2017/06/29

(A linha tênue entre) o fim e os rascunhos

[Aquela epígrafe que só fará sentido para uma pessoa]


No momento em que abri os olhos, vi que ela me encarava apática, triste (com o mesmo olhar de quando me disse que gostava de mim, muito, mas acreditava na impossibilidade de ficarmos juntos naquela ocasião, muralha que desabou tempo depois, ressalto imediatamente não devo me ater novamente a definição qualquer de “tempo” porque, como Hans Castorp na montanha, não sei há quanto tempo estou aqui, aqui na situação de aparente persistência neste livro, ainda é o primeiro capítulo ou o último?). Quando abri os olhos, mesmo sonolento, imediatamente a reconheci, percebi em seu rosto a importância de nossa história à parte, sabia que não era um sonhador, vejo-a me observando e nossos olhares de divergiram quando seu amigo (que eu conhecia e, aliás, gostaria que fôssemos amigos, mas o timing não permitiu) disse meu nome, acenando, e o susto, tanto pelo chamado quanto pelo reencontro inesperado, me fez discretamente cerrar os olhos e fingir sono naquele ônibus onde não imaginava encontrá-la, afinal ela foi para lá e eu permaneço aqui (neste caso, geograficamente). Devia haver alguma atração artística que a trouxera para cá, ou um aniversário, não devia me importar com o quê, minha rotina não passava de work, work, work, e, apesar de minha formação acadêmica, não lia notícias, sabia das coisas pelo que comentavam no trabalho ou ouvia nos meios de transporte, se estivesse atualizado, saberia o que a trazia de volta. O que ouvi naquele instante de cansaço foi meu nome emitido pelo simpático comparsa da mulher com quem vivi (insisto em me convencer que nosso tempo verbal é passado) o romance mais frustrante para o público, pois se limitava ao platônico, intangível, na maioria dos capítulos, ninguém entendia, espectadores não aceitavam que aquilo era algo tão relevante para seus protagonistas, mas era - de certa forma. Seu amigo me chamou apenas uma vez, cerrei meus olhos tão rapidamente quanto os abri, me tornei invisível, esperei. Adormeci, fato que não se repetia desde minha infância, no constante trajeto entre Cabral e Cachoeira, porém, desta vez, despertei em um ponto do Centenário, sem saber quantas vezes fiz o mesmo percurso adormecido naquele veículo, o importante era que ela não estava mais lá, no ônibus, no desejo. 

Para uma história que se tornou tangível em um show estrangeiro, o último espetáculo à dois (desconsiderando a multidão inebriada ao redor) foi num bar falido com uma banda desconhecida local em que passamos o resto da madrugada abraçados, motivados tanto pelo frio quanto pela saudade gritando que deveríamos agora, enfim, com certeza, ficar juntos. Exatamente uma semana depois disso, me perdi e nego em compartilhar com ela a culpa, nem mesmo cito o episódio que motivou minha perdição, mais uma. Desde as primeiras páginas, me perdi constantemente, tentava voltar, reler o que havia sido escrito, retomar o rascunho com devida coerência, mas no último ano, com certo amadurecimento, concentrei-me para manter o foco, mas mesmo assim o álcool libertou minha persona mais desprezível, gostaria de também ignorá-la, mas restam consequências com as quais preciso lidar, sóbrio ou não, independentemente se quem fez o que fez foi eu ou eu. 

Em um canto sombrio deste mesmo quarto, há uma pilha de coisas que nunca te disse e os demais DVDs que jamais assistimos juntos, porque era um passatempo vê-los no silêncio de nossos solitários refúgios, ansiando por companhia, mas permanecendo nisso: ansiar. O querer sempre foi maior do que o ser/estar. “I love you longing for me”, como dito naquele filme que não vimos juntos, mas era como se ela estivesse ao meu lado ou fôssemos protagonistas em cena.

Nas poucas noites em que meu corpo se desintegrou com a colisão subatômica e se fundiu ao seu, julguei não mais ser viável ter um corpo individual, só meu, atrelado apenas a minha mente, porque, em algum momento, senti nossa unidade fluir sólida, firme como a mármore de construções que visitamos juntos. A ilusão de que dois pode ser um, desprezando a realidade física de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, estraçalhou-se no espaço desfeito. Minha fé em nós era maior do que a ciência, achei que a gente era uma grandeza maior, contudo, em decorrência de tanto, sei que a única força a fluir ininterruptamente é o tempo; nós não, éramos uma força hipotética, que sobreviveu somente em teorias, no papel.

Escrever sobre o passado, que seja descrever o que não há entre nós (ou o que há, o nada), não representa apego ao desejo, afinal não existe mais, só menos. A personagem habita em meus textos mesmo que o desejo não habite meus dias. Na névoa das lembranças, o desejo pode se confundir com a nostalgia dos bons momentos e fazer crer que ainda deveria existir contato, carinho e o resto, não o fim. Então prefiro a distância para não me perder novamente no que éramos, se é que existia algo além de um sonho nublado, evitar o querer é o caminho pelo qual optei.

Esta história é como aquele disco que eu tinha, que ela nunca ouviu na minha casa, mas estava no mesmo armário da mesma sala em que nos desintegramos em uma madrugada de novembro (poderia dizer que não me lembro da data, mas "I remember it well"), o vinil sempre se repetia em um trecho, “Penny LanePenny LanePenny Lane…”, até que eu largasse a louça ensaboada na pia, porque costumava ouvir este álbum fazendo algo na cozinha, e corresse para arrumar a agulha, por mais que gostasse da música, não dava pra deixar um disco riscado se repetir à exaustão. Abandonei discos, gostos e pensamentos, só não abandonei a escrita porque aqui permaneço vivo, mesmo que ela não leia, ao contrário do nosso romance, que não só leu como escreveu e também descartou.

Muito cinismo, muitos parênteses e nenhuma conclusão decente.

2017/04/27

A longa falácia do desapego

Não pense que é sobre você e as memórias e vazios deixados por esses teus dois metros de altura, isto é sobre mim e tudo que sou capaz de recordar dos atos tangíveis e das palavras não ditas no tempo em que queríamos habitar o mesmo recinto, feito que se tornou impraticável devido aos conflitos emergentes das profundezas de questões não resolvidas entre nós.
Não é sobre você, não é para você, é sobre meu egoísmo, para meu egocentrismo. Afinal, desconheço-te agora, não lembro se te conheci na Nilo Peçanha ou sob o neon inebriado de uma festa qualquer, portanto torna-se refutável, se isto fosse uma monografia, relatar as causas e causos de um episódio histórico sem fonte estritamente confiável - neste caso, minha própria memória. O astigmatismo afetivo transforma os momentos marcantes em borrões mudos, em que se torna suspeito saber se você me afagava ou me afogava, se dizia “vamos casar” ou “vamos terminar”, ao fim tudo se torna um grande bolo fecal de lembranças, os momentos felizes coabitam o mesmo buraco das crises. 
Da minha perspectiva, sou o protagonista de todas as minhas histórias, tanto quando tenho vários monólogos quanto quando sou o coadjuvante passivo.
Nada disso é teu, apenas o passado e os resquícios de nós que permanecem insistentes em minha garganta, escapando em forma de palavras, e minhas artérias, bombeando meu coração cada vez menos pulsante, por tua causa ou - mais provável - não, ele vai parar e a escuridão que surgir após será infinita e infinitamente mais perturbadora do que despertar sem você ao meu lado, afinal não despertarei.
O peso de minhas palavras me arrasta a algum lugar, elas me enganam com a sensação que é para longe de ti, novas paisagens, mas quando percebo a narrativa sai do nublado para percorrer novamente tuas mãos. teus olhos e tudo se repete.

2017/02/28

Do mesmo discurso

Não queria soar como mais um dos homens que lhe prometeram espaço, liberdade, ar e tudo mais que ela esperava de um relacionamento (não-tóxico), porque sabia que ela estava acostumada, definitivamente cansada, com esses tipos de promessas corroídas pelo tempo, tornando-se mentiras e feridas na memória. Queria evitar chantagens, cinismo ou quaisquer palavras que a convencessem a fazer algo que ela apenas aceitaria devido a insistência manipulando suas próprias vontades.
Não queria se apropriar de seus gostos, forçar-se a gostar da mesmas coisas que ela apenas para ter sobre o que conversar, aonde ir, mas, sem querer, compartilhavam a mesma atmosfera nas artes, na melancolia, no olhar, na vida, assim como habitavam outras atmosferas apesar das dificuldades de adaptação.
Não queria que sua existência a cansasse, machucasse, drenasse toda sua vitalidade. Estaria disposto a "dar-lhe" (como se houvesse a obrigação de ser concedido algo) tempo e espaço, esperaria, desde que ela soubesse que ele permaneceria lá, a sua espera, ou aonde quer que ela o chamasse, iria.
Queria ouvi-la cantar “I Gotta To Find Peace Of Mind” e responderia, com certa dor justificável, que se afastaria - ou até sumiria - caso fosse ele o distúrbio em sua paz. A racionalidade se confunde quando a paz de uma pessoa se torna a guerra de outra.
Queria não soar grosseiro quando sua intenção era ser apenas comicamente sarcástico. Queria não machucá-la de qualquer maneira. Queria não ter estragado qualquer possibilidade nos últimos anos como tanto fez. Queria não perder o foco do restante de sua vida quando ela aparecia, afinal nada parecia interessante ou saudável se comparado a qualquer capítulo da história deles, para que não se viciasse a ponto de autodestruição, sabia da potencialidade de um vício tanto para construir quanto para destruir.
Queria que ela entendesse de alguma forma sua bagunça e suas idas e vindas.
Queria rotina, mas, paradoxalmente, não uma rotina que estragasse a essência da existência de um na vida de outro, vice-versa, não queria que se repetissem apenas por conveniência, não, queria repetir apenas como se fosse uma música repetida tantas vezes na mesma noite por ser a melodia mais incrível que poderia ser ouvida em momento específico. Queria assinar caderno de visitas em exposições com todos os nomes possíveis que lhe surgissem em mente.Queria chegar em casa, qualquer casa, e encontrá-la repousando, lendo, cuidando das plantas que cultivariam juntos, deixando que felinos amassassem pães em seus braços, enfim, dividir o mesmo espaço, mesmo que apenas durante as horas de sono e maratonas na TV, pois a demanda profissional sugaria grande parte de seus tempos.
Queria nada. Queria tudo. O que suas rotas trouxessem.
Queria que o tempo não dependesse de passado, presente e futuro, de mágoas, rancores e toda sorte de traumas. Queria todo o tempo do mundo. Se ela lhe dissesse “não”, guardaria a memória desse amor em um local que pudesse ver, sentir, cheirar e fim.

