Me deu uma vontade impulsiva de te ver e vontade nenhuma de ir pra casa sozinho fazer o que eu tinha pra fazer. Quando o impulso de querer te ver me invadiu, passava em frente ao teu ponto de ônibus. Muitas pessoas, nenhuma você. Entrei na segunda à esquerda, contornando a praça, desviando da quantidade rotineira de carros para aquela hora do dia, e, a partir da Luiz Leão, procurei por você em quase todos os centímetros no caminho até onde você passava suas tardes de sexta. Os lugares onde não mirei me preocupavam. Podia ter olhado para um lado e você estar em outro. Cheguei. Ainda sobre a bicicleta, encostei-me numa placa de estacionamento perto da entrada do prédio. Se você saísse dali, não tinha como eu não te ver. Esperei. Após minha respiração se normalizar, comecei a escrever esta carta já sem esperanças de te achar. Coração desacelerou e abriu minha mente para a possibilidade de você já ter saído. Eu só queria te ver, te sentir, por um minuto ou dois. (E esperar que você me convidasse para dar uma volta, ou pelo menos te acompanhar até o ponto). Você está sabendo só agora disso, porque eu não tinha créditos pra te mandar uma mensagem. E, ah, mandar sms escrita "vontade de te ver" ou coisa parecida... Não, não é meu tipo. Cansei de esperar. Não tinha porquê. Parti pra cumprir minhas tarefas domésticas e passar mais um tempo acompanhado da vontade de te encontrar ao acaso na saída da tua aula de francês, sem querer, justo quando eu estivesse passando lá por perto coincidentemente na mesma hora que você sai e, perto da entrada do Dom Pedro II, parar para pegar meu celular. “O que você faz por aqui”, tu me perguntarias e ouvirias que eu “estava indo encontrar um amigo ali [falaria o primeiro lugar da região que surgisse na minha cabeça], mas agora ele me mandou mensagem dizendo que vai se atrasar”. Você sorriria pra mim, induzindo-me a perguntar se eu poderia te acompanhar. Minha resposta seria positiva, com certeza. Nós então partiríamos em silêncio até passarmos pelo Passeio Público, onde eu faria algum comentário relacionando este lugar aos “Amantes da Pont Neuf”, então declararíamos nosso amor pela Binoche e retornaríamos à ausência de vozes. Do nada, perguntaria se você assistiu ao último episódio de alguma série qualquer, faríamos breves resenhas sobre o que achamos e, pronto, chegamos à fila do ônibus. Você se postaria a minha frente sorrindo mais do que nunca nesse dia e diria aquele mantra de sempre sobre não morrermos e tal. Eu, com o dedo indicador, levantaria teu queixo e te daria um beijo de despedida. Mas, ou por eu ter chego tarde demais ou você ter saído mais cedo, você não apareceu.
2014/09/02
2014/09/01
Lonely people 01123
- É que - engasgou-se com palavras que pretendia soltar, pensou um pouco, encarou o rapaz, percebeu que ele lhe observava curiosa e fixamente, voltou a encarar o chão do quarto 35 e continuou - sonhei que vim te visitar e perguntei se estava saindo com alguém.
- O que eu respondi?
- Você disse “estou bem, não quero mais” e parecia que queria falar mais, mas você sorriu e eu acordei.
- Desculpa, menti pra você… - ele não era de acreditar no misticismo e nos significados dos sonhos, mas havia algo que não conseguia entender na razão dela para viajar. Os olhares que a moça o lançara desde que se encontraram, foram, sem que ele notasse, tomando pouco a pouco qualquer espaço vazio nele que ainda não estivesse repleto com a escuridão reconfortante que saía dos olhos cor de mel da moça - ou verdes, dependendo da luz. O que o rapaz dissera no sonho dela, gerou-lhe uma atordoante epifania, que o obrigou a respirar lentamente antes de prosseguir… Escondeu o rosto entre as mãos, jogou as costas na cama e confessou - fiquei com outras mulheres, mas foi só para…
Antes que o envergonhado dissesse o que ela não queria ouvir, interrompeu, segurando as mãos do rapaz:
- Sh, não quero saber - repousou dois dedos sobre os lábios dele - Eu sei da tua bagunça aí dentro - alfinetando com o indicador a cabeça do rapaz.
