes. Eis que me
lembrei de umas cinematografias que precisava terminar. Faltava só um do Aronofski.
Aí lembrei que o Jonas vivia me chamando Nina Sayers. Jonas. Meu Deus. Jonas
maldito. Quanto tempo já não pensava nele?
Tudo que pensara até então sumira.
Jonas, Jonas, Jonas...
Senti-me uma idiota por ter deixado de pensar nele com tanta
frequência. Eu gostava de pensar nele. De figurar coisas que poderíamos fazer
juntos.
Por mais que eu tentasse, ele não saía da minha cabeça. Sua
voz perambulava pelo meu quarto dizendo “ô, Gisele, como assim você nunca
assistiu Seinfeld?”. “Quê? Você não gosta de Woody Allen? Sai daqui agora!”.
“Você não chorou com Gran Torino... Vá se tratar...” Eu adorava discutir com
ele, eram sempre embates saudáveis e terminavam com ele me dando um peteleco na
ponta do nariz. Um gesto bobo, porém adorável.
Flashbacks e mais flashbacks me atormentavam acompanhados de
uma saudade emergente e uma falta de ar absurda.
Meu peito começou a palpitar fortemente. Não gosto de
clichês, mas não posso negar: meu coração estava querendo explodir minha caixa
torácica. Meus batimentos cardíacos estavam mais rápidos que o Papa-léguas.
Eu estava surtando. Eu estava desesperada. Eu precisava de
Jonas.
Foi só lembrar do maldito Jonas que essa dor inédita se iniciara. Nunca havia surtado por uma pessoa. Ninguém mesmo. Nem quando
platonismo imperava no ensino médio. Nem ex-namorados. O tal do Jonas teve a
moral de me tirar o fôlego. E nem precisou de contado íntimo.
Então o ar voltou e o coração se estabilizou, porém uma
ansiedade desgraçada aparecera. Eu precisava ver o maldito Jonas.
Pensei em esperar até um próximo encontro, porém eu não
aguentaria. Pensei em mandar uma mensagem o convidando para uma cerveja na
noite seguinte, contudo ele poderia negar. Pensei em ligar, mas não seria
suficiente. Pensei em esperar até ele acordar... Eu estava ansiosa demais pra
esperar.
Minha impulsividade ansiosa não me deu tempo para escolher
uma roupa bonita, mas me lembrei de passar o perfume que Jonas gostava.
Saí feito uma louca pedalando. Eu não tinha medo de pedalar às três e pouco da
manhã. Furei todos os sinais possíveis da Sete de Setembro. Esqueci-me de
respirar várias vezes. Cogitei o fato de que talvez ele não estivesse em casa e
me desesperei mais ainda.
Cheguei, prendi a bike num poste em frente ao prédio e corri
pra portaria. Nelson, o porteiro, que já me conhecia, abriu-me a porta dando bom dia e, para minha
alegria, disse que eu podia subir ao apartamento de Jonas.
A ansiedade não me permitiu aguardar o elevador e me fez subir as escadas saltando de quatro em quatro degraus até o sexto andar.
Cheguei, toquei a campainha rapidamente três vezes e comecei
a andar ansiosamente pelo corredor.
Escutei o barulho da chave penetrando a fechadura, corri pra
frente da porta e sorri por dentro.
- Meu Deus, Gisele! - assustou-se Jonas ao me ver toda
ofegante parada em frente a sua porta às quatro da manhã de uma quarta-feira.
- Bonita camiseta. Chorei nas três vezes quando vi esse filme.
– minha impulsividade nervosa falou por mim e me fez comentar sobre uma
camiseta d’onde vivem os monstros.
- Eu também... Quê cê quer, Gisele? – cochichou todo manhoso
de sono.
- Eu... – pausa para respirar -... Preciso te contar uma
coisa. Ai...
Sabia muito bem que
me arrependeria, mas estava ansiosa demais pra fazer uma análise de
consequências.
- Vai falar no corredor ou quer sentar?
- Com licença. – fui entrando e rumando ao sofá da sala.
Enquanto ele trancava a porta e se direcionava ao sofá,
aproveitei para respirar. Tanto respirei que não escrevi um roteiro mental do
que eu pretendia dizer a Jonas.