2017/02/08

Nos frêmitos roxos da tua carne

Nós fomos um erro. Nós fomos um erro. Nós fomos um erro. Queria escrever com interrogações para elucidar a falsa afirmativa, mas, depois de você jogar tantas vezes a verdade em que queria acreditar na minha cara, eu, teimoso, esperançoso de que não, entendi que sim. Enfim aceitei o fato que ignorava a cada gole de vontade. O sentimento era de que a gente devia ter esperado um pouco - ou muito. Esperar que algo bom - e não corrosivo - surgisse do magnético vácuo entre nossos corpos.
Se digo que estou bem ou - pior ainda - se sorrio para você, rio, qualquer seja o motivo, é mentira. Mentira é uma das faces da desonestidade, a outra é a omissão, e minto se permaneço imóvel perante o desconforto de não sermos mais dois corpos na mesma cama, mas sim dois seres distantes. Convenhamos, sem te culpar, apesar do tom contraditório deste meu grito emudecido, não há maneira humana possível de se estar bem depois de tudo, depois de nós, “depois” na condição de algo que jamais se repetirá, as repetições que se cravaram em minha pele para dificultar o desentrelaçamento das lembranças. Se não houvesse o contato físico, seria mais fácil para sair correndo, fugir para longe de você, mas tropeço na memória e na vontade que tento apagar, mas caio, me queimo e me deixo dominar tudo aquilo que queria e abandonar- deveria, para manter minha sanidade em um nível tolerável - , considerando a não-reciprocidade sobre o que poderíamos ser. Você me quebrou, me magoou, "me usou", como você mesma disse, e cada movimento do ponteiro do relógio, cada instante distante do passado repentino que vivemos, as lágrimas invisíveis escorrem ásperas riscando meu rosto com o líquido todo que ingeri quando decidi comigo mesmo estar pronto para me afogar em você. Se fui uma distração, uma miragem no teu deserto solitário, naqueles momentos em que você se distraiu com a minha pele eu podia jurar que você queria mais, mais me iludia.
Por um lado, sinto-me aliviado quando passo alguns dias acompanhado da sua ausência, é um tempo sem você e sua luz, sua energia, seu sorriso, seu cheiro, sua pele, seu andar, seu cabelo… e a distância só seria prejudicial se você me quisesse de fato em sua rotina, mas, como não quer, como não devíamos estar presentes no passado, ver tudo isso que faz de você a pessoa com quem eu gostaria de tentar sermos maiores não contribui para a desintoxicação. Por um tempo, afoguei a saudade em garrafas e mais garrafas de cerveja, porém afogar um vício em algo que nos despertou estava me deixando ainda mais próximo de nosso ponto de partida.
Não te odeio, nem o contrário, apesar de vestir a máscara do rancor e jogar ao vento palavras e atos que te façam me odiar, me desprezar, mas amaldiçoo o Cosmos, teu grande amigo, pela nossa colisão; e também cultivo ódio por mim mesmo por ter deixado a vontade florescer, por ter aceitado teu convite naquela atípica sexta-feira.
Naquela noite, se eu não tivesse despertado de meu porre, naquela maldita noite, se eu não tivesse me virado para o lado que você ocupava naquele sofá desconhecido, por que aquela inebriada noite existiu?, não haveria nós, não haveria repetição, não haveria mágoa nem sequer arrependimento por ter feito o que queria, o que queríamos. A gente devia ter reprimido o desejo até o fim de nossos dias, não deveríamos ter conversado, muito menos descoberto interesses em comum, e, importante, você jamais deveria ter feito meu mapa para confirmar que os astros se alinhavam para que a gente tinha acontecesse, porque, se dependesse de uma prévia do que de fato aconteceria entre nós, eu jamais teria aceito.
Todas as vezes que me disse, convincentemente, que fomos um erro, trucidava-me imperceptivelmente. Demorei pra notar que suas palavras me mutilavam por dentro, ao perceber o sangue abstrato já escorria pela minha boca e eu apenas balbuciava mágoa em forma de qualquer outra coisa. Qualquer coisa que te irritava, que gerava fagulhas para um tipo de incêndio diferente daquele que devia existir entre nós. Então, quando me expôs seus reais motivos, sua nova vida, minha imaturidade, eu já estava quebrado o suficiente para não perceber os pedaços de mim rachando a ponto de se dividirem em outros menores e indecifráveis.
[...] apenas corpos celestes opostos e semelhantes[...] quando recorri a métodos quaisquer para completar no meu peito a falta que você passou a fazer, [...] a tua ausência e [...] me perseguiram por dias, [...] precisava me agarrar a algo já que não mais poderia agarrar a tua pele suada deslizando pela cama.
O sexo nem foi tão surreal assim, poderia ter sido se tivéssemos nos dado mais diálogos e tempo para que meu corpo, meu toque, pudesse memorizar todo o relevo do teu corpo, todas as linhas das tuas tatuagens ligadas intrinsecamente ao âmago do teu prazer. E nem sei se meu corpo, além das mãos que admirou por um tempo agradável, mas dias depois desprezou comicamente na frente de pessoas que não faziam ideia que eram cúmplices de um caso encerrado, era tão estimado assim a ponte de te fazer querer mais do meu suor nos teus lençóis. Então restam as chagas memoráveis e intangíveis do que existiu e a expectativa do que poderia ter acontecido. Tão pouco tempo para ter em mim as marcas constantes de suas unhas, de seus dentes, não sinto a vermelhidão rotineira das cicatrizes e a saudade cínica daquelas noites me fez querer mais mesmo sabendo que não.
Tudo - o prólogo, o início, o meio e o fim - foi tão rápido que não deveria ser aceitável tanta dor, tanta mágoa ou, antes da dor, antes da mágoa, tanto desejo, tanta intensidade em inspirar que aquilo, nós dois, tão diferentes, pudesse se concretizar como algo físico e - pior ainda - emocional, afetivo, visceral, o que quer que seja isso que sentia por você. Assumo, não guardo cada detalhe dos melhores momentos da minha vida, de nenhum, então as minúcias de nós dois escorreram de minhas mãos e permanecem lá, longe, no passado, no chão, em algum canto daquele quarto onde você não mora mais.
Você não devia ter me dado atenção, afeto e espaço, devia ter dito “não” - para mim e para si mesma - no primeiro momento em que nós surgimos, mas como saberíamos que estaríamos arruinados em tão pouco tempo? Há certo alívio pelo início do desfecho ter surgido tão cedo, antes que surgisse a perspectiva de votos e confirmações em um ritual matrimonial, antes da vida conjugal, antes dos partos. Imagina se o real desafeto surgisse no aniversário de quatro anos de Nina, nossa terceira filha. Eis então certo alívio: sempre pode piorar.
Quanto mais conversávamos sobre a impossibilidade, mais incompreensível se tornavam nossos diálogos, mais espontâneos se tornavam nossos conflitos e mais questões eu tinha sobre a real impossibilidade de tudo isso e me perguntava, por não ter coragem de te jogar na parede mais uma vez, se seu escudo de hostilidade (me atacar aleatoriamente após qualquer fala minha) era apenas para não deixar infiltrar em você a vontade de ter algo comigo, vontade que conseguiu expulsar de si. Se foi isso, entendo porque já fiz isso de deixar nascer um sentimento camuflado de ódio para repelir o encanto, um modo de extinguir qualquer afeto para seguir em frente. Falando em seguir em frente, o mundo girou tão rápido enquanto tivemos nosso caso que fiquei tonto e perdi o caminho para qualquer lugar que fosse aonde pretendia ir antes de nos cruzarmos.
A exaustão por fugir de um sentimento que corre incessantemente atrás de mim é tão pior quanto o próprio sentimento, porque aceitei que ele continuará me perseguindo até que o tempo se encarregue de diluí-lo, a perseguição persiste independentemente se o afeto crescer ou diminuir, a única coisa que encolhe é a quantidade de ar que respiro quando tuas lembranças me estapeiam, não, não!, que cesse o sentimentalismo, o que perde tamanho é o sentido no que falo a seu respeito, pois, na tentativa cínica e ilusória de te ter novamente, apesar de nunca tê-la de fato, afinal ninguém tem ninguém, as palavras se unem desesperadamente em mim como se ruídos convencessem você a acreditar que poderíamos ficar juntos - por tempo suficiente para percebermos que devemos nos separar, tempo que acreditava eu não ser viável quando nos distanciamos afetivamente, [...].
Desculpa a insistência de meu corpo e minhas palavras. Há semanas me empenho nesta carta, (in)conscientemente tentando te mostrar o que não consegui dizer pessoalmente, mas toda vez que releio quero acrescentar mais páginas até que não sobre um buraco nessa carcaça baleada, até que tudo seja dito, até que a fonte se esgote e eu não tenha uma gota sequer de afeto, saudade ou vontade. Cada vez mais meu eu-lírico faz menos sentido, não condiz com o que o eu-eu quer, por prezar mais pela escrita poética do que pelo sentimento puro, destilado pela ambição de ser citado por alguém, de se tornar epígrafe, de ser relevante para alguém além desse ser egoísta que escreve sobre e para si a fim de convencer mais alguém de que vale o esforço em enfrentar, ignorar, toda a bagunça de alguém que se perde - e perde o foco - ao sentir, escrever e ser compreendido. Evidentemente, contigo, não funcionou. Chega.
Saudade da rotina que não tivemos.