Seguiram rumo ao Oeste, passando por ruas repletas de pixações em casas antigas. Numa destas, viram a inscrição “the night is dark / and full of you”, óbvia referência a uma série que os dois ali e mais meio mundo assistiam. Por impulso ou magia do Senhor da Luz, as mãos, que andavam distantes, acolheram-se e os dois, como da primeira vez que entrelaçaram dedos, comentaram sobre as temperaturas tão opostas dos dois corpos, por mais que estivessem na mesma cidade. Seguiram caminhando pela R. I. L. para que ela conhecesse o bar favorito do rapaz na nova cidade, que, aliás, era o único que conhecia, graças a uma indicação de um colega de trabalho.
- Não gosto de andar à noite por aqui, sempre acho que alguma coisa ruim vai acontecer.
- Tivesse me falado antes, que a gente não saía do quarto.
2014/08/30
Corre
Tinha sete minutos pra ir da Cândido Lopes à Nossa Senhora da Luz. Ou seja, sem tempo. Entreguei o livro para que a segurança pudesse liberá-lo, e, enquanto ela realizava os devidos procedimentos de liberação daquele conglomerado de papéis que eu havia esquecido a data de devolução e que, cheia de coisas pra fazer na rua, tinha lembrado do prazo ao passar pela Tiradentes, ansiosa, encarei o monitor, que mostrava o registro de livros que saiam da biblioteca, ao lado da funcionária.
“_______ _______ de _____”, seguido de um número e um título de livro, que logo sumiu e deu lugar ao meu nome. Ela esteve aqui. Antes de mim. A última pessoa atendida pela segurança antes da minha chegada. Quem sabe a menos de um minuto. Cadê? Saí com A Náusea. Peguei minha bolsa no guarda-volumes e parei no topo da escadaria. Busquei por aquele corpo distante em ambos sentidos da rua, mas nada. Aonde foi? Direita ou esquerda? Teria subido até a Tiradentes, descido pela Muricy, pego a Ébano, seguido pela Cândido ou entrado na Americanas procurar por dvds em promoção? Cadê?
Se não fosse dessa vez, motivada pelo impulso da surpresa, talvez eu nunca mais me inspirasse a querer resolver nossa treta. “Treta” que não passava da ausência de um diálogo concreto sobre nós. Eu queria vê-la, mesmo que fosse apenas para ver um sorriso seu.
Recorri ao celular pra acessar a internet e ver se ela deixara algum rastro sobre suas últimas aventuras. “33 seg - Cruz Machado, rua mais charmosa da cidade”. Então saí. Cândido. Parada no semáforo, fui abordada por um cara me perguntando se eu curtia funk, respondi que "é foda" e presenciei uma ligeira dança dele, seguida do comentário que estava desde sábado sem dormir. Sinal verde. Cruz. Comecei a descer sentido Visconde de Nácar, porque eu jurava saber aonde ela estava indo. Eu sabia que, por mais que lá fosse meio “fora de mão” em sua rotina de dias úteis, aquela pracinha era um de seus lugares favoritos da cidade. Deve ser pelo abandono. Ou semelhança. No meio do caminho de tanta gente, mas, um tanto distante da beleza que atraía turistas a outras praças da cidade, ignorada. Ela, a moça de quem eu corria atrás passando por bares, casas noturnas, restaurantes, bordéis, boite shows, sei lá como, oficialmente, são definidos aqueles estabelecimentos na Cruz, também era assim, abandonada, invisível na multidão. Eu não era a multidão. Quer dizer, dentro de mim havia uma multidão de tormentas e desejos, mas ela era muito visível e tangível para mim.
Já havia desistido de meu compromisso marcado às 18h no Seminário, as pessoas lá me perdoariam. Entre tantos transeuntes, ônibus, carros, passei despercebida, por mais que eu corresse de um jeito meio desajeitado. Estava chegando na Visconde do Rio Branco, toda suada, ofegante, desajeitada, quando percebi que meu celular alertava uma mensagem: “As mocinhas da cidade são bonitas e correm bem”. Na pressa, minutos antes, passei distraída, imaginando que fosse encontrar a moça lá perto da 29, correndo pela esquina da Alameda Cabral sem prestar atenção em um dos outros lugares favoritos dela. Dei meia volta e acelerei ainda mais o passo.
