2013/01/11

Qualquer coisa pra te ter novamente

Baseado em uma novela mexicana alheia.


Minha viagem finalmente se encerrou e enfim voltei à minha cidade. Foram três semanas acompanhadas de um sentimento intraduzível: tinha com quem me importar, mas queria mesmo era estar contigo.
O que eu mais fiz, além de responder questionários clichês de tudo quanto é parente, foi calcular o tamanho da burrice que fiz antes de partir. Tinha tudo nas mãos. Digo, tudo o que precisava. Mas não, decidi escolher o mais fácil. Prendi-me a outro alguém. Fiz isso de escolher entre a outra e você só pra não me citarem aquele ditado besta: “mais vale um passarinho na mão do que dois voando”. Te soltei. Me prendi. E agora queria estar voando por aí, andando por aí, bebendo um café por aí, assistindo a um drama francês por aí; talvez ouvir uns discos do Esmites por aí (dói lembrar da tua risada ao ouvir-me caçoando The Smiths, porque, ah, como eu sinto falta). Por aí... Aí ao teu lado.
Não quero contar sobre o que aconteceu com a outra, pois aconteceram coisas boas, não escondo. Sei que está se coçando pra perguntar “Quem é melhor? Eu ou ela?”, mas acho uma baita baixaria ficar comparando. Não tem como, nem porquê. Porém, posso te dizer que o número de bons momentos foi tremendamente menor que o número de desavenças. Brigas. Brigas bobas. Mas o maior motivo de eu não querer mais a desgraçada foi, e continua sendo, você. Bá, mas tu me tiras o sono de um jeito, guria... Se pelo menos fosse o teu cabelo bagunçado no meu peito ou teus beliscões fraquinhos no meu braço os motivo dessa insônia, estaria tudo bem. Mas me ocorria exatamente o oposto. Tua ausência. Fazes-me falta. E eu sei que meu filme está queimado contigo. Muito queimado. Tostado. Cremado. E a culpa nem tua é. Eu peguei o que sentia por ti e lancei pela janela do carro, enquanto me distanciava. A cara que tu fez, enquanto eu me despedia, guria, hoje lembrando, dói em mim. Dava pra ver na tua cara, que você queria chorar, não sei se de raiva por ouvir minha decisão ou de dor por gostar de mim de um jeito que, naquele tempo, era maior que o que eu sentia por ti. Pensando mais em mim, não me importei com o que tu sentias, por mais que eu gostasse de ti.
Aí... Parti pra minha terra natal e lá reencontrei aquele pacote com tudo o que sentia. Inocência, carinho e um pouco de esquizofrenia. Uma franja tão grande que esconde teus olhos verdes e teus lábios que me encantam brutalmente. E você ainda me dizia que o cabelo jogado na cara era só pra esconder as olheiras. Mas, guria, você não imagina o quanto essas olheiras são bonitas e charmosas. Através dela, percebi tua alma inquieta, que passa noites pensando em... tudo. Inclusive, pensando em caras que partiram teu coração, como eu.
Mas eu fui tolo. Desperdicei-te. Desperdicei a chance de passar horas discutindo sobre o mérito de tal diretor por receber tal prêmio, ou diálogos sobre tristezas passadas, que nos atormentam e moldam nossa personalidade até hoje, ou sobre as vantagens de ser depressivo. Coisa, aliás, que temos em comum em alta quantia.
E na ceia de natal, enquanto todos faziam a piada do pavê ou comentavam sobre o show anual do Roberto Carlos (“como ele chegou ao patamar de ‘rei’?”, lembro de você me perguntar isso uma vez num tom indignado), eu estava cada vez mais decidido em largar a outra e... correr pros teus braços. Mas eu sabia que você não me receberia sorridentemente. Acho que você me odeia atualmente. E eu sabia que você já estava se envolvendo com outro. Menos babaca que eu, espero. Mas isso não me interessa.
Porém, acredito que você não me odeia tanto, tanto, até porque ainda trocamos mensagens humildes por celular. Quer dizer, eu mandava uma sms com algum assunto aleatório e você me respondia com teu clássico “haha :)” no final, que me deixa puto. Não sei se você me respondia por educação, pra não soar grosseira, ou porque ainda tinha vontade de mim.
Assim que cheguei à Curitiba, minha primeira vontade foi correr para tua casa. Mas eu não estava pronto. Eu precisava redigir um pedido de desculpas. Eu precisava estar pronto para poder te encarar e contar as verdades.
Primeiramente, me abri com uma amiga, aquela que você sentia um pouquinho de ciúmes por termos uma amizade tão sincera, mas você sabe que eu não a desejava do jeito que eu te desejava. Depois, fui me abrir sobre você com um amigo, que é um romântico frustrado, pior que eu. Você não o conhece, ele é gente boa, um depressivo melancólico, pior que nós dois juntos. Aliás, vocês deviam se conhecer, mas depois. Essas duas pessoas serviram só pra eu atestar com mais força essa vontade de ter você. Pensei em como agir, pensei muito. Lembrei que aquele teu livro favorito está comigo. Dormi com ele sob meu travesseiro só pra que absorvesse meu cheiro. Mandei-te uma mensagem de celular com “preciso te ver, estou com aquele teu livro.... quando podemos nos encontrar?” esperando que você se desmanchasse em ansiedade, alegria e vontade; mas você respondeu apenas “nossa, estou cheia de compromissos por aqui :( acho que só na semana que vem... que tal sábado? Haha :)” E na madrugada de sexta-feira, quando escolhemos o local do encontro, iniciei uma crise de ansiedade que me atormentava todas as noites e me fazia dormir às quatro da manhã. Uma semana depois, um dia antes do reencontro, eu estava mais ansioso, porém ainda não tinha algo definido pra te falar. Eu queria logo era te dar um abraço cheio de arrependimentos e um beijo demorado. Até brinquei com meu amigo melancólico pra ele escrever um roteiro (ele manda bem nos contos, mas não mais que você) para o nosso encontro com um com um final feliz e um felizes para sempre. Mas acho que você não aceitaria seguir um roteiro alheio, pois tens vontades próprias e é toda não -linear.
Eu tinha três certezas sobre nosso estimado encontro: devolver teu livro, presentear-te com aquele livro que tanto você queria e ficar todo confuso na hora de falar.

