2015/11/25

Veredito - Parte I

- Testemunha número um

Cúmplices, testemunhas, álibis, réus, juízes, júris, advogados, somos tudo isso neste crime chamado Desejo. Não há culpa única, apenas meus atos somados aos teus e as consequências. Não planejamos a execução de tudo e consequentemente deixamos rastros. As marcas ficaram em todos lugares, por todos os campos onde corremos, em cada centímetro de nossos corpos, e não conseguiríamos apagá-los mesmo se fossemos perfeccionistas.
Disseram-me uma vez (não lembrar a fonte, o que afeta a veracidade do meu testemunho) que “‘dá certo’ quando uma pessoa é idealista e a outra pragmática”, mas não souberam me dizer sobre quando as duas pessoas mantém suas mentes isoladas em nuvens e tomam chá de pessimismo com folhas de receio após todas as refeições.
Eu parti. Você ficou. A cidade. O caso. Eu não dormi e Você, não sei, por meses. Pensei, e creio que você também tenha pensado assim, que as evidências, as memórias, do que havíamos feito aparentemente haviam sido eliminadas da existência. 
Na época que nos conhecemos, eu cursava Direito, supostamente devia saber o rumo ético, legal, o que seja, em qualquer situação, mas comecei a fazer tudo errado quando me viciei na droga do amor. Ao te conhecer, comecei a descobrir uma pluralidade coisas que me desviaram do caminho “certo”. Larguei a faculdade, família e tudo que podia me deixar estagnado. Encontrei em você, nas artes e em todo o resto que encontrei em meu novo caminho o que eu queria para mim. Mas aí nós dois chegamos a uma rua sem saída para nosso relacionamento, um beco cheio de ansiedade. Não sei como seguiu sua vida depois. Eu fui pra longe. Assumir uma nova identidade, me distanciar da vida de delitos ao teu lado.
Agora estou de volta à cidade onde cometemos o mesmo crime várias vezes, em diversos lugares. Agora, enquanto mentalizo este conto, estou aqui, no ônibus indo ao bairro onde crescemos e nos conhecemos pra pegar as coisas que meu recém falecido pai deixou de herança, creio que apenas um álbum de fotos e os livros de receita que ele e minha mãe escondia. Agora, enquanto sopro para longe a lembrança melancólica das duas pessoas que me trouxeram a este doloroso mundo, estou sentado a poucos metros de você que ou me viu e se afunda num livro pra se esconder e sumir ou não me viu e, de qualquer maneira, se afunda num livro pra se esconder e sumir. Aliás, o que você está fazendo aqui? Não havia se mudado pro Centro, naquele prédio na rua do último emprego que tive nessa cidade? Talvez você tenha se aliado à Justiça, a fim de ter sua pena reduzida, e está me seguindo, usando uma escuta com câmera escondida pra me pegar em flagrante, me condenar a prisão perpétua pelo crime de Não Esquecer Um Amor Passado. O banco ao seu lado vagou. Demoro algum tempo pra me decidir se devo me sentar ao teu lado. O lugar que deve estar desocupado há algum tempo. Eu sei, tenho informantes, você se casou com aquele cara, que morreu de câncer há pouco mais de um ano. O maldito não escondia os sentimentos que tinha por você, nunca o condenei por isso, e você não queria machucá-lo, mesmo sabendo que naquela época era parceira de outro alguém no amor e não podia ficar com ele. Não sou covarde de te incriminar por se apaixonar novamente, depois de nosso desfecho, jamais seria, e tenho certeza que ele foi um amante muito mais digno e memorável que eu, que não consegui viver em cumplicidade por mais tempo. Nunca tive estrutura psicológica para essa vida criminosa. Como está o seu luto? Que crimes anda cometendo?
Aqui terminam meus pensamentos no banco dos réus. Vamos aos fatos ao vivo, no banco de ônibus. Levantei-me, hesitei, andei, sentei ao teu lado e você demorou um pouco pra perceber que não era mais uma senhora de vestido verde que estava ao seu lado. Você fechou o livro, sem olhar pra mim, encostou a cabeça no vidro e, olhando para fora, para a rua onde andávamos de bicicleta, para a rua que agora está asfaltada e sem quase metade das árvores de antigamente. Você permaneceu encarando o exterior. Em silêncio, ainda sem mirar teus olhos castanhos pra mim, sorriu.

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