2017/01/07

Rápido

Quando há visceralidade emocional no afeto físico, tudo piora, pois se somente os laços intangíveis do platonismo, nada aperta, nada rasga, nada corta. A negatividade de determinada situação se fortalece por inviabilidade de toque, tato, pleonasmos físicos, seja por bad timing-and-placing ou divergências astrais, não há critérios suficientes nesta narrativa para apurar a absoluta razão para o inconclusivo fim de duas pessoas. Inconclusivamente sem desfecho devido a ausência de um diálogo final devido a continuidade de contato devido a gama de interesses em comum devido ao desentendimento devido a tudo.
Se pensasse em dizer que se sentia um homem melhor a seu lado, mentalizava a cena e se via chorando, porque assumir tal mudança seria um ato tão difícil para quem tão problemático para se expressar clara e sinceramente que romperia as barragens lacrimais depois de alguns segundos, ou minutos, contendo-se para abrir o peito com a escandalosa verdade. Vazaria, explodiria, e pensava que ela era digna da causa de tudo isso: a vontade. De fato, o pessimismo se esvai diante de tudo que a compõe, o sorriso largo ora fechado ora irradiante, os traços tanto naturais quanto os tatuados, a bem-aventurada liberdade, a desavergonhada sinceridade, a admirável curiosidade, a disfarçada reciprocidade… Tudo (agora lembranças impraticáveis) é capaz de encher o peito com lâminas enferrujadas pelo remorso do que não devia ter sido dito ou feito ou sentido ou nada faz sentido quando a mente escapa e flui e não quer encontrar justificativa concreta para o distanciamento e só encontra a dor cínica causada pela possibilidade inicialmente abraçada com receios, sem tanta dedicação, mas então envolvida com todas as forças que agora precisou ser abandonada no meio da correnteza, talvez pelo intenso aperto com cara de obsessão. "Eu não sei nadar”, disse ele, “deixa de ser pessimista”, disse ela, “nada mais profundo que um mergulho no seu corpo”, diria ele (mesmo que desconexo ao diálogo, lembrando-se daquele domingo) se naquele momento se lembrasse perfeitamente da frase pixada em um poste a poucas quadras de onde se conheceram. Quando recordou do que deveria ter dito, não era a única coisa obviamente, envolveu-se novamente pela saudade, que era inversamente proporcional ao tempo de início dessa história, julgava-se incapaz de se apegar tanto a alguém em pouco mais de um mês, mas então seu pensamento jogava uma carta escondida, há mais tempo do que a previsível colisão ocorrera havia o condicionamento emocional para poder sentir calorosa e intensamente mais uma vez depois de outrora destroçado por outros amores, reconstruiu-se quando o determinado encontro aconteceu e, de tanto entender ao longo dos dias a possibilidade de algo maior, aceitou que ela contribuísse de toda e qualquer maneira em sua reconstrução, abriu a porta das obras, mas ela não entrou.
Não havia nada mais convincente do que se permitir sentir tanto a ponto de se tornar visível para quem o sentimento era devido, mas, neste caso, ainda era insuficiente.
Escancarou a porta e não se importou em arrumar a bagunça antes que o alguém esperado entrasse, contudo a desordem, quando excessiva, não merecia ordem.
Os fios da história e dos sentimentos, ambos entrelaçados, perdem-se e arrebentam, restando o que se conseguiu reunir do emaranhado arruinado de tudo que se conseguiu recuperar dessa confusão.
Até que se aceite que não há mais qualquer afeto cultivável, resta o constante e inevitável apodrecimento das emoções que em algum momento do passado foram consideradas em um diálogo franco o futuro adequado.

2016/12/29

Zero


Grita comigo para que meus defeitos se assustem, deixem-nos em paz e saiam pela janela, que está aberta, e que o vento entre, deslize pela cama amaciando a tua pele que meus dedos magnetizados não conseguem deixar de acariciar. O afeto se desmancha quando me permito ser a minha pior parte na tua frente e sei que tem vontade de ir para nunca mais voltar, melhor dizendo, você deve ter vontade de me expulsar da tua casa, gritar da janela um discurso que acorde toda a vizinhança que não mais me permitiria entrar na tua casa, sequer pisar na tua rua novamente, jogar minhas roupas na rua e me deixar queimar no calor de dezembro. Tua raiva contida causa a miragem de que está tudo bem por enquanto, mas sei que não está, despropositalmente deixo vestígios do que não quero mais ser, sem que eu perceba a maquiagem escorre e você consegue enxergar meu antigo personagem, aquele que tentei assassinar repetidas vezes, mas insiste em se expor quando estou vulnerável. Seja minha cúmplice ou mate o antigo eu por conta própria, assumo a responsabilidade de levar a culpa e de encontrar um novo eu - ao teu lado.
Que seja um caso de um mês ou dois (ou vários, assim desejaria), mas não mereces ter o meu pior nem ouvir de mim as palavras mais cinicamente corrosivas, nem você nem ninguém. Que o pior que você possa ver de mim sejam minhas crises alérgicas abraçando seu família felina ou minhas mordidas ansiosas em minhas próprias mãos ou minhas bebedeiras colossalmente vexaminosas que resultam em machucados de origem imemorável e diálogos em outros idiomas sem nexo algum. Que ainda haja em você um tanto de insistência nisso que temos e vivemos, seja lá o que for, ah, eu gostaria, apesar de meus tropeços. Que você grite comigo tudo o que quiser, grite também para o mundo tuas vontades. Que os teus escândalos sejam a fonte da mudança.

2016/12/06

Ressaca de novo

Anestesiado pela presença dela ali, no apartamento há tanto tempo assombrado pelos fantasmas da ausência e da solidão, contente com o novo episódio que escreviam ali, em uma madrugada alguns anos depois da primeira colisão de rotas ("há quanto tempo a gente se conhece, dois anos, três?", ela perguntara, "quatro, teoricamente", ele retrucou - porém devia ter dito que a cronologia considerada partia apenas de sua perspectiva, excluindo a dela, que era um tanto mais recente, ele deveria ter dito, não apenas isso -, completando com um trecho da música de abertura, digamos, do que pretendia ser o filme mais extenso que conseguiriam imaginar serem capazes de protagonizar, "I remember it well", mesmo que, de fato, a canção era apenas uma regalia dos primeiros dias, não traduzia sinceramente para uma linguagem musical, somente instrumental que fosse, o que viveram), ela estava em sua casa, e alucinado pelo cansaço e o sono que deixavam a gravidade ainda mais influente, focava o que restava de sua força para com seus dedos percorrer o curto e magnético caminho dos dedos dela. Cada centímetro, desde a base das unhas, passando pelas pontas curtas, às impressões digitais. Entorpecido, tentava decifrar os relevos de seus dedos na tentativa de conhecer o que ainda desconhecia dela, o que era muito. Buscava decifrar sua biometria para entender o código criptografado de suas vontades. O peso do cansaço realmente deixava sua mente e seu corpo deslizarem em fluxos de delírios desconexos. 
Naquele momento, o tempo parecia não fluir, a noite que lentamente se camuflava de dia, o frio era teimosamente ignorado, não pelos corações flamejantes tão próximos, apesar de separados pelos braços das duas poltronas, cada um envolvia-se num cobertor diferente, de que deixavam escapar somente as mãos quentes e um tanto trêmulas, fosse por frio, nervosismo ou alguma sensação que representasse o que alguém ansioso e incrédulo sobre a realização de um capítulo igual aquele em que duas pessoas, depois de tantas corridas, repousavam enfim juntas, mesmo que houvesse a possibilidade real de isso não se repetir; e os rostos, iluminados pelos olhares alheios, radiantes, o que os impediu de fechar os olhos por bastante tempo.
Quando suas mãos se cansaram contra sua vontade, aproximou-se ainda mais dela, afundou-se em seus cabelos, cada fio era uma enxurrada, queria se afogar ali, tão delirante estava que se esquecia de respirar. Cada inspiração pretendia absorver uma parte do que criavam juntos para que as memórias invadissem seus pulmões e dali se alastrassem pelo resto do corpo, da sala, da cidade, da vida.