Olhei seriamente e sorri timidamente. Sentou-se e brincou:
- Prossiga... – disse-me passando o microfone invisível.
Iniciei meu monólogo:
“Jonas, não sei se você notou, mas meio que nos distanciamos
no último mês. Não sei se foi por falta de rolês ou porque enjoamos de sair
juntos. Sei lá! Só sei que gosto de tomar cerveja e debater sobre as vidas
contigo. Mas hoje me aconteceu uma parada muito estranha.
Eu estava em casa já tentando dormir e pensando em
aleatoriedades. Aí, do nada, lembrei de você. Lembrei que me esquecera de você.
Não digo esquecer de verdade, mas você estava escondido no fundo da minha
mente. Aí me surgiu uma saudade agonizante. Sei lá, do nada, me surgiu uma
falta de ar tremenda. Sério, sem mentira, meu coração começou a estremecer
parecendo um junkie epiléptico com overdose. Minhas tentativas de respiração
soavam alto. Estava difícil puxar ar. Batia forte o tambor, eu achava que ia
infartar. Foi desesperador.”
Falei tudo de modo rápido e bagunçado. Mirei seus olhos, que
miravam o canto vazio de sua sala. Ele parecia distantemente disperso e
reflexivo. Só consegui esperar uma resposta. Enfim, ele disse:
- Tá... Mas me diga o porquê de tudo isso.
- É que porque eu que... – me embananei toda e travei.
- Fala... Por que te deu esse negócio?
- Passei noites pensando em você logo que começamos a sair
com maior frequência. – assim que comecei, não parei. Decidi falar tudo e
f#0da-se.
“Não só pensando na nossa amizade. Pensando nesse teu
maldito encanto. Pensando nesse teu sorriso desgraçadamente lindo. Pensando
nessas tuas canelas tortas. Pensando em você. Pensando em passar tardes e mais
tardes deitados num colchão fazendo nada além de nada. Pensando em tanta
coisa... Mas eu não queria desperdiçar essa nossa amizade, então não te falei
nada, por mais que eu quisesse imensamente. Pensei que se eu me confessasse pra
você, eu estaria estragando tudo. Eu não quero você longe, então pra conservar
nossa relação, me calei e fiquei te desejando silenciosamente. Até que no
último mês, paramos de nos ver tanto. Aí hoje me veio essa saudade
desesperadora de ver teu sorriso, teu riso e todas as demais coisas que te
tornam um rapaz extremamente encantador. Esse teu charme...”
2012/09/30
Mais um sonho dominical
Hélio estranhava como sua cidade era um
baita ovo. Alguém do colégio conhece alguém da rua, que já trabalhou com um primo,
que estudou com a antiga paixão, que morou no mesmo bairro da professora da
faculdade, que é tia de uma amiga do Opera1, que já saiu com o professor de
sueco, que trabalhou com a esposa do irmão, que é melhor amiga de uma inimiga
da namorada do amigo, que ouvia a banda do vizinho no myspace em 2005, que bebia
no bar que um amigo trabalhava, que ficava ao lado da casa da mãe da menina que
Hélio stalkeava no facebook.
Nosso rapaz dividia apartamento com sua
velha amiga de escola, Cíntia. De tanto que serviu de psicóloga conselheira
para Hélio, a moça resolver cursar Psicologia. O que Hélio não esperava era que
Cíntia fosse colega e amiga de Antônia. Para ele, essa moça tinha uma imagem
muito errada.
Numa manhã dominical, Hélio recebeu a
visita de Júlio, seu primo. Tomavam café e conversavam sobre suas nostálgicas
aventuras infantis, quando Cíntia aparece na sala com cara de “bebi pra carajo
noite passada, meu deus, preciso de água”.
- Bom dia, dona ressaca! Como foi a
noite passada? – disse Hélio à sua roommate.
- Meu Deus, foi uma porcaria. Mas acho
que se não tivesse bebido, seria pior. Ainda bem que encontrei uma amiga minha
e ficamos reclamando até o amanhecer. Aliás, ela tá aí, se comportem, garotos.