Menina, você é encantadora. Tens um feitiço fortíssimo. Deixa-me com vontade de sentar ao teu lado e fazer tanta coisa... Xingar o maldito Von Trier, assistir três vezes seguidas “Annie Hall”, dizer porquê choramos em “as vantagens de ser invisível” (você indignada que o menino tinha sido violentado pela tia era algo... fofo!), almoçar ao som do Jeff Buckley, discutir sobre Bukowski (como você mesma dizia, “o cara é tão bêbado, que tem ‘whisky’ no nome!”) e.. tanta coisa... “ao infinito e além!”. Ah, guria, como eu quero me desculpar e voltar a ficar bem contigo. Como eu quero. Como eu te quero! Menina, eu te quero.



"Lover, you should've come over
Cause it's not too late"

2013/01/10

2/3 Irmã

...

Entrei no apartamento. Quinta-feira, três da tarde, era pra ele estar em casa. Conferi a cozinha, que estava organizada, exceto por uma faca suja e um pote de ketchup vazio, ambos, na pia. No lixo, um pacote de pão francês do mercado da esquina. Na sala, sobre a mesa aos pés da janela, que estava aberta, nada além de cinco carteiras de cigarro, um cinzeiro transbordando bitucas, um livro sobre inteligência emocional e o encarte de um disco, que estava no toca-discos. Quarto de visitas, como de costume, trancado. Banheiro aparentemente normal. Nada demais.
Eu sei que ele não teria as manhas de se matar, por mais melanco-deprê-pessimista-queria-ter-nascido-no-século-XVIII que fosse, mas... Nunca se sabe. Se bem que não encontrei algo que o encorajasse perdido pela casa, como uma garrafa de uísque. Mas, sei lá, “imprevisível” é o segundo nome do meu irmão.
Entrei no quarto principal. Era janeiro, mas a cama estava soterrada por cobertores. Demorei a distingui-lo em meio a tantas cobertas. Um pé, seguindo tradição que ele mantinha desde a infância, independente da temperatura, descoberto e pra fora da cama. Parada na porta, fiquei o observando. Enquanto dormia, sempre exprimia uma cara sofrida e apertada no travesseiro. E o coitado suava. Estava inteiramente molhado de suor. Ele esteva envolto em um sanduíche de cobertores, e, aparentemente, estava usufruindo de um gostoso e necessário sono. Mas eu precisava conversar com esse maldito.
Comecei a descobri-lo, que relinchou e virou-se para o lado oposto. Puxei o edredom que estava embaixo dele. Puxei com força. E ele foi rolando pelo colchão até cair no chão.
- Ah! Filhada, meu braço!
Ficou choramingando no chão até que começou a se levantar lentamente, me avistou e disse:
- Ô, lazarenta, por que fazer isso? – sentou-se na cama acariciando o braço esquerdo - Aliás... Por que você está aqui?
- Bem idiota você, né? Se isolou do mundo por quatro dias e ainda me pergunta o que vim fazer aqui.
- Não sabia que você tinha a chave.
- Claro que tenho.
- Tá, mas não te fiz nada. Você não devia se importar com isso tudo.
- A Olívia me ligou um milhão de vezes nestes últimos dias. Primeiro, pra te xingar sobre a merda que você fez, que, aliás, não sei o que foi, porque ela não quis me dizer. E depois, preocupada por você ter desligado o telefone e dito ao porteiro pra deixar ninguém subir aqui. Na tua cabeça, essa loucura pode ser normal, mas você precisa manter as pessoas que te querem bem despreocupadas com a tua situação.