- Você precisa dormir, o cobertor ainda tá quente, vai - disse ela, com seu fechado sorriso tranquilizante, aparentava temer deixar escapar a intensidade de seu sorriso aberto e explodir, desaparecer na luz, mas ele aceitaria, impulsivamente, fragmentar-se a partir de uma explosão solar dela. “Que ridículo eu sou”, pensava sozinho após considerar o que faria ou não por ela, em que metáforas se transformaria para continuar em sua órbita. 
Pegou o cobertor abandonado na poltrona onde ela deitara, percebeu que seu cheiro permanecia ali, e deitou-se, agora em sua cama, mas não pode dormir o quanto queria ou precisava, sua rotina fluía apressada e a luz matinal inundava todo o apartamento. À noite, quando voltou para seu apartamento, depois do trabalho, agora acompanhado apenas das sombras da memória, o aroma se dissipara. Afirmou para si mesmo que o cobertor voltaria a abriga-la, apesar de não ter certeza disso, que seu cheiro voltaria a se prender às peças de cama daquele lugar - ou qualquer peça de qualquer lugar que os abrigasse - futuramente - suplicava às curvas do tempo para que aquela madrugada se repetisse, que se tornasse rotina, mas não do tipo que corrói os relacionamentos. Esta palavra o amedrontava,  gancho para o que queria esquecer fisgava sua pele, doía. Conseguia rapidamente se desvencilhar do passado e retornava ao recanto das memórias doces que cultivava por ela. Entristeceu-se consideravelmente por se lembrar do que lembrava, mas sua mente recordara da canção que repetira tantas vezes nos agora tantos anos que estavam em desencontro constante: "Not now, maybe later". Talvez. Permitia-se massacrar pela crença em um bad timing como método para dormir melhor, sem ser atormentado pelo pressentimento de que nunca teriam uma chance, a chance de viverem juntos de uma vez por todas.
Não demorou para que seu pessimismo arrombasse a porta da casa, de sua cabeça, como em outras vezes naqueles anos, trazendo boatos de que ela teria passado aquela madrugada com ele enquanto esperava algo ou alguém - quem ou o que quer que fosse -, que ela não gostasse tanto dele quanto ele imaginava, que ele não passava de uma distração, que ele era uma ilusão, que ele daria motivos para uma fuga no próximo - incerto - encontro ou em algum momento no futuro - também incerto - juntos. Fato era que a onda de otimismo sempre vinha trazendo tudo o que queria e se arrastava para longe depois de algum tempo, deixando o solo seco e propício aos piores pensamentos. 
Os dias se alongavam e as lembranças emergiam. Em um momento aleatório, insignificante, passou a mão em seu próprio cabelo e recordou do momento em que ela fez o mesmo, o melhor afago que seus curtos e crespos fios já receberam em muitos anos. Não exagerava ao afirmar que qualquer ato dela, apesar de exagerar na importância deles, mais objetivos do que qualquer palavra, eram de significância enorme para ele. 
Ignorou durante um ou dois dias depois do encontro que tiveram, o mais marcante até ali definitivamente, a questão de que não dependia apenas dele ou da relevância da madrugada que passaram juntos encarando o escuro e deixando-se levar pelas mãos alheias, podia ter sido nada demais, nada de menos, ou tudo. O conforto do silêncio à dois emudecia o que queriam dizer um ao outro. Tinha consciência que qualquer gesto seu posterior àquela ocasião poderia ser praticado ou entendido como cinismo, a união de algumas palavras quiçá soassem como apelativas. Não queria gritar suplícios desesperados, não queria gritar de maneira alguma, e passou dias tentando encontrar um meio de não ser o homem que ela não queria (cínico, chantagista, carente etc), porém não sabia o que ela queria, nem mesmo se queria.

2016/11/16

Motivo nenhum é motivo suficiente

"And when it had all gone down slowly the hole in the basin had made a sound like that: suck. Only louder.”
A Portrait of the Artist as a Young Man, James Joyce

Terminou de ler mais um parágrafo, direcionou seus olhos para o chão, e sentiu não a náusea, afinal não era Antoine Roquentin, mas um ruído ligeiro, um tremor, um zumbido se aproximando, uma onda, um enxame, como se vindo do subsolo do shopping, como se estivesse subindo, aproximando-se cada vez mais, como se correndo nas escadas rolantes, pronto para destruir a construção e a vida das pessoas que ali trabalhavam, compravam, comiam, passeavam, seria o fim - se o desastre fosse real. Real. Não era. Na verdade, era, mas apenas na mente daquele que abandonou o livro sobre a mesa, desistiu de ler para se concentrar no que emergia dentro de si, talvez controlar isso tudo, mas sabia não ser capaz.
O tremor em sua mente nenhuma relação tinha com o que lia, a leitura não pressionou o gatilho, nem mesmo Roquentin ou qualquer um de seus camaradas literários. O que fez emergir (mais um)a onda foi algo que lhe aconteceu cedo naquele dia, quando abriu os olhos naquela quinta-feira e disse silenciosamente: "merda", e percebeu ter acordado mais uma vez.
Há tempos não passava por isso, em público então nem se lembrava da última ocasião. Desacostumou-se a ponto de considerar a dor nova. "Isso não é doença, é frescura!", como diriam aquelas pessoas normais, sem problemas, maduras o suficiente para não serem acometidas por transtornos como aquele. Era como se uma superfície gélida fosse invadida por um calor inquietante, rachando o gelo, que então corta a pele e deixa entrar todos os ruídos do mundo, ainda que não se consiga ouvir nada, pois a mente entra em um estado sinestésico onde não consegue identificar dissonância alguma. As palavras se enrolavam, não se entendiam, nada compreendia.
Não registrou quanto tempo durou, pode ter durado dez segundos ou longos dez minutos, mas cada segundo lhe roubou o ar que teoricamente devia correr até seus pulmões. A velha sensação de que seu toráx diminuía a cada respiração. Hiperventilava, sua mente se arrastava em um chão áspero para tentar retomar o controle.
Ninguém - tanto ali quanto em qualquer lugar - oferecia ajuda, afinal ninguém enxergava o que estava acontecendo, também porque, naquele momento, sua voz correra para longe.

2016/08/24

Auxese, Axioma, Exegese ou Don't love the ...

Pela septuagésima oitava vez, chego a uma conclusão diferente, cada uma por um caminho diferente, e ainda assim me nego a entender a verdade - "isso não pode acontecer comigo, é demais" -, desespero-me, é assustador, absurdo, acreditar. Talvez seja melhor crer na alucinação, que isso tudo é irreal, surreal, que nada existe. De tanto o sol passar sobre nossas cabeças, começamos a acreditar que nos cruzaríamos sempre, o astro e a Terra, e alguém levou ainda mais a sério e descobriu que girávamos a seu redor. Não existe metáfora nisso, já adianto, não é meu Sol, apesar de queimar minha paciência a lentidão da conclusão dessa jornada, mas não é você que a queima, ou, já que se fala de astronomia, a demora para a chegada do novo ano, o novo ciclo.
Não queria que tudo se repetisse, mesmo que parte de nossa rotina - our very own - ser o que me instiga a permanecer. Permanecer, ponto.
É como se estivesse em um elevador que sobe e desce, mas sempre para no mesmo andar, e toca a mesma música, um tanto sinestésica, as ondas sonoras são cores, a cor do seu cabelo, a cor dos seus olhos, a cor das suas cicatrizes, dançam ao meu redor e me envolvem, me abraçam, fundem-se às minhas cores, às minhas dores. Quando escolho subir ou descer escadas, os ambientes se tornam cinzentos e a ausência das suas cores tangíveis deixam fendas herméticas, onde não circula sangue nem ar, há abstinência de sentir-te me invadindo as entranhas, causando espasmos, mãos trêmulas, estas ausências me machucam, não fisicamente, obviamente, mas incomodam.
Queria sair de mim, ao atingir o auge ainda inalcançado deste romance, para jogar sobre nós gasolina, acender um fósforo e ver-nos queimar como a mais bela fogueira que poderíamos ver, mas desisto da intenção ao perceber a pretensão que há em dizer que ainda não alcançamos o ponto mais alto de nossa história, pois, é importante sermos realistas, podemos ter passado pelo pico tão rapidamente e nem percebido por estarmos distraídos demais com os nossos silêncios, ou distantes.
Falo de mim por não ter a chave para o teu cofre de sentimentos, não li seus diários mentais nem sei se pretendo lê-los, sei da existência de trechos perturbadores dos seus pensamentos, sei que os tem, assim como tenho os meus, mas leria todo e qualquer capítulo que quisesse me mostrar, decoraria todas as estrofes dos poemas que contribuíssem para adiar qualquer mal dos teus dias, escreveria em nossos lençóis, por mais piegas que isso seja, e, sim, nossos lençóis, porque ainda acredito na possibilidade de um dia compartilharmos um ninho, cultivarmos um bonsai e segurarmos um mesmo teto, com um de seus batons um lembrete de tudo o que somos, a fim de reduzir o impacto quando atingidos por uma daquelas fases, você sabe, que a única vontade pura é permanecer em posição horizontal, observando o escuro ser tomado pelo sol que atravessa a cortina quase translúcida que tanto prometemos trocar por uma black-out que vimos em alguma loja de algum shopping durante mais uma de nossas perambulações fugindo de uma ou duas crises ansiosas, elas existiriam de vez em sempre.
Se somos o que sentimos, então somos o exagero. Somos a representação do que se entende por hipérbole romântica, afinal não vivemos o que sentimos, apenas sentimos.