Aliás, oi, Júlio!
- Oi, Cíntia, tem café na cozinha. Toma
lá.
Hélio admirava duas coisas em sua amiga:
os conselhos afetivos e as garotas bonitas que ela conhecia.
- Ô, Cíntia, chama lá tua amiga pra
tomar um café com a gente. – empolgou-se Hélio para saber quem era a gata.
- Puts, eu acho que ela tá em coma.
Sério, ela caiu da cama no meio da noite e ainda tá no chão roncando.
- Ahr... Bom, daqui a pouco o Júlio vai
ao mercado comprar umas paradas pro almoço. Cês duas tão convidadas pra almoçar
com a gente, tá?
- Beleza, temos nada pra fazer hoje
mesmo. Mas, ei, Júlio, ela é vegetariana, não coloque bacon no feijão.
- Ok... Domingo não é dia de feijão. De qualquer
jeito, eu estava a fim de matar saudades da minha época de Formosa.
- Como assim? Já foi vegetariano? Perguntou
Cíntia, que andou até a cozinha para se servir de café.
- Não, mas trabalhei lá no Formosa um
bom tempo. Ainda lembro de alguns pratos vegetarianos.
- Que bom , Jú, ela vai adorar.
- Espero que ela goste de outra coisa...
– interrompeu Hélio.
- Oi? – Cíntia e Júlio questionaram meio
que de modo sincronizado.
- Homens... Ela é hétero?
Cíntia e Júlio riram da pergunta.
- Quê? Cê sabe que tuas amigas são
bonitas, mas o problema é que muitas são gays.
– Apesar de ter frequentado muito o
James e o Simão, ela gosta de caras. Acho que até cês já se conhecem.
- Hum...
- Esquece, ela é tipo missão impossível.
- Veremos... D’onde eu a conheço?
- Ela era da gangue da Heloísa, na época
do cavalo babão.
- Tá, eu não conhecia a maldita Hell’o’isa
nessa época.
- Mas sei que tua ex odeia essa mina.
- Tá, seja lá qual for a desavença entre
as duas, f#da-se.
- Enfim, obrigado pelo café. Minha
cabeça tá pesada, tô voltando pra cama, tchau, meninos. – despediu-se a moça,
voltando ao seu quarto acompanhada de uma xícara de café e uma cartela de
paracetamol.
- Falô, mano. – disseram os rapazes,
que, logo, retornaram a conversar sobre suas peripécias de infância.
Hélio, quando namorava, sempre apoiava
sua digníssima, independente da treta. Ela falava mal de diversas garotas, e
ele tratava esses podres como verdade. Mesmo após o término, ele ainda portava
um certo preconceito sobre essas pessoas.
Júlio saíra para comprar coisas pro
almoço, enquanto Hélio ficou pra dar um trato na casa. No banheiro, encontrou
uma carteira feminina caída e, ao apanhá-la, deixou cair uma porção de papéis e
documentos. Dentre eles, um ingresso antigo para o show de uma banda que ele
conhecia muito bem.. De Cíntia, a carteira não era, pois odiava essa banda. Só
podia ser da visitante.
- Meu Deus... Essa mina conhece... Meu carajo, eu estava nesse show.
Obviamente, não teria como ele apontar
quem era a tal, pois muitas meninas foram àquele show em 2007. Começou a
recolher os demais papéis caídos, e encontrou outros ingressos de shows que ele
também assistira.
- Puta merda, essa mina só pode ter sido
emo de Müeller – confabulou sozinho o cara que pertencera a uma tribo muito
esquisita.
Nisso, ouviu um diálogo no quarto de
Cíntia e resolveu ir até lá para devolver a carteira e, claro, conhecer a
menina mistério. Bateu na porta, pediu licença e perguntou se havia alguém sem
roupa.
- Eu! – respondeu Cíntia saindo de trás
da porta e se jogando sobre Hélio. Apesar da resposta, a moça estava trajada.
- Ô, vaca, sai fora! – reagiu Hélio
agarrando sua amiga e a lançando na cama. Só depois disso, ele teve tempo pra
procurar a outra moça, que estava sentada na cadeira de balanço, usando o
notebook.