- Foi por isso que me isolei. Fiquei quatro dias sem dormir numa insônia culposa pensando em como pedir desculpas pra Olívia.
- Mas... pra quê... se isolar?
- Remorso demais pra dar as caras por aí.
- Seu imbecil, tem nada de dar as caras... Cê só precisava dar notícias pra Olívia. Ela realmente ficou preocupada.
- Eis o problema...
- Quê?
- Olívia!
- Não entendi, o que ela fez de errado?
- Nasceu.
 - A culpa é dela por você ter feito merda?
- É!
- E... Por quê?
- Porque estou com medo... Passei muito tempo com ela pensando que não passava de algo passional entre nós... Pensei que eu seria capaz de ficar longe dela... De não me importar com ela... De pensar somente em mim... De viver a minha solitária... e depressiva vida... em paz. Mas aí...
Repentinamente, começou a tremer e confundir as palavras. Foi aí que percebi as lágrimas. Ele veio em minha direção, me deu um desesperado abraço e chorou mais ainda. Mais do que quando nossos pais faleceram. Ele realmente não estava bem. Ou estava bem demais, mais do que propriamente imaginava merecer.
- Inês, eu amo a Olívia! Eu não queria, mas ... Eu gosto dela de um jeito... sei lá... diferente. Que me faz deseja-la o tempo todo ao meu lado. Eu sei que isso é babaquice amantes de primeira viagem, mas... E, ah, ela cuida de mim de um jeito... Não sou ingrato, sei que você é minha irmã e que cuidou de mim muito bem desde que nossos pais se foram. Mas ela...
- Poxa, mas se você sente tudo isso, por que fugiu dela?
- Vergonha pelo que fiz.
- Ela não quis me contar... Você também vai se calar?
- Mas você sabe o que eu fiz.
- Eu sei, mas não sei.
- Contei pra ela sobre um fato específico do meu passado.
- Cê não tá falando de quando você...
- Sim! Não termina. Eu falei pra ela disso.
- Mas você é um... Então você realmente gosta dela. Não é qualquer pessoa que consegue mergulhar no teu passado. Nossa, você gosta muitíssimo dela.
- E esse é justamente o problema...
- Mas o que tem de errado em gostar dela? Ela é incrível. E se ela gosta desse teu jeitinho... bizarro de ser... agarre-se.
- Isso, eis o ponto. Eu não queria me prender. Eu não queria laços. Eu não queria amar. Porque depois que termina... dói, mas dói muito. É um negócio ardido. Uma dor absurdamente brutal, que abala de um jeito horrível...
- Cala a boca, você está dizendo isso baseado no que viveu com a Heloísa. Pense bem, essa Heloísa era um demônio maldito. Ela te fazia mal, mesmo enquanto você a amava. Eis o problema, você a amou demais, mas não foi recompensado. Ela nunca conseguiu retribuir, no mesmo peso, os sentimentos. Aí ela percebeu isso, e, se mandou.
- O bom é que o amor que eu sentia por ela, que não era pouco, se reverteu em ódio e, só assim, consegui me livrar das memórias.
- E a Olívia, poxa, dá pra ver que ela te ama. Não sei dizer se mais do que você ama ela, mas é grande também.
- Mas eu não quero que a depressão anêmica que eu vivi depois que a Heloísa me largou se repita.
- Cada caso é um caso. Não se prenda a fatos passado. Aliás, se você estivesse se baseando em algo bom, tudo bem, mas estamos falando daquela maldita. Alias, se não tem que ficar pensando no futuro, viva o agora, seu idiota.
- Clichê como sempre, você. Mas, sempre me dando as porradas necessárias.

