2013/06/12

O melhor presente

Resolvi sair mais cedo da palestra sonolenta sobre serial killers, então te vi. Sentado no bar do hotel onde o negócio estava acontecendo. Pergunto-me se sabias que eu estaria ali, pois não me lembro de comentar sobre isso contigo.
Você e um amigo, encostados no balcão. Pensei em não te cumprimentar. Pensei que você estivesse ali somente por acaso. Pensei em passar direto. Você não me viu, não teria problemas ignorar esse encontro. Mas resolvi te dar uma última olhada. Não sei sobre o que você e seu amigo conversavam, mas parece que foi de propósito: Soltou um baita sorriso. O brilho dos teus dentes tornou-se imã e me obrigou a ir ao teu encontro.
Pelo jeito, há algum ímã em mim também, pois assim que tomei o rumo ao balcão, você olhou aonde eu estava.
Teu amigo continuou falando, enquanto você me observava indo no teu caminho. Observava e sorria. Teu sorriso...
Teu amigo continuou falando, eu nem o conhecia, mas, ao chegar, fiz pra ele um "Sh!" Você estava congelado, olhando e sorrindo pra mim. Aí eu beijei tua bochecha. Tua boca veio ao meu ouvido, sussurrou algo e então você me abraçou. E não queria me soltar mais. De olhos fechados, eu queria ficar ali, sendo sufocada por você e essa tua imensidão de carinho.
Aí você disse pro teu amigo que precisava ir. Puxou-me pela mão. E eu me deixei ser levada, pois a confiança que eu tinha em você era maior que os meus medos.
A gente foi ao apartamento de alguém, não sei quem. Tinha uma vista linda. Chovia.
Haviam algumas crianças lá, que comecei a atazaná-las jogando umas sementes nelas. Jurei que você interviria com toda tua maturidade, mas, não, entrou na brincadeira. Até que as crianças se incomodaram e buscaram outro lugar pra brincar. Aí fomos pra sacada. Ficamos lá, nós dois, o silêncio, o carinho e a cidade.

Enfim, foi esse o sonho que eu tive noite passada. Não há presente melhor do que sonhar contigo quando estás ausente. Porém, quando estás presente, és o presente.

2013/06/11

Tu és incapaz de amar

Voltei do almoço e abri minha caixa de entrada para ver se havia alguma resposta dos currículos que enviara. Nada além de um email daquela pessoa. Sem Assunto. Apenas:


"Antes de tudo, por favor, me perdoe por dessa vez não usar as palavras mais doces ou meu tom de voz mais sóbrio, cansei de desperdiçar-lhes contigo.

Estou aqui para, de uma vez por todas, te dar o teu merecido pé na bunda. Isso. Sem rodeios, floreios, sem mais delongas como você fez sempre tão bem. Estou aqui para dizer que esse é o limite da nossa historia. Esse é o ponto final tão adiado por nós
.

Hoje acordei mais cedo e fiquei me olhando no espelho, tentando entender porque nossa história não deu certo. Revi minhas falas, ajeitei o cabelo, passei uma água no rosto, coloquei curativo nas feridas. Vi que a culpa foi sempre tua. Você e esse seu egoísmo. Esse teu peito inchado, esse teu ego inflado.

Tua pessoa nunca esteve preparada para receber todo o amor eu era capaz de dar. Você nunca terá aptidão pra receber todo o carinho, atenção, dedicação que eu, de forma idiota, me dispus a te oferecer. Você merece, mais uma vez me perdoe, sofrer ou encontrar alguém tão gelada quanto você, para assim aprender que ninguém, isso, ninguém vai te aquecer no calor dos braços, como eu.

Me perdoe por ser tão doce ao ponto de te bater com palavras e ainda assim, te pedir perdão. É que mesmo sabendo ser ruim como tu tão bens me ensinastes, eu nasci pra viver a bondade em mim. E tu, criatura cheia de si, não consegue ter a benevolência a minha altura. Consegues sim, ser alguém a altura de poucos, dos baixos, dos infames, pérfidos e criaturas mesquinhas com quem se reúnes.