- Gazélio, essa é a Antônia. Tônha, esse
é o Hélio. – Cíntia cordialmente apresentamdo um ou outro.
Cumprimentaram-se com sorrisos tímidos e
rápidos ois.
Rapidamente, Hélio lembrara que já conhecia
Antônia, mas só de longe. Costumavam frequentar quase os mesmos lugares há
cinco anos, mas eram de turmas diferentes. Ele começou a namorar, distanciou-se
dos rolês e descobriu que a tal da Antônia era odiada por sua namorada.
“Ai, ela é uma falsa, uma poser. Ontem,
ouvia Fresno; hoje, ama Chris Brown. Hoje te chama de bff; amanhã dá em cima do menino que você gostava. Sério, tenho
muito nojo dessa cobra”. Era o que Hélio sabia de Heloísa sobre Antônia, além
de que ela “pagava muito pau pra mim, começou a ir pro Largo, porque eu também
ia.”
- Essa carteira é tua? Estava lá no chão
do banheiro. – perguntou Hélio todo tímido.
- Sim! Brigada. - Antônia se levantou,
deixou o note sobre a cadeira e foi ao rapaz pegar seu pertence.
- Nossa, que camiseta bonita!
- Você conhece Every Time?
- Meu, se o finado myspace trouxe alguma
coisa boa pra minha vida, foi essa banda.
- O myspace morreu?
- Não, tá vivo ainda, mas já não é mais
tão legal como antigamente.
- Verdade, posso dizer que esse site regeu
meu estilo musical por muito tempo. – disse Tônha ao se sentar na cama de
Cíntia, que já estava sentada só rindo da situação.
- Que foi, retarda? – indagou Hélio, alocando-se
entre as duas garotas e dando um pescotapa em sua amiga.
- Cara, como é que vocês conseguem
gostar dessas bandas?
- Cí, acho que aqui estamos em dois
contra uma. – Antônia sorriu para Hélio, como se estivesse o convidando para
zoar Cíntia.
Ficaram lá os três conversando sobre
música até que Júlio retornou do mercado e os levou para ajudarem-no com o
almoço. Os assuntos começaram a se diversificar e Hélio foi se convencendo de
que aquela menina não era o demônio todo que ele imaginava.
Apesar da beleza de Antônia, Hélio não
estava motivado a conquista-la. Passara o tempo em que ele se obrigava a esse
tipo de coisa. Vivia dizendo que não queria forçar nada com ninguém. O pôster
em seu quarto explicava muito bem sua atual filosofia amorosa: “... o vento vai
dizer...”
O papo se prolongou ao início da noite, quando
as duas garotas começaram se aprontar para sair. Apesar de terem sido
convidados pelas moças, os rapazes já tinham compromisso marcado com um
campeonato de vídeo-game. Hélio já se aposentara da vida baladeira. Júlio
estava passando o final de semana na casa de seu primo, portanto estava meio
que obrigado a fazer as mesmas coisas que ele, mas não se importava. Apesar de
viverem em mundos diferentes, a amizade dos dois se mantia pelo parentesco e
pelas nostalgias.
- Cê curtiu a tal da Antônia? – Júlio sabia
a resposta, mas perguntou para ouvir Hélio dizer “sim, claro, quero ela pra
mim!”
- Não, Júlio, pior que não... –
respondeu secamente.
- Sei, sei...
Depois de uma maratona exaustiva de
jogos, foram dormir. Pelo menos, tentar. Os temas eram tão infinitos que
continuaram conversando até serem interrompidos por Cíntia e Antônia, que entraram
no quarto e sentaram na cama de Hélio e se incluíram na conversa.
Júlio já estava apagado quando Hélio se
levantou e disse:
- Ô, vocês duas, tô indo na cozinha.
Querem alguma coisa?
Ambas negaram e ele saiu.
- Amiga, por que é que você não me
apresentou esse piá antes? – cochichou Antônia.
- Quê?
- Ahr... – respondeu Antônia fazendo
cara de sei lá
- Falo nada. Só não fique de cuzisse com
ele.