...

2012/12/21

Communal blood


Um dos amigos decidiu propor um brinde ao casal, segundo ele mesmo, mais incrível e bonito de todos:
- Por favor, casal, falem alguma coisa sobre amor eterno e essas baboseiras que vocês vivem há, quanto tempo?, sete anos.
Ele, plenamente alcoolizado, dono de uma voz grosseira proclamou convictamente em frente aos amigos e a sua mulher:
- Puta merda, nós não somos um casal...
Mas o excesso de álcool prendeu sua língua que pretendia dizer algo mais. Travou.
Todos na mesa, travados. Ele fora interrompido por ela que se levantou e rumou à saída do bar. Uma reação sem sentido sobre algo mais incompreensível ainda.
Ela sabia que não devia ter saído de casa, pois o deadline de uma matéria venceria no dia seguinte. Mesmo assim, ela decidiu acompanhar seu moço e seus amigos. Ela devia ter ficado em casa trabalhando, ao invés de ouvir tal ofensa alcoolizada. Agora sim ela tinha mais um motivo para se odiar. Pegou um táxi, foi pra casa e percebeu que deixara seu computador e todas as suas anotações a respeito do trabalho na casa do rapaz.
Pegou outro táxi, foi a casa dele. Chegando lá, pegou suas coisas na sala e foi ao quarto espiar se o maldito estava por lá. Sim, dormindo feito um bebê hibernante. Lembrou-se que deixara seu cartão bancário em casa. Sua carteira estava vazia. Não tinha como voltar pra casa de táxi e estava sem coragem pra andar do Alto da XV ao Água Verde às três da manhã. Seu orgulho não queria acordar o desgraçado e pedir-lhe dinheiro emprestado.
Decidiu por ficar ali mesmo terminado suas tarefas. Ela sabia que ele não despertaria tão cedo e que, se ela não o perturbasse, nem saberia que ela esteve lá.
Ele estava com a cabeça no lado oposto do travesseiro. Na beirada do colchão. Quase caindo no chão. Abraçando o edredom. Suando demasiadamente. Vestindo apenas sua velha samba-canção xadrez.
Ela sentou-se no lado oposto. Bem no canto. Colada à parede. Pôs o notebook no colo e pôs-se a trabalhar silenciosamente.
Os sonhos dele sempre queriam fugir e, enquanto dormia, o faziam chutar o ar e suspirar.
Ela mal se mexia focada na atividade.
Subconscientemente, dormindo, começou a perceber uma presença em seu quarto. Uma pessoa, um espírito, apenas vento, ele só poderia afirmar se despertasse. Abriu os olhos lentamente e foi vendo que não era só uma pessoa, nem só um espírito, nem só vento. Era tudo. Pessoa, espírito, vento, carinho, aventura, bagunça, música, altruísmo, egoísmo, megalomania, cientologia, budismo, ciclismo, trem-bala... Sua mulher era tudo.
Despertou, mas fingiu que continuava dormindo. Percebeu que o semblante dela, escondido por trás dos joelhos, estava pesadamente triste. Logo recordou o motivo. Logo se ligou que dissera besteira. Logo sentiu vontade de pedir perdão. Mas sabia que ela o negaria três vezes antes de iniciar um sermão sobre impulsividades alcoolizadas. Ficou observando a moça. Do jeito sonolento que ele sempre se encantava. Toda concentrada. Descalça. Com o vestido xadrez. Com o cabelo bagunçadamente solto. Decidiu por agir.
Começou a acariciar o pé esquerdo da mulher. Do dedão ao minguinho. Do minguinho ao dedão. Carinhos lentos e leves regidos pelo indicador.
Ela mal reagira. Já tinha percebido que ele acordara. Encarnou cara de emburrada e começou a encará-lo.
Enquanto passeava pelo pé de sua moça, refletia e confabulava um pedido de desculpas.
Por mais que ela estivesse de mal, seus pés a subornaram a sorrir. Manteve silêncio, até que ele começou:
“Eu sou os pés... Você é a ligeira nuvem.
Eu sou a dor... Você é o alívio.
Eu sou o rascunho queimado... Você é o poema milenar.
Eu sou a melancolia... Você é o largo sorriso.
Eu sou os freios... Você é o pedal.
Eu sou o coma... Você é o café.
Eu não era... Você me fez ‘ser’.
Nós não somos um casal... Somos um.
Você tem todos os meus opostos justamente pra balancear essa confusão chamada eu.
Eu sou a palavra vomitada que machuca... Você é a compreensão de que sou um idiota, que precisa de você pra me alocar nos trilhos.
Eu sou a ironia mal pensada... Você é a gramática que me corrige.”
Ela amava as epifanias poéticas dele, mas teve que contrariá-lo:
- Puta merda, nós não somos um casal... Quer dizer, ainda somos... Mas seremos um trio em oito meses.