2016/08/08

Sono

Queria escrever sobre a conexão que sentira ao saber, naquele dia em que ela, sem intenção de entregar o enredo, depois que ele afirmou saber que alguém morria no meio da história, confessou, sem dizer nome algum, que era sua personagem favorita. Naquele instante, soube quem morreria. Tentava se desprender de tramas doídas, mas, entre Uma Vida Pequena e Dias de Abandono, decidiu prosseguir com a crônica de uma morte anunciada, não aquela do Gabo. Ao fim do episódio, depois de chorar, pressionar a cabeça com as duas mãos, como se tentasse arrancar a memória daquela cena e se concentrar na própria respiração para se acalmar, pensou em mandar uma mensagem sobre conexão mental, "quando você falou que era sua personagem favorita, eu soube", sobre o quanto eles se conheciam, completavam, contemplavam, corriam, à distância, juntos, em silêncio. Ou escrever um conto sobre tudo isso. Intrinsecamente, apesar de não assumir em voz alta a si mesmo nem a ninguém, usava a literatura - tanto no ler quanto no escrever -, corrigindo, a ficção como um  recurso para se aproximar dela. No meio do caminho, teve a epifania de que não era capaz de transcrever, traduzir, o que sentia por ela nem o quanto ela importava para ele. Repetia-se nos rascunhos, apesar disso, não se cansava, não havia crítica literária apontada para seus textos, afirmando que já estavam repetitivos, que deixaram de ser inventivos e não tinham interesse para a sociedade em geral, não importa. Queria escrever. Continuar o que havia começado mentalmente. Porém, estava cansado demais para se livrar das cobertas, levantar e procurar seu caderno ou ligar o computador. Além do cansaço, um pedaço de ferro atravessava seu crânio numa dor de cabeça consequente de um pouco de choro depois de testemunhar a morte ficcional - mas nem por isso indolor -, somado a uma ressaca causada pela labirintite atacada na madrugada anterior.
Devia ter escrito, pois, na manhã seguinte, esqueceria-se das frases elaboradas mentalmente,  que se tornariam célebres e seriam citadas em obras de outras pessoas no futuro, mas dormiu.

2016/07/28

Permanecer, distante (Not to disappear)

Render-se ao cinismo da nostalgia por bons e velhos tempos é tão angustiante, cortante, quanto ignorar o passado e priorizar acabar com a agonia do momento.
A vontade de partir era, muitas vezes, real, visceral, emocionalmente palpável (como se um caroço retirado de um buraco no próprio peito, "aqui está minha dor"), mas, dependendo do momento, impraticável. O motivo para sumir - da vida de alguém, na maioria massacrante das ocasiões em que tal vontade despertava - não é maior que os motivos para ficar - no emprego, na casa, na faculdade, nos trilhos.
Talvez, em algumas circunstâncias, a intenção de se distanciar não estava diretamente associada a uma ou várias ações de alguém. A exaustão por viver, como um todo, não necessariamente cansar-se de alguém em específico, despertava interesse nenhum em interagir com quem quer que fosse a pessoa por quem tinha ou teve sequer uma gota de consideração, afeto.
Ou, até mesmo, cansar-se de uma pessoa especificamente alastrava o camada de isolamento criada e fazia se distanciar de toda relação humana diretamente hedonista - que não envolvesse diretamente trabalho ou qualquer outra obrigação.
De fato, meses depois, não sabia porquê, o que concretamente atingiu e desviou sua rota, mesmo que só mentalmente, para dar um ponto final, apenas...
Nunca gritou na cara das pessoas das quais não teve mais notícias que não queria saber de suas vidas, suas imagens congeladas da tela, lentamente entrando em fade out. Lugares que frequentaram juntos, dívidas, piadas internas, lembrava-se de tudo, guardava tudo, temendo um dia não ser mais capaz de guardar tudo com carinho, derramar rancor ou simplesmente deixar cair pelo caminho enquanto corresse - para longe, das pessoas, de si, de tudo. Contudo, sabia que ao chegar lá, independentemente de onde "lá" fosse, teria novas razões para querer partir mais uma - quem saberia, talvez não a última - vez, novas pessoas que despertariam tal desejo, fugir novamente.
Entrara nesta introspecção ao se lembrar da proximidade do aniversário de alguém de quem se afastou, mas, na tentativa de recordar o ultimato para a relação em questão, contentou-se em concluir que o tempo, a erosão do tempo, corroeu a construção, permaneciam resquícios, entulhos, do que existiu, incertamente sem saber se, de fato, existiu uma razão justificável, aceitável em termos que não abrangem o intento psicológico de cada indivíduo na tomada de decisões - impulsivas ou concisas -, que não só uma manha, uma cisma, um pesar efêmero que distorceu a visão de uma amizade firme para convergências sociais, interações, forçadas pelo comodismo. A resposta, provavelmente, era tão solúvel que nem ao menos uma chuva foi necessária para apagar, apenas o primeiro vento a levou para longe, perdendo-se.
Era estúpido condenar culpados intangíveis, o orgulho, o comodismo, o cinismo, a saudade, quando a culpa nem devia ser considerada, afinal, algumas vezes, o que acontece é que a vida acontece.
Deixava-se enlaçar pela insistência presa ao momento em que decidiu se distanciar, mesmo que não fizesse mais sentido permanecer distante, mesmo que não tivesse se distanciado literalmente, ainda estava onde esteve o tempo todo. Mesmo endereço, mesmo cansaço, mesma desgraça.
Não queria se render à saudade, mas abraçou, por instantes maiores que seu orgulho permitia, as lembranças. Da última vez que realmente se sentiu pertencente (talvez a ilusão, cegando-se a fatos que poderiam ter causado o distanciamento anteriormente), abrigado naquelas companhias, àquelas amizades. Fim de tarde, o sol refletia nos prédios, riam, e alguém perturbava carinhosamente sobre a velocidade que se apaixonava; madrugada, sofá pequeno demais para tantas pessoas e lia, sem censuras, sua autobiografia, com todos os detalhes possíveis sobre suas perdas; foram tantas despedidas. No fundo, apesar da longevidade e/ou consistência daquelas amizades, não se conheciam plenamente, não permitia que o conhecessem. Queria deixar ocultas camadas de sua existência para não se machucar quando usassem sua vida contra si ou fossem embora. Mas, egoísta, contraditório, escancarava-se, de modo a causar a impressão que lhe conheciam inteiramente, partia, distanciava-se. Adiava - provavelmente necessárias - brigas e deixava a sensação de que estava tudo bem ou que passava por mais uma de suas fases de afastamento, que seria encerrada inesperadamente ao aceitar um convite para fazer alguma coisa, qualquer coisa. Porém, dessa vez, talvez, não responderia ou - pior - daria uma resposta apática, que não desse vida a um diálogo. Ou levaria uma reaproximação saudavelmente, seria simpático. Não conseguiria se distanciar, permanecer longe do alcance, da vista, nem no próximo mês, muito menos ao longo dos anos que lhe restam.
Não tem fim.

2016/06/30

Obra do Tempo ou Kokedama


“Sentiu-se oco, a sensação de leveza se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem raízes: se abrisse as veias não sairia nenhuma gota de sangue, não sairia nada.”