Ao voltar para o quarto, Hélio tropeçou
em Júlio e caiu sobre ele. Os dois, no colchão do chão, começaram a brigar.
Entendendo a brincadeira, Cíntia se jogou e entrou no ringue. Não demorou para
que alguém puxasse Antônia.
A luta prosseguiu até os quatro estarem
amontoados e imóveis.
Desde o início do dia, Antônia e Hélio
trocaram olhares estranhos. Não se sabe se eram surpresos, amedrontados ou românticos.
Inconscientemente, ambos sabiam que algo estava rolando.
Luta encerrada e três dos perdedores
subiram à cama de Hélio, deixando Júlio, que já estava dormindo, no colchão.
Aquela camiseta rasgada do Every Time I
Die com os ombros à mostra. Aquele papo sobre o disco novo do Between the
buried and me. Aquele batom vermelho pós-festa. O “...” tatuado na canela. Hélio
estava convencido que Antônia era uma garota interessante e que se desvencilhava
dos estereótipos criados por Heloísa.
Obviamente, a garota ideal só existe na
cabeça de quem a cria. Por mais incrível que a mina seja, ela sempre terá algo
diferente do que se almeja.
Cíntia logo deitou e dormiu. Hélio
estava sentado apoiado na parede.
- Posso? – Disse Antônia, apontando a
barriga de Hélio.
Incrédulo, meneou a cabeça e deixou que
a garota repousasse sobre sua barriga. Imediatamente, Hélio entendera que o
olhar lançado por Antônia poderia ser traduzido como “te quiero”.
Os dois empurram Cintia para fora da
cama e se deitaram confortavelmente.
Pode-se dizer que Antônia era uma
daquelas belas garotas que 100 em cada 10 caras desejam. Hélio, sempre muito
pessimista, ainda não acreditava que ela estava ali com ele. Enquanto ele
acariciava seu cabelo, ela passava a mão em sua barba. Os dois focavam seus
olhares ao teto como um torpedo de felicidade.
Gasélio não era de exigir que sua garota
seguisse tal moda, muito menos de desprezar tal tipo de roupa. O visual de
Antônia era bacana: Camiseta rasgada de banda, calça jeans que ficou curta e
virou bermuda, tatuagem com sentido particular. Era, visualmente falando, a
versão feminina de Hélio. Porém, ele não portava a magreza encantadora dela.
Por mais que aqueles ombros fossem um
convite sexual para ele, os dois apenas se mantiveram deitados até amanhecer.
Não dormiram, não transaram, queriam nada disso. Permaneceram acordados e
desacreditados por estarem começando a acreditar no potencial entre os dois.
2012/09/04
Dercy
Miguel tem problemas.
- Cara, qual é a tua?
- Que foi, Roberto?
- Miguel, a Clara...
- Que que tem?
- Meu Deus, velho, qual é o teu
problema?
- Se você me dissesse o que tá
rolando...
- Há quanto tempo vocês se conhecem?
- Uns quatro anos, por aí.
- Quem é sua melhor amiga?
- Ela.
- Quem te vê com mais frequência?
- Ela.
- Quem, tirando eu, sabe de todas as
porcarias que você já fez.
- Ela.
- Quem, tirando tua mãe, já limpou tua
sujeira?
- Ela...
- Então!
- Então o que, seu coisa?
- Cara, tem um negócio muito explícito
no ar que você está censurando.
- É, tão explícito que ainda nem vi.
- A Clara está a fim de você!
- Claro, a Clara... Como?
- Cara... Você já viu ela pegando
outros caras, mas não percebeu que ela anda na seca há um tempo?
- Ela ficou com o tal do Gilberto.
- Isso faz mais de um mês.
- Tá... E?
- Nos últimos rolês ela tem ficado na
boa, sem se atrair pelos caras e rejeitado qualquer um que chegue nela.
- Ela me disse que não quer se
estressar com romances de uma noite.
- Por que será? Ah... Será que ela tá a
fim de se dedicar um cara só? Será que ela já não deu algum sinal disso?
- Ela tem intimidade o suficiente pra
chegar na minha cara e assumir que está a fim de alguém. Se ela não fez isso, é
porque ela não está a fim alguém!