Desejo que seja muito feliz na tentativa fútil de achar alguém que te ame mais do que eu fui capaz de te amar. Desejo-me sorte, principalmente agora que criei coragem para te esbofetear os córneos. Que nos encontremos nas voltas que a vida der, e brindemos àquilo que poderia ter sido lindo, mas a tua feiura bela conseguiu estragar. Devolve-me agora meu coração. Dá-lo-ei a quem souber usar. Tu és incapaz de amar." *



Apenas isso. Voltei a mim e soltei um suspiro gelado como se nem minha alma aguentasse mais a minha maldade. Melhor dizendo, minha ingratidão. Minha preguiça de valorizar alguém que tanto me estimava. Senti nada além de um inesperada porrada na minha cara. Minto. Senti também o peso atrasado de perceber que eu poderia ser muito mais e receber muito mais. Mas não, preferi escolher as bocas mais fáceis, as menos trabalhosas, aquelas que só me davam prazer, que não me davam futuro. E eu deixei a boca mais doce partir rumo a alguém que a fizesse bem, já que eu só lhe causei mal. Esse meu egoísmo, se aguentar a falta dessa pessoa, ainda vai me matar.

* De uma pessoa consciente de sua própria impulsividade hedonista,

que insistiu em alguém que parecia ser alguém.

2013/06/08

Condomínio fechado

Ambos não sabiam lidar com as pessoas.
Eles sabiam ter problemas. Vários. Cada um com seus próprios. Mas ninguém percebia essas questões internamente individuais. Era difícil de explicar para quem não vivia coisa parecida, porém esses dois... Ah, eles se entendiam. 
Os relacionamento dos dois era... Era uma bagunça saudável, em que um fazia bem ao outro, vice-versa. Desde que conheceu Renata, Cléber abandonara seus pensamentos deprimentes e deu férias pra sua desmotivação, ela servia como uma injeção de alegria em sua vida.
Apesar de viverem na mesma cidade, era difícil se encontrarem, pois suas rotinas pouco eram compatíveis. Além de que Renata morava no norte; e ele, no sul.

Mas aí, um dia, Renata resolveu dar um tapa na rotina e o convidou para uma festa junina. Na verdade, não foi um convite. A festa era no Cotolengo  e a casa de Cléber ficava no caminho. Então, destinando-se ao negócio, Renata ligou dizendo pra ele se aprontar e encontrá-la no Pão de Açúcar em dez minutos.
- Mas eu tô todo zuado de pijama! - reclamou ele.
- Mas eu tô nem ligando, Crébs!

A festa era num condomínio fechado, tipo "Festival da boa vizinhança" do Chaves, com palco armado e tudo mais. Porém, assim que chegaram, ignoraram a festa e foram caminhar pelo lugar pra conversar. Dentre as dissertações de Renata sobre não acreditar em casamento, a piada do "Davi e a formiga" que Cléber adorava contar, a caminhada foi bastante longa. Deram voltas e mais voltas pelo condomínio, com uma pausa pra eles pegarem pé-de-moleque numa das barracas.
O passeio continuou e os assuntos não paravam. Desde a lista de filmes favoritos de Cléber, passando pelos gatos de Renata e chegando aos seus medos. O papo foi indo sem intenção de terminar. Mas aí o celular dela tocou. Era sua mãe dizendo que estava por perto e perguntando se Renata queria carona pra casa.
- Ah, mãe, não sei, já te ligo. - disse ela encarando Cléber.
- Que foi? Vai! Aproveita a carona. - retrucou.
- Mas e você? E nós? E nosso passeio?
- Eu continuarei ao teu lado... Mas aproveita a carona.
E Cléber continuou argumentando a fim de convencê-la a ir, pois sabia que era melhor pra ela. Além disso, ele costuma enjoar das pessoas quando interagindo muito com elas, e, naquele momento, não pretendia largar mão dessa estranha e essa bagunça tão benéfica.
Renata ligou pra sua mãe dizendo que queria a carona; Cléber, pra sua tia que morava ali perto pra saber se tinha um colchão pra ele. Tudo arranjado, mas eles ainda tinham tempo para mais aleatoriedades.