A Mão no Ombro, Lygia fagundes Telles


Parece que aquele show foi há menos de um ano, sinto que perdi, além do controle da minha vida - de vez -, a noção de tempo. Sinto que não era eu ao seu lado, era outro homem? Eu - definitivamente - era outra pessoa naquele junho?, outubro?, "I remember december"?, ao menos internamente, afinal a mesma cara estragada coberta por um casco de bad guy (talvez só eu mesmo veja isso), mas agora são outros ideais, outras ideias, opiniões, outros receios, rancores, desejos, apesar de sentir ainda algo por Ela talvez muito maior do que senti ao seguir rumo à Praça Liberdade naquela noite de quinta-feira, madrugada de sexta (o tempo ao mesmo tempo que importa tanto para essa história fica cada vez mais líquido, distante, insustentável, igual eu).
Agora, anos depois, quem usa um óculos de hastes vermelhas é outra ponta. Apesar das lentes, ainda não consigo enxergar os detalhes que causaram o distanciamento, as letras são muito pequenas - ou são apenas linhas aguardando alguém preenchê-las com o desfecho ideal para esta história, ou aquela.
Equivoca-se quem afirma que estivemos em um relacionamento sério, namoro etc, enfim, nesses padrões sociais, afinal não, não dá pra chamar de relacionamento sério, muito menos reduzir a um pequeno caso. É como chamar uma pequena árvore suspensa de bonsai. É diferente, é complicado. Da mesma maneira que tentei ter um relacionamento com ela, falhei - quando percebi ter estragado tudo mais uma vez - em cuidar dessa tal forma de vida composta de árvore e recipiente, não consegui, e de um cactus, talvez a forma de vida mais duradoura em minha vida nos últimos anos, e mas morreu num acidente envolvendo gatos e comida, não me perguntem como isso aconteceu, mas me perguntem, por exemplo, o nome dos gatos.
As minhas intenções a respeito desse texto mudaram muito desde a primeira frase escrita, lá naquele ano tão distante, “Ela era uma pessoa que me agradava pelas coisas que gostava”, se era pra ser um conto clichê de “boy meets girl”, uma carta cheia de confissões, um artigo sobre amores líquidos ou o primeiro capítulo de um romance muito maior, não sei o que queria; assim como minhas intenções a respeito da mulher que motivou tudo isso mudaram, assim como eu e ela mudamos - individualmente -, não sei se o que queria condiz com o que quero, aliás não sei exatamente o que quero - ou espero - disso tudo. De uma escrita intencionada a um conglomerado de aleatoriedades sobre uma mulher e o que ela pode causar em mim em todos os tempos verbais vividos até o presente, o tempo dilui isso tudo e transforma em algo novo, não só o texto, as vontades também. Ao menos na minha cabeça, não mais uso de palavras nestes capítulos para conquistá-la ou mostrar o quanto estou arrependido por ter arruinado tudo, “olha como me sinto culpado, tenha dó de mim e volte”, não, não é isso. Cinismo é algo delicado quando exposto ou anunciada sua ausência, cinismo e mentira são afins. O tempo esculpe tudo ao redor de nós, digo, o decorrer dele molda cada curva, cada aresta, cada detalhe, com o nosso empenho em alterações ou não.
Sonhei que a encontrei num restaurante, ela e uma mulher, uma conhecida paulistana, descobri que estavam num encontro e isso deveria me derrubar? O sonho terminou quando, elas, de mãos dadas, estavam sentadas juntas, abraçadas, e a outra mulher repousava sua cabeça no ombro d’Ela. Acordei e não senti raiva, nem naquele dia, nem depois, muito pelo contrário, não, não fetichizei o relacionamento delas, não, fiquei muito contente que, ao menos no sonho, vi Ela soltar um sorriso de tranquilidade, de “estou no lugar certo”, de um jeito que não sorriu ao meu lado em tantos anos. Acabou o sonho e restou a sensação que eu não era capaz de completá-la, talvez nunca seja, mas fico contente que pelo menos em um sonho ela estava bem, felizmente bem. Era um restaurante, ou um café, e as duas se levantaram, havia uma grande vitrine que mostrava a rua, uma rua de paralelepípedos, e vi as duas saindo juntas, a outra mulher segurando no braço dela, protegida. Entreolharam-se, sorriram uma para a outra, sumiram. Sonhei poucas vezes com ela, porque tenho a impressão que vivo numa realidade onírica há anos, não me refiro a este sonho como uma ambição, mas algo que me questiono a cada momento se estou acordado ou dormindo, paralisado. Sinto como se fosse o sonhador de Noites Brancas, envolto na névoa, inspirando a brisa do Rio Neva, sem saber ao certo se Nástienka era real ou um delírio extraído de um desejo enraizado no profundo do subconsciente. O sonho acabou. O sonho acabou, mas arrastei por dias a sensação de que ela realmente, enfim, encontrara alguém. Alguém que não caísse no primeiro buraco da estrada. Alguém que tivesse gravidade, força, alguma grandeza física suficiente para se manter em sua órbita. Alguém que não eu, loose end. Dói, não seu encontro com alguém que não se perdesse nas esquinas labirínticas de um relacionamento, mas sua ausência mesmo platônica na rotina dos meus dias perdidos. Outra noite, outro sonho. Não me lembro se foi Ela ou alguém - se não ela, não importa quem - que me deu a notícia: Ela estava de mudança para Islândia. Era isso. Não me lembro o motivo da ida, mas aconteceria anyways. Não sei se ambos sonhos habitavam a mesma realidade, mas o alívio por vê-la bem se deixou ser substituído pelo desespero de nunca mais, nessa cidade, correr o risco de encontrar Ela na rua, do outro lado da faixa de pedestres, começar a hiperventilar ao vê-la vindo na minha direção.
Os desencontros das histórias - a real e a transcrita - ganham raios cada vez maiores, expandem-se com o tempo, lembro-me da professora de Física, na sexta série, nos explicando sobre o fenômeno da dilatação, exemplificando os trilhos de trem com um espaço considerável entre cada um, sem engrandecê-lo, como se fosse algo banal, mas essa aula permanece em minha memória como uma anotação no canto de alguma página, sobre a importância do tempo para a dilatação e a corrosão dos objetos, neste caso, dos relacionamentos. O texto se expandiu, dilatou-se, corrompeu-se, perdeu-se, graças ao tempo e a mim, que me expandi, dilatei, me corrompi, graças ao tempo, que agiu como si mesmo, fluiu.
Esse texto não é mais apenas sobre Ela, ou sobre mim, está sobre nós, e não encontro mais a convergência entre Literatura e vida, cada uma foi para um lado diferente. Numa terceira rota, encontra-se Ela, desencontrando-se no estado vizinho, numa noite branca, no mar da Groênlandia ou wherever way, não sei. Me perdi no meio da história, sem saber se estou distante do fim.

I just let the silence swallow me up
The ring in my ears tastes like blood
Asking aloud, ‘Why you leavin'?’
But the pavement won't answer me
Something, Julien Baker


2016/06/12

Avestruz (Textos ansiosos)

Imaginem que todos os animais de um zoológico qualquer estão reunidos no mesmo perímetro - e que, não se sabe porquê, nenhum deles está atacando os outros-, imaginem também que há um avestruz e que talvez essa grande ave seja a única de sua espécie ali, agora imaginem que ela conhece um ou outro dos animais no local, mas que ela não consegue se comunicar; ainda imaginando, visualize que o avestruz, intimidado pelo grande número de animais ao seu redor, para tentar se tornar invisível, para fugir dali mesmo sem forças para correr, voar, sumir, enterra sua cabeça e permanece parado, torcendo para que ninguém o veja.
Agora, antes de jogar toda essa imaginação no lixo, imaginem - uma última vez - que eu sou o tal avestruz e que todos vocês são os demais animais, avestruzes ou não. Sem ofensas.
Para o azar da ave, digo, de mim, alguém percebeu e cutucou o avestruz:
“A gente tava observando aquela vaga de carro ali, tinha um carro, ficou um tempão, aí saiu, entrou outro e já saiu de novo, mas você continua aqui. Tá esperando alguém? Tá se sentindo intimidado, né? Quem é? Uma mulher? Me mostra que eu vou lá fazer amizade com ela, aí dou um jeito de te chamar e tal. Tá rolando um apx forte, é isso? Ah, é sim. Mas ok, você que sabe, só tava curiosa mesmo, porque, poxa, faz mó tempão que cê tá aí sozinho, que bad.”
Sorriso tanto simpático quanto constrangedor, o avestruz pensou em falar algo que o ajudasse, mas realmente queria se enterrar pela última vez, mas não tinha coragem para fazer isso na frente de uma pessoa que tentava conversar com ele.
Depois que a desconhecida se distanciou, voltando a sua matilha, quando finalmente percebeu que estava no meio de uma crise, de uma situação totalmente constrangedora - mesmo que apenas e somente para si mesmo -, o avestruz, sem antes hesitar, sai andando, sem olhar pra trás. Quantos mais passos dava, mais sentia algo empurrando as paredes de suas entranhas, dificultando a passagem de ar, um ruído constante martelava sua mente, o avestruz queria se enterrar de corpo inteiro uma última vez.
Este é um texto ignorante, principalmente ansioso, baseado em desenhos infantis, pois, se quem aqui escreve tivesse pesquisado mais sobre o tema - avestruz enterra cabeça -, saberia que esta ave não é tão estúpida e que, quando se vê intimidada ou em perigo, simplesmente sai correndo. Joguem essa analogia no lixo, queimem, ignorem toda a situação.

2016/06/04

A Farsa dos Dias (incompleto)

[...] Fluxo constante de melancolia [...] No meu quarto, fecho as portas e deságuo, me afogo [...] Quando estou com alguém - não apenas romanticamente, afinal, apesar de eu ser eu, também me relacionei com pessoas de forma não-romântica -, mesmo que em lugares públicos, fecho as barragens dessa represa para que ninguém se afogue inocentemente, não gosto quando arrasto alguém comigo inesperadamente que não sabe nadar nessa específica confusão [...] Não gosto de muita coisa que faço, mas ainda faço a maioria delas por ter perdido o total controle dos meus atos - na maioria das vezes, impulsivos, até mesmo indesejados, preteridos -, eu fluo, comodismo, falta de força para lutar contra qualquer coisa que me atinge, me arrasto empurrado pela enxurrada imparável do tempo correndo sem escrúpulos nem gentileza para com quem não quer que ele corra [...] Certas vezes, mesmo sem pensar, como já dizia uma pessoa que conseguiu escapar desse barco furado, após emergir de um naufrágio anterior juntos, [...] eu sou alguém manipulador e persuasivo, portanto acabo por deixar de propósito a onda melancólica levar alguém junto comigo, ambos entrelaçados por cordas, correntes, algas, sentimento, alguma coisa que faz nos debatermos na água [...] Em geral, relacionar-se comigo deixa de ser algo saudável em um inesperado momento, pois o Inesperado na vida de uma pessoa instável acontece quando mais se espera: a qualquer instante [...]