Minhas canelas doíam tanto, como sempre fazem quando exagero na corrida, que me fizeram parar logo quando avistei aquela morena sentada num degrau ao lado do monumento. Faltou ar, chão, perna, pressão, visão, equilíbrio. Caí. Apaguei. Acordei dentro de uma loja com calçados everywhere, sei lá se era sapataria ou brechó, e umas cinco pessoas me encarando, inclusive ela, a possível razão do meu desmaio, que segurava um copo, que logo foi ao encontro da minha boca. Soro caseiro. Percebi então que eu estava deitada num sofá no meio do lugar, usando minha própria bolsa como travesseiro. Eu sentia A Náusea apontando minha cabeça.
Saímos juntas do brechó-sapataria, depois de me justificar aos espectadores de meu desastre que tudo fora culpa do excesso de calor e ausência de água, e, ainda paradas, deixei que ela, até então silenciosa e de poucos atos, tomasse-me pela mão e me guiasse a qualquer lugar. Perguntou:
- Aonde quer ir?
- Comer, acho, mas só se você não tiver outro compromisso.
- Na verdade, tenho… tinha...
- Pode ir então.
- Meu compromisso era ver se você viria atrás de mim.
- Quê?
- Te vi na biblioteca…
Fiquei indignada:
- E você não veio falar comigo? Puta que o pariu, olha o tipo de joguinho que você vem pra cima de mim!
- Mas eu…
- “Mas eu”, o caralho! Olha, você me vê e resolve brincar de esconde-esconde?
Ela tentou falar alguma coisa, mas não dei espaço. Paramos na esquina da Carlos de Carvalho e me livrei de sua mão, de seu calor, de seu afago.
- Porra, você sabe que a gente não tá se entendendo desde que você… Enfim, não quero falar sobre ela… Mas você sabia que eu gosto, quer dizer, gostava de você… Muito… E você ainda mostrava que gostava de mim. Essa coisa de a gente não se falar me faz mal, meu…
Assim que dei um pausa para o ar invadir meus pulmões, antes de continuar meu monólogo raivoso, fui interrompida por um beijo e, em seguida, fuzilada por um olhar tranquilo e um sorriso um tanto dissimulado:
- Você entendeu tudo errado.
- Ah é? Você escreve apenas “numa boa com a namorada”, caralho, e acha que eu entendi tudo errado?
- Meu perfil foi invadi…
- A puta que o pariu foi invadida. Eu sei que se alguém tivesse postado alguma coisa no teu nome, você teria excluído na hora que descobrisse. Aposto que aquela merda ainda tá lá.
- Não pira…
- Já pirei. Você sabe que eu sou toda neurótica. Se não queria essa pira na tua vida, que fosse embora encontrar alguém normal da cabeça e parasse de me encantar.
- Cê vai me deixar falar?
- Não tem o que falar, tchau.
Tentou uma última vez pegar minha mão, até conseguiu alcançar alguns dedos, mas, furiosa, fugi desse carinho e corri. Corri com força além da usada antes do desmaio. Ela gritou meu nome pedindo pra eu parar, mas eu só queria correr. Fugir. Correr tanto que eu pudesse alcançar a velocidade da luz e deixar que minha alma se desintegrasse e deixasse pra trás todo o sentimento. Todos. Todas. Apenas correr sem sentir. Lágrimas começaram a escorrer de meus olhos involuntariamente, ou talvez meu subconsciente estivesse protestando contra minha atitude de fugir da moça que me fazia bem, apesar dos pesares, apesar de mim, apesar de eu dar motivos para as pessoas fugirem. Era eu quem fugia naquela quarta-feira ensolarada.
Na esquina com a Ermelino, um carro virou rapidamente sem dar a seta e me atingiu. A pancada me apagou na hora. A única preocupação em minha mente era não perder a data de devolução do livro. “Preciso entregar” rodava em looping na minha cabeça, como se estivesse o resto tudo bem. Como se fosse tranquilo eu não conseguir acordar, abrir os olhos, andar etc. A única merda de preocupação que eu tinha, enquanto vagava no limbo, era devolver a desgraça do livro dentro do prazo.
2014/08/28
Interrogatórios e monólogos raivosos
Ato II ou IV
- Acho meio imbecil esse negócio nos filmes de sempre os entorpecentes levarem personagens a cometerem erros. Como se todo mundo fosse influenciável somente por drogas.