Já era hora de ela partir. Aí quando foram cruzar a cancha de areia para chegar ao estacionamento, ela tentou abraça-lo. Na verdade, Renata fraquejou na hora, aí Cléber disse:
- Vai, pode abraçar.
Aí ela deu um abraço forte. Mais forte que ela mesma. Nisso, abriu os olhos e pediu para ele, hipnotizado, soltá-la:
- Minha mãe tá vindo, me solta.
Porém, a mãe de Renata passou direto sem perceber os dois, que então se sentaram num banquinho na lateral da cancha.

Foi aí que um conhecido apareceu e perguntou a Cléber:
- Você gosta dela?
Cléber não respondeu.
O fulano seguiu seu caminho.
Uma silêncio invadiu a imensidão daquele lugar e os dois ficaram lá, quietos.
Então, Renata ordenou:
- Me dá dois dedos.
Pegou os dedos do rapaz e os colocou em seu próprio pescoço pra que ele sentisse a pulsação.
- Não tô sentindo nada;
- Oi?
- Nada além da vontade de ficar aqui contigo.

2013/05/11

Sonhos de outono


Desejou, cansou, aconteceu

- Você pode dormir lá em casa.
- Mas você não trabalha amanhã cedo?
- Trabalho, mas você pode ficar lá dormindo.

Estavam na rua da casa dela, faltando umas três casas pra chegarem à dela. O assunto era um aleatório qualquer.
Mas deixa eu contar uma coisa: Ele era louco por ela. Era. Perdera a pira há um tempo, umas decepções. Cinco anos de convivência, mesma idade do desejo, que ele alimentava platonicamente. Alimentava. Cansou de querer e fazer nada.
Enquanto andavam, ele começou a encará-la de um jeito “quero você, moça”, como sempre acontecia sob efeito do álcool. Ele nem ouvia o que ela dizia, mas acompanhava hipnotizado o movimento dos lábios dela.
Ela parou na frente da casa pra pegar algo na bolsa e ele a pegou, a puxou e a beijou. Inesperadamente, impulsivamente. E foi o beijo. Todo sincronizado, intenso. Aí ele começou a mordiscar os lábios da moça. Leves mordidas por toda a extensão da boca dela, percorrendo cada centímetro daquele depósito de batom vermelho. Desceu para o queixo. Foi para o ombro, começou a cheirar e beijar do ombro ao pescoço da mulher. E ela, ofegante. Tudo isso no meio da rua, com o risco de serem flagrados pelos pais dela. Ela interrompeu o rapaz, disse gritante:
- Até que enfim.
Ele disse nada
Entraram. Todo mundo em casa. Foram dormir, ela no quarto dela que dividia com o irmão. Ele, num colchão jogado na lavanderia. E ele dormiu. Feito uma pedra, desabou em euforia. Há tempos sua mente intranquila não vivia tempos de paz. Não queria mais (beijar a moça), mas não sabia porquê fizera aquilo naquela noite específica sem planejamento nem texto. Ela nem dormiu, ficou encarando o teto com sorriso espontâneo, coisa que ela não fazia questão de fazer sempre. Se cochilou, foi pouco, mas teve dificuldade para fechar seus olhos lotados de alegria.
Ela acordou, botou a roupa e foi pra cozinha preparar café. Intencionalmente, fez muito barulho pra pegar a chaleira no armário. A cozinha era próxima da lavanderia, qualquer ruído num lugar, era refletido noutro. Ele despertou com os barulhos, mas ficou num estado de êxtase sonífero, não se mexia. A bagunça na cozinha continuou.
Por mais que ela estivesse encantada pelo ocorrido e explodindo de mais vontade, ela sempre fora uma pessoa que não corria atrás. Parava, ficava, tinha medo. Preparou seu café, mas com a mente nos lábios do seu amigo.
Ela foi espiá-lo da porta. Ele percebeu e olhou. Ela fez um “pss” tímido, deu um tchauzinho sorridente e se foi... Foi-se trabalhar. Ele dormiu.



Aconteceu, desejou

- Você pode passar na casa da Xxxxx pra ajuda-la a montar as coisas?
- Mas eu mal conheço ela, só vi uma vez.
- Ela precisa de ajuda com as coisas do churrasco... E você é o único da galera que tá com tempo livre.