2012/12/20

Damn label

Já havia desistido de tentar convencê-la a ficar, afinal ela começou a juntar grana pra São Paulo antes de entrar no ensino médio. Ninguém a faria ficar. Porém, eu precisava saber o que estava acontecendo entre nós.
Ela, antes mesmo de ficarmos, me dizia, enquanto somente amigos, que amor era balela e que isso prendia e limitava as pessoas. “As pessoas se prendem demais aos rótulos e esquecem de preencher as embalagens”, como ela mesma dizia.
Eu cagava pra nomenclaturas, estereótipos e o que quer que fosse que as pessoas pensassem sobre a minha vida. Mas eu necessitava saber, mesmo que fosse pra ficar entre só nós dois, o que estava rolando.
Nossa amizade já tem uns quatro anos, mas nos conhecemos há mais tempo. Se for pra contar a época em que ela me zoava na escola, nossa, já faz uns dez anos. Na época de escolher entre ser popular ou loser, começamos a frequentar o mesmo grupo. Eu me tornei o rebelde sem causa que tinha como rotina principal atormentar os professores, fosse com comentários ociosos durante uma aula séria ou desenhos pornofensivos no quadro. Ela era apenas a emo-gótica que fingia cortar os pulsos fã do Ian Curtis. Mas, ufa, as pessoas mudam. E nosso relacionamento foi indo, passando por todas as ridicularidades e dores da adolescência.
Fato presente em mais de oitenta por cento das amizades entre uma mulher e um homem, eu sentia uma leve paixonite por ela. Fácil de lidar. Conheci e bem tratei todos os (na minha opinião, podres) namoradinhos dela.
Mas aí a gente sai da adolescência pensando “adeus, confusão! Agora quem manda em mim e nas minhas vontades sou eu!”
A vida adulta veio pra nos tornar mais íntimos (do que já éramos). Dividíamos segredos horríveis. Doía contar, mas doeria ainda mais conter. Era ela meu caderno de confidências. Eu, idem.
O grupinho rebelde do colégio manteve laços e se reunia frequentemente para “beber, provocar o caos, desordem e anarquia.” E foi numa dessas, na minha casa, que ficamos pela primeira vez. Sem mais nem menos, largados no sofá, nos beijamos. Ela tomou a iniciativa, pensei em parar e dizer “o que nós estamos fazendo?”, mas me contagiei com a brutalidade do beijo e larguei mão. Repetíamos esporadicamente as ficadas, cada vez mais fincadas.
Sabíamos que precisávamos estabelecer um manual de comportamento perante a sociedade a respeito da nossa situação. Eu não queria sair pro mundo gritando que ela era minha namorada. Assumir namoro, além de status, é deixar de alimentar o sentimento pra ficar perdendo tempo tirando fotos. Ela pensava o mesmo, eu sabia. Temia chegar nela pra conversar e receber um belo esporro e um pé na bunda. Eu sabia, todos conseguiam ver, que ela estava feliz.
Mas esta alegria não era somente minha culpa. Ela enfim conseguira alugar um apartamento em SP.
Eu mal sabia o que estávamos vivendo morando na mesma cidade, imagina a mais de 400 quilômetros.
Ela pretendia comprar as passagens na segunda-feira de manhã. Então fui armando o destino para que dormisse na casa dela no domingo. “Acorda, vagabundo, preciso sair”, disse ela. Ela, que não confiava em compras online, queria ir ao aeroporto comprar sua passagem. Comprometi-me a leva-la, já que estava de folga e com vontade de dirigir.