2016/04/28

Personagens

Querida personagem,

Toda e qualquer característica física sua será desconsiderada e ignorada nos seguintes parágrafos - de mais uma carta que você não quer ler. Os longos cabelos castanhos, que, repentinamente, ficaram acima da nuca, os olhos tão instáveis quanto o humor, ora verdes, ora castanhos, a pinta no pescoço que formava uma constelação com outras espalhadas pelo corpo, os três dentes frontais-inferiores levemente inclinados para frente devido a insistência em usar chupeta até os seis anos, a cicatriz na mão, resultado de um acidente envolvendo piso molhado e copo de vidro, as olheiras cada vez mais profundas e simultaneamente entristecedoras e encantadoras (pois, de um modo muito muito subjetivo, mostram uma fração da sua profundidade, fração magnética, que me atrai - ou atraía, não quero deixar rastros de um possível resquício de desejo, apesar de sempre deixar aonde quer que eu vá ou o que quer que seja que escreva) - para o núcleo de sua existência [passando pelas diversas camadas de seu planeta numa velocidade maior que aquela necessária para me destruir quando você disse que (você sabe, não tenho forças para repetir, mesmo em prosa, suas palavras naquela tarde)… voltando a carta:] cuja temperatura pode me dilacerar antes mesmo de encostar nele. Enfim, tudo o que poderia causar algum tipo de encanto e/ou admiração deve ser repelido tanto deste texto quanto de minha mente, pois os gestos e gostos tiveram maior relevância, mas, seja a essência, aparência ou qualquer outra caraterística, não importa mais. Não deveria importar, mas contradição corre solta.
Hoje, apenas restam o rancor e a vontade de encontrar uma falha na linha espaço-tempo para retornar à estação de trem e tomar outra decisão que não escolher ficar com meu pai ou partir com minha mãe… Espera, não, essa é outra história, não a que está sendo relembrada a fim de causar em mim a mesma repulsa que há em mim (ou deveria existir). Não que de fato haja alguma gota de repulsa em minha língua, garganta ou qualquer lasca de minha carne, o contrário do que essa carta tenta dizer. Tentar, afinal, nunca condiz com a intenção em si. Não sei mais do que estou falando, certamente prolongo as palavras para de alguma forma te fazer gastar mais tempo comigo através minhas palavras. Percebe como podemos manipular o tempo? O tempo alheio, de mudar toda a trajetória espaço-temporal de uma pessoa ao simplesmente gastar seu tempo com algo que você poderia evitar. É óbvio que já percebeu que me perdi - como sempre desde sempre, mas de um jeito diferente de como me perdia ao seu lado - de minhas intenções no primeiro parágrafo. Escrever impulsivamente em fluxo de consciência causa o entendimento de como as vontades fluem, alternam-se, desaparecem e ressurgem em questão de poucos minutos. Resumindo o assunto que já se perdeu, gostaria de ter feito outra coisa, não há certeza em relação ao dia certo para tal encruzilhada surgir a minha frente. Insistir ou desistir, melhor dizendo, seguir para longe de quem te despreza ou te mantém como um plano B, uma caixa de primeiros socorros. “Em caso de solidão, quebre o vidro”.
Saber que não seria o par romântico da protagonista, mas um personagem também importante de alguma maneira tanto para ela quanto para o resto da história. Não sei mais se apenas escrevo ou se sou personagem (não que seja inviável ser ambos) me fez separar todas as páginas desse romance para tentar reorganizá-lo de algum jeito que ficasse menos bagunçado, mas são tantas folhas que talvez precise de ajuda para transformá-lo em algo. Alguma coisa que me faça parar de escrever. E começar a viver. As tentativas de “começar” foram tantas em tantas novelas que se tornou menos doloroso escrever e escrever.

Com todo amor que pode haver na desgraça,
Personagem.


Notas (sobras) que não se encaixaram em linha alguma desta carta

Todas minhas roupas, toalhas e roupas de cama estão sujas de rancor, não conseguia limpar as manchas de ódio, talvez porque a máquina de lavar e a água também estejam sujas, contaminadas com um ódio infundado.

Não te amo, o amor que conservo imerge na personagem que co-escrevemos através de minhas idealizações e suas poesias.

2016/04/24

Quando O Diabo surge

I

Selado o pacto, estava decidido, não mais se envolveria romanticamente com alguém. Ninguém. Julgava não precisar nem querer mais desse item (amor) tão estimado por tanta gente. Queria aceitar sua solidão e conviver com ela distantes da ilusão de conforto quando se “tem alguém”, estava cansado. Foco no trabalho.
Concentrado, manuseava livros, dinheiro e sacolas, o procedimento padrão de todos os dias. Ainda assim, sua visão periférica se ocupava com movimentos e cores ao redor. Em dado momento, percebeu, com canto de olho, uma figura marrom surgindo e logo desaparecendo. Foi um instante rápido, mas suficientemente lento para atrair a atenção e o olhar daquele que guardava dinheiro de troco em seu caixa. O vulto retornou e sumiu mais uma vez, porém Nicolai (digamos que este seja seu nome) conseguiu flagrar o vulto, não era um fantasma, era uma mulher, que poderia se tornar uma fantasma na vida de Nicolai, ninguém sabia naquele momento se isso aconteceria, mas essa história não se foca no fim, apenas no início.
Marya (seu nome fictício), bastante influenciada por seus pais, que, naquele momento estavam no café da livraria, apegara-se à Literatura Russa, principalmente a um conto de Tolstói, que ela tanto recomendava para entes próximos, mas não tinha coragem de emprestar a cópia que tinha em um quase-altar em seu apartamento, então queria encontrar uma versão contendo apenas ele, para que pudesse “alugar” a edição que tinha, uma que incluía mais um conto. Lembrava de, num passado precisamente incerto, de ter visto o tal livro desejado, custando pouquíssimo para melhorar a situação, então se deslocou da seção de literatura estrangeira à de livros de bolso, ao lado do caixa, e começou a procurar. Abaixou-se para olhar nas prateleiras inferiores, enroscou-se em seu grande casaco marrom e lembrou de quase tê-lo deixado no carro por estar calor demais na rua, mas ali, na livraria, fazia frio, tal peça de roupa era útil. Sem encontrar o que queria nas partes baixas da grande estante de livros, levantou-se e voltou a olhar nas prateleiras de cima.
Pouco mais de um minuto depois de perceber a mulher procurando algo, por não haver mais pessoas na fila do caixa, Nicolai foi ao seu encontro e perguntou se precisava de ajuda.
Encarou o rapaz, que surgiu do nada, e disse "oi" e o nome do livro.
Ele começou a procurar com ela.
Quando voltou os olhos à prateleira, sem influência nem auxílio do atendente, Marya mirou o olhar diretamente no desejado livro, mas não era exatamente a edição que queria:
- Vocês teriam uma edição só com este conto? - Apontando para um dos títulos na capa. - É que eu tenho uma versão com esse e um outro, mas quero, se existir, uma só com esse. Lembro de uma que custava cinco reais.
- Só um momento, por gentileza, que vou procurar no sistema. - Disse, Nicolai, andando até um computador de consulta. Digitou as seis letras e obteve alguns resultados, contudo… - Não temos mais em loja, só por encomenda.
- Então quero encomendar.
Seguiram os procedimentos para encomenda, que não importam para este conto, mas, o que realmente interessa aqui, é que: em algum momento desta troca de informações, “é o mesmo nome da minha mãe”, telefone, dados de cadastro etc, em algum instante, como um raio, quando ele pareceu ou quando ela encontrou o livro, ninguém sabe afirmar o segundo preciso do choque, Nicolai olhou para Marya e se perdeu, desfez o pacto que havia selado consigo mesmo, queria amor, precisava se relacionar com Marya, afogou-se, foi absorvido pelos olhos dela, que eram de uma cor entre verde e castanho, ou os dois, ou nada, eram profundos. Talvez Marya, também perdida, submersa, quisesse retornar ali diariamente para procurar livros de Tolstói e, se possível, de preferência, encontrar o amor nos braços de Nicolai, cujo sorriso, sentiu ela, tão magnetizante, dizia tanto, mas ela esperava que dissesse algo que ela não conseguia elaborar em sua mente para falar, alguma coisa que a fizesse ficar ou voltar amanhã.
Marya não voltaria no dia seguinte, mas quando seu livro encomendado chegasse. Nicolai esperava que isso ocorresse quando estivesse lá, para recepcionar e atender Marya, e dizer o que não conseguiu nesse capítulo que termina, quem sabe, neste ponto.