Tocou a campainha e ficou esperando, enquanto observava a vegetação do jardim. Xxxxx saiu da casa, acionou o controle do portão. Ele entrou, cumprimentou-a com aquele típico abraço tímido que as pessoas se dão quando se conhecem pouco.
- O que a gente tem que fazer então?
- Montar a lona lá fora e ir no mercado comprar as coisas.
A mãe de Xxxxx estava em casa e mandou os dois ao mercado, que era a prioridade. Xxxxx foi se arrumar e ele sentou no sofá pra esperar.
Eles já se conheciam de um outro rolê da galera. Obviamente, ele ficou a fim dela, mas nada, nem guardou-a na memória. Ela o achara interessante, qualquer homem de barba era interessante.
Xxxxx entrou na sala perguntando se iriam ao mercado de carro ou a pé, enquanto colocava  seu par de brincos. A tarraxa de um brinco caiu. Caiu no colo dele perto da malícia. Ele olhou pra ela. Desde a primeira e última vez que se viram, ele não havia lembrado da beleza da moça. Eles ficaram se encarando esperando que alguém reagisse. Ela perguntou se podia pegar. Ele disse que sim. Ela pegou, não a tarraxa. Ele a puxou para o sofá e se beijaram. Deram um longo e despreocupado amasso na sala, enquanto sabiam que a mãe dela estava nos fundos do jardim.
Levantaram-se desarrumados e foram ao mercado.
Saíram da casa renovados entre si. O comportamento dos dois mudara em relação aos dois. Era só risos e uma interação saudável.
Entraram no mercado e foram direto pra sessão de bebidas. Xxxxx disse:
- Vamos levar uma eristoff?
- Não, isso aí é negócio do demônio.
- Você não gosta?
- Gosto... Gosto quando eu quero me matar.
Seguiram brincando e xingando.
Indo ao caixa, ela mexeu na bolsa e botou um cigarro na boca. Ele:
- Cê sabia que não pode fumar aqui?
- Sim, é que se eu não pegar o cigarro agora, eu esqueço de fumar.



______________

Era segunda-feira, dia de faculdade e ele ainda pensava em Xxxxx. Não havia previsão para um novo encontro, mas ele ainda pensava nela.
Nunca acontecia nada demais em sua vida, muito menos romances. Mas em dois dias, ele ficara com uma amiga e uma outra.
Ele costumava chegar cedo na aula pra ficar na sala pensando. Ela chegou. Cumprimentaram-se como amigos e ela sentou-se na carteira vizinha.
A aula começou. Era filme. Compraram uns doces na cantina. E ela aproveitou para arrastar sua carteira próxima à dele.
Em todos os anos de amizade, ele ansiava por beijos dela. Tentou, cansou e chegou ao ponto da desistência. Não arriscava, não insistia. Principalmente, não dizia. Era de esperar que as pessoas entendessem as vontades dele sem que ele dissesse uma só palavra. Desistira da moça. E foi logo quando isso aconteceu, que o beijo aconteceu. Em todos os anos de amizade, ela gostava da amizade dele, nunca cogitara ficar com ele, apesar de achá-lo encantador.
Ao lado dele, ela não tirava o sorriso da cara e nem se preocupava em esconder. Depois do beijo, ela começou a deseja-lo fortemente. Durante o filme, encostou sua cabeça no ombro dele. A reação dele foi pegar na mão dela.
Duas colegas saíram da sala e logo o celular dela tocou. Ela leu a mensagem e saiu da sala. Voltaram as três cinco minutos depois. Uma delas olhou para ele e fez uma cara de “até que enfim, seu lento”.
Ela voltou a encostar-se nele. Pouco depois, dormiu.
Ele não sabia o que queria. Tinha uma ao seu lado, mas pensava na outra.

2013/05/08

A noiva


Mas eu caso contigo só umas dezoito vezes quando te vejo passar.
Mas esse teu batom bordô na tua boca te deixa ainda mais.
Mas eu vejo tua cara fechada e me abro de vontade.
Mas você passa... e eu passo do ponto.
Mas eu domino a arte do ficar quieto, mas querer gritar.
Mas eu exagero no silêncio, quando eu bem queria tua voz no meu ouvido.
Mas eu já falei contigo, te joguei uma dúzia de palavras e você fugiu da minha confusa abordagem.
Tô me preparando pra te ver passar e encarar “Ô, moça, casa comigo? Quer dizer... Posso te acompanhar até o ponto? Ou até o ponto final?"