2015/02/28

Faísca

Conscientes de não viverem numa fantasia romântica, em que rotação e translação congelassem, dando tempo suficiente para que aquelas duas pessoas decidissem individualmente como reagir àquela colisão. Desviar o olhar, cumprimentar apenas com os olhos, soltar um “oi” tímido, abraço, beijo, proposta de casamento, pedido de desculpas, pular na frente do ligeirinho, tantas possibilidades e gritando por imediatismo, o agora.
O mesmo gás carbônico expelido pelo mesmo ônibus inspirado por ela e ele, as mesmas ondas sonoras cantadas pela vendedora de uma loja de calçados… O mesmo sentimento: imprecisão sobre o que corria em seus pulmões além de sangue, ar, álcool e saudade. Era algo inflamável. A fonte para o alastramento desta potencialmente grandiosa e destruidora chama repousava no peito da pessoa se encontrava perdida, a sua frente naquele encontro ao acaso, não apenas mais um apesar de ser mais um, na tarde do último sábado de fevereiro.

Refletindo sobre sua incapacidade para cumprir prazos, com dois livros atrasados para devolução, caminhava em direção à Riachuelo e percebeu, pouco depois do cruzamento, um som de guitarra e caixa do jeito que o J. L. H. gosta, então resolveu desviar sua rota para ouvir a dupla fazer bagunça. Dois minutos foram suficientes para estragar a festa. A corda da guitarra se arrebentou com o peso do Blues.
Lembrou-se que tinha menos de vinte minutos para pegar a biblioteca aberta, deixou generosas moedas para os músicos e seguiu sentido Osório para virar na Monsenhor.
Devolveu os livros, pagou a dívida, pegou mais um e fez o mesmo caminho para ver se ainda encontraria a dupla fazendo seu som, mas não conseguiu, encontrou um oceano no meio do caminho.

Almoçou na 13 de Maio, desejando ter todas as refeições de sua vida, mesmo que fossem só x-saladas e pizzas, naquele lugar. Riu escondida do cara que pegou um pedaço de pizza, um croquete e um sanduíche natural. Algumas pessoas conhecem a própria fome, ponderou consigo mesma.
Entre uma mordida e outra, lia sobre uma mulher e seus conflitos existenciais sobre maternidade, casamento, criatividade, arte, ciência e morte, quando uma moça, não a do livro, levantou-se apressada para fora da lanchonete assim que uma abelha pairou sobre seu copo de limonada. A leitura teve certeza que se fosse um sapo no lugar do inseto voador faria o mesmo.
Passou pela Tiradentes acometida por habituais calafrios que lhe invadiam na proximidade de casas de Deus, lugares onde nunca se sentira em paz. Pouco depois do calçadão da Generoso, travou o passo ao ver um violinista mascarado disparando uma composição desconhecida e encantadora. A máscara lhe lembrava carnaval e Cidade dos Sonhos. Não conseguiu se concentrar no som devido à imagem que ressuscitava lembranças desagradáveis.
Ao cruzar a XV, atendeu seu celular e descobriu que seu amigo, com quem deixou seu cartão de memória na noite passada, não estava mais na Pedro Ivo e teve que subir à Tapajós. Deu meia volta e encarou o chão para passar novamente em frente ao violinista mascarado na Monsenhor. Assim que levantou a cabeça, avistou de longe a bomba atômica caindo em sua direção.

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