- Ser humano é estúpido naturalmente, nem sempre precisa de droga pra fazer merda. As pessoas simplesmente… erram.
- Mas por que o cinema sempre bota droga no meio? Tem um monte de filme em que a grande virada ocorre quando alguém bebe demais, dá uns tiros ou sei lá.
- É que o público não entende que personagens são humanas, humanos, enfim, e capazes de errar pelo simples fato de existirem.
- Besta, isso é... muito besta.
- Ok, Kevin, esconde esse arco aí.
- Se cuida, Karol.
Antes de entrar no ônibus, ela virou-se e disse:
- Me avisa quando chegar no último email dela.
- Me avisa quando quiser sair de novo - disse ele quando a porta já havia fechado. Ela só teve tempo de disparar um sorriso enquanto o veículo se distanciava.
Estava tão anestesiado pelas quatro horas seguidas com Simone/Karol/Cindy/Peggy/Era-tanta-gente-dentro-de-tão-pequena-moça que, assim que pegou seu ônibus e se sentou, sacou seu caderno e pôs-se a escrever um conto sobre o vestido azul e os olhos profundos de uma personagem que obviamente era inspirado em Elise/Alice/Adèle/Simone/Tantos-nomes. Aliás, não havia um texto sequer escrito por ele nos últimos três meses ou quatrocentos e poucos dias que não tivesse um pedaço do cabelo dela, um olhar tímido como os dela ou apenas um tanto de vontade de que as palavras se transformassem nela, que a aproximasse dele. Começou a se preocupar com seus textos. Achou que estava se repetindo demais em semelhantes situações, personagens, lugares e conflitos. Deus estava em crise criacional. - toda pessoa que escreve tem licença para ser Deus. Mas, em se tratando de seu interior, não havia crise alguma. Não existiam problemas pelo menos instantes após se despedir da moça. Estava bem com ela, consigo mesmo. Encontraria formas novas de contar a mesma história. Seu único receio era talvez estar vivendo na ilusão de um futuro que só existia em sua cabeça, impraticável. Como se estivesse vivendo o que para ela fosse apenas mais um capítulo forçado e entendiante de sua biografia descrito apenas a fim de construir uma trama mais complexa, talvez apresentando determinado personagem e dando aparente importância a ele apenas para distrair o leitor. Havia a possibilidade de que ele não fosse tão importante para ela, desconfiava que tinha certo protagonismo, mas, por se tratar de histórias escritas por mentes alheias e como não tinha poder sobre estas, não lhe importava. Ele queria que suas confabulações mentais se concretizassem no que correspondia ao romance com aquela de tantos nomes. Para ele, mesmo que para mais ninguém, a história fluía bem e poderia durar mais quatrocentas páginas ou ser interrompida, sem um final proposto, pela Morte.
2014/08/24
Lonely people 2
1 2
Deitados, ela ouvia os relatos dele sobre sua nova metrópole e como as pessoas eram lá. Até então, o rapaz não a questionara sobre as razões que a levaram a sair da cidade natal, pois estava encantado com a surpresa e não pretendia perder tempo com interrogatórios. Quando começaram a sair, isso há mais de ano, ele percebera que perguntas exigentes demais a cansavam e não inspiravam nela vontade de respostas complexas. Ela era direta, “porque sim”, “porque eu quis”, ou impulsiva - soltava uma resposta sem tempo para respiros. Nesse último caso, quando acontecia, seus olhos se enchiam de vermelho como se prontos para lágrimas, mas o rapaz, nesse tempo todo, nunca a viu chorar. Ao invés de tentar analisar aquela mente protegida por um par de óculos, cabelos loiros e um rosto quase sempre fechado, ele preferia se contentar apenas com a presença dela desacompanhada de sermões explicativos. “Pra quê ficar enchendo a moça de perguntas?”, reclamava para si mesmo, argumentando que deveria se contentar apenas com a aparição da moça, que, com tempo, ele aprendeu, não carregava muitas justificativas para seus atos, só vontade. Porque sim.
Surgiu um breve silêncio, olhares intensos à profundidade castanha do moreno e carícias nos fios loiros bagunçados dela, que disse:
- Você não vai perguntar porquê estou aqui?
- Não… A menos que você queira responder.
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