- Cara, não é a mesma coisa. Não é
fácil chegar pra uma pessoa que você conhece há milanos e falar esse tipo de
coisa.
- Ela tá perdendo tempo.
- Ela não assumiu, mas já lançou vários
sinais fatais.
- Que sinal?
- Numa festa, na minha casa, meio beba,
ela perguntou a um inocente rapaz se ele nunca teve vontade de beijá-la.
- Velho, ela disse isso pra mim. Ela
estava seiscentos por cento bêbada.
- E o que você respondeu?
- Mandei a besta dormir, porque ninguém
mais estava aguentando a chatice dela.
- “O amor pode estar adormecido na
amizade. Mas, assim que acordar, não pode voltar mais a dormir”.
- Que besteira é essa?
- Fabrício Carpinejar.
- E daí?
- Cara, todo mundo vê vocês dois como
um casal. Estão sempre juntos. Dão-se muito. Tem uma intimidade gigantescamente
gigante. Não ligam para o que o outro faz ou fez. Só o que falta é vocês
ativarem o botão “namoro”. Vocês, não! Você!
- Ah, não... Roberto, todo mundo sabe o
quanto eu gosto dessa maldita. Acho que depois da minha mãe, ela é a mulher
mais legal que existe. Mas tenho que te contar uma parada...
- Você é gay.
- Não! Já te contei como conheci a
Clara? Detalhadamente?
- Sim, mais ou menos, acho.
- Então, eu e sei lá mais quem lá na
frente do finado bar do Credo... Bem na época que terminei com a Heloíza, eu estava louco pra conhecer altas gatas.
“Daí, ficava o tempo todo olhando pras
multidões a procurar das mulher. Então, apareceu uma guria que me deixou meio
travado. Uma mina muito gata. Estava meio perto, meio, fumando e conversando
com uma galera. E eu, cê sabe, quando prego os olhos numa magrela, não me solto
tão fácil. E eu olhava e olhava e olhava e pensava ‘vou chegar nela, vou chegar
nela, mas, calma, ainda estou consciente demais pra isso.’
Continuei meu rolê. Trombei com ela
dentro bar, fora do bar, dentro, fora, dentro, mas não tive moral pra chegar
nela. Numa das saídas pra fumar, fiquei perto dela. Tipo, ao acaso do destino.
Aí que eu fiquei ‘puts, vô chegar nela agora, vô chegar nela...’ Eis que ouço
sua voz e desisto na hora. Aí numa outra noite, num outro bar, ela chegou em
mim perguntando se eu estava no bar do Credo em tal data e blablabla. Começou a
amizade sem maiores intenções, porque eu já tinha perdido a pira.”
- Espera... Ainda não entendi o motivo
pra você não ter dado em cima da Clara.
- Velho, eu sei, tenho problemas, mas
sou de cismar com voz feminina.
- Pelamor, que que tem de errado com a
Clara? A voz dela é igual à de alguma ex?
- Parece a Dercy Gonçalves, velho! Voz
de velha rabugenta.
- Não, calmaí, tem algum trauma com a
Dercy?
- Não, cara, assim, me xingue o quanto
quiser, mas tenho essa pira. Pra mim, sei lá, a voz tem importância na hora do
flerte. Não tô falando de entonação, tô falando de voz mesmo, a natural de cada
pessoa. E tem alguns tipos que me desagradam. Sei lá, essas meio escarradas,
gritadas e agudas. Voz de bruxa da Disney, sabe?
- Falando em Disney, você é mais
imbecil que o Pateta. Sério...
- Posso fazer nada.
- Tirando a voz, o que mais te impede
de ficar com ela?
- Sei lá, acho que só a voz e o fato de
que eu não quero jogar nossa amizade no lixo.
- Você tem medo de arriscar.
- Uma vez na friendzone, pra sempre na
friendzone.
- “Friendzone é um mito”.
- Quem disse?
- Uma amiga minha.
- Já pegou essa tua amiga aí?
- Não, não peguei.
- Então como você pode acreditar que a
friendzone é um mito?
- Cara, a única amiga com quem namorei
foi minha namorada por meia década, fora os dois anos antecedentes de amizade.