E foi justo na fila que puxei conversa:
- Então, antes de você ir e quem sabe nunca mais me ver, queria só saber o que está rolando com a gente... Não! Eu não te pedirei em namoro, muito menos gastarei meu dinheirinho com uma aliança, que serviria só de isca pra garotinhos e garotinhas. Tô nem ligando pro rótulo, só quero saber o que é que tá acontecendo entre a gente, porque não saber já tá começando a me incomodar.
- Ótimo lugar pra termos essa conversa, assim não tenho chances de te meter um tiro.
- É...
- Olha, serei sincera como sempre fui, desde os tempos de bullying...
- Blablabullying... Isso é besteira, mas enfim...
- Eu não te amo.
- O significado pra “amor” é relativo, dizem.
- Você sabe muito bem que eu não acredito nessa porcaria. Só não comparo a Deus, porque respeito a tua religiosidade. Mas criaram essa besteira só pra amenizar o desespero das pessoas. Todo mundo se importa tanto em ter a chance de dizer que ama alguém, mas nem sabe o sentido disso tudo. Só acho que as pessoas deviam pensar menos e agir mais. Sabe... Por mais que eu pense assim, admiro casais que se tratem bem e realmente apreciem a presença do outro. Namoro, amor, casamento, tanto faz, vai muito além das saídas de final de semana. Se você tem, entre aspas, uma pessoa, não é pra ficar a exibindo por aí e comprando presentinhos pra motiva-la a ficar. Ninguém mais precisa saber, a menos que você transcreva em forma de arte. Gosto do que estou vivendo contigo exatamente por ser algo  em que os sentimentos se expressam de nós pra nós. Mas nem por isso eu tenho que negar que estamos de fato vivendo algo importante, porque é inegável. Maior parte dos meus sorrisos sinceros surgem de quando estou contigo. Eu gosto de estar com você, de conversar e discutir com você, de dormir quinze horas seguidas com você, de sair por aí e falar mal de todo mundo com você. Tua presença me faz um bem incrível. Tua ausência dói. Mil desculpas se eu não consigo demonstrar.
Chegou a vez dela, comprou passagem pra próxima segunda e nos direcionamos ao estacionamento.
- Poxa, a sinceridade costuma ser algo danoso, mas você conseguiu deixá-la agradável ... Só me diga o que será de nós a partir da tua ida.
- O que vivemos, que seja “namoro”, credo, não se limita somente a presença. Vai muito além... Vontade, carência, sexo etc. Fidelidade é uma coisa dispensável, porque, poxa, eu lá, você aqui, vai ser difícil só tirar a roupa quando estivermos juntos. Sei muito bem do tamanho do teu apetite. Não quero te prender, foda-se. Mas saiba que quando nos encontrarmos, serás só meu... No sentido menos possessivo doentio e mais carnal da palavra "posse".
- Há quanto tempo você vêm pensando nisso?
- Tô meio que pensando, mastigando e vomitando tudo agora.
- Tô meio que não conseguindo pensar numa resposta.
- Contanto que você fique bem. Mas ainda cê tem tempo de me sequestrar, me prender numa cama e me forçar a casar contigo.
- Tipo “Ata-me”, o filme?
- Exato!
- Não, nossa, enjoaria fácil de você!
- Mas, tá... Me diz então o que você pensa disso tudo...
- Aceito os termos de uso e privacidade.
- Nenhuma objeção?
- Acho que não...
- Então é isso? Ficaremos à toa? Você aqui, eu lá, vivendo nossas vidas?
- Já que não tenho grana pra ficar viajando pelo Pacífico, pode ser.
- Sério, ô, babaca, você ficará bem?
Dentro do carro, antes de liga-lo, antes de responde-la, encarei-a e tasquei-lhe um beijo.
- Eu só precisarei encontrar uma substituta.
- Todo mundo procura alguém pra substituir alguma coisa.