2016/04/12

Cansado de inventar um título que sintetize tudo o que quero dizer sobre o que senti no momento em que me inspirei a escrever tal texto

De todas as faltas que sinto, a que mais sinto falta é a falta de incômodo por ter espaços vazios a serem preenchidos em minha mente. Agora, sou um arranha-céus com vários cômodos vagos ainda com reminiscências falhas de pinturas e buracos na parede de antigos inquilinos. Únicos sons perceptíveis são os dos meus pés pisoteando o chão, correndo atrás de algum fantasma que não sei se habita minha morada, e os remorsos e contradições correndo e dançando pelos corredores para me assombrar.
Implodir isso tudo seria prejudicial demais, não para mim, obviamente, já que estaria desmoronado, aos pedaços no chão, mas, sim, para quem está perto, tanto no prédio vizinho quanto correndo para longe, devido não apenas a fumaça e o barulho tóxicos da implosão, como também pela chuva de entulhos deslizando pelo céu dessa cidade infeliz e pousando aleatoriamente na cabeça de qualquer pessoa - culpada  por qualquer causa do fechamento da construção ou não.
Reformar o prédio custaria tempo demais: trocar todas bases de sustentação, os ferros infestados não só de ferrugem mas também de melancolia e auto-penitência; liberar os (ainda que poucos) espaços ocupados para fazer uma limpeza completa e não deixar um pedaço sequer de passado, não sei por onde começar, o melhor talvez seja fugir. Fugir de mim mesmo.
Fugindo do prédio, o impulso tomado para desabar em palavras ora dura horas ora dura dez minutos e me força a continuar a escrever mesmo sem vontade, digo, sem certeza de onde parti ou aonde quero chegar. O que começa como um pedido de desculpas, passa por algo como “sinto sua falta” e chega a nada, não apenas em texto chego a nada, e em algum momento começo a me questionar: “Por que razão/emoção perdida no meio do caminho, talvez no primeiro parágrafo, comecei a escrever?” Mais um cansado rascunho sem respostas, seja sobre porquê escrever, porquê me arrepender de algo que fiz ou não, porquê parti, porquê deixei partir, porque acabou.

2016/04/05

Futuro passado/Passado presente ou Rascunho perdido em algum lugar entre Santiago e Macondo depois que jogamos nosso bonsai no lixo

Quando estou contigo, simplifico o entendimento sobre teus atos silenciosos ou pedidos inesperados, como quando, naquele quarto de hotel em Yacuíba, quando vivemos entre Bolívia e Argentina gravando aquele filme sobre um amor de fronteira, que terminava - tanto o filme quanto o amor - em um terremoto, você perguntou se podia deitar-se comigo, “por poucas horas, você disse, mas acabou passando a noite toda a meu lado, respirando em um tom quase inaudível, fazendo com que eu me aproximasse do teu cabelo nunca pintado para ver se ainda respirava; ou aquela vez em que estávamos em um ônibus e você repousou sua cabeça sobre meu ombro, enquanto lhe falava sobre meu novo drama familiar, que ainda não havia nascido, mas já tirava-me o sono. Nessas ocasiões e em tantas outras, aprendia a não pensar demais no que você pretendia, pois, pelo seu excesso de silêncio, eu poderia interpretar em suas mensagens um sinal escondido nelas, se é que havia algum, e distorcer toda a sua verdade. O fluxo do tempo ventou na árvore de sentimentos que eu cuidava e só as folhas mais fortes resistiram, só os sentimentos mais sinceros sobreviveram. Depois de tanto tempo, como você não encontro ninguém, mas, desculpe-me, ainda é difícil não romantizar nossos caminhos, enfim, o quero dizer é que me permiti amadurecer e deixar espatifar no chão o masoquismo consciente que é sofrer por algo evitável. Esqueci o drama juvenil que li por tantos anos em algum lugar, talvez no vagão do metrô na nossa primeira semana morando longe da cidade que, para mim, hoje apenas conserva os anos de romances frustrados e traumas familiares.
É tudo muito incompreensível demais se visto de fora, porque as esferas afeto e amor romântico são satélites de um mesmo planeta e a anos-luz de distância parece que são a mesma coisa. O amor (licença para usar essa palavra que não seja em um roteiro) em mim por tudo que há em você é maior que qualquer montanha pela qual já sobrevoamos ou caminhamos, não há como medir, mas não é - talvez nunca tenha sido de fato (se foi, ilusão) - do tipo que faz correr na chuva de encontro a um beijo ou, sei lá, qualquer coisa tida como prova de amor romântico, porque o nosso romance acabou, mesmo que mal tenha sido um rascunho bagunçado, mas sobrevive o que mais importa: nós.
Parece confuso, e é, porque não sei escrever - imprimir num papel o fluxo de palavras que corre em minha mente enquanto você dorme pesadamente na cama de um hotel de nossa cidade natal. Estranho, não é?, sentir-se turista onde vivemos por vinte e alguns anos. Ficando nesse hotel da Inácio Lustosa, definitivamente, passamos a ser turistas de verdade nesse lugar.

[Fim da primeira parte que não é o primeiro capítulo mas um fragmento de um dia anos - muitos anos - após o início cronológico desta história em que quem a narra teima em assumir que não é um romance, que talvez tenha sido, porém é, sempre foi e continuará sendo até que não restem memórias ou registros materiais de tudo]

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Acostumei-me a sua quietude, agarrei-me a seus gestos de carinho e detestei-me por ter desistido de protagonizar um romance real contigo quando ainda era possível, passei a contentar-me apenas com a amizade, a cumplicidade e a carreira profissional juntos, neste quase mutualismo que é a nossa vida desde o momento que você aceitou dirigir aquela minha história sobre amantes/fumantes.
Há anos não conversamos sobre nós - diretamente - , apenas sobre tudo, não expomos os problemas possíveis de nossa relação, agora ou de anos atrás, únicos conflitos que exibimos são os vividos por nossos personagens, que muitas vezes coincidem com os que vivemos hoje ou antes, mas não conversamos nem sobre tais coincidências.
Meus monólogos nunca são claros, precisos, persuasivos, compreensíveis, concisos, transparentes, iluminados, descomplicados… Perco-me no meio do caminho e não consigo retornar a ideia inicial que me levou a falar ou escrever. Você sabe disso, entende tanto sobre mim que me assusta conhecer alguém com tantas armas contra mim, mas que nunca as usa.

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2016/03/30

Se dez fosse zero

E se não tivesse perdido o ônibus de dez e meia. Aquela criança teria sua infância adiada como aconteceu ao ficar no terminal Cachoeira esperando o Giannini de 11 e meia? E se… Dez vezes, e se… Dez vezes vezes 365 mais anos bissextos.
Não há como saber, mesmo que se acredite em universos paralelos ou qualquer outra teoria que possibilite a existência de uma realidade em que ninguém perdia alguém ainda na infância.
Tentar justificar que tudo o que aconteceu (ou, pelo menos, tudo de ruim) foi diretamente consequência da fatídica quinta-feira, não no exato mesmo dia da semana em que Kevin K. fez o que fez, causando todo o horror na vida de Eva, pode ainda imperar seu ser, guiar suas rotas, mesmo que implicitamente. Deixava-se, talvez, se persuadir por um manipulador invisível, não se referindo a Deus ou qualquer ser que algum dia viveu em sua mente, que desenhava nas paredes de plano de fundo de todas as cenas de sua vida conseguinte o grande ato palavras que traziam de volta a melancolia e as lágrimas derramadas nos últimos dias de março de 2006.
Todas as alternativas, tanto de “se tivesse acontecido” quanto de “se não tivesse acontecido”, corriam em um circuito dentro de sua mente em alta velocidade, às vezes colidindo com qualquer pensamento ou vontade que não tenha vínculo algum com o passado.
Um texto, qualquer texto, seja de uma página ou 49 mil páginas, é apenas um pequeno fragmento no vórtice, incomparável a quantia de tempo necessária para superar, corrigindo, “superar” a dor da ausência e a ainda mais insuperável distância percorrida para chegar ao cume da montanha de amor e dependência.
Tantos anos depois, a memória encontra-se fragmentada, tanto quanto qualquer relato da história completa, e a voz não é mesma, o rosto cada vez mais apagado. Tudo some. Nada se completa.
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2016/03/25

Leite integral

Qualquer ato consciente segue o desejo subconsciente de autopunição por seja lá qual for o delito cometido.
Mais uma vez, estão cheios o copo e a certeza de que a cada gole seu estômago estará mais próximo de se estragar inteiramente. A cada dose no balcão, um passo a mais perto da beira do precipício que é perder a consciência e deixar que o impulso trate de apagar qualquer memória e toda a moral, se é que a sua (in)sanidade algum dia permitira que isso corresse por seu sangue. Cada batida é um soco na própria barriga que faz escorrer da garganta palavras e mais palavras de autodepreciação e insignificância.
O nojo de si mesmo não é aparente, mas tem ânsia de vômito quando revira a caixa do passado ou a de pensamentos. Segue fazendo o que faz mesmo não querendo mais, mesmo que agora não seja tão prazeroso quanto antes, machucando-se com isso, sabendo que faz mal a si e - ocasionalmente - a alguém mais.
Consegue se manter por algum tempo longe de tudo (ou quase tudo) que lhe é nocivo, mas manter-se em equilíbrio não é seu forte. Sua maior qualidade é ter fraquezas e se render a elas quando lhe é conveniente, quando quer fugir, por mais que saiba que não consegue fugir delas quando as mesmas não são outros seres, mas parasitas em seu organismo, a dor começa a escorrer de sua boca, seus olhos e suas mãos. Deixa-se derramar, vaza a liquidez de seus pecados, até que restem somente os entulhos de sua existência, permanentes. O aparentemente alto e resistente edifício de sua personalidade não passa de casebre insustentável a qualquer batida na porta.
Não suporta mais as metáforas, as analogias, as besteiras que cria para definir a si mesmo e explicar como sua mente vê, absorve e expele/repele tudo. Não consegue se expressar. Detesta ser o iceberg, que: 1. É muito além do que se percebe em sua superfície e 2. Pode causar sérios danos se houver aproximação desatenta.