- Duvido que ela tenha sido a única.
Por exemplo, a Dália é tua amiga mais gata, aposto que cê já foi a fim dela.
- Ela é a guria mais linda que já conheci
na vida. Mas, não, credo, não ficaria com ela. Você não tem noção do quão
doente aquela guria está por um outro cara aí.
- Acho que você é feio demais.
- Não, vá se ferrar. Ela é bem
específica na hora de amar. Se um dia ela tivesse qualquer atração por mim, por
menor que fosse, ela chegaria na minha cara e diria.
- Fala isso pra Clara. Fala pra ela
fazer o mesmo que a Dália e me falar tudo na real.
- Não, a tua Clara funciona de outro
jeito. Ela dispara sinais, abre espaço e deixa o resto por sua conta. Você é
quem tem que agir. Seja pra dizer que quer nada, seja pra dizer que quer dar
uma chance.
- E se der merda? E se eu magoá-la? E
se isso for só coisa da tua loucura.
- Se, se, se... Manda o “se” se f#der.
Vou cantar um pagode.
- Adoro pagode, ferinha.
- “Deixa acontecer naturalmente...”
- Por acaso, você conhece o resto da
letra?
- Não, não conheço. E nem quero
conhecer. Mas essa frase te serve de conselho.
- Sei lá... A Clara costuma pirar
frequentemente. Talvez, seja só uma vontade mal pensada.
- O “talvez” é irmão do “se”. Você tem
que ignorar essa família. Você é que tem que fazer alguma coisa. Sério, você
ficaria com ela?
- Cara, ela é a coisa mais incrível de
todos os universos. Tô falando dentre homens, mulheres, cachorros, esquilos,
lugares e hambúrgueres.
- Sério?
- A Clara, meu Deus, a Clara é um
negócio fantástico...
- Nossa, que bonito. Isso não é coisa
que se costuma dizer de uma amiga. É coisa que aquele senhor de oitenta anos
fala sobre seu casamento de mais de cinquenta anos.
- É, você está começando a me convencer
que eu preciso dar um rumo nesse rolo.
- Se joga, louca!
- Mas e se não der certo?
2012/08/27
Menina da rua #2
Até parece que foi sonho.
Nunca havíamos conversado, nem seu nome eu sabia. Obviamente, tinha
me encantado pela beleza da moça. Porém, como sempre, só apreciava de longe.
Não lembro o assunto que nos aproximou. Já havia a visto em
outras noites, eu a achava uma garota repugnante, apesar de charmosa.
Não lembro o que aconteceu antes, mas repentinamente
estávamos sozinhos na esquina do bar. Quer dizer, eu, ela e minha bicicleta.
Discutíamos sobre filosofias de vida ou coisa parecida. O tom
do diálogo era pesado. Morria de raiva das ideias opostas daquela
garota. Apesar das opiniões distantes, estávamos pouco a pouco nos aproximando
fisicamente.
Um metro... Sessenta centímetros... Olhos a um palmo de
distância.
Nem meu Deus sabia o tamanho da minha vontade. Eu desejava imensamente aquela garota.
Um assunto sobre algo romântico, talvez, não lembro, incomodou
ambos e trouxe o silêncio. Contudo, meus olhos haviam se concentrado ainda mais
nos olhos dela. E foi recíproco. Além dos olhares, ela soltou um sorriso que ainda
não consigo descrever. Um negócio tímido, sensual, fechado, de lado, querendo
dizer algo, vai saber.
Não tolerei mais meu impulso. Recostado em minha bicicleta,
me inclinei na direção da moça e beijei seus lábios. Um ato inesperado, simples
e ligeiro. Boca mais carnuda não havia.
A moça reagira com uma expressão furiosa, proferiu “você
está malu...”, calou-se antes de terminar a frase, fez cara estranha, aproximou-se e retribuiu o beijo. Foi um negócio absurdamente forte, intenso e
sincronizado. Encaramo-nos sorridentes e continuamos nessa loucura all night long.
“I want you
I want you so bad, babe
I want you
You know I want you so bad
It's driving me mad
It's driving me mad
She's so…”
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