2012/12/06

Primeiro: Andar


Uma amizade iniciada na internet, alimentada no colégio e mantida através de encontros mensais. A relação entre Anita e Cândido durava mais de quatro anos e se baseava em conselhos. Eles se sentam, uma fala e o outro ouve. Vice-versa.
Anita era a uma pessoa “de boa”, não se preocupava com muita coisa, mas possuía alguns distúrbios psicológicos que a obrigavam a ter amigxs, um que fosse, pra desabafar. Cândido era perturbado, romanticamente ansioso e estava sempre a procura de uma garota.
Os encontros costumavam ser sempre no mesmo dia, horário e local. Um café perto da XV, que apesar da localidade, pouco movimentado. Ideal para se passar umas boas horas conversando, desabafando e xingando.
Era sempre ela que iniciava a conversa, pois não possuía muitos problemas além de querer matar algum professor. Cândido ficava por último, porque adorava passar um bom tempo falando da tonelada de minas pelas quais estava “apaixonado”. Foi direto:
- Nem eu acredito... Mas cê vai pirar ao saber quem é a garota da vez...
- Eu conheço?
- Vocês duas trabalharam juntas...
- Ai, meu Deus...
- Ela estudou no CELC.
- Ai, meu Deus! – disse Anita certa de quem era a garota, pronta para dar um murro na cara de Cândido.
- É... A Jane.
- Cândido! Puta merda, Cândido!
- Eu também tô de cara comigo mesmo. Eu sei que a Jane é... A Jane! Mas...
- Cê tá ligado, né, que ela é daquelas gurias tipo mega-impossíveis?
- Eu sei... Mas, poxa, vi ela sexta no Barba. Claro, não cheguei nela, porque sou jacu. Mas, de longe, percebi que ela me deu umas olhadas...
- Não, Cândido, não! Ela não é pro teu bico. Ela só pega boy de James.


Era noite de quarta-feira, dez  da noite e Cândido estava a caminho dos sonhos.
Já fazia um bom tempo que tomara aquele sermão de Anita. Além do mais, o tempo fez com que ele perdesse um pouco da pira por Jane e se envolvesse distantemente por outras.
Ele queria dormir, ele precisava dormir, mas seu subconsciente cismava em mantê-lo acordado.
Seu telefone tocou, ele atendeu:
- Oi, mãe, que foi?
- Ô, meu filho, tudo bem? Cê tá em casa?
- Tô... tô sim.
- Escuta, eu estava no mercado, aproveitei umas promoções e comprei umonte de coisa pro natal. Cê podia me ajudar a levar pra minha casa?
- Ai, mãe, sacanagem... Tá, onde cê tá?
- Na portaria do teu prédio. Eu te trago de volta depois.
- Beleza, tô descendo.
A mãe de Cândido, Marília, morava no segundo andar num antigo prédio sem elevadores e pedia sempre o mesmo favor a seu filho quando ia às compras do mês.
Levantou-se da cama, pegou carteira e chaves, e saiu com sua roupa de dormir, que não era um pijama, acrescido de um tênis. Estava bem vagabundo, como sempre. Entrou no carro, beijou sua mãe no rosto e partiram.
Por mais que fosse todo romântico e tal, ele estava numa época despreocupada. Apesar de pequenos sonhos com garotas sem futuro próspero com ele.
Já no apartamento materno, descendo rumo a garagem para pegar mais sacolas, ouviu sua mãe gritando escandalosamente sobre não esquecer as caixas de ovos sob o banco do motorista. Foi um grito absurdamente alto àquela hora da noite. Novamente subindo, percebeu que a porta de um apartamento no primeiro andar levemente se abriu, seguindo de um suspiro. Cândido ignorou e prosseguiu. Mas algo lhe dizia, subconscientemente, que havia algo muito suspeito naquela porta. Deixou as compras na cozinha, respirou, bufou e voltou ao serviço.
“Parece que foi ontem que fiz aquele chá de habu pra te curar da tosse e...” Cândido interrompeu sua cantoria ao se assustar com quem lhe esperava receptivamente na porta mistério:
 - Oi, Cândido, o que você faz no meu prédio a essa hora da noite?
- A... Ah... Jane... você mora aqui?
Ele simplesmente não estava acreditando que... Jane! Ele não estava preparado para, naquela noite até então chata, ter um momento mindblowing. Sua cabeça queria expressar os melhores sorrisos do mundo, mas... ele travou. De volta a si, aproximou-se da porta de Jane e descarregou:
- Poxa vida, Jane... Que lugar pra nos encontrarmos... Como vai você?
- Eu estava bem até ouvir uns gritos aqui no corredor. Sabe quem foi?
- Foi minha mãe. Desculpa. O relógio dela ainda não percebeu que já são quase onze horas da noite.
- Ok... Sexta no Barba, te vi lá, mas não consegui falar contigo...
Cândido costumava se contentar com cousas poucas. Alegrou-se internamente ao saber que ela queria ter ido falar com ele, interrompeu-a:
- Dá nada... Tava um inferno aquele lugar. Eu só vou lá pelo Calico Jack.
- Nossa, aquele negócio é dos Deuses. Com qual hambúrguer você prefere?
- Eu amo qualquer hambúrguer de PTS, mas o de batata e ervilha é brutalmente sensacional.
Eles estavam, àquela hora da noite, alimentando um diálogo no corredor do prédio.
- Vai me dizer que... Cê é vegetariano?
- Não, espera... Vai me dizer que você também é vegetariana?
O papo foi se estendendo e a mente de Cândido confabulava premonições em que ele entrava à força no apartamento de Jane, arrancava seu roupão e... Enfim, era um rapaz muito imaginativo. Ele nunca imaginara na vida que teria tantos assuntos com uma das meninas mais desejadas do colégio. E, melhor de tudo, poderia chama-la pra sair jantar num restaurante sem ter que dar aulas sobre o que um vegetariano come. Porém, do andar superior, a mãe dele berra:
- Cândido! Cadê você, meu filho? Cândido!
Envergonhado, Cândido resmungou:
- Puta merda, essa minha mãe é foda...
- Vai lá, meu. Volta aqui depois... – Disse Jane numa doce voz.
- Mas não tá tarde? Cê não tem que dormir?
- Ha, eu tô de folga amanhã.
Cândido foi lá terminar de carregar as compras de sua mãe.
- Quer um café antes de ir embora, filho?
- Não, mãe, obrigado. Aliás... Nem precisa me levar pra casa, eu dou meu jeito.
- Tem certeza?
- Muita. – já estava ansioso e impaciente demais pra ficar ali no segundo andar, sendo que seu desejo estava no primeiro.
- Você que sabe... Enfim, muito obrigado, meu filho, muito obrigado.
- De nada, mãe, boa noite.
- Vá com Deus, amor, muito cuidado nessas ruas.
Foi-se embora dizendo “amém”. Assim que fechou a porta, começou a correr louco pra bater à porta de Jane. Enquanto descia, mentalizou que teria que tocar a companhia e esperar. Quebrou a cara ao ver que a moça o esperava recostada no batente da porta:
- Uau, você foi rápido... Entra.


- Antes de tudo, Cândido, seu corno, podes me explicar porquê cancelou nosso encontro mês passado?
- Anita... Fui fazer um retiro.
- Quê? Mas você não é ateu?
- Não foi um retiro espiritual, muito menos religioso, apesar de eu ter relaxado bastante...
- Para de alucinação e diz logo a verdade!
- Jane...
- Quê?
- Boa história, daria um conto. Resumindo, ela mora no prédio da minha mãe, encontrei a bendita no corredor, passamos uma noite conversando e temos nos encontrado frequentemente.
- Você... tá... me... zuando...
- Nem eu acredito...
- Mas, tipo, cês são tipo amigos agora?
- Hehe...
Cândido riu encarnando um rosto maliocioso.
- Para, Cândido, fala a real.
- Cê me disse que ela era tipo impossível, né?
- Ela é! Cê tentou dar em cima dela e levou um fora?
- Esse tal retiro... Foi na casa dela... Só eu, ela e muita PTS.


Jane e Cândido... Eles não queriam amar, eles não queriam status, eles não queriam obrigações, eles só queriam.